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Após sete meses, Damares não gastou um centavo com a Casa da Mulher Brasileira

Pública - sex, 16/08/2019 - 12:02

Com R$ 13,6 milhões reservados no orçamento deste ano, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MMFDH) de Damares Alves não gastou, até hoje, nenhum centavo com a construção da Casa da Mulher Brasileira, uma das principais iniciativas do governo federal para o enfrentamento da violência contra a mulher no Brasil. Elogiado por especialistas pela segurança e rapidez de acesso das vítimas à rede de proteção social, o programa prevê a implantação de centros de atendimento multidisciplinares para mulheres vítimas de violência em 25 capitais brasileiras – atualmente, apenas cinco estão abertos.

Desde que assumiu, Damares vem afirmando que o combate à violência contra a mulher é prioritário em sua gestão, mas, apesar de contar com orçamento para o programa, já em abril ela declarou ser impossível para o ministério manter a Casa da Mulher Brasileira. Segundo a apuração da Agência Pública com base em dados do próprio governo federal, após mais de sete meses de governo Bolsonaro, nada foi executado do orçamento aprovado em 2018 com a participação da equipe de transição do atual presidente. Os repasses para manutenção – com verba de R$ 1,3 milhão reservada no orçamento – também não foram feitos. Se, a partir de agora, o governo quiser executar tudo que está orçado para este ano, seria preciso empenhar ao menos R$ 2,7 milhões por mês para construção dos espaços.

A Casa da Mulher Brasileira faz parte de um programa lançado por decreto em 2013 pela então presidente Dilma Rousseff (PT) com o nome de “Mulher: Viver Sem Violência”. O objetivo era expandir a rede de serviços voltados para as mulheres vítimas de violência e promover a integração entre eles, através de ações para além da implementação das casas, como a ampliação da central telefônica Ligue 180 e campanhas de conscientização sobre o tema. A execução do programa ficou a cargo da Secretaria de Políticas para as Mulheres, à época com status de ministério – hoje é apenas um departamento dentro da pasta de Damares. A mudança ocorreu ainda durante o governo de Dilma Rousseff.

O projeto propõe que a vítima de violência disponha, em cada Casa, de Delegacia de Defesa da Mulher, Defensoria Pública, Promotoria, Juizado e Vara especializados, equipes de psicologia e assistência social, alojamento de passagem, brinquedoteca e serviços de promoção da autonomia econômica. Os recursos para construção da Casa partem da União, que também repassa verbas para a manutenção dos espaços durante seus primeiros 24 meses. Depois, município ou estado precisa assumir o gasto.

Esta não é a primeira vez que o governo federal descumpre o orçamento para a Casa da Mulher Brasileira. Em 2017, durante governo de Michel Temer (MDB), apesar de R$ 1,4 milhão empenhado para a construção de novas casas, nada foi liquidado, ou seja, efetivamente pago a quem executaria os serviços – o governo bancou apenas os gastos de manutenção das casas já construídas. Em 2016, último ano de Dilma Rousseff e início do governo Temer, apenas 13,32% do total orçado para a construção das casas foi gasto. Em 2018, a execução foi alta, de 75,76%, contudo o valor orçado já havia sido reduzido mais de 15 vezes: se inicialmente o governo teria mais de R$ 26 milhões para a construção das casas, o orçamento final foi o mais baixo da série, de apenas R$ 1,7 milhão.

 

Procurado pela Pública, o MMFDH informou que está reformulando o projeto da Casa da Mulher Brasileira para adequá-lo à “realidade orçamentária do país”. Explicou que pretende utilizar parte da verba destinada à construção de novas casas em um projeto menos custoso. A pasta comunicou também que modificará o decreto de instituição do programa para que seja possível “instalar casas em espaços cedidos ou locados” em vez de construí-las. De acordo com o ministério, hoje cada um dos centros de atendimento demanda R$ 13 milhões para ficar pronto e, na nova proposta, sairia a partir de R$ 823 mil.

