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Minha felicidade ficou para trás, diz viúva de Evaldo Rosa

Pública - seg, 07/10/2019 - 14:00

Seis meses depois, Luciana ainda conversa com Evaldo quase todos os dias. Quando acontece alguma coisa no trabalho. Quando precisa de conselho. Para perguntar a ele “por que você me deixou?”. A falta do marido é tão intensa que está em quase tudo: no jeito dela falar – ainda se refere a marido no presente – nos móveis, nas fotos penduradas na parede. Embora ela tenha se mudado da casa em que morava com o músico, morto pelo Exército brasileiro no dia 7 de abril deste ano, é com sinceridade brutal que ela diz, em entrevista à Agência Pública, que preferia ter ido junto: “Eu fui toda a vida dele, e ele foi toda minha história”.

Fuzilado com nove tiros quando ia para um chá de bebê em pleno domingo, Evaldo Rosa – ao lado do catador Luciano Macedo, que tentou socorrê-lo – foi a última vítima do Exército no Rio de Janeiro. Uma série investigativa da Pública revelou que as Forças Armadas são acusadas pela morte de pelo menos 34 civis desde 2010, a partir do aumento das operações de Garantia da Lei e da Ordem, no Rio de Janeiro. Nenhum soldado foi punido.

Após atrair a atenção nacional, o caso de Evaldo é o primeiro em que pode haver uma punição. Os nove militares que atiraram 257 tiros durante a ação chegaram a ser presos, mas agora respondem ao processo na Justiça Militar em liberdade.

Nessa entrevista à Pública, Luciana dos Santos Nogueira, enfermeira de cuidados paliativos para pacientes terminais, conta como foi aquele dia fatídico que deu fim a uma união de 27 anos.

Fonte: AF Rodrigues/Agência Pública

Neste imagem: Luciana dos Santos Nogueira foi companheira de Evaldo Santos – fuzilado pelo Exército do Rio – por 27 anos

Como você conheceu o Evaldo?

Eu conheço ele toda minha vida, na realidade, né? Porque a gente morava no mesmo bairro, na favela do Muquiço, era aquele amigo de brincar de queimada, aquilo tudo. E depois meus pais se separaram, minha mãe foi embora pra São João de Meriti, e todos os finais de semana meu pai me buscava, eu ficava os finais de semana na casa do meu pai, e durante a semana eu precisava estudar, eu voltava pra São João.

Seu pai permaneceu na favela do Muquiço?

Sim, sim. Eu conheci Duda toda minha vida, aquela coisa de adolescente: vamos namorar, vamos ficar, aquilo tudo. E quando eu completei 14 anos foi quando nós começamos mesmo a oficializar nosso namoro, aí ficamos namorando, namorando… Um belo dia ele pediu aos meus pais, né?

Para namorar ou para casar?

Pra namorar em casa.

Qual é a diferença de idade entre você e ele?

Eu tenho 41, Duda tem 46. Todos os finais de semana ele ia ao meu encontro, e muitas das vezes eu vinha ao encontro dele, porque ele era músico, tocava pagode, e eu sempre acompanhava. Comecei a namorar ele mesmo sério aos 14, e até dia 7 de abril. A gente sempre falava que nós iríamos ficar velhinhos juntos. Ele era uma pessoa assim, muito maravilhosa, excepcional, sem igual. Sabe? Se você falar assim pra mim: “Poxa, Luciana, mas você viveu assim tanto tempo com essa pessoa, me aponta um defeito”. Eu não vou saber te apontar um defeito do Duda. Ele era uma pessoa cúmplice, uma pessoa amiga, sabe?

E quando vocês decidiram casar?

Não somos casados no papel, não. Ah, tem o quê? Nós decidimos morar junto eu tava com 24 anos, que nós conseguimos, meu pai e a esposa dele ajudaram a gente a comprar o imóvel que a gente tem hoje, e foi quando nós decidimos. Foi até num dia 23 de agosto, que foi quando nós decidimos… Chovia, e eu queria voltar pra minha casa. Chovia, e eu falava: “Duda, como é que vai ficar aqui só eu e você?”. Ele: “Guiga, mas tem que ficar”. Acabou a luz, assim, e eu desesperada querendo voltar, mas ele foi ali firme, não deixou eu voltar. Eu morria de medo. Engraçado, né? Mas eu morria de medo, e fomos se adaptando, fomos se adaptando, se adaptando.

E vocês, pelo visto, sempre foram muito felizes.

Sempre. Ah, ele foi toda minha felicidade. Eu costumo falar, até é a tatuagem que eu pretendo fazer: que eu fui toda a vida dele, e ele foi toda minha história.

Vocês, mesmo morando aqui no Rio e se conhecendo na favela do Muquiço, não conviviam muito com essa questão da violência?

A gente vê o mundo em que a gente vive, mas a gente nunca imagina que pode acontecer com a gente, sabe? Às vezes você vê que acontece assim, pertinho de você, caramba, aconteceu com meu vizinho, caramba, você sente, você sofre, você sente a dor do teu próximo, quando você liga o jornal… Quando eu paro, assim, pra fechar os olhos, eu me pego, assim, meu Deus, aconteceu comigo! Mas só quem passa mesmo é que sabe o tamanho da dor, entendeu?

Quando vocês decidiram ter filho?

Eu decidi ter filho, eu tava com 34. Ele até falava: “Ah, você nunca vai me dar um filho?”. Eu: “Não, amor, calma”. Eu sempre tive vontade de ser mãe nessa idade mesmo, com 34 pra 35 anos. Foi quando eu parei de tomar remédio. Foi quando eu decidi parar de tomar o remédio e assim, com um mês, dois meses, eu engravidei do Davi. Nós engravidamos juntos, eu e ele, porque ele foi, assim, maravilhoso, me acompanhou em cada momento da minha gravidez.

Fonte: AF Rodrigues/Agência Pública

Neste imagem: “Eu fui toda a vida dele, e ele foi toda minha história”, diz Luciana à reportagem da Pública

E ele era um bom pai?

Maravilhoso. Ele era um bom pai, um bom amigo, um bom amante, um bom cúmplice. Ele era um bom tudo. Não tem noção da falta que ele me faz aqui.

O Duda conversava muito com o Davi. Se você conversar com o Davi você vai ver que ele é uma pessoa bem madura. Esses dias tava passando na televisão [uma notícia sobre a morte do pai]. Eu fui, baixei a televisão. Aí ele foi: “A senhora mandou baixar a televisão por quê? Pra mim não ouvir tudo que eu já sei?”. Aí eu me calei. Aí chegou na psicóloga e ele falou: “Minha mãe, tia, mandou baixar a televisão porque ela não queria que eu ouvisse tudo que eu já sei”. Aí a psicóloga: “O que você já sabe?”. “Que o quartel matou meu pai.” Entendeu? Porque eu procuro, assim, deixar ele um pouco sem internet, sem as coisas, porque eu acredito que ele fuxica. Se botar o nome do pai, aparece tudo, então eu procuro tirar ele desse foco, porque eu tenho que proteger o coração dele, a mente.

Porque foi, também, uma coisa muito absolutamente repentina e absolutamente inesperada.

Sim, um dia antes… No sábado, cheguei do trabalho, ele me buscou no ponto, aí eu fui fazer uma escova no cabelo, ele me buscou. Aí fomos pra casa, almoçamos, ficamos a tarde toda deitados, descansamos, e quando foi à noite nós resolvemos sair, muito alegres, muito felizes, e no dia seguinte aconteceu da forma que aconteceu. Uma coisa muito surreal, surreal mesmo. Aí as pessoas falam: “Ah, você tem que ser grata a Deus, né?, você conseguiu sair livre, você e seu filho”. Pra ser sincera? Eu preferia ter ido, de verdade. De verdade, mesmo.

Por quê?

Porque, pra você ter noção, você convive com uma pessoa durante 27 anos… Eu sei que você perde e a vida segue, né? A gente precisa seguir, mas eu tô tão perdida aqui…

Mas você é tão jovem.

Eu sei, eu sei que eu sou tão jovem. E aí as pessoas falam: “Ah, mas você vai ser muito feliz”. Vou nada. Acho, assim, que a minha felicidade, ela já passou. Vai ter momentos felizes, vai amenizar, vai passar, lógico que vai, porque nada é pra sempre, a gente sabe que nada é pra sempre, mas feliz eu tenho certeza, de verdade, que não. Acho, assim, que minha fase já passou, e preciso ser forte porque eu tenho um filho, né? Eu preciso dar toda a força pra ele.

Vocês são religiosos?

A gente sempre ia na igreja evangélica. Tinha a Assembleia de Deus. Hoje, no momento, eu não tô indo porque eu tô meio…. Meio seca, né? Mas a gente sempre ia, ele sempre gostou, às quintas-feiras, de ir no culto. Tem uma igreja lá perto da minha casa, lá na estrada do Sapê, a igreja da pastora Rose. A gente sempre gostava muito de ir pra assistir aos cultos. Louvor às vezes eu ponho, tenho duas irmãs que são evangélicas.

Me conta como foi aquele dia.

Meu filho estava na casa do meu pai, que é próxima. Fomos lá buscar meu filho. A Michele, minha amiga, dormiu na minha casa. Acordamos de manhã, fui buscar meu filho, e meu padrasto, que é o Sérgio. Aí nós se arrumamos, aí fomos. Foi quando aconteceu tudo. Foi quando aconteceu essa tragédia.

Vocês estavam andando de carro e do nada começaram os tiros?

Olha, a gente não oferecia perigo nenhum, porque é o que o meu filho sempre questiona: “Mãe, mas por que se meu pai não corre?”. Porque o Duda não corria. E onde aconteceu, acho que ele tinha acabado de passar a marcha, ele deveria estar a 10 km, entendeu? Uma coisa assim, muito lenta. A gente não oferecia perigo nenhum pra eles, até mesmo se pedissem pra parar nós iríamos parar, porque a gente sempre fazia questão de andar certinho.

E você se lembra do que você pensou quando houve os primeiros tiros?

Ai, na hora bate tanto desespero que você… Você não sabe nem o que você pensa, né? Meu filho ali gritando, acho que meu pensamento foi todo voltado pra ele. Foi pro Davi, quando eu abaixei, assim, por cima dele, pra que ele não fosse atingido. Eu nunca tenho reação pra nada, às vezes eu me paraliso, e nesse momento Deus não me deixou paralisar, né?, porque eu consegui abrir a porta e saí pra poder buscar ajuda. Eu precisava tirar o meu filho dali. Porque o Davi tinha visto o que aconteceu com o pai dele. Ele presenciou tudo.

Quando você viu o Exército?

Na virada, quando teve a sessão de tiro, que eu abaixei, eu olhei, falei “calma que é o quartel”. Você não imagina aquilo tudo que aconteceu, aquela quantidade de tiros, por pessoas que a gente sabe que têm que nos proteger… É muito triste.

Vocês tentaram conversar com eles?

No momento eu só pedia socorro, só pedia ajuda, que meu marido não era bandido, e eles com arma em punho, com aquele ar de deboche: “Eu sou a autoridade, eu que mando, eu faço o que eu quero”.

Mas eles falaram alguma coisa?

Não precisa falar, entendeu? Aquela situação, aquela quantidade de cápsula que tinha no chão. Não precisava falar, você via pelo olhar. Da forma que eles chegavam com a arma em punho. É uma coisa muito surreal, eu não desejo isso pro meu pior inimigo.

Porque você sentiu que naquele momento eles tinham total poder, é isso?

Era o que eles demonstravam. Em nenhum momento eles deram importância pro meu choro, em nenhum momento eles deram importância pro meu desespero. Eles tiraram a vida de uma pessoa do bem, eles tiraram a vida de um pai de família, eles desestruturaram uma família inteira. Um filho que sente tanta falta do pai. Se soubesse a saudade que meu filho sente do pai… Também, uma criança de 7 anos ter presenciado tudo que ele presenciou, ver tudo que ele viu. Se eu sofro, se eu choro todos os dias da minha vida, você imagina uma criança com 7 anos. Difícil, né?

Os soldados nem responderam?

Não. Nisso, o bombeiro veio. Eu desesperada pedindo pra que a gente botasse meu esposo ali, pra que nós pudéssemos fazer uma massagem. Eu tinha esperanças de que meu esposo poderia estar vivo ainda. E depois que aconteceu tudo, que o bombeiro chega pra mim e fala: “Não tem mais o que fazer”. Aí sim, aí eu pedi ajuda e chamei a Polícia Civil.

E quando chegou a Polícia Civil?

Chegou primeiramente é o DH (Delegacia de Homicídios), que se fala, né? Eu queria o DH, o civil, pra poder mexer.

Fonte: AF Rodrigues/Agência Pública

Neste imagem: Luciana relembra os momentos vívidos no fatídico dia 7 de abril de 2019

Na primeira nota que soltaram, o Comando Militar do Leste afirmou que houve troca de tiros com bandidos. Você tinha consciência que seu marido poderia ser tachado de bandido?

Lógico. A gente vê na televisão todos os dias, né? A gente sempre lê histórias, relatos, pessoas do bem que às vezes saem como mau. Lógico que eu tinha. Mesmo com aquilo tudo, foi o que eu falei pra você: meu esposo é uma pessoa do bem. Ele morreu sendo uma pessoa do bem. Então, eu não poderia deixar com que nada, nada abalasse a imagem dele, com que nada ali fosse distorcido, entendeu? Poderia demorar um dia. Mas eu ficaria ali do lado dele porque eu tenho certeza que ele faria o mesmo por mim.

Eu acho que, se hoje eu sofro, se hoje eu choro todos os dias desde o ocorrido, se viesse alguma coisa que distorcesse a imagem dele, eu não iria me perdoar. Eu iria me sentir fraca por não ter lutado pra manter essa postura.

O Exército chegou a mencionar que houve uma troca de tiros. Você soube disso na hora?

Até hoje, do que eles falam a respeito disso, eu só sei dizer pra você que eu não vi nada, eu não ouvi nada, troca de tiro, não vi nada, nada, nada. Só o que eu tenho pra dizer é que nós não passava perigo nenhum pra eles. Se mandassem parar, nós iríamos parar. Até hoje eu não entendo por quê.

Você voltou para o trabalho logo depois, né?

Sim, sim, voltei. É o que eu te falei: eu gosto do que eu faço, né? Às vezes eu até me pergunto… Caramba, eu cuido, já ressuscitei, já fiz massagem, tanta gente já sobreviveu comigo, e eu fui incapaz de fazer com que meu esposo, naquele momento, sobrevivesse. E cuidar das pessoas é muito bom, cuidar do próximo.

Te faz bem?

Eu gosto muito do que eu faço, de pegar uma vózinha, uma tia. E aí você dá o seu melhor, você dá o amor, você dá um banho, você deixa cheiroso, você penteia o cabelo, entendeu? Então, eu gosto muito desses cuidados, dos cuidados paliativos, de você estar ali, lado a lado. Isso me faz muito bem.

Depois disso, o Exército entrou em contato com você?

Eles nunca entraram em contato comigo pra nada. Mesmo que não entrassem comigo – porque eu acho que eu não estaria nem com cabeça pra poder falar diretamente com eles –, mas eu tenho advogados. Eu tenho um filho, que hoje em dia a gente tem um custo com psicólogo, tanto eu quanto ele. A gente se trata com psiquiatra. Em nenhum momento eles apareceram pra nada, nem para poder oferecer esse tipo de tratamento.

E, depois desse, acho que o próximo momento em que você teve relacionamento com o Exército ou com militares foi lá na Ilha do Governador, né?

Sim.

Eu queria que você me contasse como é que foi essa audiência.

Foi assim, uma das audiências em que fiquei muito decepcionada, né? Fiquei decepcionada porque você acaba esperando mais, porque eles estão soltos, estão com a família deles. Eles continuam levando a vida normal.

Você acha que eles deveriam continuar presos?

Sim, eu acho que deveriam. Sem dúvida. Eu acho que eu poderia estar um pouquinho mais aliviada se a justiça tivesse sido feita, porque eu não tô vendo a justiça sendo feita. Acho que deveria, pra que não viessem outros pais, pra que não viesse outra família, pra que não viesse outra esposa, outro filho, pra que não viessem outras pessoas sofrerem.

Você acha que no final desse processo eles vão ser punidos ou você tem dúvidas?

Eu tenho dúvidas, mas eu vou te falar uma coisa: eu acredito na justiça divina.

Mas e na justiça nossa mesmo, você acredita?

Olha, o país que a gente vive, a gente acaba se surpreendendo… Eu tenho minhas dúvidas.

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Turning waste into wealth: World Habitat Day focus on cleaning up cities

UN SGDs - seg, 07/10/2019 - 13:23
Waste can have a devastating effect on public health, the environment, and the climate, but cutting-edge innovation and technology can provide improved, cheaper solutions to the challenge, and help cities and communities to see waste as a business opportunity. This was the message marking World Habitat Day, on Monday, with a focus on waste management.
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Breve reflexión sobre el impeachment a Trump

IPS español - seg, 07/10/2019 - 11:41

Un grupo de manifestantes estadounidenses en favor del proceso de destitución del presidente Donald Trump, abierto el 24 de septiembre por la presidenta de la Cámara de Representantes, Nanci Pelosi. Crédito: Pfaw.org

Por Roberto Savio
ROMA, Oct 7 2019 (IPS)

Es muy probable que la idea del impeachment a Donald Trump sea un bumerán. Los fans de Trump están escuchando una campaña rabiosa, en que se habla de golpe de Estado, y se califica a sus acusadores de ser traidores, que merecerían ir a la cárcel.

En las primeras tres horas después del anuncio de la presidenta de la Cámara de Representantes, la demócrata Nancy Pelosi, de que se iba a abrir un proceso de impeachment (proceso de destitución), Trump recibió un millón de dólares, cinco millones en 24 horas, y 8,5 en dos días. Su campaña recibió 50.000 nuevos donantes.

En noviembre de 2016, Trump ganó por poco menos de 80.000 votos electorales. Hay que recordar que el sistema electoral estadounidense no elige el presidente por la mayoría de los votos de sus ciudadanos, sino por delegados que cada estado elige para votar el presidente. Por razones históricas de cómo se realizó la Unión, los estados menos poblados y menos desarrollados, tienen proporcionalmente más delegados que los estados grandes y ricos.

Trump hizo su campaña en los estados menos desarrollados y con menor población, e ignoró en la práctica las grandes ciudades y los estados más poblados, como California. En la votación popular, o sea de los ciudadanos, la candidata demócrata Hilary Clinton ganó por casi tres millones de votos.

Creo que los demócratas le han hecho un gran favor a Trump. Y de todas maneras, aunque el impeachment pase por la Cámara Baja, (donde los demócratas tienen mayoría), tiene muy escasas probabilidades que pase en el Senado, donde, siempre por las razones históricas de cómo se crearon los Estados Unidos de América, cada estado tiene dos senadores, prescindiendo de su población.  Wyoming, con 578.000 habitantes, cuenta con dos senadores, al igual que California, el estado más poblado del país,  con 37,2 millones de personas.

El autor, Roberto Savio

Y precisamente los estados menos desarrollados y de menor población son los que permiten que los republicanos puedan contar con la mayoría del senado. Para que el impeachment resulte, se necesitaría una mayoría de dos terceras parte de los senadores, cosa sumamente improbable.

La única posibilidad es que aumente el número de electores que concurran a las urnas, que no pasan de 50 por ciento de los que tienen derecho a votar. ¿Pero, va a tener el impeachment este impacto? ¿Van los ciudadanos de los estados menos desarrollados a subir su participación electoral, en protesta por las acciones de Trump? No hay ninguna evidencia, y mucho va a depender de quien sea el candidato o la candidata demócrata en las elecciones de noviembre de 2020.

