Pontos de Vista

Ninguém vai tirar a Virada Cultural de nós!


Por Paulo Novielo, jornalista e ativista cultural, especial para os Jornalistas Livres

Virada Cultural em São Paulo

Sim, fui eu que criei o evento “Virada Cultural C L A N D E S T I N A de São Paulo 2017. Faz mais ou menos 24 horas. Eu tinha chegado em casa depois de um dia corrido, abro o Twitter no celular e me deparo com a notícia do G1: “Dória transfere a Virada Cultural para Interlagos e diz que São Paulo é um ‘lixo vivo’”. O sangue subiu na hora. Foi como um tapa na cara. Sou um paulistano, nascido e criado nessa cidade maluca, neurótica e fascinante, e apaixonado por essa metrópole difícil de amar.

Tudo é interseccional? Sobre a relação entre racismo e sexismo


por Ina Kerner*

A discussão sobre interseccionalidade tem ocupado um espaço importante na pesquisa de gênero. O reconhecimento de que formas sexuais de injustiça são, por um lado, análogas e, por outro, empiricamente entrelaçadas com outras formas de injustiça — como as relacionadas a “raça”, etnia e religião — encontra nesse conceito sua expressão teórica. Se levarmos em consideração razões histórico-linguísticas, a importância de refletir com maior precisão sobre a relação entre racismo e sexismo é evidente por si só.

Resumo

Vamos continuar a recolher corpos de mulheres mutilados e carbonizados?, por Cláudia Collucci


O corpo de Caroline, 28, foi encontrado com um corte na barriga. Estava grávida de cinco meses e recorreu uma clínica clandestina de aborto em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Escondeu a gravidez da família e decidiu interromper a gravidez em comum acordo com o namorado.

Pegou um ônibus sozinha em Paraíba do Sul, centro fluminense, onde morava com a família, na madrugada do dia 19. Duas horas depois, chegava à rodoviária do Rio. O corpo foi encontrado na noite do mesmo dia. O caso está na 21ª DP (Bonsucesso).

A morte de Carolina se soma a de Jandira Cruz, 27, e de Elisângela Barbosa, 32, que em 2014 também morreram no Rio após abortos clandestinos. O corpo de Jandira foi encontrado carbonizado. O de Elisângela, numa vala. A autópsia encontrou um tubo plástico no interior do útero.

A OMS (Organização Mundial de Saúde) estima que a cada dois dias uma mulher brasileira morra vítima de aborto ilegal. Há estudos que mostram que até 1 milhão de abortos ilegais são feitos todos os anos no Brasil. Os números são imprecisos já que a clandestinidade define esse submundo.

“Hoje eu virei estatística”


por Marina Ganzarolli*

Hoje eu virei estatística. Mais uma vítima do machismo. Mais uma vítima da violência contra a mulher. Mais uma vítima da lesbofobia. Mais uma vítima do despreparo das polícias para lidar com a misoginia e a LGBTfobia. E tapa dado ninguém tira. Fui agredida e fui ameaçada de morte em Guarariba, no interior da Paraíba. Talvez, se ele estivesse armado, eu não estaria aqui agora escrevendo este relato.

Dez anos da Lei Maria da Penha: nenhum retrocesso é aceitável, por Dilma Rousseff


Há dez anos, graças à promulgação da Lei Maria da Penha, o enfrentamento da violência contra a mulher passou a contar com uma legislação consistente, inovadora, e, hoje, exitosa. Superamos a fase em que a sociedade fechava os olhos para esse problema –retratada pelo dito “em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”– e adentramos um novo momento, em que proteger e apoiar as mulheres vítimas de violência tornaram-se responsabilidades do Estado.

Nesta década, avançamos muito. Firmamos, com todos os Estados, o Pacto de Enfrentamento à Violência contra Mulheres, que permitiu formar a rede integrada de serviços preconizada no artigo 8º da Lei Maria da Penha. Atualmente, chegam a 1.063 os serviços especializados de atendimento à mulher em situação de violência. Porta de entrada nesta rede, o Ligue 180 realizou 4,7 milhões de atendimentos em dez anos.