Questionamos também o ministério sobre um pacto, lançado neste mês por Damares, para a implementação de políticas públicas de proteção para mulheres, assinado por representantes do governo – entre eles o ministro Sergio Moro – e do Legislativo e pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Dias Toffoli. De acordo com o MMFDH, estão sendo criados grupos de trabalho sobre o tema, sendo a “jornada de trabalho de promoção da segurança e defesa da mulher uma das primeiras ações”, sem detalhamento do que a medida significa.

ReproduçãoA Casa da Mulher Brasileira em Campo Grande é umas das poucas abertas ao público De 25 casas previstas, cinco prestam atendimento

A construção das casas entrou como meta no Plano Plurianual 2016-2019, que determina as políticas públicas prioritárias para o governo federal no período. O documento estabelece que 25 capitais brasileiras devem recebê-las até o fim deste ano, mas atualmente apenas cinco estão abertas ao público: Campo Grande, São Luís, Fortaleza, Curitiba e Boa Vista – esta última enfrenta problemas estruturais, segundo o próprio governo de Roraima, mas ainda assim presta atendimento.

A Casa de Brasília, inaugurada em 2015, foi embargada parcialmente em 2017 e de forma definitiva em 2018 porque o prédio ameaçava desabar – o MMFDH informou que “está sendo construído um acordo para que a obra seja recuperada e os serviços continuem sendo prestados em outro local”. Na época da construção, o governo federal transferiu R$ 4,5 milhões para a estrutura. O convênio de manutenção do serviço previa um repasse anual de R$ 13,7 milhões. Neste ano, segundo a administração da Casa, nada foi repassado. Já a de São Paulo, apesar de pronta, ainda não foi inaugurada – de acordo com a prefeitura, a previsão é que comece a funcionar neste semestre.

 

“Um sonho” de atendimento

Quando a Casa da Mulher Brasileira foi idealizada, Eleonora Menicucci era ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres. Ela lembra que o projeto tinha o objetivo de cumprir uma das determinações do artigo 8º da Lei Maria da Penha: a “integração operacional” do Poder Judiciário, Ministério Público e Defensoria Pública a áreas de segurança pública, assistência social, saúde, educação, trabalho e habitação como diretriz de políticas de combate à violência doméstica e familiar. “Nós vimos que as redes não estavam respondendo à altura por causa do aumento das violências e as mulheres continuavam ainda com a via- crúcis em busca do serviço, então propusemos essa política”, explica.

Uma iniciativa de El Salvador serviu de inspiração: o Ciudad Mujer, projeto criado em 2011 pela advogada brasileira Vanda Pignato, ex-primeira-dama do país. O programa permitiu a abertura de centros que reúnem serviços públicos de atendimento às mulheres em áreas desde saúde a cooperativas de crédito – hoje, existem seis deles espalhados pelo território salvadorenho. No início de 2013, Eleonora Menicucci viajou a El Salvador para visitar os espaços acompanhada de Aparecida Gonçalves, à época secretária nacional de Enfrentamento à Violência contra as Mulheres, para conhecer o projeto.

A facilidade de acesso da mulher à rede de assistência reunida em um único espaço é “um sonho” para especialistas no tema, como Wânia Pasinato, consultora da ONU Mulheres, que há mais de 20 anos faz pesquisas em justiça criminal e violência contra a mulher. “A proximidade entre uma equipe psicossocial, a Delegacia da Mulher, a Defensoria Pública e o juizado faz com que pelo menos o trâmite inicial ocorra mais rapidamente. Isso dá mais segurança às mulheres”, explica a socióloga, pós-doutora pelo Núcleo de Estudos de Gênero Pagu, da Unicamp.

Wânia destaca que a agilidade e abrangência do acolhimento são cruciais porque, quando as vítimas tomam a decisão de buscar ajuda institucional, “já passaram por muitos processos internos de dúvida, medo, insegurança”. Outro ponto importante é que o espaço integrado favorece o compartilhamento de informações entre os serviços. “Ela [a Casa] criou a possibilidade de que a rede fosse também uma estrutura de circulação dos documentos relacionados ao caso da mulher [atendida] e de informações relativas a esse caso. Produzir estatísticas, ter dados e criar indicadores é fundamental para que se possa entender melhor não só a violência, mas também onde estão ocorrendo as falhas, que são inegáveis, na resposta para as mulheres e na aplicação da Lei Maria da Penha.”