La campaña de demonización de Joe Biden va a tener algún impacto. Y los candidatos progresistas, Bernie Sanders y Elizabeth Warren, son el tipo de políticos que parecen demasiado elitistas en los estados que votan a Trump. Son regiones muy conservadoras, y Trump tiene el apoyo incondicional de la Iglesia evangélica, que se calcula en 40 millones de feligreses y con la muy conservadora Iglesia católica.

Obviamente, si hay una crisis económica, ya que los estadounidenses tradicionalmente votan con el bolsillo, esto puede tener un impacto trasversal. Pero, por el momento, 90 por ciento de los electores republicanos siguen fieles a Trump, así como sus legisladores.

Aquí reside la fragilidad de la democracia, cuando se basa en reglas no democráticas.

Boris Johnson no ha sido elegido primer ministro británico por el pueblo inglés, sino por los 100.000 militantes del Partido Conservador. La diferencia es que Johnson ha tenido que expulsar a 21 miembros de su partido, todos parlamentarios de gran perfil. Ha sido bloqueado en su camino personalista y autoritario, por la Corte Suprema, que ha anulado su decisión de cerrar el Parlamento.

En Estados Unidos, ningún legislador afín ha hecho la mínima crítica a Trump, y la Corte Suprema tiene una mayoría republicana, que va a cambiar considerablemente el sistema jurídico estadounidense.

La lección que emerge de todo esto, es que la democracia funciona si tiene leyes que garanticen el equilibrio de poderes y existe una ciudadanía consciente e interesada en el bien común,  no  dividida de manera partisana, donde el otro es considerado un enemigo y no uno que tiene ideas diferentes.

El caso del Brexit y de Trump, son buenos ejemplos.

Pero no olvidemos el caso de Hungría, donde Viktor Orbán, tras ser elegido democráticamente en 2010, desarrolló una política xenófoba contra los migrantes,  llevó a cabo un control férreo de  la prensa, de la Comisión Electoral Nacional y del Poder Judicial,  enriqueció a sus fieles con fondos provenientes de la Unión Europea (UE),  cambió todo el sistema electoral acomodándolo a su partido  y luego se declaró seguidor de  una “democracia iliberal”.

Ante la posibilidad de que la oposición unida gane en Budapest las elecciones municipales del domingo 13 de octubre, el ministro Gergely Gulyas, jefe de gabinete de Orban advirtió que en tal caso, el gobierno cortaría  financiamientos a la capital.

El estilo, ha sido similar al de Adolf Hitler y Benito Mussolini, que llegaron por vía democrática al poder, para después eliminar la democracia, mediante la identificación de un enemigo del pueblo, en cuyo nombre decían hablar: el poder judío.

Hoy el principal blanco de la derecha populista y xenófoba para subir sus porcentajes electorales, son los inmigrantes.

El Brexit en buena medida se dio por la anunciada llegada de millones de turcos, que ni estaban en la UE. Trump hizo de la “invasión” mexicana y de centroamericanos, el punto fuerte de su defensa del pueblo estadounidense, junto con la amenaza China. Si el elector se traga estas mitologías, la democracia esta ciertamente en peligro.

Trump y Johnson son la punta del iceberg.

Periodista italo-argentino, Roberto Savio  fue cofundador y director general de Inter Press Service (IPS), de la que ahora es presidente emérito. En los últimos años también fundó Other News, un servicio que proporciona “información que los mercados eliminan”. 

RV: EG

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El artículo Breve reflexión sobre el impeachment a Trump fue publicado originalmente en IPS Agencia de Noticias.

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Omissão e jogo de empurra deixam população no escuro sobre presença de agrotóxico na água

Pública - seg, 07/10/2019 - 09:03

Não importa em qual parte do país você mora: pode ser difícil ou mesmo impossível saber se o copo de água que você está bebendo tem ou não agrotóxico e, pior, se a concentração do pesticida está acima do limite considerado seguro no Brasil.

O problema veio à tona após a publicação, pela Repórter Brasil e Agência Pública em parceria com a organização suíça Public Eye, da reportagem “Coquetel” com 27 agrotóxicos foi achado na água de 1 em cada 4 municípios”. Nela, um mapa interativo feito com base nos dados do Ministério da Saúde, coletados entre 2014 e 2017, mostrava os pesticidas encontrados nas torneiras do país, destacando quais municípios tinham índices acima do limite considerado seguro.

O mapa, divulgado em abril deste ano, trouxe pela primeira vez os dados nacionais de forma clara, de modo que o público não especializado pudesse entender. A publicação gerou grande repercussão, com mais de 400 veículos de mídia discutindo os resultados de suas cidades. Além do grande interesse público sobre esses dados, a repercussão revelou também que há uma série de falhas no monitoramento e na responsabilização dos órgãos envolvidos.

Há cidades, como Brasília e Recife, que descumprem a legislação ao não enviarem ao Ministério da Saúde os resultados dos testes sobre agrotóxicos na água. E outras como Bauru (SP), onde nenhuma providência foi tomada pela Vigilância Ambiental mesmo depois que os dados apontaram concentração de pesticidas na água 160 vezes acima do valor permitido – o que indicaria um risco iminente à população que bebe essa água. Também há empresas de abastecimento que minam a credibilidade do banco de dados ao enviar os resultados dos testes usando parâmetros diferentes dos estabelecidos pelo Ministério da Saúde, caso de São Carlos (SP), Porto Alegre (RS), Viçosa (MG) e Balneário Camboriú (SC).

“É um ambiente de desregulação total”, afirma o procurador do Ministério Público Federal do Mato Grosso do Sul, Marco Antonio Delfino de Almeida, sobre a estrutura que gira em torno do Sisagua, o sistema criado pelo Ministério da Saúde para armazenar dados sobre a água e que funciona com o preceito de que a responsabilidade de alimentá-lo corretamente é dividida entre União, estados, municípios e empresas de abastecimento. “Deveria ser papel do poder público analisar, avaliar e trazer esses dados para população de maneira ampla, irrestrita e transparente. Mas isso não acontece.”

Almeida chama atenção para a gravidade de situações em que, mesmo quando os testes não foram enviados ou os resultados indicavam concentração perigosa à saúde humana, não houve fiscalização, cobrança por providências ou penalidades.

No escuro

Casos analisados pela reportagem, em diferentes partes do país, ilustram como uma série de omissões vem deixando a população no escuro quanto à presença de agrotóxicos na água que sai de sua torneira, colocando em risco a saúde das pessoas.

Brasília e Recife, por exemplo, representam um problema que atinge 52% dos municípios brasileiros: os resultados dos testes de 2014 a 2017 não foram enviados ao Ministério da Saúde. Isso significa que os responsáveis não realizaram os testes para medir a presença de agrotóxico na água ou, se fizeram, não enviaram os dados para o Sisagua.

“Antes mesmo da divulgação da reportagem, cobramos a inclusão dos números, mas eles não cumpriram”, explicou João Suender, da Vigilância Ambiental da Secretaria de Saúde do Distrito Federal, explicando que a responsabilidade pela coleta e envio dos dados ao Sisagua é da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). A Caesb confirmou que houve “inúmeras dificuldades para repassar algumas informações referentes a agrotóxicos, sobretudo devido à falta de padronização existente”.

Suender argumenta que nada pode ser feito para punir a empresa que não envia os dados, já que a regulação do sistema é feita por uma portaria, instrumento que não teria poder de responsabilizar infratores.

Mas esse argumento é rechaçado pelo professor de Direito Administrativo da Universidade Mackenzie, Cecílio Moreira Pires. Ele explica que a portaria é vinculada à lei 6.437 de 1971, que prevê sanções para infrações. “O problema não é ausência de lei e, sim, de fiscalização e monitoramento do que fazem as empresas de abastecimento. O poder público não possui servidores suficientes e habilitados para exercer essa função”, sustenta.

A situação de Brasília se repete nas regiões Norte e Nordeste – onde o mapa publicado em abril pela reportagem revela um grande vazio de dados, já que a maioria dos municípios não envia informações sobre a presença de pesticidas da água. É o caso de Recife, capital pernambucana. A Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) reconheceu o erro e afirmou “que as análises de agrotóxicos estão disponíveis somente até o ano de 2015” e que está em processo de reforma dos laboratórios.

Já a Secretaria de Saúde Municipal informou que “há uma orientação do Ministério da Saúde que elege municípios prioritários para monitoramento de agrotóxicos e Recife não entra nessa lista por ter um perfil urbano, além de não possuir manancial de água para abastecimento local que possa sofrer esse tipo de contaminação”. De fato, segundo a norma do Sisagua, a Vigilância tem a prerrogativa de priorizar em quais cidades confere os dados, mas precisa garantir que todos os municípios enviem os resultados duas vezes ao ano. A nota afirma ainda que a Vigilância Ambiental não testa os agrotóxicos na água, “a não ser que existam evidências epidemiológicas para esse monitoramento”. A secretaria, porém, não esclareceu o que seriam “evidências epidemiológicas” e se alguma vez fez algum teste.

De acordo com o Mapa da Água, porém, nenhuma cidade pernambucana enviou os testes, como prevê a portaria do Sisagua. A Secretaria de Saúde de Pernambuco, por meio de nota, reconheceu a não inserção dos dados e afirmou que eles “foram analisados e serão inseridos no sistema apesar das amostras de vigilância não terem identificado valores que ultrapassassem o limite máximo referente ao padrão [estabelecido pela legislação brasileira]”.

As omissões e o jogo de empurra de Brasília, Recife e de outras cidades que não monitoram a presença de agrotóxicos na água prejudicam o efetivo controle “porque não há uma avaliação crítica ou uma validação dos dados”. É o que sustenta a professora Gisela Umbuzeiro do departamento de toxicologia e genotoxicidade da Unicamp, que conduziu um estudo sobre o Sisagua.

“Primeiro, não faz sentido tantos municípios brasileiros não alimentarem o sistema. Depois, mesmo em cidades que armazenam os dados, não existe análise técnica aprofundada do que foi informado”, pontua. Segunda a professora, sem validar essas informações, não é possível conhecer as particularidades de cada região – o que ajudaria no monitoramento. “A depender do tipo de cultivo que é plantado numa região, é possível saber qual agrotóxico é mais utilizado e fazer testes mais específicos de acordo com a realidade local.”

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O alarme soou, ninguém reagiu

Outro problema grave evidenciado após a publicação do mapa é o dos municípios que registraram concentração de agrotóxicos acima do que é considerado seguro no país. Nesses casos, ações deveriam ser tomadas para averiguar se os dados estão corretos e encaminhar medidas para resolver o problema. Mas nem mesmo nesses casos providências foram tomadas. É o que aconteceu em Bauru, no interior de São Paulo, onde os números do Sisagua indicavam que seis agrotóxicos foram detectados em concentração acima do Valor Máximo Permitido, em diferentes datas entre 2014 e 2017, sendo que dois dos pesticidas (Clorpirifós e o Aldrin) foram encontrados em dois pontos de coletas diferentes na cidade.

A reportagem entrou em contato com os órgãos responsáveis e descobriu que nenhuma ação foi tomada. Das oito irregularidades, quatro foram registradas em pontos de coleta de responsabilidade do DAE (Departamento de Água e Esgoto) e as outras quatro em locais particulares, incluindo um poço (em um instituto de pesquisa local) a cargo da Vigilância Ambiental – ligada à Secretaria Municipal de Saúde. Danielle Depicolli Chiuso, chefe de Seção de Análise de Água do DAE de Bauru, enviou à reportagem os laudos referentes aos pontos que, no Sisagua, mostravam um nível de agrotóxico muito acima do máximo permitido. Nos documentos, no entanto, os índices eram diferentes daqueles enviados ao Sisagua e estavam dentro do autorizado. “Esses laudos mostram que a água de Bauru não estava contaminada e comprovam que apenas houve erro na hora de passar os dados no sistema do Sisagua”, afirma Chiuso.

O erro citado ficaria na conta da Vigilância, que na época era responsável por inserir no Sisagua os dados coletados pelo DAE. Roldão Puci, chefe de Ações de Meio Ambiente da Divisão de Vigilância Ambiental de Bauru, afirmou que os erros podem ter acontecido durante “um mutirão para digitação dos dados” no Sisagua, mas que não havia como confirmar.

“O Sisagua é muito pesado, complexo e demorado. Por isso, a gente prefere fazer a checagem no laudo em si. Também é mais simples fazer a conferência in loco do que no Sisagua”, afirma Puci.

Mas a Vigilância Municipal não apresentou os laudos das coletas de pontos de sua responsabilidade que mostravam água contaminada, como uma realizada em dezembro de 2017 no Instituto Lauro de Souza Lima, em que o agrotóxico Clorpirifós, cujo valor máximo permitido é de 30µg/L (micrograma por litro), mostrava um resultado de 5.000µg/L, um índice que, se fosse verdadeiro, ofereceria riscos imediatos à população de Bauru.

Quem, então, deveria vigiar a Vigilância, que não percebeu o problema ou percebeu e não foi atrás? Em qual setor das esferas públicas deveria acender um alerta para checar se esses dados altíssimos seriam erros de digitação ou se, de fato, a água estava com alto grau de contaminação?

A resposta passa pela Secretaria Estadual já que, segundo a portaria do Ministério da Saúde sobre tema, “compete às Secretarias de Saúde do Estados promover e acompanhar a vigilância da qualidade da água, em articulação com os Municípios e com os responsáveis pelo controle da qualidade da água”.

Em nota, a Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo informou que “a responsabilidade de investigação e análise da qualidade da água é do município e das empresas responsáveis pelo abastecimento. O Estado capacita e orienta as vigilâncias municipais para que a análise de dados seja feita de forma correta.”

Metodologia fora do padrão

Fonte: Senado Federal/Creative Commons

Neste imagem: Reportagem revelou que a concentração de agrotóxico encontrado nas águas das cidades brasileiras está acima do limite considerado seguro

Um terceiro grande problema ficou visível quando a publicação do mapa abriu a “caixa-preta” dos agrotóxicos na água: nem todas as empresas seguem corretamente as orientações do Ministério da Saúde para lançar os resultados no sistema.

Um dos pontos mais delicados foi esclarecido após a divulgação da reportagem, quando algumas empresas de abastecimento reclamaram que estaria errada a interpretação feita pela reportagem – que se baseou na orientação do Ministério da Saúde. O ponto em questão era a leitura de dois códigos: o Limite de Quantificação e o Limite de Detecção.

Foram tantos os questionamentos enviados pelas empresas em decorrência da publicação do mapa que, em junho, o Ministério da Saúde convocou uma reunião técnica com representantes das empresas de abastecimento, do Inmetro, dos laboratórios de saúde pública, das Secretarias de Saúde e da Anvisa para elucidar a metodologia para leitura dos dados.

Algumas empresas alegavam que ao declarar o código “Menor que o Limite de Quantificação” estavam comunicando que não foi possível detectar agrotóxico na água. Mas, segundo Thaís Araújo Cavendish, coordenadora-geral de Vigilância em Saúde Ambiental, o ministério esclareceu que esse resultado na verdade significa que agrotóxicos foram identificados na água, mas em concentrações tão baixas que não puderam ser quantificadas.

Pode parecer uma conversa técnica de químicos, mas a compreensão correta da metodologia é fundamental para que o sistema de vigilância funcione para monitorar e garantir a qualidade da água.

Agora, com a esclarecimento da metodologia por parte do Ministério da Saúde, as empresas ou órgãos públicos que interpretavam errado precisarão corrigir os dados daqui para frente e também retroativamente. A pasta informou que deu até o fim deste mês (outubro) para essa correção acontecer.

Lista dos 27 ampliada?

Outra crítica feita ao sistema é a de que os testes buscam apenas 27 ingredientes ativos de agrotóxicos – somente em 2019, o governo aprovou a comercialização de mais de 400 novos produtos agrotóxicos. “É preciso que haja um monitoramento mais amplo, até para se verificar de fato que tipo de agrotóxicos está sendo usado em determinada região”, completa a professora Gisela Umbuzeiro, da Unicamp.

O Ministério da Saúde estuda aumentar o número de ingredientes que precisam ser testados e os valores de referência. Mas, além da lista mínima fixada em âmbito federal, cada estado deve editar normas complementares à norma nacional a fim de atender às especificidades de seus territórios. Um exemplo é a norma editada pelo Rio Grande do Sul, que estabeleceu a obrigatoriedade do monitoramento de agrotóxicos que não constam na lista nacional, mas que são muito usados nas lavouras gaúchas. Atualmente, o estado testa, além dos 27 exigidos por lei, outros 46 pesticidas na água.

Especialistas apontam ainda outros problemas que comprometem a credibilidade dos dados armazenados no Sisagua, como a falta de verificação dos dados fornecidos pelas empresas de abastecimento, que podem ser inseridos pelas próprias empresas.

“Não existe uma avaliação crítica do que é colocado. Se, por um lado, as concessionárias precisam analisar as amostras, por outro é necessário que depois exista a verificação se as normas estão sendo atendidas”, reitera Umbuzeiro.

O procurador Almeida aponta ainda um conflito de interesses neste sistema. “Como as próprias empresas que são responsáveis por alimentar o sistema vão registrar a presença de agrotóxicos na sua água?”, questiona.

Cadeia de responsabilidades e penalidades

Segundo o procurador Almeida, todos esses problemas “evidenciam como empresas e órgãos públicos nem sempre cumprem seu papel, o que, na prática, faz com que hoje o Sisagua não funcione efetivamente como ferramenta de verificação”.

Para que a complexa engrenagem funcione, a responsabilização administrativa ou judicial dos órgãos envolvidos deveria começar do local (municipal) para o nacional, segundo Marco Antonio Ghannage Barbosa, Procurador do Ministério Público Federal. Ou seja, primeiro, cobra-se das instâncias municipais (empresas de fornecimento e da vigilância sanitária); depois, das estaduais (Secretaria do Meio Ambiente) e, por fim, Ministério da Saúde e Ministério Público Federal podem atuar para cobrar os responsáveis, com sanções que podem variar de advertências a multas e ações indenizatórias.

Foi esse o caminho trilhado no Mato Grosso do Sul. O procurador Almeida, do Ministério Público, entrou com um pedido na Justiça pedindo que Estado e União garantissem a realização de testes na água de Dourados – por conta da possível relação entre a contaminação da água com o aumento dos casos de câncer na cidade.

Neste caso, o jogo de empurra está perto do fim: uma sentença determinou em agosto que o governo federal pague uma multa de R$ 90 milhões por descumprimento de uma decisão 2016 que determinava a análise da água consumida pela população. A decisão, da qual ainda cabe recurso, determina que o valor seja usado na construção de um laboratório para que, enfim, os testes sejam realizados.

Medidas como estas são fundamentais para garantir que os órgãos envolvidos cumpram seu papel, sobretudo em um cenário atual em que o Governo Federal tem ampliado e acelerado o processo de liberação de novos ingredientes ativos de agrotóxicos para uso no país. No entanto, enquanto mais da metade dos municípios brasileiros não realizarem os testes definidos em lei, grande parte da população brasileira continuará no escuro sobre a real presença de agrotóxicos nas torneiras da sua cidade.

O artigo Omissão e jogo de empurra deixam população no escuro sobre presença de agrotóxico na água apareceu pela primeira vez na Agência Pública.

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Refugiados en México cuentan sus casos a jefe de Acnur

IPS español - sex, 04/10/2019 - 15:02

El alto comisionado de la ONU para los Refugiados, Filippo Grandi, escucha a un grupo de refugiados hondureños en un albergue en Tapachula, en el sur de México. Crédito: Acnur

Por Corresponsal Fao
TAPACHULA, México, Oct 4 2019 (IPS)

Apenas horas después de recibir una llamada amenazante de una pandilla que lo había acosado y extorsionado años antes por ser gay, Edgar* puso algo de ropa en una mochila y salió de El Salvador.

