Gisberta: o apagamento trans que se repete


Já é possível perceber que a figura do “desconstruído” das pautas identitárias foi absorvida por um mercado que vende através da sensibilização, onde a visibilidade se disfarça de representatividade e uma onda de silenciamento arrasta para trás das telas e palcos a oportunidade de minorias poderem falar por si.

Em 27 de dezembro de 2017, foi anunciado que o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de Belo Horizonte receberia a peça de teatro Gisberta, espetáculo que conta a história de vida da artista transexual Gisberta Salce, símbolo LGBT que viveu nas fronteiras entre o Brasil, França e Portugal e foi assassinada de forma brutal em 2006. Se, por um lado, a peça tem sido elogiada desde sua estreia em outros estados, o mesmo não pode ser dito sobre a vinda do evento para BH: em tempos onde a sombra do conservadorismo se espalha pelo país, era de esperar que uma grande quantidade de frequentadores do CCBB reagisse de forma intolerante à sua divulgação, semeando palavras de ódio sobre as peças publicitárias e o suposto “incentivo” a uma agenda trans.

Porém, para além das reações de intolerância à diversidade, os posts divulgados pelo CCBB serviram para reacender outro debate: afinal, por que uma peça que retrata a história de uma mulher trans está sendo representada por um homem cis? Nessa linha, diversos comentários evidenciaram o incômodo da população, em sua maioria LGBTQ, com a controvérsia. “Quem tem consciência, não vai assistir e vai pedir também que uma pessoa trans faça o papel da Gisberta, ganhando tão bem quanto este ator está ganhando!”. Outra internauta também mencionou o tema em seu comentário. “Uma mulher transexual que viveu em prol de uma luta, sua morte se torna marco para as discussões de acessibilidade da população trans em todos, TODOS os meios sociais, inclusive da arte e quem vai dar vida a ela nos palcos e um artista homem cisgênero! Enquanto a classe artística não reconhecer seu lugar de fala não podemos nos calar para esses silenciamentos”. 

Mais uma vez a discussão sobre o local de fala foi retomada. Afinal, um espetáculo em memória de uma mulher trans não deveria em primeiro lugar se preocupar em representar e agradar a população T?

Gisberta: um nome, um símbolo


Foto: .Blastingnews

Assim como a da maioria das pessoas trans, a vida de Gisberta Salce não foi simples. Nascida no bairro de Casa Verde, em São Paulo, Gis – como era chamada pelos mais próximos – passou pelos desafios de ser uma criança que não correspondia às expectativas da sociedade por seu sexo biológico. Dócil, apaixonada por divas da música e já com tendências para o mundo artístico, logo chamou a atenção dos familiares: era diferente. Na época ainda Gisberto, foi amparada pelas mulheres da família, principalmente a mãe e as irmãs, que a auxiliaram no processo de entender quem realmente era. Os pais e os irmãos, por sua vez, assumiram a postura oposta (o que é comum nestes casos): duros e intolerantes, exigiam a todo custo que a garota se comportasse como um “homem de verdade”. O terreno da masculinidade, porém, não era para ela.

Foi somente após a morte do pai que Gisberto se tornou Gisberta de fato. Aos quatorze anos, iniciou a vida em casas noturnas e não parou mais. Nos dezoito, já era um nome conhecido na maioria das boates de São Paulo. Assim como suas apresentações precoces, a transfobia lhe foi apresentada cedo: em uma onda de violência contra pessoas LGBT da região, seus dois melhores amigos foram mortos. Após o episódio, Gis se viu destinada a deixar o país como forma de segurança, o que a levou para os solos franceses.