Campo Grande: primeira e referência CGNotíciasEm visita à Casa da Mulher Brasileira de Campo Grande realizada em 28 de junho, a ministra Damares Alves elogiou o trabalho: “É um trabalho reconhecido no mundo”, disse na ocasião

Em Campo Grande, onde fica a mais antiga e uma das únicas cinco casas abertas, o caso de Letícia*, de 33 anos, mostra como o programa funciona quando bem executado. No fim de julho, ela foi agredida com um soco pelo ex-marido, que havia ido até sua casa para buscar o filho do casal, de 4 anos. A violência física foi precedida por um longo período de ataques verbais e psicológicos que culminou na separação do casal.

Letícia, moradora de Campo Grande, procurou a Casa da Mulher na mesma noite em que sofreu a agressão. Passou pela triagem, foi atendida por uma psicóloga e de lá seguiu para a Delegacia da Mulher, onde registrou o boletim de ocorrência. Por último, foi encaminhada à Vara Especializada, que lhe concedeu uma medida protetiva contra o ex-companheiro. “Me disseram: ‘Tem que denunciar, tem muitas mulheres sofrendo violência porque não denunciam’. Explicaram tudinho para mim, me deixaram bem tranquila”, conta a dona de casa. A medida protetiva também tem cumprido seu papel. “Só dele não ficar me ligando, me mandando mensagem, vindo aqui na minha porta me ofender, para mim, já é um alívio”, diz.

Seguindo o modelo da época da implantação do projeto, ainda sob os auspícios da Secretaria de Políticas para as Mulheres, uma servidora do atual Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos é responsável pela coordenação geral da Casa. Tai Loschi, que desempenha esse papel em Campo Grande, diz que a atribuição mais importante do cargo é organizar as reuniões mensais do colegiado gestor da Casa, formado por representantes da prefeitura, governo do estado, Polícia Militar e Patrulha Maria da Penha, além de delegada, juíza, defensora pública e promotora. “É uma reunião democrática e horizontal, porque aqui todo mundo tem suas diretrizes, mas temos que andar juntos. As reuniões do colegiado são justamente para afirmar a horizontalidade dos serviços”, explica. De acordo com ela, todas as decisões relativas ao local dependem da deliberação dos integrantes do colegiado.

A Casa da Mulher em Campo Grande é referência nacional na prestação do atendimento integral às mulheres vítimas de violência. De fevereiro de 2015, quando abriu, até o último mês de junho, foram registrados ali mais de 32 mil boletins de ocorrência, concedidas mais de 14,8 mil medidas protetivas e 49,3 mil atendimentos foram feitos pelo Ministério Público do estado. Neste ano, autoridades de Roraima – cuja capital já abriga uma Casa –, Piauí e Alagoas visitaram o serviço para observar como funciona.

Embora funcione há quatro anos e meio, a Casa ainda se mantém com dinheiro do governo federal. A prefeitura de Campo Grande precisava utilizar os aproximadamente R$ 9,5 milhões previstos em convênio até dezembro de 2016, mas precisou renegociar o prazo por quatro vezes, o que não implicou o repasse de mais verbas, segundo a própria prefeitura. Depois de junho de 2020, nova data-limite para execução dos recursos da União, o município deverá assumir os gastos com manutenção – limpeza, locação de veículos e alimentação para mulheres abrigadas, entre outros –, além das despesas com as quais já arca, como água, luz, telefonia e recursos humanos.

Desde maio, a Casa tem recebido apoio da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) através do Observatório sobre Violência contra a Mulher. Em fase de implantação, ele é fruto de um acordo de cooperação com a prefeitura de Campo Grande e pretende monitorar e analisar dados sobre violência contra mulher no município, promover ações de prevenção e formação para gestores, pesquisadores e comunidade. Segundo as professoras Ynes da Silva Félix e Jacy Correa Curado, coordenadora e vice-coordenadora do Observatório, para continuar “sendo referência e exportando know-how em tecnologia social de atendimento à violência contra a mulher, a Casa “deve ser alvo de investimento e boa gestão pública”, como vem ocorrendo em Campo Grande.