Cuando miembros de la familia Martínez fueron atacados por las fuerzas de seguridad en Nicaragua en respuesta por haber participado en las protestas masivas contra el gobierno en 2018, dejaron su pequeño negocio, su hogar y otras propiedades y huyeron.

Josué, Edgar y los Martínez se encuentran entre el número creciente de personas que buscan asilo en México.

El alto comisionado de las Naciones Unidas para los Refugiados (Acnur), Filippo Grandi, subrayó durante una visita al país de cuatro días que concluyó el 30 de septiembre, que sus experiencias —de amenazas concretas, extorsión y persecución política— son típicas de las fuerzas que están haciendo que México emerja como destino de asilo.

“Las historias son terribles: violencia, extorsión, violencia de género y violencia contra la comunidad LGTBI”, dijo Grandi durante una conferencia de prensa en Tapachula, una ciudad en el estado sureño de Chiapas, en la frontera con Guatemala.

Chiapas, el estado más pobre del país, es el punto de entrada para la mayoría de los solicitantes de asilo que llegan a México.

“Agradezco a México por brindar la protección urgente que necesitan estas personas”, dijo Grandi.

México tiene una larga tradición como destino para los solicitantes de asilo, tras haber recibido a los españoles que huían de la guerra civil de su país (1936-1939).

También de a quienes huyeron en los años 60 y 70 de las dictaduras en países sudamericanos como Chile, Argentina y Brasil; y, en los años 80 y 90, a quienes huían de los conflictos en América Central.

Mientras Estados Unidos promulga políticas más restrictivas en materia de asilo, un repunte reciente en el número de solicitudes ha devuelto a México a su condición de destino para aquellos que huyen del conflicto y de la persecución, en particular las personas de El Salvador, Honduras y Guatemala, que se encuentran entre los países más violentos del mundo.

Con más de 48.000 solicitudes de asilo presentadas este año hasta la fecha, México vio un aumento de 231% en el número de solicitudes de asilo en comparación con el año pasado.

Tan solo en 2014, el país recibió apenas 2.137 solicitudes, y desde entonces su número ha venido aumentando de manera constante de año en año.

Grandi elogió el trabajo de la Comar, la Comisión Mexicana de Ayuda a Refugiados, pero subrayó que su presupuesto debe aumentar, de la misma forma en que están aumentando las solicitudes de asilo.

“Si la Comar tuviera más recursos, podría hacer su trabajo de manera más eficiente y reducir el tiempo que los solicitantes de asilo deben esperar para que se decida sobre su condición”, dijo en la conferencia de prensa del sábado.

El sábado 28, Grandi asistió a la inauguración del nuevo centro de registro de la Comar en Tapachula, que será fundamental para ayudar a reducir los tiempos de espera, brindándoles a quienes se les reconoce el asilo la oportunidad de volver a empezar rápidamente con sus vidas.

Durante su visita de un día a Tapachula, Grandi se reunió con Josué, el hondureño de 31 años que huyó de las amenazas por su activismo político, y con Édgar, salvadoreño gay de 44 años, que fue intimidado por una de las mortíferas pandillas callejeras que controlan grandes franjas de territorio en todo el país. Ambos están en Tapachula a la espera de decisiones sobre sus solicitudes de asilo.

“Cuando llegué acá, me sentí seguro por primera vez en mucho tiempo”, dijo Josué.

Durante su visita a México, del 27 al 30 de septiembre, su segunda visita al país como alto comisionado de la ONU para los Refugiados, Grandi también viajó a la ciudad industrial de Saltillo, en el extremo norte, cerca de la frontera con el estado estadounidense deTexas.

Allá, recorrió las instalaciones del fabricante de electrodomésticos Mabe, que fue fundada en 1946 por inmigrantes españoles y actualmente emplea a docenas de refugiados.

Grandi también se reunió con unas familias que participaron en un programa de integración de Acnur, gracias al cual personas refugiadas en los estados del sur de México, donde son menores las perspectivas de trabajo, como Chiapas, se reubican en el próspero norte industrial del país.

Grandi calificó la iniciativa de “fenomenal” y añadió que “no había visto proyectos como estos en muchos otros países”.

Édgar, Josué y la familia Martínez se mostraron interesados en participar en el programa, confiando que les permitiría reiniciar sus vidas de forma segura, en ciudades donde podrían encontrar trabajo para mantenerse a sí mismos y a sus familias.

“Soñamos con que nuestra solicitud de asilo se apruebe y que consigamos empleos para poder ahorrar dinero y comenzar nuevamente con nuestro negocio”, dijo Carla Martínez, de 28 años.

Esta mujer nicaragüense se vio obligada a abandonar el exitoso negocio que tenía con su esposo después de que ambos tomaran parte en las protestas masivas que en 2018 sacudieron su país.

“No queremos ser una carga. Queremos contribuir a México”, dijo.

Este artículo fue publicado originalmente por la Agencia de las Naciones Unidas para los Refugiados (Acnur).

RV: EG

 

El artículo Refugiados en México cuentan sus casos a jefe de Acnur fue publicado originalmente en IPS Agencia de Noticias.

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En la Amazonia boliviana, mujeres protegen el bosque y se empoderan

IPS español - sex, 04/10/2019 - 12:35

En el norte de la Amazonía boliviana, un emprendimiento sostenible involucra a la comunidad local en el procesamiento de frutas silvestres de la selva amazónica y, al mismo tiempo, protege los bosques contra la tala de árboles y la contaminación. Crédito: Teófila Guarachi/ONU Mujeres

Por Corresponsal Fao
SAN CARLOS, Bolivia, Oct 4 2019 (IPS)

A medianoche, entre el canto de los grillos, Sandra Justiniano, de 35 años, llega a la pequeña planta de procesamiento de extracto y pulpa de asaí y majo para empezar su turno, junto a otras mujeres indígenas de la comunidad de Buen Retiro, en el municipio de San Carlos, en el norte amazónico de Bolivia.

“Gracias al proyecto… hemos podido mejorar nuestras vidas”, explica Justiniano, presidenta de la Asociación Agropecuaria de Productoras Amazónicas de Majo y Asaí de Riberalta. “Mejoramos nuestros conocimientos, nuestra economía y, con ello, nuestras vidas y la de nuestras hijas y nuestros hijos”, añade.

Con el financiamiento de la Agencia Italiana de Cooperación para el Desarrollo (AICS), ONU Mujeres y el Ministerio de Desarrollo Productivo y Economía Plural (MDPyEP) han brindado asistencia técnica, tecnología y activos productivos para mejorar la producción de 10 emprendimientos liderados por mujeres en cuatro municipios.

Más de 240 mujeres ya están involucradas en el proyecto que se implementa desde mayo de 2018.

Sandra Justiniano cree que la selva amazónica es parte integral de la vida y la cultura de su gente. “Debemos cuidarlo, detener la tala de árboles, la quema…”, dice ella. Crédito: Teófila Guarachi/ONU Mujeres

El emprendimiento en Buen Retiro involucra a 24 mujeres y hombres que procesan el asaí, majo y copuazu, frutos silvestres del bosque amazónico.

Justiniano explica que el proyecto ha mejorado la gestión ambiental, así como las relaciones con las proveedoras y los proveedores, que suman más de 200 personas en comunidades cercanas que se encargan de recolectar estos frutos.

“Ahora las proveedoras y los proveedores se capacitan junto a sus familias sobre cómo cuidar el bosque, cómo proteger la madre tierra”, explica Justiniano.

“Las charlas, sesiones de aprendizaje y talleres que nos brinda ONU Mujeres también los beneficia a ellas y ellos…. Saben que, si cortan un árbol de asaí, éste sólo volverá a crecer en 20 años, y eso le generará perjuicios económicos a toda la comunidad. Entonces, les enseñamos a cuidar el bosque y no quemarlo en temporada seca”, detalla.

La comunidad donde vive Justiniano es mayoritariamente indígena, y el proyecto también incorpora sus conocimientos ancestrales en el cuido y manejo de los bosques.

“En el bosque nacimos, en él crecimos y ahora nos provee vida porque también nuestros hijos y nuestras hijas crecen aquí”, dice.

“Por eso debemos cuidarlo, evitando la tala de árboles, el chaqueo (quema) …. También debemos evitar botar basura, plásticos y pilas que generan contaminación. Por eso también tenemos la meta de socializar en todas las comunidades sobre cómo cuidar nuestro bosque, y dejar estos conocimientos a nuestros hijos y nuestras hijas…. El cuidado de bosque es nuestra responsabilidad”, argumenta.

La comunidad de Buen Retiro en el norte de la Amazonía boliviana. Crédito: Teófila Guarachi/ONU Mujeres

Violeta Domínguez, representante de ONU Mujeres en Bolivia, aseguró que estos primeros resultados del proyecto permiten el empoderamiento económico de las mujeres y de las familias encabezadas por mujeres, el fortalecimiento del territorio amazónico y la dinamización de la economía local.

Destacó que, en muchos casos, el empoderamiento y la autonomía económica de las mujeres también pueden contribuir a romper los círculos de violencia de género.

Todos los proyectos en la Amazonia incluyen capacitación especializada en manejo de maquinaria, habilidades financieras y de liderazgo, pero también sensibilización en temas de igualdad de género, masculinidades y las leyes y prevención de la violencia de género.

El gobierno de Bolivia es un socio clave del programa, y ha entregado activos productivos —incluyendo un generador y máquinas para procesar los frutos y etiquetar los productos— a los emprendimientos liderados por mujeres indígenas.

Varias de las mujeres que trabajan con Justiniano son madres solteras que no tenían posibilidades económicas.

“Mejoró nuestra economía, adquirimos nuevos conocimientos sobre empoderamiento, sobre nuestros derechos y finanzas, aprendimos a presentar proyectos, tenemos conocimientos sobre apertura de mercados”, dice Justiniano.

Una escena de las instalaciones de procesamiento del proyecto en Buen Retiro. El proyecto ha proporcionado tecnología y activos para mejorar la producción de 10 empresas dirigidas por mujeres en cuatro municipios. Crédito: Teófila Guarachi/ONU Mujeres

“Somos mujeres capaces de hablar en público, de tomar la palabra, de participar y de presentar nuestras propuestas económicas a las autoridades y negociarlas. Eso es empoderamiento”, asegura.

Antes de que el proyecto de ONU Mujeres iniciara, el emprendimiento de Buen Retiro solo vendía 200 litros de jugo de asaí al día, producidos de forma artesanal.

Ahora venden hasta 500 litros diarios y pueden sacar la pulpa para la venta. También son proveedoras del programa de desayuno escolar del gobierno municipal. Pronto presentarán sus productos en ferias nacionales en Santa Cruz y La Paz y están negociando con empresas para abastecer a otras regiones del país.

“Pero eso solo será posible si cuidamos el bosque”, recuerda Justiniana.

Este artículo fue publicado originalmente por ONU Mujeres.

RV: EG

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Um encontro com Julian Assange na prisão

Pública - sex, 04/10/2019 - 12:00

Eu só conheci Julian Assange no cárcere. Faz nove anos que eu o visito na Inglaterra, trazendo notícias e solidariedade australiana.

Quando fui a Ellingham Hall [histórica propriedade rural em Norfolk onde Assange ficou em prisão domiciliar durante dois anos], eu levei música e chocolate. Quando fui à embaixada do Equador, levei camisas de flanela, cópias de Rake, uma série de TV australiana, um pote de Wizz Fizz, uma marca australiana de sorvete, e folhas de eucalipto. Mas para o presídio de Belmarsh não se pode levar nada – nenhum presente, nenhum livro, nenhuma folha de papel.

E, depois de ter passado por lá, eu voltei para a Austrália, um país tão distante que o abandonou em quase todos os aspectos.

Ao longo dos anos, eu aprendi a não perguntar para Julian “como você está?”, porque é bem óbvio como ele está: detido, difamado, caluniado, sem liberdade, preso – em “celas” cada vez mais estreitas, frias, escuras e úmidas –, perseguido e punido por publicar informações. Aprendi a não reclamar da chuva ou comentar o lindo dia que está fazendo, porque ele não sai há tanto tempo que sentir até uma nevasca seria uma bênção. Aprendi também que não é reconfortante, mas sim cruel, falar sobre pores do sol, sobre as aves kookaburras, nativas da Austrália, ou sobre viagens de carro. Que não ajuda a assegurá-lo de que, como eu e meu cachorro, ele também encontrará rastros de animais nos parques naturais australianos quando algum dia voltar para casa, mesmo que eu pense nisso quase todos os dias.

A natureza prolongada e de crescente intensidade de seu confinamento me confronta enquanto, na primeira fila, eu espero na porta de entrada daquela prisão de tijolos marrons, no último dia 12 de setembro. No centro de visitantes, do lado oposto, cadastraram minhas digitais depois de eu ter mostrado dois comprovantes de residência diferentes e meu passaporte. Certifiquei-me de ter tirado absolutamente tudo de meus bolsos e guardei minha bolsa, ficando apenas com uma nota de 20 libras para comprar chocolate e sanduíches. Apesar do teatro de segurança que se segue, o dinheiro é roubado em algum momento durante o percurso por não menos de quatro corredores cujas portas traseiras são seladas antes que as portas dianteiras se abram, depois por um detector de metal, para em seguida ser revistada e ter minha boca e orelhas inspecionadas.

Depois de calçarem de novo os sapatos, os visitantes atravessam uma área externa e encaram a realidade da prisão: uma cerca de aço com arame farpado em lâmina de uns 4 metros de altura ao redor de toda a sua extensão. Eu me apresso até o próximo prédio e chego a uma sala onde 30 pequenas mesas estão fixadas no chão, cada uma com uma cadeira azul de plástico de frente para três cadeiras verdes.

Ele se senta em uma das cadeiras azuis.

Eu hesito agora, como sempre, em descrevê-lo. Isso também eu aprendi: é um impulso protetor contra o fascínio mórbido de alguns de seus defensores e também daqueles que apreciam seu sofrimento.

Sua saúde já estava se deteriorando seriamente quando ele deixou a embaixada. Ele confirma que ainda está na ala hospitalar, apesar de ainda não ter visto especialistas, o que é claramente necessário depois de tudo que passou. Ele explica que é transportado para dentro e para fora de sua cela, onde fica 22 horas por dia, sob um procedimento chamado de “movimentos controlados”, o que significa que a prisão é trancada e os corredores, esvaziados. Ele descreve o pátio de exercícios. Na parede se lê: “Aprecie as folhas de grama sob seus pés”; mas não há grama, apenas concreto. Não há nada verde, apenas concreto e grades no alto.

Após tão extremo isolamento e privação de companhia humana, claro que ele está feliz em ver amigos – eu não estou sozinha. Ele mascara o desconforto e se esforça, sorrindo das minhas piadas, paciente com a minha falta de jeito, acenando e me encorajando a lembrar mensagens parcialmente memorizadas. Eu me levanto para pegar comida enquanto ele coloca a conversa em dia com outro amigo. É aí que percebo que não tenho dinheiro, então volto para pegar o deles. Quando retorno para a fila, uma moça com um hijab [véu muçulmano] fala: “Ele não pertence a esse lugar. Ele não deveria estar aqui. Nós sabemos das coisas por causa dele. Ele tem muitos apoiadores na comunidade muçulmana”. Essa compreensão e a solidariedade ajudam a me acalmar depois da provação de entrar neste lugar frio; até aqui existe calor, amizade, gentileza. Fico muito agradecida àquela mulher e volto com uma bandeja de junk food para contar o que ela tinha acabado de me dizer, o que prova mais uma vez que muitas pessoas conseguem enxergar através da manipulação midiática intensiva contra Julian. E que elas têm senso de humanidade, bom senso, empatia e compaixão que penetram esse filtro.

Julian recebe duas visitas sociais por mês; a última havia sido três semanas e meia antes, por isso conversamos rápido, trocando tantas palavras, mensagens e ideias quanto possível. Nunca houve silêncios entre nós e, abastecidos apenas por café até altas horas, nós frequentemente falávamos ao mesmo tempo, um respondendo enquanto o outro falava, mas o barulho daquela sala é alto demais para isso.

Várias vezes ele precisa fechar os olhos para organizar sua linha de raciocínio, e então desatamos novamente, conscientes de que o lento tempo da prisão se acelera durante as visitas, que são muito barulhentas – outros 30 prisioneiros estão vendo seus amigos e famílias, crianças estão tentando ser ouvidas, e, presumivelmente, microfones e câmeras estão se esforçando para ouvir o que está sendo dito.

O especialista em tortura da ONU que também o visitou na prisão disse que Julian exibe efeitos de tortura psicológica prolongada. Ele tem sido torturado pela detenção indefinida, e a perspectiva de extradição para os Estados Unidos, para um julgamento espetacularizado, onde ele enfrentaria uma possível pena de 175 anos de prisão – uma pena de morte, efetivamente –, é sem dúvida uma forma de tortura.

Mesmo assim, ele me surpreende diversas vezes ao tirar o foco da conversa de si mesmo e o colocar nos princípios e implicações mais amplos do seu caso: “Não é só sobre mim, Flick; é sobre tantas pessoas, todos os jornalistas no Reino Unido. Se eu posso ser capturado, qualquer australiano trabalhando em Londres, qualquer jornalista ou editor pode ser detido simplesmente por estar fazendo seu trabalho”.

Algumas semanas antes, em um evento do Partido Verde australiano em Sydney, eu havia ficado irritada quando alguém disse algo parecido: “Não é sobre Julian; é sobre o jornalismo”. Eu respondi: “E quando vai ser sobre Julian também? Quando ele estiver morto? Quando eles o tiverem matado? Quando você acha que isso vai poder ser sobre um editor australiano que está numa prisão do Reino Unido, sendo punido pelos Estados Unidos por publicar a verdade sobre as guerras no Iraque e no Afeganistão?”.

Quando se trata de Julian, nada é normal; cada passo do processo legal e político dos últimos nove anos foi anômalo, e o contexto e pretexto também foram manipulados por um grande número de estratégias, algumas delas vazadas, para infectar e influenciar a percepção pública que se tem dele, de seu trabalho e de seus apoiadores. Isso muda radicalmente conversas normais sobre ele, mesmo com alguns de meus amigos mais cautelosos.

Eu dou um abraço de despedida em um homem muito mais magro do que aquele que eu conhecia, e uma pessoa diferente desaparece no corredor quando a visita acaba, mesmo que os nossos punhos esquerdos estejam erguidos, como sempre.

No nosso caminho de volta da visita, recebemos uma ligação para avisar que uma audiência técnica havia sido inesperadamente adiantada para o dia seguinte.

Nessa “audiência técnica”, o juiz distrital descartou preventivamente a possibilidade de fiança. Não era uma audiência sobre fiança, e os advogados de Julian nem haviam tido a possibilidade de solicitá-la, mas o juiz a descartou sem ouvir quaisquer argumentos ou fatos. Quando o juiz perguntou se ele entendeu, Julian disse: “Na verdade, não. Eu tenho certeza de que os advogados vão explicar”. Ele não entendeu porque isso é irregular, mais uma vez, mas também porque não tem acesso a documentos do tribunal e a documentos legais para ajudar a preparar seu caso.

No dia 23 de setembro, Julian completou sua sentença por violar as condições da liberdade provisória e será mantido preso apenas para que os Estados Unidos possam tentar extraditá-lo. Isso significa que ele cumpriu sentença por ter cometido o crime de solicitar e receber asilo político.

