Um estudo do Google revelou um aumento de pesquisas relacionadas a temas como feminismo, racismo e a causa LGBT


Assuntos ligados à diversidade sexual, racial, de gênero e religiosa nunca foram tão procurados pelos brasileiros na internet. A conclusão é de um estudo divulgado pelo Google BrandLab, que analisou pesquisas feitas no buscador e no YouTube, plataforma de vídeo que pertence à empresa de tecnologia.

Embora tais temáticas já estivessem em pauta há algum tempo na rede, os dados divulgados pelo Google demonstram elevações consideráveis em 2017, mesmo sem o ano ter chegado ao fim. As buscas nos primeiros cinco meses de 2017 por feminismo no Google, por exemplo, já acumulam o dobro de volume do que no ano de 2012 como um todo. Ainda em relação a 2012, a procura pelo termo “empoderamento feminino” foi quatro vezes menor em relação a este ano. Além disso, a busca pela expressão “igualdade de gênero” subiu 50% entre agosto de 2016 e este mesmo mês em 2017.

“O que vemos em 2017 é o feminismo alcançando volumes de busca equivalentes ao do racismo, que historicamente é o tema mais discutido no Brasil quando se fala em diversidade”, observa Amanda Sadi, gerente de Insights do Google BrandLab São Paulo.

Isso não quer dizer, no entanto, que um assunto esteja ocupando o espaço de outro. Ao contrário, nas buscas relacionadas aos direitos das mulheres, um termo em ascendência é “feminismo negro”, corrente que intercala pautas ligadas à igualdade de gênero com a questão racial. De agosto do ano passado para agosto deste ano, a procura no Google pelo assunto subiu 65%, embora o número em volume de buscas ainda continue baixo.

Novos termos em destaque

Da mesma forma, outra pesquisa com tendência de alta para 2018 é “racismo estrutural”, termo utilizado para tratar desta discriminação que surge incorporada ao funcionamento das instituições, em oposição a casos individuais de racismo. Para Amanda, os dados apontam um amadurecimento e complexificação do debate sobre diversidade.

“São temas que por muito tempo ficaram na academia ou eram discutidos apenas pela elite intelectual. Agora, eles estão ganhando força, saindo da teoria e chegando à ação”, acredita a gerente.

Já quando se fala em buscas sobre assuntos ligados à comunidade LGBT, uma miríade de termos começa a se destacar apenas agora. De agosto de 2016 para o mesmo mês este ano, a busca pela palavra “transgênero” cresceu 123%. Já a expressão “cura gay” subiu 63% apenas em setembro, puxada pela decisão judicial que autorizou psicólogos a oferecerem tratamento de reorientação para homossexuais, na contramão do indicado pela OMS (Organização Mundial de Saúde).

“O que vemos no Google são pessoas procurando compreensão, ao invés de “haters”. Já no YouTube, é como se o assunto ganhasse vida e fosse aprofundado”, avalia Amanda, que também encontrou na plataforma uma preocupação com a diversidade religiosa.

“Entre os youtubers, há o começo de um movimento que não fica na polarização e busca um discurso mais acolhedor. Existe uma movimentação para mostrar que é possível ser cristão e não ter um discurso fundamentalista.”

Procura pode trazer erros

Para a pesquisadora do Centro de Estudos Latino-Americanos sobre Cultura e Comunicação Rosane Borges, o aumento das buscas é fruto do embate sobre esses assuntos nas redes sociais.

“As pessoas procuram se municiar de argumentos para participar dos debates. Como o Google é o oráculo da internet, ele acaba sendo a grande referência para que elas possam intervir no espaço digital”, explica Rosane, que, apesar de considerar uma conquista dos movimentos sociais o aumento do interesse por tais tópicos, vê com cautela o impacto disso fora das redes.

“Não necessariamente essas buscas sinalizam uma era de ouro. Às vezes, pode ser um germe apenas para nutrir mais ignorância: se, por um lado, abre-se o acesso à informação de qualidade, por outro as pessoas também podem entrar em furadas. Muitas vezes, elas querem apenas validar a própria opinião”, destaca.

Representante da Associação Internacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Transexuais e Intersexuais (Ilga), o ativista Beto de Jesus também percebe ambivalência na forma como os dados dialogam com o atual cenário das minorias no Brasil.

    “As coisas estão misturadas: de um lado, a gente tem esse avanço. Do outro, o Brasil continua sendo o país que mais mata travesti”, observa.

Fonte: O Sul