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Hacia un futuro sostenible: el caso de la transformación económica de China

IPS español - sex, 16/08/2019 - 11:15

Imagen tradicional en una comunidad de China. Crédito: Cespap

Por Zhengian Huang y Daniel Jeong-Dae Lee
BANGKOK, Aug 16 2019 (IPS)

La región de Asia-Pacífico se encuentra en una encrucijada. El crecimiento tradicional orientado a la exportación, impulsado por la producción manufacturera, se enfrenta a vientos en contra por la lenta demanda externa y las crecientes medidas comerciales proteccionistas.

Las nuevas tecnologías han aumentado la probabilidad de que los trabajos intensivos en mano de obra en la región se automaticen. Mientras tanto, muchos países han sido testigos de la ampliación de las desigualdades de ingresos y oportunidades. El aumento de los riesgos ambientales y los desastres climáticos agregan más cargas a la agenda de desarrollo futuro.

Ahora las preguntas que enfrentan la mayoría de los países en desarrollo en la región son: ¿Pueden lograr la convergencia económica siguiendo el camino de crecimiento tradicional? ¿Cómo pueden equilibrar el crecimiento económico con la inclusión social y la sostenibilidad ambiental?

Este artículo aborda estas preguntas utilizando a China como ejemplo.

El desarrollo económico de China es sobresaliente en términos de ritmo y escala. Durante las últimas cuatro décadas, la economía de China se ha convertido en la más grande de la región, y se ha transformado de una predominantemente agrícola a una potencia industrial, y ahora está cada vez más orientada a los servicios.

Sin embargo, las tensiones de los rápidos cambios estructurales se han vuelto más claras.

Entre ellos destacan la desaceleración del crecimiento de la población y la expansión de la fuerza laboral del país, su desaceleración del crecimiento de la productividad a medida que las tecnologías disponibles se acercan a la frontera tecnológica, las tensiones distributivas resultantes de la creciente desigualdad y las tensiones en la capacidad de carga del entorno natural.

Las simulaciones económicas hasta 2030 sugieren que, en el escenario de negocios habituales (BAU, en inglés), el crecimiento del producto interno bruto (PIB) se mantendría a una tasa de alrededor de seis por ciento a corto plazo, pero experimentaría una fuerte caída en 2030 a medida que disminuye la eficiencia económica.

Al mismo tiempo, las brechas de ingresos urbano-rurales, así como la desigualdad dentro de las áreas urbanas y rurales, seguirían siendo amplias, dejando importantes focos de pobreza.

Escenarios alternativos para China en 2030
Fuente: Cespap, basado en el modelo DRC-CGE.
Notas: BAU: escenario de referencia; ING: escenario de crecimiento innovador; ICG: escenario de crecimiento inclusivo; SSG: escenario de crecimiento sostenible; y ALL: escenario de crecimiento innovador, inclusivo y sostenible.

El consumo de energía y las emisiones de carbono de China continuarían aumentando, sin cumplir con su compromiso con el Acuerdo de París  sobre cambio climático (ver el escenario BAU en las figuras A, B y C).

Sin embargo, existe un escenario alternativo en el que China persigue un enfoque holístico de las reformas estructurales que logra caminos de crecimiento de desarrollo innovadores, inclusivos y sostenibles simultáneamente.

Bajo este escenario, el país podría mantener tasas relativamente altas de crecimiento económico, incluso si la demanda externa sigue siendo lenta, la fuerza laboral se contrae y la acumulación de capital se desacelera.

La urbanización acelerada, el aumento de la población de “clase media” y el aumento de las transferencias gubernamentales para optimizar el sistema de protección social podrían reducir las disparidades de ingresos rurales y urbanos.

El consumo total de energía de China y las emisiones de carbono podrían alcanzar su punto máximo en 2025, cinco años antes de la línea de tiempo trazada en el Acuerdo de París, si se implementa un nuevo impuesto al carbono y la energía de los combustibles no fósiles asume una mayor participación de la combinación energética (ver todos los escenarios en la figura A, B y C).