Por que querem trancafiar Assange

Fonte: Reprodução/Youtube

Neste imagem: Para especialista da ONU, Julian Assange exibe efeitos de tortura psicológica prolongada

O Equador garantiu o asilo porque era óbvio que os Estados Unidos planejavam processá-lo por suas publicações. Entre muitas outras coisas, ele está sendo processado por ter publicado o número real de civis mortos no Iraque e no Afeganistão – milhares de pessoas que foram vítimas de bombardeios, mutilações e tortura. Ele publicou também informações sobre jornalistas mortos por tropas ocidentais, incluindo José Couso, o jornalista espanhol morto no Iraque pelas tropas americanas (os espanhóis depois foram pressionados pelos Estados Unidos a não pedir uma investigação).

É por isto que eles querem trancafiar Julian: para fazer dele um exemplo, e para que possam fazer isso de novo no futuro sem ter de prestar contas.

A verdade é que Julian estava certo desde o começo. Ele buscou asilo para se proteger dessa exata situação que enfrenta agora: extradição para os EUA, para um julgamento espetacularizado e uma pena de morte de facto por publicar informações de interesse público.

A natureza extrema das acusações silenciou o ódio cáustico reservado a Julian, mas não as declarações baseadas em psicologia barata sobre sua personalidade (uma personalidade que, por acaso, eu aprecio e amo, assim como Noam Chomsky, Daniel Ellsberg, Slavoj Žižek, Patti Smith, P. J. Harvey, Scott Ludlam, Ken Loach e vários outros intelectuais e ativistas.)

Agora, o New York Times, o Washington Post, o Wall Street Journal e o Guardian fazem comentários depreciativos sobre a personalidade de Julian antes de expressar grande preocupação com as acusações às quais ele está respondendo, porque, de fato, os americanos “criminalizam práticas comuns do jornalismo”, como disse Amal Clooney, a emissária especial do Reino Unido para a liberdade de imprensa, em junho, na Conferência Global sobre Liberdade de Imprensa.

Então, finalmente, editores e jornalistas do mundo todo entendem que seus destinos estão interligados ao de Julian, para quem não há nenhuma esperança de julgamento justo nos Estados Unidos.

Ele está sendo acusado com base na Lei de Espionagem, usada pela primeira vez contra um editor, que não permite que se use como defesa o argumento de interesse público.

É por isso que o juiz britânico e a ministra do Interior não deveriam extraditar Julian Assange para os Estados Unidos.

Algumas vozes estão se levantando conforme se começa a perceber que, se essa extradição ocorrer, qualquer jornalista que cubra segurança nacional ou faça um trabalho investigativo no Reino Unido ou em qualquer outro país pode ser detido, estabelecendo um precedente terrível para todos os jornalistas e editores.

Nos Estados Unidos, o Departamento de Justiça de Trump está tentando coagir Chelsea Manning e Jeremy Hammond, duas fontes de vazamentos para o WikiLeaks, a depor contra Julian num processo secreto sem juiz – uma instituição abolida em todos os outros países, exceto na Libéria.

Apesar de eles também estarem presos indefinidamente, Manning e Hammond estão resistindo. Onde isso vai acabar? Precisa acabar com Julian saindo de Belmarsh e, depois, do aeroporto de Sydney, para que seus olhos, prejudicados por tantos anos de confinamento, possam se habituar a encontrar, aqui em casa, trilhas de vombates, marsupiais originários da Austrália, e de wallabies, animais australianos da mesma família dos cangurus, mas de menor porte.

Até que isso aconteça, precisamos continuar lutando contra sua extradição, pedindo que o Reino Unido resista e que o governo australiano traga seu cidadão e editor de volta para casa.

As acusações dos Estados Unidos contra Julian Assange e as possíveis penas

Julian Assange responde por 18 acusações:

1. Conspiração para violar a Lei de Espionagem: 10 anos.
2. Violação da Lei de Espionagem pela obtenção de arquivos da Base Naval de Guantánamo por Manning: 10 anos.
3. Violação da Lei de Espionagem pela obtenção de Cablegate [comunicações diplomáticas] por Manning: 10 anos.
4. Violação da Lei de Espionagem pela obtenção de registros da Guerra do Iraque por Manning: 10 anos.
5. Tentativa de receber e obter informações sigilosas: 10 anos.
6. Obtenção e recepção ilegal de arquivos de Guantánamo: 10 anos.
7. Obtenção e recepção ilegal de Cablegate: 10 anos.
8. Obtenção e recepção ilegal de registros da Guerra do Iraque: 10 anos.
9. Causar divulgação ilegal de arquivos de Guantánamo por Manning: 10 anos.
10. Causar divulgação ilegal de Cablegate por Manning: 10 anos.
11. Causar divulgação ilegal de registros da Guerra do Iraque por Manning: 10 anos.
12. Induzir Manning a comunicar, entregar e transmitir arquivos de Guantánamo: 10 anos.
13. Induzir Manning a comunicar, entregar e transmitir Cablegate: 10 anos.
14. Induzir Manning a comunicar, entregar e transmitir registros da Guerra do Iraque: 10 anos.
15. “Publicação pura” de Diários da Guerra do Afeganistão: 10 anos.
16. “Publicação pura” de Registros da Guerra do Iraque: 10 anos.
17. “Publicação pura” de Cablegate: 10 anos.
18. Conspiração para violar a Lei de Fraude e Abuso de Computadores (CFFA, em inglês): 5 anos.

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Drogas baratas desbancan a la heroína mexicana en Estados Unidos

IPS español - sex, 04/10/2019 - 11:37

Caleb Walton, mientras se inyectaba durante la entrevista. La dosis de heroína mezclada con metanfetamina le ocasionó un conato de sobredosis. Crédito: Heriberto Paredes/Pie de Página

Por Arthur Debruyne
PORTLAND, Estados Unidos / MÉXICO, Oct 4 2019 (IPS)

La heroína mexicana se queda sin “mercado” en Estados Unidos. La droga de bajo costo conquista el monopolio a la velocidad del rayo y detuvo la producción de heroína en México. Esto sucede en el contexto de la posible despenalización de algunas drogas y la ley de Amnistía que propuso el presidente Andrés Manuel López Obrador.

La primera vez que Dan Epting, de 51 años, se inyectó heroína sintió como si Dios mismo lo estuviera empujando a un abrazo maravilloso. “Me tomaría 18 años deshacerme de él”, dice ahora, luego de diez años limpio.

“Mantener mi adicción se convirtió en un trabajo de tiempo completo: día y noche, siete días a la semana, 365 días al año, sin descansos, siempre más, más, más. Estaba seguro de que moriría por eso”. Su historia está profundamente entrelazada con la epidemia de adicción que, en 2018, cobró más de 49,000 muertes en Estados Unidos

Todo comenzó así, los estadounidenses como Dan Epting, lo saben. Portland,  su ciudad natal y la más poblada del estado de Oregón, ha sido uno de los principales escenarios de esta crisis. A inicios de los 90, el agresivo marketing por parte de las compañías farmacéuticas causaría un aumento exponencial en el uso de fuertes analgésicos como OxyContin y Percocet. Al mismo tiempo, los tribunales han dictaminado que desde entonces los fabricantes han ocultado los riesgos de adicción.

Innumerables estadounidenses desprevenidos se volvieron adictos después de recibir del médico un suministro de pastillas para el dolor, a veces por un esguince de tobillo o por inflamación de la garganta. Pronto floreció un mercado ilegal para las píldoras.

Para los adictos en Portland, un regalo envenenado cayó del cielo: jóvenes mexicanos, traficantes amigables y educados que entregaban heroína barata y fuerte en sus hogares. “Como si fuera pizza”.

Dan recuerda la red de traficantes provenientes de Nayarit, a menudo una red familiar, que ampliarían su sofisticado modelo de negocio (los usuarios obtenían descuentos por traer nuevos clientes), a por lo menos la mitad del territorio de Estados Unidos. Las pastillas para el dolor rápidamente se volvieron demasiado caras para la mayoría de los usuarios. Las intercambiaron por la abundante heroína.

Antes de que pudiera renunciar a la aguja, Dan estuvo en prisión innumerables veces, se quedó sin hogar y conoció instituciones y clínicas de rehabilitación, por dentro y por fuera. Apenas puede entender que esta experiencia ahora le sirve como consejo para los usuarios en recuperación en el Central City Concern (CCC), el mayor centro de rehabilitación en Portland.

Él es testigo de la «tercera ola» de la crisis de los opioides: la llegada del opiáceo sintético fentanilo, que es mucho más fuerte y mucho más barato que la heroína y, por lo tanto, es preferido por los traficantes.

El fentanilo se está mezclando con casi todas las drogas, a menudo sin el conocimiento de los usuarios o incluso de los vendedores a pequeña escala: es por eso que se ha convertido en la principal causa de sobredosis mortales en Estados Unidos, índice recientemente triplicado en Portland. En algunos lugares, la heroína se vuelve gradualmente imposible de rastrear, oculta por el fentanilo.

“Muchos de mis pacientes han muerto por una sobredosis”, suspira Dan. “Trabajo con alguien todos los días durante seis meses, dejan el centro, recaen y los encuentran muertos en la habitación de un motel. Es putamente difícil”, añade.

Dan Epting logró rehabilitarse y ahora trabaja en un centro de apoyo para la rehabilitación de personas de todas las edades. Crédito: Heriberto Paredes/Pie de Página

Contenedores de agujas

La heroína golpeó históricamente a los barrios negros, la crisis de los opioides en Estados Unidos primero se arraigó en las comunidades rurales, predominantemente blancas, en el medio oeste, las cuales sufrieron un declive económico tras la desaparición de industrias como la minería de carbón.

En la fresca y liberal Portland, la heroína siempre ha estado disponible, sin embargo, una avalancha de analgésicos ha reducido el umbral para que más usuarios jóvenes que nunca, accedan a ella. La epidemia también se suma a un visible problema de personas en situación de calle, lo que también es muy visible en los centros de ciudades como Los Ángeles o San Francisco. En buena parte de los baños públicos, un contenedor para agujas usadas cuelga de la pared.

En contrapunto, la comunidad de rehabilitación en Portland es particularmente fuerte, es difícil encontrar una esquina sin un hogar de rehabilitación para los usuarios en proceso. Allí aprenden a vivir nuevamente, o por primera vez: comprando cosas, pagando facturas, cuidándose a sí mismos. “Algunas personas sólo descubren eso cuando tienen 50 años”, dice Lydia Bartholow, directora médica de CCC y colega de Dan Epting.

Ella estima que la mitad de sus pacientes comenzaron a tomar pastillas para el dolor porque un médico se los recetó.

“Entre ellos, muchas personas que tenían una vida estable, por ejemplo, un profesor de literatura que recibió pastillas después de un accidente automovilístico, y se volvió adicto. Tan pronto como un médico deja de recetarles medicamentos, inmediatamente salen a la calle por heroína”, afirma.

“Fuman por un tiempo, eventualmente lo hacen por vía intravenosa, pierden a sus familias y todo lo demás, quedan sin hogar y pueden terminar en tratamiento 10 años después”, sigue describiendo.

Una cuarta parte de sus pacientes son adultos jóvenes que roban algunas pastillas del armario de la abuela: “Los adolescentes piensan: ¿son solo pastillas, verdad?”, se lamenta.

Infierno interior

Caleb Walton, de 29 años, experimentó una deliciosa intoxicación después de tomar demasiado jarabe para la tos con codeína, a la edad de trece años. Unos fuertes analgésicos de nombre parecido se encontraban en su casa después de que su padre se sometió a una cirugía y el adolescente se rindió ante eso.

Eventualmente se mudó del vecino estado de Idaho a Portland porque la heroína era más barata allí. Ahora vive en la calle. Únicamente come helado, dice, para enfriar un poco su infierno interior. Su mejor amigo murió recientemente de endocarditis, una inflamación de las válvulas cardíacas que afecta a los usuarios de drogas intravenosas. “De todos los demás que se rehabilitaron, fueron a la cárcel o murieron de una sobredosis, soy prácticamente el último en pie”, dice.

Nos encontramos con él en una esquina de la calle donde activistas anarquistas reparten agujas limpias, ligas y otras provisiones para el consumo de drogas, con el objetivo de reducir el contagio de VIH y hepatitis. Mientras hablamos, un ansioso Caleb se inyecta una bola de goofball, una mezcla de heroína y metanfetamina.

Gracias al aumento de la mezcla con este último producto, los usuarios se mantienen lo suficientemente despiertos como para poder juntar algo de dinero para su próxima dosis. Sin embargo, él se derrumba casi de inmediato y apenas reacciona.

Su amigo Brandon, de 32 años, le grita: “Oye Caleb, ¿estás bien?” Los labios de Caleb se ponen azules, una señal de sobredosis. “Tal vez deberíamos sacar el Narcan”, sugiere Brandon. Esta medicina previene la sobredosis y es distribuida, de igual manera, por activistas y por el gobierno local. Las patrullas policiales también lo tienen consigo. No será necesario esta vez.

Mientras tanto, Brandon, a su vez, prepara una inyección y con un ojo en Caleb, dice que perdió todo por la heroína, incluida su esposa y sus dos hijos. Brandon se balancea al límite: “Ya no tengo el coraje de vivir en la calle otro invierno”, dice desesperado.

Le habían robado los zapatos cuando se despertó aquella mañana. Los dos amigos, o mejor dicho, combatientes, no han probado la euforia despreocupada inherente a los opiáceos durante mucho tiempo: los usan para sobrevivir, para curarse de la abstinencia. Los otros en esta acera también habitan su propio infierno.

A la vuelta de la esquina está el ajetreo y el bullicio de una happy hour bajo la iluminación atmosférica de una acogedora terraza de café.

Al otro lado de la ciudad, la excéntrica Castle Steinway, de 25 años, vive en la parte trasera de una camioneta con su gato Merlín. “Hace unos años, en mi ciudad natal, Boulder, Colorado, todos los niños, de repente, fumaban heroína como si fuera hierba”, dice ella. Castle era una adolescente particular: después de dos años de permanencia forzada en una estricta institución juvenil, quería soltar las riendas.

“Menos de dos semanas después la usé por vía intravenosa”. Le gustaría dedicarse tiempo completo al arte, sus dibujos son prometedores, pero pasa todo el día recogiendo latas de aluminio que vende para pagar su droga.

Para evitar una sobredosis fatal, ella confía en una aplicación: si no apaga la alarma media hora después de la inyección, DopeSafe notifica automáticamente a los servicios de emergencia. Estuvo cerca algunas veces. “Traté de dejar el vicio 10 veces”, dice ella. “Nada ayuda”.

El padre de Jon Hill, de 30 años, le enseñó a pulverizar e inhalar OxyContins cuando tenía 12 años. “Yo era un niño, no tenía idea de que no eran seguros”, recuerda. Los oxies han sido extremadamente baratos y omnipresentes en el estado natal de Jon, Carolina del Norte, donde muchas fábricas y empresas han cerrado y se han trasladado a China, lugar con menor costo en la mano de obra.

John Hill, un veterano de la guerra contra las drogas. Crédito: Heriberto Paredes/Pie de Página

Cuando el titular de la patente, Purdue Pharma, rediseñó las pastillas e hizo más complicado su pulverización, tras una gran presión social en 2010, Jon y sus seres queridos cambiaron a la heroína. “Mi cerebro ha crecido casi, solo con opiáceos, no puedo vivir sin ellos”, dice con calmadamente.

Sin embargo, un decidido Jon ha creado estabilidad: durante la semana, cuando trabaja, usa buprenorfina, un sustituto libre de sedimentos, como la metadona. Ocasionalmente se recompensa con una inyección de heroína. “Probablemente será así el resto de mi vida”.

Emily Ruhl, de 28 años, también ha tenido muchos intentos de rehabilitación: según la experta médica Lydia Bartholow, se necesita un promedio de nueve para la recuperación permanente. Emily recurrió a los analgésicos a la edad de veinte años, junto con su novio en aquel momento. Ella recuerda como si fuera ayer, el día en que las pastillas fueron repentinamente imposibles de rastrear y consiguieron heroína juntos.

“El miedo a esa horrible abstinencia: es por eso que seguí usándola durante tanto tiempo”, dice ella. “Así que, rápidamente se fue todo para abajo”. Su novio, murió de una sobredosis, al igual que muchos ex compañeros de escuela y amigos de Emily.

Ella repitió un ciclo interminable de rehabilitación y recaída. Al momento de la entrevista, llevaba 45 días sin consumir con la ayuda de la buprenorfina, que, según algunas investigaciones, promete la mayor posibilidad de recuperación a largo plazo.

Sin embargo, Emily percibe una dificultad: cambia una droga por otra, acusan los Alcohólicos Anónimos, quienes predican la abstinencia completa, mismo que representa el modelo más común en los Estados Unidos. Las autoridades tampoco están interesadas en la buprenorfina. Muy irónico, si se considera el descuidado manejo de los analgésicos que la adicción causa constantemente.

El triángulo dorado

El lugar donde se consolidó el negocio mexicano de las drogas, una región que comprende el cruce de los estados norteños de Chihuahua, Durango y Sinaloa. Desde la década de 1960, la economía agrícola familiar de esta zona, aislada y montañosa, se ha alineado perfectamente con los deseos de los consumidores de drogas estadounidenses. Si los gringos quieren heroína, los campesinos siembran plantas de amapola, mezcladas con las plantas de maíz y frijoles, y de la cual se extrae una resina blanca que es la base del opio. Los traficantes luego la convierten en heroína en laboratorios.

Hace seis años, Pascual cultivaba únicamente marihuana en su rancho en Chihuahua. Desde entonces, varios estados estadounidenses han legalizado el cultivo y la venta de cannabis y la demanda de heroína ha explotado. Es por eso que él, su hermano y muchos otros aquí y en otras partes de México han cambiado a la amapola.

“Durante mucho tiempo apenas pudimos seguir el ritmo de la demanda”, dice Pascual. Sin embargo, ahora también al sur del río Grande, el fentanilo está causando una crisis considerable.

Entre 2013 y 2017, el cultivo de amapola en México, el principal proveedor de heroína en toda América, se triplicó, según cifras de los gobiernos estadounidense y mexicano. En el Triángulo Dorado, el cártel de Sinaloa tocó la puerta de los agricultores: “Necesitaban opio y mucho”, dice Froylán Enciso, investigador de drogas del Centro de Investigación y Educación Económica de la Ciudad de México (CIDE).

La tasa de asesinatos continúa batiendo récords en todo México: en los primeros 8 meses de la administración de Andrés Manuel López Obrador, se han registrado 20 mil 135 asesinatos dolosos, según cifras oficiales, un alza del 20% respecto a su antecesor Peña Nieto, en el mismo periodo, con 18 mil 432 personas asesinadas. Se estima que dos tercios de estos crímenes están relacionados con las drogas.

En el estado sureño de Guerrero, uno de los más pobres de México y destrozado por la violencia, se han sembrado muchos campos de amapola en los últimos años. “Pero hoy ya no se vende nuestro opio, nadie viene ya a comprarlo”, dice Mario Palacios. “El precio ha caído por completo, ya nadie lo quiere”. Estamos en medio de su campo de amapolas a las afueras del pueblo de Carrizal de Bravo, en las tierras altas centrales de Guerrero. Nadie en toda el área está cultivando amapola ya, dicen los pobladores: es imposible competir con la nueva droga química que los estadounidenses anhelan ahora.

Los cultivadores de adormidera como Pascual son personas marginadas, no ricos narcotraficantes. En sus comunidades olvidadas y marginadas, el opio es a menudo la única fuente confiable de ingresos. Sin embargo, desde hace aproximadamente un año, parece que se está secando.

Extracción de la goma de opio en un campo en la sierra de Chihuahua. Crédito: Arthur Debruyne/Pie de Página

Los expertos confirman que casi todas las regiones que producen opio en México son iguales. El fentanilo se importa de China a través de los puertos marítimos. El material no necesita tierra de cultivo ni mano de obra: es por eso que los márgenes de ganancia son mucho mayores. Una verdadera revolución se está gestando lentamente en el panorama de las drogas mexicanas.