Confira o estudo que quantificou a morte de pessoas trans pelo mundo!–  Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

E não parou por aí: da França, foi para Portugal, e se fez presente na cena LGBTQ local. Apresentou-se em boates, passou por dificuldades, mas não cogitou voltar para o Brasil. Por fim, cedeu à prostituição. A descoberta do HIV veio depois, assim como o desemprego e a falta de dinheiro para pagar as contas. Acabou encontrando abrigo em um edifício abandonado de Porto e por ali ficou. O lugar improvisado e deteriorado, logo depois, deu lugar ao que seria a cena de seu assassinato: por três dias, Gisberta foi agredida, abusada sexualmente com o uso de objetos e queimada por cigarros. Inconsciente, foi embalada em um pano e arremessada ao fosso do prédio pelos agressores, todos menores de idade. O mais velho dos assassinos tinha dezesseis anos.

O crime foi tratado como uma ‘brincadeira de mau gosto’ pelas autoridades e o único penalizado foi condenado a oito meses de prisão. Até mesmo após a sua morte Gisberta foi tratada pela imprensa portuguesa como Gisberto, o travesti.

Silenciamento trans na arte (e por que precisamos falar sobre isso)


Entenda mais sobre transgêneros, travestis e transexuais! Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

Mais do que nunca, parece óbvio que contar as dores de uma mulher que passou por tanto seria mais interessante se feito por uma pessoa também trans. Assim, além do artista poder ocupar seu local de fala, este também ocuparia o lugar que muitos jamais conseguem chegar: as luzes de um holofote. Pensando nisso, o movimento trans de BH organizou uma manifestação no dia da estreia do espetáculo na porta do CCBB. O objetivo do evento, boicotado diversas vezes no Facebook, era não questionar apenas se um ator cis poderia interpretar um trans (visto que esse também é o papel da arte), mas chamar atenção para a dificuldade que pessoas trans enfrentam para conseguir interpretar papéis nos produtos televisivos, teatrais e cinematográficos.

Justamente no mês da Visibilidade Trans, uma peça sobre trans sem uma pessoa trans na produção sequer parece ainda mais estranho, para não dizer problemático. “Por que temos que aceitar que atores e atrizes cis interpretem personagens trans? Estamos na moda, na crista da onda. Quer ser moderno no teatro, cinema ou televisão? Coloque entre os personagens uma pessoa trans. É tão moderno um grupo dar visibilidade ao tema, não? Que autora maravilhosa falando sobre nós, você viu? Que filme contemporâneo com essa história, hein? Mas quando vão escolher alguém para representar um personagem trans quem é contratado? Um ator ou atriz cis…”  destacaram, em nota, os constituintes do movimento. “Por que não tem atores cis interpretando as heroínas das histórias? Ou atrizes cis fazendo papel de galã? Não faz sentido, né? Então por que, quando se trata de personagens trans, convidam pessoas cis para os papéis? É liberdade artística? E sobre o ator não ter sexo? Nós artistas trans gostaríamos de conhecer de perto essa tal liberdade artística.”


Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

Durante o ato na porta do CCBB, que reuniu cerca de 30 pessoas, mensagens de resistência foram entoadas pelos artistas trans de Belo Horizonte. Duda Salabert, presidente da ONG TransVest, fez um discurso contextual e pontuou, ainda, a falta de empregabilidade para os T. “Nós, pessoas travestis e trans, queremos protagonizar nossa própria história e questionar algumas estruturas que nos excluem. Quantas pessoas travestis e trans trabalham no CCBB? E na peça? Nenhuma. Se a peça estivesse realmente preocupada com a causa, que nos contratassem”. Também para o ator Rodrigo Carizu, o problema nunca foi a história, mas todo o sistema excludente. “Já é difícil para as pessoas chegarem no meio da arte, para os trans e travestis chegarem ao teatro. Nossa história precisa ser contada sim, mas precisa ser contada por nós. O problema não é um ator cis interpretar uma trans: o problema é que isso [a possibilidade] só funciona para quem é cis. O trans não tem espaço nem para fazer o trans, imagina só fazer o outro”, destacou.