Las políticas y medidas recientes muestran que China está dando más peso a la calidad del crecimiento. Primero, China está llevando a cabo reformas del lado de la oferta, centrándose en la tecnología y la innovación. El país ha establecido objetivos para convertirse en un “líder internacional en innovación” para 2030.

En segundo lugar, se están llevando a cabo acciones para mejorar la inclusión del crecimiento económico. China ha fijado objetivos para eliminar la pobreza absoluta para 2020.

Se han incrementado las transferencias fiscales para mejorar la protección social, mientras que se han desplegado más fondos para infraestructura rural, subsidios agrícolas y préstamos con descuento.

En tercer lugar, China ha tomado medidas serias para frenar la contaminación mientras acelera la transición a la energía limpia. China tiene como objetivo obtener 20 por ciento de su energía de las energías renovables para 2030. A fines de 2017, se lanzó un sistema de comercio de emisiones de carbono en el país.

Estas políticas deben llevarse a cabo de manera integrada para reducir las compensaciones y maximizar las sinergias. En el ejemplo chino, las prioridades políticas sobre tecnología e innovación podrían impulsar el crecimiento del PIB pero podrían empeorar la desigualdad de ingresos, dado el efecto de la tecnología de favorecer el capital sobre el trabajo e impulsar el trabajo calificado sobre el no calificado (escenarios BAU e ING en las figuras A y B).

Las políticas para reducir las emisiones de carbono serían más efectivas si se combinaran con nuevas tecnologías e innovaciones que mejoren la eficiencia de los recursos (SSG y todos los escenarios en la figura C).

Los escenarios sobre las posibles rutas políticas de China hacia un futuro sostenible arrojan algo de luz para otros países en desarrollo. Si bien el crecimiento económico de un país puede inevitablemente disminuir a medida que madura, la calidad del crecimiento diferirá significativamente dependiendo de las elecciones de política realizadas.

Es muy importante y urgente que los formuladores de políticas cambien su mentalidad para priorizar las políticas que apoyan a las personas y al planeta. Este no es un proceso fácil. Se requieren esfuerzos continuos de política para equilibrar el desarrollo entre las dimensiones social, ambiental y económica para garantizar la prosperidad a largo plazo.

Este artículo se basa en un informe reciente de la CESPAP, Transformación económica de China: impactos en Asia y el Pacífico, que se puede visualizar en su versión en inglés en este enlace.

El artículo Hacia un futuro sostenible: el caso de la transformación económica de China fue publicado originalmente en IPS Agencia de Noticias.

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La venganza personal como modo de gobernar en Brasil

IPS español - sex, 16/08/2019 - 09:41

El presidente brasileño Jair Bolsonaro, durante una de sus informales ruedas de prensa. Esos encuentros, a la entrada del presidencial Palacio del Planalto, se han vuelto casi diarios, a lo que se suma un desayuno semanal con periodistas, pese a las acusaciones del gobernante a la prensa de "mentirosa" o de "izquierdista". En esas ocasiones hace declaraciones de impacto, a veces con ofensas a opositores e incluso miembros del propio gobierno que va a destituir. Crédito: Antonio Cruz/ Agência Brasil

Por Mario Osava
RÍO DE JANEIRO, Aug 16 2019 (IPS)

En sus primeros siete meses y medio de gobierno, se acumulan las acciones del presidente Jair Bolsonaro, adoptadas como retaliación a personas o instituciones que le molestan, componiendo lo muchos en Brasil definen como “gobernar por el odio”.

Pero encararlas como “actos personales reduce la complejidad del proceso” e ignora que “producen un sentido social y político para legitimar sus propias propuestas, fortalecer determinados grupos de apoyo y deslegitimar a los que piensan distinto”, advirtió a IPS Frederico Costa, presidente de la Asociación Brasileña de Psicología Política.