“Durante tantos años todos tuvimos comida gracias a la planta de amapola, y nuestras familias pudieron avanzar en la vida: eso ya terminó”, suspira Palacios, padre de seis hijos. “Todos volveremos a la pobreza de los 50”. El hombre ahora está tratando de reemplazar la amapola con árboles de aguacate, pero estos darán fruto dentro de dos años.

“Necesitamos inversión para cambiar el producto, dinero que no tenemos”, concluye. “Estamos en el hoyo”. En otras palabras, el fentanilo tiene éxito donde fracasó una guerra contra las drogas que duró décadas: poner fin a la economía ilegal de la adormidera.

El uso limitado de heroína en México se reduce, en gran medida, a la frontera norte. La mayoría de los usuarios son inmigrantes indocumentados que han sido expulsados ​​por los Estados Unidos trayendo su adicción. Ellos también se enfrentan ahora a una creciente crisis mexicana de opioides, según algunas encuestas en esta región.

“Cuando el fentanilo cayó hace tres años, seis cabrones murieron en una semana”, dice Roberto Prado, de 51 años, un consumidor de drogas sin hogar. Se trata de un raquítico campamento debajo de un puente en Tijuana, el cual Prado comparte con unas pocas docenas de otros usuarios. Algunos de ellos están en malas condiciones.

No hace mucho tiempo, Roberto y sus colegas solo usaban heroína de lugares como Chihuahua, Guerrero o Nayarit. Hoy en día, las bandas de narcotraficantes del norte distribuyen, principalmente, fentanilo, que es más rentable. Eso va de la mano con un aumento significativo de las sobredosis fatales, dicen los usuarios y trabajadores de prevención en Tijuana, Mexicali y Ciudad Juárez.

El final de la epidemia de opioides está lejos de ocurrir. Pero a diferencia de la estadounidense, esta crisis sigue siendo invisible: sin cifras, sin asistencia sólida o interés de los medios. “He visto morir a varios amigos por el fentanilo ante mis ojos”, dice Pedro León, con 72 años.

Amnistía

El presidente López Obrador declaró recientemente que la guerra contra las drogas había terminado. “Debe haber paz”, afirma. López Obrador está considerando presentar una amnistía para pequeños delincuentes de drogas, incluidos los productores de amapola como Carlos y Mario Palacios. Deben recibir becas o capacitación como alternativa a una vida en el crimen.

La cannabis y posiblemente el opio sean considerados para su despenalización, aunque todavía se está investigando, comunica el gabinete del presidente. El gobierno anterior, no avanzó en la reducción de la violencia de las drogas, por el contrario, mantuvo una tendencia a la alza.

¿Quizás la guerra contra las drogas siempre ha sido un mito? Eso parece claro en el pueblo de Batopilas, en Chihuahua, donde vive el agricultor de amapola Pascual. Justo en el centro de la aldea, jóvenes sicarios armados, soldados de a pie en el negocio de las drogas, custodian la casa del jefe local. Otros patrullan en vehículos todo terreno o vigilan las carreteras de acceso.

Por 5.000 pesos al mes (256 dólares), los adolescentes son enviados, fuertemente armados, a luchar contra el enemigo del próximo municipio. La policía local no interviene. Los aldeanos saben que los agentes brindan servicios manuales y de emergencia cuando es necesario. Se supone que el ejército destruye las plantaciones de drogas.

“Pero si sale bien, puedes sobornarlos”, dice Pascual.

Esta situación es representativa de todo México. El presidente promete sacar la corrupción de raíz dando un buen ejemplo, pero en aldeas como esta, el inframundo de la corrupción y la política se fusionan a la perfección.

El bien intencionado López Obrador tendrá que realizar un milagro. Pero ¿legalizar el opio? “Tengo serias dudas”, dice el investigador francés Romain Le Cour, quien recientemente publicó un estudio sobre el colapso del mercado del opio en México.

“Una objeción a la legalización fue durante mucho tiempo que las grandes ganancias del circuito ilegal eran demasiado tentadoras y el plan no funcionaría”. Debido a que el precio ahora ha caído, la situación podría ser distinta.

Pastillas en la escuela

Más de 400 ciudades, condados y estados estadounidenses ahora esperan obtener indemnizaciones, a través de demandas interpuestas en tribunales en contra de las compañías farmacéuticas que prendieron la mecha en el barril de pólvora de los opioides.

Portland y el condado circundante de Multnomah también hicieron fila. La comisionada del condado Sharon Meieran, toma la iniciativa en esto. En la década de 1990, la doctora de emergencias de 54 años, fue testigo del enorme cambio de mentalidad que los agentes farmacéuticos lograron entre los médicos.

“De repente, en la universidad nos inculcaron que el dolor era y debería tratarse más, porque no era lo suficientemente reconocido”, recuerda Meieran.

Nunca se detendrá: los niños de Meieran de 12 y 15 años le dicen que hay muchas pastillas para el dolor y medicamentos contra la ansiedad en la escuela. A menudo son falsificados y contienen fentanilo, según informes de fuentes policiacas.

Aunque la Casa Blanca habla de una “emergencia de salud pública”, según los críticos, la respuesta deja mucho que desear. Bajo la presión del presidente Donald Trump, China prohibió recientemente la venta de fentanilo, pero no los materiales precursores para hacerlo: los grupos criminales mexicanas probablemente se hacen o se harán cargo de la producción.

Mientras tanto, la policía local de Portland se enfoca en combatir las sobredosis: sea quien sea quien vendió la dosis será juzgado como asesino. Los distribuidores, sin embargo, a menudo son adictos. Y cada vez más trabajan a través del llamado Dark Net, donde son más difíciles de detectar.

Los clientes que hacen pedidos en línea reciben sus medicamentos por vía postal, tal y como se cuenta en la serie de Netflix, ‘How to sell drugs (fast)’. “Tratamos de estar un paso adelante, pero en realidad siempre estamos dos atrás”, dice Art Nakamura, comandante de la unidad de drogas de la policía local. “Sí, las drogas provienen directamente de México a través de la autopista I-95”.

¿Pero, resulta posible hacer frente a los carteles?

Un usuario de heroína disfruta una dosis recostado en uno de los tantos puntos que hay en la frontera de Tijuana. Crédito: Arthur Debruyne/Pie de Página

“Bueno, son extremadamente inteligentes y bien organizados. Los traficantes no circulan en un automóvil vistoso ni con un sombrero de vaquero: se mantienen callados, se integran a la sociedad y mantienen bajo perfil”, admitió el agente de la DEA, la agencia contra las drogas estadounidense, Cam Strahm al final de una entrevista.

“La guerra contra las drogas es como apretar un globo: el aire sólo se mueve a otro lugar”. Los ambiciosos planes de López Obrador, de repente, suenan bastante ingenuos.

El presidente Trump acusa a México de la adicción de Estados Unidos. Los mexicanos, por otro lado, culpan de la violencia en su país a sus vecinos decadentes del norte quienes están involucrados masivamente en el consumo de drogas. “Ninguno se responsabiliza”, dice el investigador de drogas Froylán Enciso.

Pascual también se lava las manos: “En Estados Unidos venden más armas que Maseca y todo eso cruza la frontera (hasta 90 por ciento de las armas de fuego incautadas en México provienen del vecino del norte) ¿Crees que a ellos les importa?”.

Este artículo fue publicado originalmente por Pie de Página, un proyecto de Periodistas de a Pie . IPS-Inter Press Service tiene un acuerdo especial con Periodistas de a Pie para la difusión de sus materiales.

RV: EG

El artículo Drogas baratas desbancan a la heroína mexicana en Estados Unidos fue publicado originalmente en IPS Agencia de Noticias.

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Ocho obstáculos impiden desarrollo sostenible de América Latina

IPS español - qui, 03/10/2019 - 18:49

Susana, de 14 años, baña a su pequeño sobrino detrás de su vivienda en un barrio pobre de una gran ciudad brasileña. La pobreza y la desigualdad obstaculizan el desarrollo social y sostenible en América Latina. Crédito: Versiani/Unicef

Por Corresponsal Fao
MÉXICO, Oct 3 2019 (IPS)

Hay ocho frenos que impiden el desarrollo social de la región y que van desde la enquistada pobreza a la desigualdad crónica, pasando por la falta de inversión y los impactos del cambio climático, identificó la Comisión Económica para América Latina y el Caribe (CEPAL).

Para superarlos, la organización propone crear políticas centradas en los derechos y la igualdad, siguiendo los pasos marcados por la Agenda 2030 de desarrollo sostenible.

Los países de América Latina y el Caribe están ante el desafío de implementar la Agenda 2030 para el Desarrollo Sostenible en la búsqueda de un nuevo modelo de desarrollo basado en la igualdad, la inclusión social y laboral, la erradicación de la pobreza, la sostenibilidad ambiental y el crecimiento económico.

Hacer frente a este desafío implica impulsar las tres dimensiones del desarrollo sostenible: la social, la ambiental y la económica.

La CEPAL señala que lo social no se juega en lo social exclusivamente, sino también en la economía, la política y el medioambiente.

Durante la Tercera Reunión de la Conferencia Regional sobre Desarrollo Social de América Latina y el Caribe, que concluye este jueves en la Ciudad de México, el organismo de la ONU presentó un estudio, de 70 páginas, en el que identifica ocho obstáculos que impiden el desarrollo social en la región:

  1. La persistencia de la pobreza

En 2017, el número de personas en situación de pobreza en América Latina llegó a los 184 millones, equivalente al 30,2% de la población, de los cuales 62 millones, un 10,2%, vivían en la pobreza extrema.

Además, en 2016, el 41,7% de las personas ocupadas en América Latina recibían ingresos laborales inferiores a los salarios mínimos nacionales. Este porcentaje era especialmente elevado entre las mujeres jóvenes, un 60,3%.

Aunque, entre 2002 y 2014, la pobreza bajó del 44,5% al 27,8% y la pobreza extrema, del 11,2% al 7,8%; entre 2015 y 2016 se registraron aumentos sucesivos de ambos indicadores, lo que representó un retroceso significativo. Las cifras de 2017 revelaron un incremento adicional de la pobreza extrema y un estancamiento de la tasa de pobreza registrada en 2016.

A pesar de las diferencias que se observan de país en país, la pobreza presenta rasgos comunes en toda la región:

  • mayor incidencia entre las mujeres
  • mayor incidencia entre los menores
  • mayor incidencia entre las comunidades indígenas, afrodescendientes, campesinos y las personas con discapacidad
  1. Las desigualdades estructurales y la cultura del privilegio

“Los altos niveles de desigualdad existentes en la región conspiran contra el desarrollo y son una poderosa barrera para la erradicación de la pobreza, la ampliación de la ciudadanía, el ejercicio de los derechos y la gobernabilidad democrática”, asegura la CEPAL.

Y añade que “la desigualdad es una característica histórica y estructural de las sociedades latinoamericanas y caribeñas que se ha mantenido y reproducido incluso en períodos de crecimiento y prosperidad económica”.

Entre 2002 y 2017, la desigualdad en la distribución del ingreso, expresada mediante el índice de Gini del Banco Mundial -que mide la desigualdad de ingresos de los ciudadanos en un país-, se redujo de 0,534 a 0,466, lo que es un resultado significativo.

Sin embargo, el ritmo de la disminución entre 2014 y 2017 se ha ralentizado y, a pesar de los avances, América Latina y el Caribe continúa siendo la región más desigual del mundo.

Más allá del apartado económico, las desigualdades abarcan la desigualdad en el ejercicio de los derechos, las capacidades y los niveles de autonomía. También incluye la desigualdad de género, la étnica y raciales, y la territorial, entre otras.

Esas desigualdades se ven acentuadas y bloqueadas por la llamada cultural del privilegio que naturaliza las jerarquías sociales y las profundas asimetrías de acceso a los frutos del progreso, la deliberación política y los activos productivos.

  1. Las brechas en educación, salud y de acceso a servicios básicos

La CEPAL observa que, en las últimas décadas, América Latina ha experimentado importantes avances en ámbitos como la salud y la educación, así como en el acceso a la vivienda, los servicios básicos tales como el agua potable, la electricidad y el saneamiento, e internet.

Sin embargo, persisten las brechas. A nivel regional, 6 de cada 10 jóvenes de entre 20 y 24 años concluyeron la educación secundaria, lo que muestra una mejora desde comienzos de la década de 2000, pero que aún debe ampliarse para universalizar la conclusión de este nivel educativo. En ese sentido, es necesario fortalecer las estrategias para prevenir la temprana deserción del sistema escolar.

 

Además, la educación superior sigue reservada para una proporción reducida de la población: en promedio, en 2016, mientras que más de un 40% de los jóvenes de entre 25 y 29 años del quintil de mayores ingresos concluyeron al menos cuatro años de educación terciaria, solo el 3,6% de quienes pertenecen al quintil de menores ingresos alcanzaron ese nivel.

Lo mismo ocurre con la salud, donde los indicadores generales han mejorado, pero donde la región aún enfrenta grandes desafíos, especialmente con respecto a ciertas poblaciones.

Como ejemplo, la CEPAL señala que, en algunos países, la mortalidad infantil entre los afrodescendientes llegaba a ser hasta 1,6 veces mayor que la registrada en el caso de los no afrodescendientes, mientras que la tasa de mortalidad entre los niños indígenas casi duplica las de los no indígenas.

  1. La falta de trabajo y la incertidumbre del mercado laboral

“El trabajo es la llave maestra para la igualdad, el desarrollo personal y el crecimiento económico”, asegura el documento.

Sin embargo, la estructura y las dinámicas de los mercados de trabajo en la región siguen caracterizándose por su incapacidad para generar empleos productivos y un trabajo decente, rasgo que nuevamente hunde sus raíces en las profundas desigualdades de género, raza y edad.

En América Latina, los ingresos de los ocupados en sectores de baja productividad no alcanzan a la mitad de los que perciben los ocupados en los sectores de productividad media y alta. Además, la tasa de pobreza entre las personas ocupadas en empleos de baja productividad (30,4%) triplica la de los ocupados en empleos de alta productividad.

El desempleo juvenil es motivo de especial preocupación, mientras el trabajo infantil “representa una de las antítesis más claras de la noción de trabajo decente y un fuerte obstáculo para el desarrollo social inclusivo”.

Al reto de proporcionar mejores empleos, se añade ahora la incertidumbre que crea el impacto de los cambios tecnológicos. No obstante, puede ser un momento de oportunidad a condición de que se combine con políticas dirigidas a la promoción del trabajo decente.

  1. Acceso parcial y desigual a la protección social

A pesar de que la protección social es un derecho y es clave para eliminar la pobreza, que evita la marginación; y a pesar de los grandes avances registrados, la capacidad efectiva de los Estados de América Latina para proveer garantías universales de protección social a lo largo del ciclo de vida sigue siendo limitada.

La CEPAL destaca que la protección social representa una de las funciones más relevantes del gasto público, a la que en 2016 se destinó un monto equivalente en promedio al 4,1% del PIB, según datos de un conjunto de 17 países de América Latina y el Caribe.

También se ha hecho un gran esfuerzo en la afiliación o cotización a sistemas de salud de los ocupados de más de 15 años, ya que entre 2002 y 2016, aumentó del 36,8% al 57,3% en 14 países.

No obstante, los avances, persisten las brechas de cobertura, sobre todo entre los trabajadores pertenecientes a los estratos de ingreso más bajos, aquellos que viven en zonas rurales y las mujeres.

Por ejemplo, en 2016, mientras que el 65,1% de los ocupados de 15 años y más del quintil de mayores ingresos estaban afiliados o cotizaban a un sistema de pensiones, solo el 19,4% de los ocupados del primer quintil de ingresos estaba en esa situación, proporción que se reducía al 16,3% en el caso de las mujeres de este grupo.

  1. La institucionalización de política social aún en construcción

Desde el punto de vista de la Agenda 2030, la institucionalidad es el marco en el que deberían expresarse los compromisos para su cumplimiento, a través de la implementación de políticas a largo plazo y con amplia legitimidad social.

Esto, sin embargo, está lejos de ser una realidad, y más bien constituye un proceso en curso en la mayoría de los países de la región.

“En muchos casos, las políticas y programas sociales en general, y la protección social en particular, descansan sobre bases institucionales frágiles y están sujetas a cambios abruptos de orientación, a una limitada capacidad de coordinación entre los actores gubernamentales relevantes y a poca claridad en sus objetivos y alcance”, explica la CEPAL.

  1. Una inversión social insuficiente

Financiar las políticas sociales es un factor clave para el logro del desarrollo social inclusivo, así como transformar la idea de gasto corriente en la de inversión social.

Un elemento clave para destinar recursos a políticas sociales es la carga tributaria. En 2017, los ingresos tributarios totales en América Latina y el Caribe ascendieron al 22,8% del PIB, en comparación con un promedio del 34,2% del PIB en el caso de los países de la OCDE.

Además de aumentar la tributación, parte del problema del financiamiento de las políticas sociales podría resolverse mejorando la efectividad de la recaudación.

Este es un gran desafío para la región, considerando que el nivel de evasión fiscal en América Latina ascendió a un total del 6,3% del PIB, el equivalente a un total de 335.000 millones de dólares en 2017.

“Si los países pudieran reducir una parte de este incumplimiento, esos ingresos adicionales podrían dar un ímpetu importante para lograr las metas sociales y económicas incorporadas en los Objetivos de Desarrollo Sostenible”, resalta la CEPAL.

  1. Obstáculos emergentes

A los obstáculos anteriores, la CEPAL añade cinco trabas emergentes para el de desarrollo social:

  1. La violencia: América Latina y el Caribe es la región más violenta del mundo, algo inesperado dado su nivel de desarrollo económico, político y social. Por ejemplo, la tasa de homicidios de la región es cinco veces mayor que el promedio mundial. La violencia no solo se refiere a homicidios, sino también a otras expresiones de violencia, como asaltos e incidentes de violencia sexual
  2. Los desastres naturales y el cambio climático: La mayor frecuencia con que ocurren desastres naturales y fenómenos extremos relacionados con el calentamiento global hace que sea indispensable diseñar estrategias para reducir la exposición de la población.
  3. La transición demográfica: Si bien existen grandes diferencias entre los países de la región respecto del descenso de la fecundidad, las tasas de fecundidad pasaron de un promedio de 5,5 hijos por mujer entre 1965 y 1970 a 2,05 hijos entre 2015 y 2020. Al proyectar estas tendencias, se espera que en el futuro las tasas de dependencia aumenten debido al incremento en la proporción de personas mayores.
  4. Las migraciones: Las nuevas presiones en el entorno mundial, comenzando por la actual política migratoria estadounidense, han imprimido mayor urgencia a esta temática. A su vez, la región no está exenta de flujos migratorios forzados por desastres naturales y climáticos poco predecibles, así como por crisis económicas e inestabilidad política.
  5. Los cambios tecnológicos: Las transformaciones tecnológicas están teniendo notables efectos en la educación y la formación. De no universalizar el acceso para aprovechar las nuevas herramientas, continuará reforzándose la desigualdad.

Al concluir la reunión de la Conferencia Regional en México, aprobaron una agenda regional encaminada a avanzar hacia la implementación de la dimensión social de la Agenda 2030.

Alicia Bárcena, Secretaria Ejecutiva de la CEPAL, señaló que “América Latina y el Caribe tiene que demostrarle al mundo que tiene un compromiso profundo con el desarrollo social, con el combate a la desigualdad, a la pobreza y a la pobreza extrema, a pesar de los problemas, obstáculos y dilemas económicos, políticos y sociales por los que atravesamos”.