Entre os presentes na manifestação, o diretor de cinema Ricardo Targino, autor de Quase Samba – filme com a temática trans – fez questão de explicar que o ato não era, de forma alguma, uma censura à liberdade artística. “Acho que em todas as falas dos envolvidos, isso está bem claro. Ser a favor da liberdade artística e, ao mesmo tempo, reivindicar o lugar do trans na arte não são questões excludentes. Só que a arte hoje só existe para os cis e as pessoas que conservam seus privilégios: as pessoas brancas e bem nascidas. Isso aqui para mim é significativo”, concluiu.


Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

No fim da peça, os manifestantes também fizeram um ato de protesto em silêncio. Nus e levantando bandeiras nas cores azul, rosa e branco, os sujeitos permaneceram de pé, chamando atenção da plateia. “Prazer, eu sou uma verdadeira Gisberta”, eles se apresentaram ao público.

“Para os que são como eu, existir é sinônimo de resistência”


Foto: Divulgação

É com esses dizeres que Luis Lobianco, ator que apresenta o monólogo, destaca as dificuldades e desafios de ser um indivíduo trans num mundo heteronormativo. Com texto de Rafael Souza-Ribeiro, direção de Renato Carrera e produção de Cláudia Marques, o profissional coloca em cena diversos personagens que tiveram contato com Gisberta ao longo de sua vida. Das idas ao psicólogo na infância até os terríveis últimos dias de vida, o espectador acompanha uma tia, a irmã, o médico, um colega de trabalho, um admirador da moça e o juiz responsável pelo caso. Entre jogos de luz e efeitos musicais, Lobianco até interage com a plateia fora do personagem. A história de dor, por vezes, dá brecha para momentos engraçados entre o ator e os que o assistem. “Quem aí já foi criança viada? Anda, gente, levanta a mão!”.


Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

Não reconhecer que o espetáculo está lindo seria injusto. No decorrer das cenas pude sentir a tristeza de ver uma vida ser tirada de forma tão cruel, a esperança de ouvir que Gisberta também foi feliz, dar risadas nos momentos de descontração e ouvir clássicos da MPB. A história contada de forma tão detalhista se empenha para que o publico entenda a realidade da vida das pessoas trans, as suas alegrias, orgulhos, dores e dificuldades. Para quem está inserido ou não no universo da questão LBGTQ a peça oferece uma viagem que faz compreender que dentro de números e estatísticas existem sonhos, vidas, humanidade e infelizmente sangue.

Mas você pode estar pensando: então ele não interpreta a Gisberta? “Menos mal”. Será? Embora o ator e toda a produção da peça diga que a primeira escolha feita foi a de não interpretá-la, durante muitos momentos entre cenas podemos perceber que naquele palco há uma presença simbólica de Gisberta que fala e que canta mesmo que essa não seja a intenção. Em especial a cena final, onde há uma performance musical, entra-se em um conflito de pensamentos: é ela? Impossível não imaginar o quanto seria mais fidedigno, justo, lógico e ético se naquele momento de intensa fruição soubéssemos que no trabalho diante de nossos olhos há as mãos de pessoas que são como Gisberta. 


Houve diálogo com pessoas que passavam pela Praça da Liberdade Foto: Josué Gomes | Jornalistas Livres

De forma geral, a peça pode até arrancar lágrimas, mas é no momento em que as luzes se acendem que tudo fica claro: a plateia branca e padronizada parece ter saído de uma novela da rede Globo. Antes de comprarmos o ingresso é necessário pensar: como o espetáculo, colocado em um ambiente de luxo onde trans, negros e periféricos não se sentem acolhidos pode ajudar na luta contra a transfobia? Quantas pessoas serão tiradas da prostituição e da situação de rua devido a essa peça? Como esse trabalho valoriza o talento de pessoas trans? Após essa reflexão a decisão de assistir e financiar essa produção ultrapassa o campo do entretenimento e adentra a política.  O comentário de um observador, sentado logo atrás deste que vos fala com o namorado, pareceu a última parte do quebra-cabeça. “Essa tribo, né, ela é meio exótica”.

Eles não aprenderam nada, Gis. Eles ainda não aprenderam.

Fonte: Jornalistas Livres