“Son síntomas de una visión del mundo” que incluyen el “rechazo al diálogo, a lazos” con otras personas y países, la “descalificación y ‘eliminación’ de los que no me gustan, del ‘otro’ que no me interesa”, acotó Margarita Arilha, psicoanalista lacaniana e investigadora del Núcleo de Estudios de Población de la Universidad de Campinas.

“No distraerse en situaciones menudas, para no perder todo el paisaje, los rumbos de la cultura política”, recomendó ante esos manejos del presidente de extrema derecha.

Especialistas en comunicación digital y guerras culturales sostienen que hay un método detrás de las diatribas casi cotidianas con que Bolsonaro desvía la atención y se asegura la fidelidad de sus adeptos, en particular los más sectarios.

Pero si ese es el caso, el mandatario parece por lo menos exagerar en venganzas personales que amenazan con reducir demasiado su popularidad y meterlo en líos judiciales.

José Augusto Morelli tuvo la mala suerte de aplicarle una multa por pesca ilegal al entonces diputado Jair Bolsonaro, el 25 de enero de 2012 en Angra dos Reis, a unos  160 kilómetros al oeste de Rio de Janeiro.

Cumplió su deber de funcionario del Instituto Brasileño de Medio Ambiente y Recursos Naturales Renovables (Ibama), la autoridad del sector, pero eso le costó, parece, su destitución como jefe del Centro de Operaciones Aéreas de Protección Ambiental, el 28 de marzo de 2019, antes de cumplir Bolsonaro tres meses en el poder.

La multa fue de 10.000 reales (algo más de 5.000 dólares al cambio de entonces), por pesca de anzuelo en la Estación Ecológica de Tamoios, en la bahía de Angra dos Reis.

Bolsonaro recurrió hasta al Supremo Tribunal Federal para anular la acusación de delito ambiental y amenaza convertir esa área de conservación, creada en 1990 para proteger la biodiversidad alrededor de las dos centrales nucleares allí instaladas, en una “nueva Cancún”, el  famoso polo turístico mexicano.

Las multas, sean ambientales o de tránsito, son un blanco general del presidente que prometió abolir la “industria de multas”, pese a la opinión mayoritaria más preocupada por preservar el ambiente y reducir los accidentes viales, que en 2017 provocaron la muerte de más de 34.000 personas e hirieron centenares de miles, según el Ministerio de Salud.

Las colindantes centrales nucleares actualmente operativas en Brasil, Angra 1 y Angra 2, en una ensenada de la bahía de Angra dos Reis, a 160 kilómetros de Rio de Janeiro, cerca de la Estación Ecológica Tamoios, donde el presidente Jair Bolsonaro sufrió una multa ambiental por pesca ilegal y quiere ahora instalar una “nueva Cancún”, el balneario mexicano. El área de conservación es una exigencia legal para sostener la biodiversidad alrededor de las centrales. Crédito: Mario Osava/IPS

Una retaliación presidencial más inmediata y cruel sufrió Felipe Santa Cruz, presidente del Colegio de Abogados de Brasil (OAB, en portugués) e hijo de un desaparecido político, víctima en 1974 de la dictadura militar (1964-1985).

Bolsonaro dijo públicamente el 29 de julio que podría contarle a Santa Cruz como “desapareció” su padre. Luego sostuvo que él murio “ajusticiado” por sus propios compañeros de la Acción Popular, grupo clandestino de origen católico que luchó contra esa dictadura.

Esa es una versión usual de la represión política en un intento de encubrir asesinatos bajo tortura en aquel período. Pero en este caso está desmentida por documentos oficiales, incluso de las Fuerzas Armadas que demuestran que Fernando Santa Cruz fue detenido por militares en febrero de 1974.

Entonces su hijo Felipe tenía dos años y Bolsonaro iniciaba el curso para hacerse oficial del Ejército, que dejó como capitán en 1988 para meterse en la política.

Remover esas heridas fue la forma del excapitán de acentuar su queja contra la OAB, que en su opinión obstaculizó la investigación policial que podría condenar por intento de homicidio a Adélio Bispo, quien lo acuchilló el 6 de septiembre de 2018, durante un mitin electoral en Juiz de Fora, 164 kilómetros al norte de Rio de Janeiro.