Bárcena enfatizó que “no podemos bajar la guardia porque la economía nos está imponiendo restricciones muy severas. Los programas sociales deben seguir siendo prioridad para los países de nuestra región”.

Este artículo fue publicado originalmente por la Organización de Naciones Unidas (ONU)

RV: EG

El artículo Ocho obstáculos impiden desarrollo sostenible de América Latina fue publicado originalmente en IPS Agencia de Noticias.

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Can we feed the world and ensure no one goes hungry?

UN SGDs - qui, 03/10/2019 - 17:48
Enough food is produced today to feed everyone on the planet, but hunger is on the rise in some parts of the world, and some 821 million people are considered to be “chronically undernourished”. What steps are being taken to ensure that everyone, worldwide, receives sufficient food?
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Revancha militar contra la redemocratización de Brasil

IPS español - qui, 03/10/2019 - 12:36

Con postura marcial, el presidente Jair Bolsonaro (segundo a la izquierda), rodeado de dos generales retirados con papel clave en su gobierno: el vicepresidente Hamilton Mourão (primero a la izquierda) y el ministro Jefe del Gabinete de Seguridad Institucional, Augusto Heleno Pereira. El militar uniformado es jefe de la guardia presidencial. Detrás, a la derecha, Gustavo Bebbiano, ex secretario general de la Presidencia, también con rango de ministro, destituido el 18 de febrero por discrepancias con un hijo de Bolsonaro. Crédito: Carolina Antunes/PR-Agência Brasil

Por Mario Osava
RÍO DE JANEIRO, Oct 3 2019 (IPS)

A estas alturas es evidente que Jair Bolsonaro mantiene, como presidente, las convicciones antidemocráticas y retrógradas de las que hizo gala durante sus 30 años de vida parlamentaria y que ahora ponen a prueba el ciclo de redemocratización de Brasil.

Los brasileños, acostumbrados a su beligerante respaldo a la dictadura militar, que rigió el país entre 1964 y 1985, y a su represión sustentada en la tortura, poco se sorprenden por esos reiterados alegatos  que contradicen su promesa de “gobernar para todos” durante el discurso de posesión del pasado 1 de enero.

Para los extranjeros su discurso quizás suena más asustador al alabar la dictadura chilena del general Augusto Pinochet (1973-1990), y otros golpes militares que, a su juicio, habrían evitado el comunismo en América Latina, así como su calificación “de izquierda” al nazismo que exterminó millones de judíos en Alemania.Por sus pronunciamientos, Bolsonaro parece encarar su llegada al palacio presidencial de Planalto como una revancha, no solo contra los civiles que rescataron la democracia, tildados todos de izquierdistas o socialistas, sino también contra lo que ojos radicales del estamento castrense consideraron una rendición de los militares.

En su opinión, como la de otros militares que ocupan un tercio de los ministerios del gobierno de extrema derecha, no hubo dictadura en Brasil ni golpe militar en 1964, sino que lo que existió fue un movimiento que logró impedir el fin de la democracia.

“Vencimos aquella guerra y resguardamos nuestra libertad”, dijo Bolsonaro en su discurso inaugural en la Asamblea General de las Naciones Unidas el 24 de octubre, sin referirse claramente al golpe. Atribuyó a “agentes cubanos” el intento de diseminar dictaduras por el continente.

Esa guerra prosigue contra el “socialismo” que, en su opinión, era la ideología de todos sus antecesores en la presidencia y que “se instaló en el terreno de la cultura, de la educación y dominó los medios de comunicación, universidades y escuelas”, en busca  del “poder absoluto”.

Pretende revivir la Guerra Fría, en que todo vale contra el comunismo ahora referido como “socialismo”, “marxismo cultural” o “globalismo” para no parecer tan arcaico y justificar sus ataques contra el periodismo, las artes, la enseñanza pública y el feminismo.

El ascenso de Bolsonaro, quién dejó el Ejército en 1988 como capitán para convertirse en diputado municipal y luego nacional, sin alejarse nunca de los cuarteles, representó una redención de los militares, antes rechazados como dictatoriales y responsables de la crisis económica de la “década perdida” de los 80.

Marginados de la política de redemocratizar el país iniciada en 1985, los militares volvieron ahora al poder con siete ministros y centenares de oficiales en todos los sectores del gobierno, además de la vicepresidencia.

El triunfo electoral del excapitán obedeció en gran parte a la popularidad recuperada por las Fuerzas Armadas, ante las frustraciones entre los 210 millones de habitantes de este país por los siete gobiernos civiles, especialmente por la corrupción desnudada en los últimos cinco años, que ha involucrado a centenares de políticos.

Una coyuntura probablemente única le permitió a Bolsonaro combinar en su candidatura la nostalgia de un pasado militar de prosperidad, sin corrupción visible, la reacción conservadora en costumbres, una religiosidad agresiva encabezada por las iglesias evangélicas y el liberalismo económico.

El presidente Jair Bolsonaro, cuando abrió la lista de oradores en la 74 sesión de la Asamblea General de las Naciones Unidas, el 24 de septiembre. Allí sorprendió a la audiencia al asegurar que la Amazonia está “prácticamente intacta” y negar el repunte de su deforestación en este año tras un gran esfuerzo para su reducción por los gobiernos anteriores, desde 2004. En su comitiva incluyó una indígena que presentó como lideresa, aunque carezca de legitimidad dentro de las organizaciones indígenas, en una maniobra que agrava los conflictos de su gobierno conlos pueblos originarios. Crédito: Alan Santos/PR-Agência Brasil

Por sus pronunciamientos, Bolsonaro parece encarar su llegada al palacio presidencial de Planalto como una revancha, no solo contra los civiles que rescataron la democracia, tildados todos de izquierdistas o socialistas, sino también contra lo que ojos radicales del estamento castrense consideraron una rendición de los militares.

La devolución del gobierno a los civiles fue un proceso de “apertura lenta, gradual y segura”, decidida y manejada por el grupo militar que ascendió al poder en 1974, bajo la presidencia del general Ernesto Geisel (1974-1979), y concluida por su sucesor, el general João Batista Figueiredo (1979-1985).

No fue una simple renuncia a la dictadura. En 1974, la oposición había logrado una aplastadora votación en las elecciones legislativas, permitidas con restricciones por el régimen militar. Además, la economía empezaba a sufrir efectos del primer brutal incremento de los precios petroleros en 1973.

Pero sectores que Geisel definió como “bolsones radicales pero sinceros” se opusieron a la redemocratización. La lucha interna entre los militares tuvo un desenlace en 1977 con la destitución del ministro del Ejército, el general Sylvio Frota, líder de los que pretendían seguir con la represión pura y dura contra sus opositores.

La muerte bajo tortura de dos presos políticos, el periodista Wladimir Herzog y el obrero Manoel Fiel Filho, en octubre de 1975 y enero de 1976, en el Centro de Operaciones de Defensa Interna (Codi), vinculado al Ejército en São Paulo, decidió a Geisel a extirpar el foco de resistencia a su apertura en 1977.

Las biografías y declaraciones de Bolsonaro y sus generales allegados dejan claro que pertenecen al grupo derrotado. Volver al poder ahora, de alguna manera, es saldar cuentas con el pasado, incluso en el ámbito interno castrense.

El general retirado Augusto Heleno Pereira, ministro jefe del Gabinete de Seguridad Institucional y considerado en más cercano al presidente, fue edecán del general Frota cuando este era ministro del Ejército.

El presidente Jair Bolsonaro conversa con el general Eduardo Villas Bôas, que dejó el comando del Ejército el 11 de enero para convertirse en asesor del Gabinete de Seguridad Institucional, cuyo jefe es otro general retirado, Augusto Heleno Pereira. Villas Bôas sufre de esclerosis múltiple, enfermedad degenerativa que le obliga a usar silla de ruedas. Tuvo un papel importante en la elección del presidente, como garantía de respaldo militar y de anticorrupción, un factor decisivo en el triunfo electoral del capitán retirado Bolsonaro. Crédito: Valter Campanato/Agência Brasil

Tanto Bolsonaro como su vicepresidente Hamilton Mourão, general retirado, celebran como “héroe” al coronel Carlos Brilhante Ustra, muerto en 2015, jefe del Codi de São Paulo donde murieron por lo menos 47 presos políticos, según la Comisión Nacional de la Verdad que, entre 2012 y 2014, investigó crímenes de la dictadura.

Diferentes Codi, creados en varias capitales brasileñas con una mezcla de militares y policías, constituían una fuerza irregular con licencia para torturar y matar “subversivos”. Operaban por encima de la jerarquía, con pequeños equipos comandados por capitanes.

De esos grupos salieron militares que pasaron a la criminalidad o cometieron atentados terroristas para sabotear la transición democrática. En uno de esos casos una bomba mató a una secretaria del Colegio de Abogados de Brasil. En otro resultó muerto un sargento y un capitán del Ejército fue herido, al estallar en su automóvil la bomba destinada a un espectáculo musical.

La contundente defensa de la dictadura, cuyo error “fue torturar en lugar de matar” unos 30.000 opositores, según dijo en el pasado, vincula a Bolsonaro con el espíritu de esos grupos irregulares que actualmente se repiten en las milicias parapoliciales.

Otras declaraciones suyas, ya como presidente confirman que sus creencias son profundas y persistentes, enraizadas en su formación como oficial del Ejército entre 1974 y 1977, en la Academia Militar das Agulhas Negras, en Resende, a 165 kilómetros de Río de Janeiro.

La mayoría de los generales que el presidente designó como ministros, al igual que el vicepresidente Mourão, se graduaron en la misma Academia entre 1969 y 1977, el período más brutal de la dictadura, en término de encarcelamientos, torturas, “desaparecidos” políticos y exilio forzado.

Según la Comisión de la Verdad, durante el régimen militar hubo al menos 434 muertos y desaparecidos políticos, además de decenas de miles de personas encarceladas y torturadas y unos 10.000 opositores exiliados.

Hay cierta comunión de opiniones entre esos altos oficiales que permanecen en altos cargos. Otros generales, todos ya retirados, que no comparten el extremismo, fueron siendo destituidos tras algunos meses en ministerios o funciones de alto rango en el gobierno.

Es muy reveladora, en ese sentido, una frase de Bolsonaro durante la campaña electoral a la presidencia.

Su meta es “un Brasil similar al que teníamos hace 40 o 50 años atrás”, dijo el 15 de octubre de 2018 en una entrevista en una radio de Barretos, una ciudad del estado de São Paulo.

Ese pasado utópico coincide con los años de prosperidad económica, pero también de la represión más violenta, la imposición de la familia tradicional y de la violencia brutal contra la diversidad sexual y la población afrobrasileña.

Los indígenas recién comenzaban entonces su afirmación étnica y cultural que Bolsonaro ahora quiere borrar, con el argumento, calificado de etnocida por especialistas, de que “somos todos iguales”.

Edición: Estrella Gutiérrez

El artículo Revancha militar contra la redemocratización de Brasil fue publicado originalmente en IPS Agencia de Noticias.

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“Práticas de violência se multiplicaram em 2019”, diz coordenador do Cimi

Pública - qui, 03/10/2019 - 12:23

Roberto Antônio Liebgott, coordenador do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), regional sul, e membro da comissão que organizou o relatório “Violência contra os Povos Indígenas do Brasil – Dados 2018”, lançado há alguns dias, não tem dúvida: a ausência do Estado na proteção dos territórios está submetendo algumas etnias indígenas ao “risco de extermínio”.

Em entrevista à Agência Pública, Liebgott diz que os 160 casos de invasão registrados neste ano afetaram 153 territórios em 19 estados. O balanço mais novo do Cimi, grupo que faz parte da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), mostra ainda que o garimpo é o carro-chefe dos problemas no agravamento da ofensiva sobre as terras indígenas, além de invasões, roubo de madeira e minérios, grilagem e até mesmo loteamentos.

Segundo Liebgott, “a perspectiva do governo é a da desterritorialização”, ou seja, fazer com que as terras que são de usufruto dos indígenas passem a usufruto de terceiros. “Tudo aquilo que é patrimônio público passou a ser visto como lugar de especulação, de exploração, em função justamente desse aval do governo”, afirma Liebgott em referência às declarações do presidente Jair Bolsonaro nesta semana em seu lobby pela mineração, incentivando ilegalidades nas terras indígenas: “O interesse na Amazônia não é no índio nem na porra da árvore. É no minério!”, disse o presidente a garimpeiros de Serra Pelada em Brasília.

Para o coordenador do recente relatório de violência contra os indígenas, Bolsonaro faz esse discurso pra desviar o foco. “Na verdade, o que ele está propondo é que segmentos se aglutinem nos garimpeiros, comecem a adentrar nos territórios, abrindo caminho para depois entrarem as mineradoras. É o mesmo processo que se faz com o desmatamento. Você entra, derruba a árvore, queima a árvore, depois entra o fazendeiro ou aquele que vai fazer a especulação imobiliária. No caso do garimpo é o mesmo processo.”

Fonte: Cimi

Neste imagem: Para o coordenador do Cimi da região sul, Roberto Antônio Liebgott, o Estado age de forma truculenta contra os povos indígenas

Quais as principais conclusões do relatório?

Na nossa avaliação, já nos dois últimos anos, emendando com o ano de 2019, houve uma mudança bem grande quanto ao papel do Estado na relação com os povos indígenas. Não que não houvesse invasões e violência nos territórios. Havia. Mas da parte do Estado havia um discurso e uma perspectiva da legalização da exploração, vamos assim dizer. E também havia por parte do Estado uma perspectiva de manutenção de direitos dos povos no que se refere às diferenças, às políticas públicas diferenciadas. Foi se construindo ao longo de muitas décadas essa perspectiva, e o Estado seguia essa lógica.

Nos dois últimos anos e agora, já em 2019, está se percebendo que o Estado age de forma truculenta contra os povos indígenas. Primeiro com o discurso muito voltado para uma perspectiva integracionista, ou seja, essa perspectiva de que os índios precisam se integrar à sociedade, para que eles tenham possibilidade de existência.

E a segunda que nós avaliamos é a perspectiva da desterritorialização dos povos, ou seja, o Estado passa a agir, através de seus governantes, no sentido de favorecer aqueles setores que desejam explorar os territórios dos povos indígenas. Abre-se mão de uma perspectiva legalista das coisas e o Estado passa a agir de forma criminosa.

A partir dos discursos dos governantes, há uma autorização para que setores ligados ao garimpo, à exploração de madeireira, à pesca predatória, enfim, uma série de setores da sociedade, que passam a agir de forma aberta, mas criminosa, com o aval do Estado.

E o Estado vai esvaziando seus órgãos de proteção e fiscalização. Então você passa a ter uma Funai absolutamente fragilizada, sem recursos, sem capacidade de atuar. Os outros órgãos do meio ambiente vão na mesma linha de desmonte. É o Estado nessa perspectiva de favorecer que as terras estejam disponíveis não mais para os povos indígenas, mas para esses especuladores e predadores da natureza.

Em relação a números. A que conclusões vocês chegaram?

Tem alguns tipos de violência que se mantêm ao longo das décadas. Os assassinatos não mudaram muito. Esse ano de 2018 nós tivemos um índice muito elevado de assassinatos em Roraima, por exemplo. Como esses dados são oficiais, eles não qualificaram os dados, ou seja, não dizem em que circunstância aconteceu.

A gente tem uma leitura, em Roraima, de que esse aumento de assassinatos se dá em função da ofensiva garimpeira no território Yanomami. Há milhares de garimpeiros explorando garimpo na área Yanomami. No nosso modo de ver, há esse vínculo no contexto de avanço e invasões desse território. No Mato Grosso do Sul, mantêm-se mais ou menos os mesmos índices de assassinato. São os dois estados [em] que mais ocorreram [mortes].

E no Mato Grosso do Sul também são duas realidades distintas. Uma, a realidade, principalmente do povo Terena e dos Guarani Kaiowá, que é a da ofensiva da conquista das terras. Então eles sofrem todo tipo de pressão contrária, e isso leva a conflitos, confrontos e assassinatos.

Mas tem também a outra realidade, que é a de confinamento de um grande contingente populacional do povo Guarani Kaiowá em reservas criadas ainda na época do Serviço de Proteção aos Índios [SPI], em 1930, 1940. Essas pessoas foram levadas para dentro das reservas, que estão superpopulosas, e não havia critério algum, eles simplesmente despejavam as pessoas. Não levavam em conta o modo de ser de quem estava sendo levado pra lá, a cultura, a religiosidade. Colocaram todos no mesmo espaço. E hoje essas reservas estão superpopulosas, e aí se tem conflitos entre grupos que lá vivem e há, também, uma falta grande de perspectiva, porque parece não haver saída, esperança, nesse ambiente de confinamento. É um contexto de violência que é originário nesses espaços.
De modo geral, é isso. Amazonas teve alguns assassinatos; na Bahia, em Pernambuco, se mantém mais ou menos o nível de anos anteriores.

O que aumentou dramaticamente são as invasões dos territórios para exploração madeireira e também para instalação de fazendas e para loteamento. Isso sim aumentou dramaticamente nos anos de 2017, 2018, e já em 2019 duplicou. Em termos de dados, desde janeiro até agora, período do governo Bolsonaro, o aumento das invasões foi dramático, porque se passou a entrar nas áreas indígenas sem nenhum tipo de fiscalização. E aí, com a prática criminosa, além da derrubada da madeira, com as queimadas, causando uma devastação sem precedentes na história do Brasil.

Em relação aos casos de invasão, por que aumentaram e o que mudou na forma como esses invasores têm agido?

Porque há um discurso da parte dos governantes de que as Tis [Terras Indígenas] precisam ser exploradas e você não tem ninguém que fiscalize. Então você autoriza que os especuladores, os garimpeiros, os madeireiros, fazendeiros passem a entrar nos territórios sem nenhum tipo de controle da parte do Estado. Por isso a gente diz que a perspectiva estatal, hoje, é da desterritorialização, ou seja, é fazer com que as terras que são de usufruto dos indígenas passem a usufruto de terceiros.

Uma das coisas que vocês falam, tanto no relatório quanto no texto que saiu no site, é em relação a uma mudança de postura dos invasores, que antes invadiam, tiravam o que queriam e saíam, mas que hoje têm permanecido. Você pode explicar?

Tinha uma forma predatória de uso da terra: se tirava a matéria-prima e ia embora. O que acontece hoje: você tem uma primeira ofensiva que é a retirada da madeira, a segunda ofensiva que é a queimada das áreas, e depois eles começam já a ocupar o território, tomam posse do território.

Para dois objetivos que nós percebemos: o primeiro é para transformar essas áreas queimadas em fazendas, para o plantio do pasto e a criação do boi. Ou, em alguns casos, para loteamento e venda dessas áreas. A gente sabe que as vendas são ilegais, mas têm pessoas já, ligadas a um setor do crime, da especulação, que em Rondônia e no Pará estão vendendo as áreas indígenas. O Estado que é o incentivador disso.

E há que se ter cuidado no seguinte: as terras indígenas são patrimônio da União. Aos povos indígenas cabe o usufruto dessa área, mas a propriedade, não. Os povos não podem arrendar, não podem trocar, não podem vender as terras, porque elas são um bem público, um bem da União. E o que o Estado faz? O Estado promove a depredação do seu próprio patrimônio, nessa perspectiva de transformar as invasões em fato consumado. Ou seja, depois de invadida, depredada, desmatada, a terra não tem mais aspectos de proteção, então ela pode ser usada para agropecuária, para agricultura, para loteamento, para assentamento de famílias, enfim. É a desterritorialização: você tira os índios da posse e coloca outros em seu lugar.