Meu lacre é o poder


Festa Batekoo (Foto: Matheus Thierry / Divulgação – Deu Zebra)

por Stephanie Ribeiro*

O termo “tombar” se consagrou no hit de Karol Conka e significa arrasar, brilhar, chamar atenção. Mas, no contexto de desvalorização da negritude, ele coloca orgulho onde tinha vergonha. Lacra

Precisamos falar sobre gênero


*por Sinara Gumiere

Este texto é parte de uma série especial do blog Vozes da Igualdade, da Anis – Instituto de Bioética. Gênero está longe de ser tema novo por entre nós, mas percebemos que nem sempre se compreende do que é, afinal, que estamos falando. Queremos aprofundar a conversa. Por isso, essa é a semana do “Gênero fala de todo mundo”.

“Precisamos falar sobre gênero” é quase um slogan do blog Vozes da Igualdade. A violência, a discriminação e a desigualdade vividas por mulheres, pessoas LGBT e outras minorias nos indignam e mobilizam. Falar sobre gênero nas escolas, nas práticas institucionais, no enquadramento de notícias e nas políticas públicas é uma de nossas demandas por transformação. Não acreditamos que as pessoas nasçam preconceituosas ou agressivas: se aprendemos a reproduzir ódio – as vezes sem sequer nos darmos conta disso –, podemos desaprender e podemos ensinar diferente. Por isso, a educação e o debate aberto são nossas apostas para uma sociedade igualitária e justa.

A ocupação do novembro negro e a primavera feminista


por Luka Franca*

“O feminismo não terá cumprido sua proposta de mudança dos valores antigos se ele não levar em conta a questão racial”. GONZÁLEZ, Lélia. Entrevista ao jornal do MNU (Movimento Negro Unificado) em 1991.

Estamos em pleno novembro negro, momento em que mulheres no Brasil inteiro tomam as ruas protestando contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o PL5069 que representa enorme retrocesso aos direitos conquistados pelas mulheres brasileiras. Nós, mulheres negras, estamos também nas ruas para demonstrar que essa afirmação de Lélia González continua mais atual do que nunca. É preciso enegrecer não apenas o feminismo, mas todos os espaços de fazer política, pois as pautas que ecoam hoje na sociedade são os temas que atravessam a nossa vida do nascimento à morte.

Os ataques que vêm da Câmara dos Deputados contra os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres nos atingem antes que às demais. O controle a ser feito primeiro é o controle do corpo das mulheres negras, pois nós somos a mercadoria, o objeto, a carne mais barata e o perigo mais iminente a ser controlado.

Mulheres, onde ainda estamos?


por Luciana Lóssio*

Em março de 2014, mês em que se comemora o Dia Internacional da Mulher, escrevi para a Folha um artigo intitulado “Mulheres, onde estamos?”, com o objetivo de demonstrar como a participação feminina na política brasileira ainda é tímida.

Passado mais de um ano, oportuno analisarmos se houve avanço, especialmente em tempos de “reforma política”. Todo dia é dia de refletirmos sobre o tema, mas o Outubro Rosa é sugestivo e nos leva naturalmente a lembrar das mulheres e de sua importância.

No ano de 1934, a primeira mulher brasileira a ocupar uma cadeira no Legislativo, a médica Carlota de Queirós, em seu discurso de posse ressaltou que lhe cabia “a honra, com a minha simples presença aqui, de deixar escrito um capítulo novo para a história do Brasil: o da colaboração feminina para a história do país”. Passados mais de 80 anos, nós mulheres ainda estamos lutando para que essa presença não seja meramente ilustrativa.

Com quantos paus se constrói um estuprador-universitário, por Patrícia Zaidan


Nenhum garoto nasce com ganas de violar. O comportamento não pode ser atribuído à natureza masculina, ao instinto primitivo, à força da biologia. Ou todos os homens, sem exceção, estuprariam. Um estuprador é fabricado. Vi isso, mais uma vez, ao escrever a reportagem “Estupro na Faculdade”, publicada na edição de setembro de CLAUDIA. O texto mostra que nas melhores universidades brasileiras os alunos estupram suas colegas como parte da vida recreativa estudantil. E as instituições fingem não ver o “abatedouro” de mulheres funcionando em suas dependências. Fingiam. O escândalo atingiu primeiro a Universidade de São Paulo (USP), a mais influente instituição de ensino superior da América Latina, onde alunas da tradicional Faculdade de Medicina denunciaram abusos, de que foram vítimas, em festas ocorridas às barbas da diretoria. Uma CPI instalada na Assembleia Legislativa de São Paulo apurou esses casos e ainda racismo e homofobia praticados também na Unesp, Unicamp, nos campi da USP de Ribeirão Preto e Pirassununga, e ainda na PUC de São Paulo e de Campinas.