La OAB impidió a la policía romper el secreto de las comunicaciones telefónicas de los abogados de Bispo, una medida que podría, según Bolsonaro, desvelar  la conspiración para asesinarlo, posiblemente involucrando a grupos de izquierda.

Hubo una retaliación adicional contra Santa Cruz. Su bufete vio cancelado de inmediato contrato con la empresa petrolera estatal Petrobras, en un acto neto de “persecución política”, según el abogado, ya que no hubo justificación y no se podría alegar ineficiencia.

El año pasado los abogados de su bufete triunfaron en un proceso judicial que ahorró cerca de 5.000 millones de reales (unos 1.300 millones de dólares) a Petrobras en pagos laborales.

Como una “retribución” a las críticas de la prensa, justificó Bolsonaro el decreto presidencial que desde el 6 de agosto exime a las empresas de capital abierto de publicar sus balances en medios impresos.

No hay otra explicación, ya que en abril se aprobó una ley con el mismo fin, pero fijando un plazo hasta fin de 2021 para la adaptación de los diarios a la nueva realidad.

El golpe será más duro para Valor Económico, el principal diario económico brasileño donde escriben algunos de los mejores analistas políticos y, por lo tanto, críticos con el gobierno. Pero alcanza indirectamente al mayor grupo de comunicación del país, Globo, propietario del diario.

Bolsonaro demostró desde cuando era diputado (de 1990 a 2018) que “identifica como enemigo a destruir quienes no piensan como él”, su “discurso autoritario” suma tres dimensiones, señaló Costa.

Primero, no reconoce derechos de las minorías, como indígenas, “quilombolas (miembros de comunidades afrodescendientes)” y homosexuales.

Además defiende una revisión de la historia, con negación de la dictadura militar y legitimación de la tortura, como “necesaria ante la amenaza comunista”, y por último rechaza datos científicos que “fundamentan políticas públicas”, sin oponerles argumentos válidos, detalló el presidente de la Asociación Brasileña de Psicología Política.

El ejemplo más reciente fue alzarse contra el gubernamental Instituto Nacional de Investigaciones Espaciales (INPE), un ente estatal respetado en todo el mundo, que apuntó un aumento de 88 por ciento en la deforestación amazónica durante junio, en comparación con junio de 2018.

Son datos “mentirosos”, acusó Bolsonaro, provocando la reacción del entonces director del INPE, Ricardo Galvão, que calificó de “cobarde y pusilámine” la actitud presidencial de difamar públicamente a científicos de prestigio, y fue destituido algunos días después.

“Lo más preocupante”, según la psicoanalista Arilha, es la interrupción e reversión del “proceso de ampliación de las libertades, de inclusión social y de búsqueda de la ética y ciudadanía” que Brasil vivió desde los años 90.

“Ahora se trata de restringir libertades, movimientos de autonomía, diálogos, alternancias y contrapuntos”, lamentó a IPS.

Edición: Estrella Gutiérrez

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Thursday’s Daily Brief: Harrowing terrorist survivors’ stories, children first in Mediterranean rescues, Yemen and Switzerland updates, new SDG Advocates speak out

UN SGDs - qui, 15/08/2019 - 16:23
Our main stories today: Boko Haram terrorist survivors tell their stories; UNICEF speaks out for children adrift on the Mediterranean; UN health agency pushes to stem dengue fever in Yemen; Switzerland declines sponsorship deal with tobacco firm; new SDG Advocates on the job.
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Manobra no acordo com União Europeia anulou precaução contra agrotóxicos

Pública - qui, 15/08/2019 - 14:35

No dia 28 de junho, negociadores dos quatro países membros do Mercosul fecharam em Bruxelas um acordo comercial com a União Europeia que era negociado há nada menos de 20 anos e, para o governo brasileiro, “constituirá uma das maiores áreas de livre comércio do mundo” e pode aumentar o PIB em até US$ 125 bilhões. Depois de assinado, o tratado passa por um processo de revisão jurídica, tradução e ainda precisa ser aprovado pelos parlamentos dos países membros. A estimativa que o acordo entre em vigor em dois anos.