Fonte: Reprodução

Neste imagem: O relatório “Violência contra os Povos Indígenas do Brasil – Dados 2018”, organizado pelo Cimi, mostra aumento do número de indígenas assassinados de 2017 para 2018

Você falou sobre os casos de assassinato, que cresceram principalmente em Rondônia. Em relação aos casos de invasão, onde eles aumentaram mais e por quê?

Aumentou muito dramaticamente no estado do Pará, no estado do Maranhão, no Acre, Amazonas e Mato Grosso. Nesses estados a gente percebeu um avanço brutal desses invasores sobre os territórios indígenas, assim como também em áreas de proteção ambiental, parques, unidades de conservação. Tudo aquilo que é patrimônio público passou a ser visto como lugar de especulação, de exploração, em função justamente desse aval do governo.

E saberia dizer por que nesses estados esse avanço foi mais significativo?

Porque são os lugares onde há mais madeira, onde há mais mata, mais minério, ouro, diamante, enfim. É no estado do Pará, em Rondônia, em Roraima. No Mato Grosso, é mais uma ofensiva para especulação madeireira e da instalação de fazendas para plantio de soja, criar gado. Então você tem várias facetas desse processo de invasão, mas todos eles são na perspectiva do uso dos bens naturais e da terra.

Tem algum lugar em que a situação melhorou?

Em quase lugar algum. Porque, por exemplo, no Sul do país, no Sudeste, onde as áreas são menores, os indígenas sofrem o mesmo impacto. Primeiro porque o órgão indigenista está sucateado, então não garante nenhum tipo de assistência às comunidades. E segundo porque não se demarca mais Terra Indígena alguma. Então as comunidades vivem em situação de vulnerabilidade, em pequenas áreas degradadas ou nas áreas de rodovias, em algumas áreas de parque. Não há nenhuma melhora significativa porque a política indigenista ficou muito fragilizada nesses dois últimos anos de governo Temer e agora com o governo Bolsonaro. Ele faz isso exatamente para impedir o avanço das demarcações de terra e para liberar os territórios reivindicados pelos indígenas para a iniciativa privada, para a exploração agrícola ou para a especulação.

A gente tem aqui um projeto chamado Amazônia sem Lei, e o nosso objetivo é fazer a cobertura de conflitos por terra, em especial na Amazônia Legal. A gente acaba cruzando, em muitos momentos, com conflitos relacionados a Terras Indígenas. Na Amazônia Legal a situação é a mais complicada?

Sim, até a gente usou uma metáfora no relatório, de que a fotografia do Sul e do Sudeste é mais ou menos o objetivo que se pretende para a Amazônia. Ou seja, desmatar, depredar. É aquela expansão violenta de setores que pretendem tirar toda a madeira, o minério.

Que terras você destacaria que correm mais perigo, que têm a situação mais complicada hoje?

É a Munduruku, no Pará. Em Rondônia, a Yanomani. No vale do Javari [AM] são vários povos que lá estão, têm os Korubo, tem povos isolados, tem os Kanamari. São muitos povos afetados. Só na terra Munduruku, pelos dados que a gente levantou, existem hoje mais de 500 garimpos. Em Rondônia, praticamente todos os povos estão sendo dramaticamente afetados, o povo Uru-Eu-Wau-Wau, por exemplo, está tendo seu território todo invadido. O povo Enawenê-nawê, o povo Myky, no Mato Grosso. Os Karipuna, no estado de Rondônia, estão entre os povos que estão sendo drasticamente impactados pelo processo de invasão e loteamento dos territórios. Ali é uma realidade semelhante à de outras terras tanto em Rondônia como também no Mato Grosso, no Pará, no Acre, em que os invasores parecem se sentir autorizados a adentrar nas TIs e praticar todo tipo de violência e depredação.
Os Karipuna já denunciaram a sua dura realidade em âmbito internacional, junto à OEA, à CIDH e também à ONU, e estão num processo de articulação com outros povos do Brasil para que todos possam acompanhar a realidade deles. São um povo muito pequeno, por isso esse processo de invasão no território deles coloca em risco a própria sobrevivência desse povo. Os dados que nós demos agora [2019] é de 153 áreas indígenas invadidas, quase todas elas na Amazônia, para exploração madeireira e garimpeira. São pelo menos 150 povos sendo afetados drasticamente por esse processo de invasão.

E em relação aos povos isolados?

Os povos em situação de isolamento e risco, que denominamos povos livres, porque são aqueles que não querem estabelecer nenhum tipo de contato com a nossa sociedade, são talvez os que estão sendo mais violentamente afetados, porque quem fazia a proteção dos territórios era a Funai, através de uma frente de proteção a esses povos. Essa frente está praticamente esvaziada. Pelas informações que a gente recebe, percebemos que os territórios onde vivem essas comunidades em situação de isolamento estão sendo invadidos por todo tipo de grupos, garimpeiros, pescadores, caçadores, madeireiros, porque estão vulneráveis em função da ausência do Estado no exercício da proteção dos territórios, do controle, da fiscalização – estão submetidos, então, ao risco de extermínio. É necessário que as autoridades se voltem para essa realidade. Pelos dados do Cimi, são mais de cem grupos que vivem nessa situação de isolamento, e as frentes de expansão econômica chegam cada vez mais perto, e eles são obrigados a se locomover nos limites das áreas que eles conhecem, que dominam, e se deparam já com as suas riquezas degradadas, depredadas. Faltará qualquer tipo de expectativa no futuro se não houver uma ação imediata do Estado para reorganizar as frentes de proteção dos territórios desses povos.

Esses retrocessos se limitam às invasões e aos homicídios?

A gente percebe, por exemplo, nas políticas públicas, uma fragilização das ações por parte do Estado, especialmente na saúde. Nesses dois últimos anos, os povos vêm sofrendo muito com a falta de assistência, especialmente porque o programa Mais Médicos foi extinto, e quem assegurava a assistência direta nas comunidades eram os médicos ligados a esse programa. Tem um vazio de servidores públicos nessa área da saúde, e os médicos não foram repostos. Acabou o programa, e a gente percebe, em todas as regiões do Brasil, que não há médicos para atender as comunidades indígenas. Isso obriga as pessoas a se deslocarem, às vezes, de suas áreas para a cidade, e são viagens muito longínquas, causando muito sofrimento não só para o doente, mas para as famílias que são obrigadas a se deslocar. A fragilização da política de saúde tem gerado nos povos indígenas um sentimento de insegurança muito grande em relação ao futuro.

Há fragilidade também na área de educação. Os prédios das escolas indígenas estão comprometidos, uma precariedade de infraestrutura, falta de professores. É bem dramática a questão das políticas públicas. O que também está sendo paralisada é a política de benefícios sociais para as comunidades que estavam em situação de vulnerabilidade.

Você tinha distribuição de alimentos, investimento em projetos alternativos para subsistência das famílias, e isso tudo foi paralisado. Então, volta-se a ter fome em muitas áreas indígenas. Provavelmente, no relatório que nós vamos lançar com relação aos dados deste ano, essa questão da desassistência vai aparecer muito fortemente.

Quais as perspectivas que vocês têm para os dados deste ano?

Nós temos uma metodologia assim: a gente recebe as informações dos missionários que atuam em áreas, informações das organizações indígenas, das comunidades, também informações do Ministério Público Federal, e depois nós vamos tentar obter as informações oficiais, os dados, por exemplo, da Secretaria Especial de Saúde Indígena, a que a gente só vai ter acesso ano que vem. Os dados que nós estamos obtendo hoje, de missionários, de indígenas, já dão conta de que as práticas de violência se multiplicaram em 2019, exatamente por conta desses dois objetivos que o governo tem. O primeiro é o esvaziamento da política que fortalece a perspectiva da diferença, para uma perspectiva integracionista. E, em segundo, a perspectiva que o Estado tem de explorar os territórios indígenas pela iniciativa privada. E vão, já estão fazendo, tentar impor medidas administrativas, através de decretos, portarias e de projetos de lei para viabilizar a exploração dos territórios indígenas.

Bolsonaro afirmou nesta semana que “o interesse na Amazônia não é no índio, nem na porra da árvore, é no minério”. O garimpo é um dos carros-chefes do retrocesso nas terras indígenas?

O garimpo é o carro-chefe, esse discurso foi feito para garimpeiros. O Bolsonaro, já como deputado, era propagador do discurso anti-indígena no Congresso Nacional.

Por que é o garimpo o carro-chefe? Porque a exploração minerária, do minério que está no subsolo, não pode acontecer sem que haja autorização do Congresso Nacional, através de uma lei que regulamente a exploração minerária. O Bolsonaro sabe disso, então ele faz esse discurso para desviar o foco, mas, na verdade, o que ele está propondo é que esses segmentos se aglutinem nos garimpeiros, comecem a adentrar nos territórios, abrindo caminho para depois entrarem as mineradoras. É o mesmo processo que se faz com o desmatamento. Você entra, derruba a árvore, queima a árvore, depois entra o fazendeiro ou aquele que vai fazer a especulação imobiliária. No caso do garimpo, é o mesmo processo. Entra o garimpeiro, faz o garimpo do minério que está sobre a terra e depois entram as mineradoras, exatamente para fazer a exploração minerária no subsolo.

Só que para isso precisa de medidas legislativas que não existem no momento, então o Bolsonaro propõe a invasão por garimpeiros e, enquanto isso, eles vão construir os caminhos legislativos para viabilizar a exploração minerária por empresas, especialmente canadenses e americanas.

De que forma o CIMI e outras instituições ligadas aos direitos indígenas têm atuado?

A gente tem três objetivos fundamentais. Primeiro é a denúncia desses fatos para chamar atenção da sociedade, dos organismos nacionais e internacionais em defesa dos direitos indígenas e dos direitos humanos, para que tanto a sociedade quanto esses organismos conheçam a realidade e possam se manifestar, se posicionar e cobrar medidas do Estado brasileiro. O segundo eixo dessa ação é, aqui no Brasil, a gente trabalhar junto aos poderes públicos, para que haja, da parte do Judiciário e do Legislativo, ações e medidas para impor limites. Especialmente agora ao governo Bolsonaro, nessa sua saga devastadora. Há que se ter limites, e são os limites legais, previstos na Constituição, então que haja, do Judiciário e do Legislativo, medidas que coíbam essas ações predatórias do governo brasileiro.

E um terceiro é a gente fomentar espaços de debate, de articulação e de mobilização dos povos indígenas nesse momento difícil. E, também, em articulação com outros setores da sociedade, como quilombolas, pequenos agricultores, outras comunidades tradicionais, o movimento dos trabalhadores rurais, as igrejas que têm uma preocupação social e com os direitos humanos. Enfim, uma série de segmentos da sociedade, para que se crie uma grande mobilização para denunciar esses fatos e tentar impor limites a essas ações do governo federal.

O Sínodo da Amazônia [reunião de bispos convocada pelo papa Francisco que discutirá o papel da Igreja nos nove países da região], que vai acontecer a partir de domingo, entra nessa lógica?

O Sínodo da Amazônia provavelmente será um espaço onde esse tema ambiental, indígena e de direitos humanos vai ser posto em discussão. Ao redor do sínodo também vão ser concebidos vários movimentos de discussão sobre esse contexto brasileiro, e de lá, provavelmente, sairão manifestações políticas e manifestações também no sentido de cobrar medidas aqui no Brasil para combater a violência que está sendo praticada.

O artigo “Práticas de violência se multiplicaram em 2019”, diz coordenador do Cimi apareceu pela primeira vez na Agência Pública.

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Tuesday’s Daily Brief: Greek island shelter crisis, only 8 per cent of UNGA speakers women, Russian alcohol laws extending lives, Older Persons Day

UN SGDs - ter, 01/10/2019 - 15:19
Tuesday’s top stories: Greece urged to fast-track asylum-seekers as 1,000 die on the Mediterranean; just 16 women addressed UN General Assembly; less alcohol means longer lives in Russia; cholera campaign in Sudan; standing up for older people on international day.
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Athens urged to fast track asylum seekers amid island shelters crisis – UNHCR

UN SGDs - ter, 01/10/2019 - 13:35
A spike in the number of refugees reaching Greek island reception centres is likely to worsen the situation in already “dangerously overcrowded” facilities there, the UN refugee agency said on Tuesday.  
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Sob o cerco da soja

Pública - ter, 01/10/2019 - 12:01

Na região do planalto santareno, zona rural de Santarém (PA), comunidades indígenas e quilombolas lutam pela demarcação de suas terras enquanto as plantações de soja e milho corroem o restante de mata nativa que resta na região e a demarcação das terras caminha a passos lentos. Além das lavouras de grãos, as comunidades temem que dois complexos portuários tragam mais impactos negativos à região. Enquanto isso, os conflitos seguem em alta, tendo sido testemunhados in loco por uma comitiva de delegados da Comissão Interamericana de Direitos Humanos em novembro de 2018.

Reportagem: Ciro Barros e José Cícero da Silva
Imagens e edição: José Cícero da Silva
Arte: Julio Falas
Trilha sonora: Jingle Punks
Coordenação e edição: Marina Amaral e Thiago Domenici

O artigo Sob o cerco da soja apareceu pela primeira vez na Agência Pública.

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Os indígenas e quilombolas ameaçados pela soja, veneno, portos e o preconceito

Pública - ter, 01/10/2019 - 12:00

“Esse barulho é porque eles estão trabalhando lá”, alerta à reportagem da Agência Pública o indígena Munduruku Paulo da Silva Bezerra, morador da aldeia indígena Açaizal, localizada na área do Planalto Santareno, zona rural de Santarém, Pará. Enquanto conta sua história, ele aponta para um vizinho de cerca, um grande fazendeiro da região. O contraste é imediato: a casa de Paulo é tomada pela mata e pela produção familiar (pés de graviola, mamão, pimenta-do-reino), a do vizinho é um mar de milho, o grão da vez na chamada “safrinha” do segundo semestre. Na aldeia onde mora, esse contraste é onipresente: as imagens aéreas mostram as grandes fazendas recortando em quadrados as matas nativas numa área em que os indígenas aguardam a demarcação há anos. “A gente quer que o governo e os fazendeiros parem com essa agressão”, reclama Paulo. Segundo ele, nas épocas de safra de soja, os agrotóxicos são levados pelo vento até a sua casa, contaminando suas plantações. “A gente chega a ficar todo molhado de veneno”, diz.

A aldeia Açaizal é o epicentro do conflito que ocorre no planalto santareno entre os grandes fazendeiros – chamados de “sojeiros” – e os indígenas. Mas não é o único. Além da Açaizal, outras comunidades indígenas e quilombolas da região próxima ao lago do Maicá também pedem a demarcação de suas terras, hoje cercadas e ocupadas por grandes fazendas de commodities.

Na região visitada pela reportagem, entre duas glebas públicas federais, Ituqui e Concessão de Belterra, ao menos quatro aldeias indígenas, habitadas pelos Munduruku, e três comunidades quilombolas — Murumuru, Murumurutuba e Tiningu (ao todo, existem 12 comunidades quilombolas na região do planalto) – veem seus processos de demarcação andar a passos lentos, enquanto as fazendas de grãos se expandem no local desde os anos 1990. A situação de indefinição na demarcação das terras vem acirrando os conflitos na região. Em novembro do ano passado, delegados da Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) constataram a tensão in loco: quando visitaram a região do planalto para realizar uma audiência pública, os delegados foram barrados pelos sojeiros, que ocuparam as estradas de acesso à região com suas caminhonetes.

Fonte: José Cícero da Silva/Agência Pública

Neste imagem: “A gente chega a ficar todo molhado de veneno”, diz Paulo Bezerra, liderança da aldeia Açaizal

Além da soja, as comunidades temem os impactos da construção de dois grandes portos na área do lago do Maicá. Um deles é idealizado pela empresa Empresa Brasileira de Portos Santarém (Embraps) com o objetivo de escoar a produção na região do Planalto Santareno.

As obras desse porto estão suspensas pela Justiça Federal desde 2016, após denúncia do Ministério Público Federal (MPF) por ausência de consulta adequada às comunidades tradicionais atingidas pelas obras. Em setembro, o MPF recomendou à Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas) do Pará a suspensão do licenciamento do segundo porto, projetado pela distribuidora de petróleo Atem, até que seja feita a consulta prévia às comunidades atingidas pelas obras. Há, também, uma investigação em curso no MPF para apurar a regularidade das licenças emitidas pela Semas em favor da Atem.

Na aldeia Açaizal, a chegada da soja já afetou significativamente o meio ambiente. O principal curso d’água usado pelos indígenas, o igarapé do Açaizal, já foi completamente aterrado pelo uso intensivo das terras – o MPF ajuizou, no último mês de agosto, uma ação civil pública responsabilizando os órgãos ambientais estadual e do município de Santarém pela situação.

O assoreamento, segundo o órgão, deve-se às atividades de monocultura na região. “Não foram observadas práticas de controle de erosão nas lavouras de grãos situadas no entorno do igarapé”, assevera o MPF. A Polícia Federal investiga ainda a contaminação dos cursos d’água por agrotóxicos na aldeia.

Enquanto a demarcação na Fundação Nacional do Índio (Funai) e no Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) não avança, os fazendeiros se organizam para fazer frente às demandas das comunidades também na área antropológica.

“Dizem que nós não somos índios, somos cearenses”, diz Munduruku

Fonte: José Cícero da Silva/Agência Pública

Neste imagem: Graciene Maciel dos Santos, coordenadora da Associação Indígena Munduruku Deauá, protesta contra o laudo antropológico produzido por Edward Luz

Alguns fazendeiros do planalto contestam a reivindicação do território pelos indígenas e quilombolas. Para tanto, esse produtores contrataram os serviços do antropólogo Edward Luz – perfilado pela Pública em 2015 –, expulso da Associação Brasileira de Antropologia (ABA) em 2013. Luz é um antigo integrante da Missão Novas Tribos do Brasil, organização missionária oriunda dos Estados Unidos que visa catequizar populações originárias, e chegou a ser cotado para assumir funções na Funai nos primeiros meses do governo Bolsonaro. Atualmente, ele trabalha produzindo laudos de contestação a áreas protegidas da União destinadas a populações indígenas e outras comunidades tradicionais. Contratado por produtores rurais da região do planalto, Luz elaborou um laudo que confronta os pleitos indígenas e quilombolas. “Eles dizem que nós não somos índios, somos cearenses”, relata a indígena Graciene Maciel dos Santos, coordenadora da Associação Indígena Munduruku Deauá. “Ele veio aqui, não falou com nenhuma liderança quilombola nem indígena, nem visitou direito a nossa comunidade, falou com alguns moradores e concluiu que aqui não tem índio”, diz Manoel Batista da Rocha, cacique da aldeia Ipaupixuna, dos Munduruku. “Alguns fazendeiros e sojeiros tentam negar o tempo todo que nós somos quilombolas”, afirmou Gerson Ferreira Betcel, liderança da comunidade quilombola Tiningu, também questionada pelo antropólogo, sobretudo após a delimitação da área pelo Incra, em outubro de 2018.

Procurado, Edward Luz afirmou à reportagem que os pleitos indígenas na região do planalto são fruto do que ele chama de uma “catequese etnogênica”, e sustenta que as reivindicações por demarcação foram artificialmente criadas por movimentos sociais que atuam na região.

Ele acusa a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e outras lideranças ligadas à Igreja Católica de ter estimulado as comunidades do planalto a passar a se reconhecer como indígenas. Diz ter horas de entrevistas e outras evidências, resultado de incursões que fez na região do planalto entre 2017 e 2018, que atestam a suposta fraude étnica. “O que eu percebi é que há grupos de interesses vários, não totalmente identificados, que estão manipulando a autodeclaração étnica na região para reivindicar direitos sem atender os critérios necessários para ser considerados indígenas ou quilombolas”, afirma. Luz não quis revelar os nomes de seus contratantes.

“Com relação às falas do senhor Edward Luz, creio que o melhor é ignorar o que ele fala, principalmente por conta do desprestígio dele na área em que atua. O processo de luta das comunidades é um direito que elas têm de autorreconhecimento, um direito reconhecido constitucionalmente. Ele foi contratado por produtores de soja da região do planalto e fica muito claro que ele pretende atender o interesse único de ocupar essas terras com a produção de soja”, responde Gilson Rego, coordenador da CPT em Santarém. Ele ressalta que a CPT tem 45 anos de história no acompanhamento de conflitos no campo e que apenas presta apoio a demandas trazidas por grupos de pequenos agricultores e populações tradicionais em relação a conflitos agrários. Ele nega que a organização crie artificialmente demandas sociais ou de fundo étnico, como alega o antropólogo Edward Luz.

Fonte: José Cícero da Silva/Agência Pública

Neste imagem: Manoel Batista da Rocha afirma que lideranças indígenas e quilombolas não foram ouvidas por Edward Luz

Após uma década, demarcação avança pouco

Nos órgãos federais, onde deveriam ser dirimidas as dúvidas com o processo de demarcação, os processos administrativos se arrastam há décadas. No caso dos quilombolas, já são 16 anos aguardando uma solução. As três comunidades quilombolas da região — Murumuru, Murumurutuba e Tiningu — tiveram seus processos de demarcação iniciados pelo Incra em 2003: duas delas (Murumuru e Tiningu) possuem Relatórios Técnicos de Identificação e Delimitação (RTIDs) elaborados, ou seja, estão com seus territórios delimitados. A outra comunidade (Murumurutuba) permanece com processo administrativo de demarcação em aberto, mas ainda não foi delimitada por estar sobreposta à área reivindicada pelos indígenas.

Já os Munduruku do planalto reivindicaram a demarcação de suas terras em 2008. Mas somente dez anos depois – após o MPF ter proposto uma ação judicial contra a Funai e a União pela morosidade do processo de demarcação –, a Funai firmou um acordo com o MPF para constituir um Grupo Técnico (GT) e iniciar os trabalhos para a demarcação da área, em abril deste ano, com a visita de técnicos da Funai.

Fonte: José Cícero da Silva/Agência Pública

Neste imagem: Máquina utilizada em lavoura de milho vizinha às casas de indígenas na aldeia Açaizal

Em 2015, os indígenas fizeram a autodemarcação do território considerado por eles como tradicional – para isso, entraram em acordo com as comunidades quilombolas Tiningu e Murumuru para a definição dos limites, mas ainda não se chegou a um acordo com os moradores de comunidade quilombola Murumurutuba.

Segundo dados da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), mais de 600 indígenas residem nas quatro aldeias do território autodemarcado. A Funai conseguiu o bloqueio integral da maior parte das glebas públicas onde estão as comunidades indígenas e quilombolas, ou seja, as fazendas no local não podem ser regularizadas até que terminem os trabalhos administrativos de demarcação.

Segundo o procurador Luís de Camões Boaventura, do MPF de Santarém, as fazendas da área reivindicada pelas comunidades tradicionais possuem títulos frágeis do ponto de vista fundiário. “Em sua grande maioria, estão em glebas públicas [as fazendas] e não possuem títulos e nem sequer protocolos de regularização fundiária. São posses, o sujeito se apossou da área”, afirma o procurador.

Em janeiro de 2018, sobre o perímetro indígena autodemarcado existiam 101 registros do Cadastro Ambiental Rural (CAR), que cobriam quase a totalidade do território. O CAR é um registro autodeclaratório apresentado por produtores rurais às secretarias de Meio Ambiente estaduais. Quando alguém declara um CAR, está dizendo aos órgãos ambientais que é dono daquela área. Ele é um dos documentos utilizados em tentativas de grilagem de terras.

A expansão das lavouras das fazendas está ligada ao desmatamento, situação constatada em dados oficiais – levantamento da Semas apontou dez alertas de desmatamento iguais ou superiores a 60 hectares só no perímetro autodemarcado pelos Munduruku entre 2010 e 2015. “A soja é uma praga para nós. Quando é época de safra, eles avançam sobre a nossa mata e cada vez estão derrubando mais”, afirma o cacique Josenildo Cruz, da aldeia Açaizal.

A indefinição na destinação das terras do planalto vem restringindo o acesso a locais tidos como sagrados pelos indígenas. É o caso da Cachoeira da Cavada, próxima à aldeia São Francisco da Cavada, cercada no início dos anos 2000. Hoje o local é um balneário turístico, localizado no interior de uma pequena fazenda, onde é preciso pagar uma módica taxa para ter acesso.

Em dezembro do ano passado, os indígenas organizaram uma excursão para levar a juventude das aldeias para conhecer o local, mas foram impedidos de entrar. “Isso pra nós é inaceitável. A gente sempre usou aquela cachoeira para tomar banho e tem locais que consideramos sagrados. Hoje temos que pagar para entrar”, protesta o cacique Manoel do Lago.

A Pública procurou o Incra e a Funai para tratar da morosidade na demarcação das terras, mas não obteve retorno até o fechamento desta reportagem.

Fonte: José Cícero da Silva/Agência Pública

Neste imagem: Josenildo Cruz acredita que o assassinato do seu irmão, Belarmino, está relacionado ao conflito agrário; caso segue em investigação

Indígenas falam em ameaças; duas mortes suspeitas em investigação

“Desde que a gente entrou para defender as nossas áreas, a gente vem sofrendo ameaças”, afirma o cacique Manoel do Lago, da aldeia São Francisco da Cavada. “A gente ouve histórias de que tem matador na nossa área, que, se não parar de um jeito, vai parar de outro, esse tipo de coisa”, relata.

Além das ameaças verbais, duas mortes são consideradas suspeitas pela comunidade. Em setembro do ano passado, o quilombola Haroldo Betcel foi morto por golpes de chave de fenda por um caseiro – identificado apenas como Doriédson –, que trabalhava numa fazenda próxima à comunidade do Tiningu. Segundo a Repórter Brasil, havia um conflito prévio entre o patrão de Doriédson, fazendeiro local, e moradores da comunidade quilombola – a Polícia Civil de Santarém descartou a participação do fazendeiro.

Também em setembro de 2018, o irmão do cacique Josenildo Cruz, Belarmino Cruz, foi assassinado durante uma visita à cidade de Mojuí dos Campos. “Ele foi morto com seis facadas nas costas e, segundo o assassino, ele foi assassinado por engano. Existe uma investigação em curso em relação a isso, mas a gente não pode negar que algumas pessoas ouvidas pela polícia disseram que não era pra ter sido meu irmão, era pra ter sido eu, como liderança”, afirma Josenildo. Outra linha de investigação dá conta de que Belarmino foi assassinado em uma briga de bar. O caso está sendo investigado pela Polícia Civil de Santarém.

O artigo Os indígenas e quilombolas ameaçados pela soja, veneno, portos e o preconceito apareceu pela primeira vez na Agência Pública.

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Pesquisadora é perseguida após comprovar que não existe dose segura de agrotóxicos

Pública - seg, 30/09/2019 - 16:01

Há 30 anos, a imunologista Mônica Lopes Ferreira desempenha uma celebrada carreira no Instituto Butantan, instituição pública centenária ligada à Secretaria da Saúde de São Paulo, que atua como centro de pesquisa biológica. Há dois meses, porém, Mônica tem passado por um campanha contra ela dentro do instituto.

Tudo começou quando a imunologista analisou dez agrotóxicos que estão entre os mais utilizados no Brasil e revelou que todos, em qualquer quantidade aplicada, causam graves prejuízos à saúde humana. São eles: abamectina, acefato, alfacipermetrina, bendiocarb, carbofurano, diazinon, etofenprox, glifosato, malathion e piripoxifem.

Os resultados demonstram que os pesticidas causam mortes e malformação de fetos em embriões de peixe-zebra até mesmo em dosagens equivalentes a até um trigésimo do recomendado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

“Quando ele não matava, causava anomalia, o que para mim é uma coisa extremamente preocupante”, alerta Mônica, explicando que a genética do zebrafish, como é conhecido, é 70% semelhante à dos seres humanos.

O estudo foi encomendado em 2018 pela Fiocruz, pertencente ao Ministério da Saúde – que indicou os agrotóxicos a serem testados – e foi divulgado no início de agosto, com grande repercussão na imprensa.

Em resposta, o diretor da Anvisa Renato Porto e a ministra da Agricultura, Tereza Cristina, deram entrevistas contestando o estudo. Além deles, o ex-secretário de Agricultura e de Meio Ambiente de São Paulo, Xico Graziano, que tem ecoado a linha da ministra em seu blog, publicou um tweet desqualificando a pesquisa.

Em entrevista para a Agência Pública, Mônica afirma que a direção do Instituto Butantan embarcou num boicote, acusando-a de realizar o estudo sem o conhecimento do instituto. A instituição tem imposto barreiras para impedir que ela ministre cursos e dê palestras. No final de setembro, o instituto emitiu uma resolução dizendo que quaisquer treinamentos ou cursos ministrados por profissionais do Butantan “devem ser submetidos previamente à análise” pela comissão de ética.

Mas, para Mônica, o pior foi ter recebido um comunicado, em agosto, proibindo-a de submeter projetos de pesquisa para aprovação durante seis meses. Na semana passada, ela conseguiu uma liminar do Tribunal de Justiça de São Paulo que suspendeu a punição. “Verifico que a decisão de suspensão da autora partiu de uma reunião da Comissão de Ética, contudo, a punição foi noticiada à autora sem a oportunidade de defesa prévia ou abertura de procedimento administrativo para apuração de responsabilidade, o que violaria as regras de Direito Administrativo para sanção dos funcionários públicos civis do Estado de São Paulo”, escreveu o juiz Luis Manuel Fonseca Pires.

Mas ela continua numa luta constante para limpar a sua reputação.

Apesar de o instituto dizer o contrário, Mônica assegura que o estudo foi realizado com a total ciência da instituição, inclusive do seu diretor: “Eu pessoalmente me encontrei com o diretor do Instituto Butantan, Dimas Tadeu Covas, e contei para ele sobre a minha pesquisa. Eu dei um seminário em abril sobre a pesquisa, onde eu mostrei os dados para as 90 pessoas que estavam na plateia. Então, dizer que ninguém sabia sobre essa pesquisa é estranho”.

Ela defende ainda os resultados obtidos. “Eu sei da importância do agronegócio, da importância da agricultura. Eu só acho que a gente não tem que brigar com o dado, com a ciência. A gente tem que trabalhar a partir dela.”

Fonte: Plataforma Zebrafish

Neste imagem: Mônica Lopes Ferreira é imunologista e trabalha com a caracterização toxinológica de venenos e toxinas animais no Instituto Butantan

Leia a entrevista:

O resultado do seu estudo sobre agrotóxicos causou uma reação forte no Instituto Butantan e no Ministério da Saúde. Conte como foi. 

No final de 2018, eu comecei a ser procurada por um pesquisador da Fiocruz e me disseram que eu tinha sido indicada pelo próprio Ministério de Saúde para realizar uma análise de toxicidade por agrotóxicos usando o zebrafish. A Fiocruz, por ser um órgão do Ministério da Saúde, foi quem me enviou os dez agrotóxicos a serem testados, com a tabela já das doses. Essas eram as doses que eles consideram ideal para a saúde humana. Eu fui então testar cada um desses.

Qual o resultado disso? O resultado é que, desses dez agrotóxicos, nenhum é excelente. Nenhum dá para dizer que a gente pode usar sem problema.

Ou eles causam mortalidade nos animais ou eles causam anomalias. Não morreu? Mas o bicho ficou doente, ficou com uma anomalia. Eu não fui a primeira a dizer que agrotóxicos causam problemas. Não fui a primeira e não serei a única. Existem muito estudos sobre isso.

O que aconteceu a seguir?

Eu recebi um email do Flávio Alves, da Fiocruz, que é o pesquisador que me encomendou a pesquisa, dizendo que recebeu um telefonema do Ministro da Saúde, danado da vida com a repercussão do estudo no Facebook, porque não foi boa. Ele disse que eu não deveria ter divulgado a pesquisa ainda porque a pesquisa não acabou. Então, eu consultei o meu email e mostrei para ele que ele tinha me autorizado, por email, a divulgar o estudo.

Acho que essa foi a virada, porque foi aí que o Instituto Butantan mudou de figura e disse que não se responsabilizava pela pesquisa. Eu recebi uma mensagem por email copiado para outros setores do Butantan, incluindo a diretoria e para advogados do instituto dizendo que o Butantan não é responsável pela pesquisa.

Depois eu recebo um email do diretor do Butantan dizendo que havia visto um tweet do ex-secretário estadual da agricultura [Xico Graziano] dizendo que tinha criticado o resultado da minha análise e que o Butantan não vai se responsabilizar por ela.

Foi aí que eu percebi uma mudança na ótima relação que eu tinha com a direção.

No dia seguinte, o Butantan emite uma nota para todos os pesquisadores do Butantan dizendo que eles não se responsabilizavam por “pesquisas independentes”. Aí passou a ter um clima muito ruim na instituição, porque todo mundo percebeu que aquilo era voltado para mim, porque a minha pesquisa tinha sido divulgada no Estadão e tinha tido uma grande repercussão.

Depois eu recebo uma notificação do Comitê de Ética Animal dizendo que a pesquisa não tinha sido submetida ao comitê e que como punição eu não poderia mais submeter nenhuma pesquisa para aprovação do comitê durante seis meses. Isso é grave para mim, porque significa que eu ia ficar sem trabalhar durante seis meses. Eu não tive direito nem de me explicar.

No dia 21 de agosto, eles entraram com um processo administrativo alegando que o Instituto Butantan não sabia que eu estava trabalhando na pesquisa sobre agrotóxico e que, portanto, não se responsabilizava por ela.

Mas eu pessoalmente me encontrei com o diretor do Instituto Butantan, Dimas Tadeu Covas, e contei para ele sobre a minha pesquisa. Eu dei um seminário em abril sobre a pesquisa, onde eu mostrei os dados para as 90 pessoas que estavam na plateia. Então dizer que ninguém sabia sobre essa pesquisa é estranho.

Eu não fui a primeira a dizer que agrotóxicos causam problemas. Eu não fui a primeira e não serei a única. Existem muitos estudos sobre isso. Então eu também me perguntei: onde está o problema? O que foi que eu falei que já não falaram? Então eu gostaria de saber: quem eu desagradei? Eu desagradei o Ministério da Saúde?

Por que você acredita que o estudo incomodou tanto o Instituto Butantan e o Ministério da Saúde?

Eu imagino que tenha um tema que tenha levado a isso tudo que é o tema dos agrotóxicos. Eu já participei de várias pesquisas e nada tinha sido dessa maneira. Eu desagradei a Ministra da Agricultura, Tereza Cristina, que foi contestar o estudo publicamente. O que que a Tereza Cristina tem a ver com o Instituto Butantan, para o instituto estar me punindo?

Eu não sou uma pessoa irresponsável. O meu pai é um plantador de cana-de-açúcar; se não fosse pela cana-de-açúcar, eu não teria educação, eu não estaria aqui. Então eu sei da importância do agronegócio, da importância da agricultura. Eu só acho que a gente não tem que brigar com o dado, com a ciência. A gente tem que trabalhar a partir dela. Por que não entender que se pode fazer melhor e se pode ter alternativas? Pode-se ter uma dose melhor.

Alguns outros colegas que eu conheço que trabalham com agrotóxicos me relataram que eles também têm sido perseguidos por conta dos agrotóxicos. Eu não sabia, até então, que existia todo um mundo de perseguição contra pessoas que estudam os agrotóxicos.

Para você ter uma ideia, eu tinha sido convidada para ir a um evento sobre zebrafish na Fiocruz do Rio de Janeiro. Agora, duas semanas atrás, eu recebo um email da Fiocruz dizendo que, em função da grande demanda para o seu curso, o curso foi cancelado. Mas isso não faz sentido nenhum porque, quando tem muita demanda, você não cancela um curso; pelo contrário, você só cancela quando não tem demanda. Cancelaram então a minha ida, mas o evento vai acontecer sem mim. Você acha coincidência? Eu sou a única que sou desconvidada, o resto do evento continua, só eu que não posso participar.

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Você se sente perseguida?

Eu fico buscando um outro adjetivo para perseguição, mas não tenho encontrado. Eu acho que o que estão fazendo comigo é um assédio moral. Eu nunca pensei em precisar contratar um advogado por conta de algo que eu considero desnecessário. Eu sempre tive uma boa relação com o Instituto Butantan. Mas chegamos a um ponto que eu estou apanhando, e dói. Eu acho que eu não fiz nada para riscar ou manchar uma instituição pela qual eu sempre trabalhei.

Tem sido difícil levantar para trabalhar, eu ainda não tenho a alegria que eu tinha antes. Nunca imaginei passar por um momento desse, nos 30 anos que eu dediquei a essa instituição. Eu cheguei como estagiária e eu fiquei porque eu me apaixonei pelo Butantan. Entende por que é dolorido?

Eu sou de Alagoas e mudei minha vida para vir para cá porque encontrei esse celeiro de ciência, me encontrei aqui no Butantan e agora ver essas atitudes por parte da direção me dói demais. O que me entristece é eu não ter a alegria de estar aqui. Porque esse é meu ofício, é isso que eu gosto. Então agora eu vivo uma luta constante. Eu fico com a esperança de que isso vai passar. Mas eu não sei quando. Diante de todas essas coisas que estavam acontecendo, eu tive que contratar um advogado. Eu não estou tendo espaço para falar e me defender.

Desde 2015 eu dou um curso vinculado ao setor de cursos do Instituto Butantan para qualquer pessoa de nível de graduação para cima que querem trabalhar com o zebrafish, com aulas teóricas e práticas. Eu abro 30 vagas e eu recebo entorno de 100 inscrições todo ano. No total, já recebi 150 profissionais do Brasil inteiro para participar. O certificado de participação e a divulgação do curso saem pelo Instituto Butantan.

Nesse ano, eu fiz da mesma forma, como eu sempre faço. Três dias depois que inicio esse processo eu recebo um telefonema dizendo que o curso não poderia ser vinculado ao Instituto Butantan. É coincidência? Depois de tudo que aconteceu, eu não acredito mais em coincidências.

Esse ano veio uma normativa de que de agora em diante cursos precisam passar pelo Comitê de Ética Animal.

Eu me pergunto: para que tudo isso? Isso me deixa perplexa e me entristece.

Existe uma perseguição contra cientistas em curso?

Algumas pessoas têm colocado para mim que eles também têm sido alvos de algumas perseguições no trabalho. Como, por exemplo, são desconvidados de dar palestras. Eu acho que existe uma vontade de anular a ciência. Eu venho acompanhando, por exemplo, que o ministro Osmar Terra questionou o próprio dado da Fiocruz sobre drogas; outro ministro [Marcos Pontes] questionou os dados do Inpe sobre desmatamento. Tem o ministro da Educação, que fez essa confusão inteira com cortes de verba na educação. Depois vem a Tereza Cristina e questiona os meus dados. O que é isso? É anular a ciência. Nós estamos vivendo um dos momentos mais difíceis, eu acho. Querem desacreditar o que é a ciência. Isso é impossível porque não tem como desacreditar a ciência. Mas é melhor para muitos ter um país ignorante.

Eu acho que o que nós não podemos é nos calar. Temos que entender que nós somos uma força. Não podemos deixar ser amedrontados. Quando entendermos que juntos nós, cientistas, somos mais fortes, aí a coisa vai mudar. Então acho que o que precisamos é isso. A gente precisa falar, ter voz, e não se esconder. Temos que tirar esse medo.

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