Mas, no ato do fechamento, uma guerra era travada a portas fechadas, segundo contou à Agência Pública e Repórter Brasil a diplomata Valeria Csukasi, Diretora Geral Para Assuntos de Integração e Mercosul no Uruguai. E ela envolve a política de afrouxamento das leis em relação a agrotóxicos do governo Bolsonaro.

A diplomata estava na sala da última reunião em Bruxelas e tentava, até o último minuto, negociar com os europeus um dos maiores pontos de contenção da negociação: o Princípio da Precaução.

“Eu diria que se não foi o último, foi o penúltimo tema a encerrar a reunião Ministerial. Foi uma discussão técnica que chegou até o nível dos Ministros, até o último minuto”, revela Valeria Csukasi.

O Princípio da Precaução é um instrumento jurídico muito utilizado pelos Europeus em acordos internacionais. Ele dá ao comprador o poder de recusar uma mercadoria por precaução, mesmo sem ter provas científicas, alegando que o produto pode causar algum dano a saúde humana ou ao meio ambiente. Isso significa, por exemplo, que se há notícias confiáveis de que um produto tem excesso de agrotóxicos, ele poderia ser recusado.

O objetivo do Mercosul era diluir o Princípio da Precaução para limitar os seus poderes. “A visão do Mercosul é que a União Europeia tende a usar isso como uma barreira ao comércio e não como uma medida justa perante um temor real”, diz Valeria Csukasi. Já do outro lado da mesa de negociação, os europeus “queriam somente [que entrasse no acordo] o Princípio com maiúscula. Queriam algo muito mais contundente”, revela. No final, o Princípio da Precaução entrou, segundo a diplomata, “parcialmente”. “Foi como uma espécie de empate técnico”.

Na prática, o impasse resultou em um Princípio da Precaução enfraquecido. Uma manobra no texto do acordo fez com que o Princípio não possa ser invocado em casos diretamente relacionados à saúde humana.

Além disso gerou-se a possibilidade de contestar a medida frente à Organização Mundial do Comércio (OMC) argumentando que o Princípio está sendo utilizado de maneira discriminatória para impor barreiras ao comércio.

Segundo a diplomata Valeria Csukasi, a manobra anula a possibilidade de se aplicar o Princípio ao uso dos agrotóxicos.

Negociadores do Mercosul trabalharam duro para que o Princípio da Precaução perdesse o seu status como Princípio e passasse a ser entendido pelo que Valeria chama de “Enfoque da Precaução.” Em vez de ser registrado no capítulo “Medidas Sanitárias e Fitossanitárias”, como queriam os Europeus, a menção ao Princípio aparece no acordo no artigo 10 do capítulo “Comércio e Desenvolvimento Sustentável”.

“A União Europeia aspirava ter uma referência do Princípio Precautório, que eles utilizam constantemente, tanto no capítulo Sanitário e Fitossanitário quanto no capítulo de Desenvolvimento Sustentável,” explica Valeria Csukasi.

Segundo a diplomata, na prática a mudança significa que o Princípio não pode ser invocado para impedir a entrada de alimentos que ameaçam a saúde humana, já que o capítulo de Desenvolvimento Sustentável “não fala nada de saúde humana nem da sanidade vegetal”.

“O que ficou [no acordo] foi uma referência ao Enfoque da Precaução e não o Princípio da Precaução em si,” ressalta a diplomata, revelando que houve resistência da União Europeia até o último minuto: “a forma como incluíamos, se era o Princípio da Precaução ou Enfoque, foi sim, um ponto de tensão [durante as negociações].”

Princípio com P maiúsculo

Para garantir que o princípio perdesse os seus poderes, Valeria Csukasi diz que a cláusula foi meticulosamente redigida. “Veja que foi tudo pensado. [O Princípio da Precaução aparece] sem as maiúsculas, dizendo que tem que estar baseado em informação periódica, que é preciso tomar medidas para obter informação científica nova. Então dessa forma você começa a impor um monte de condições [para se aplicar o princípio]. Pode parecer uma besteira para você, mas citar o Princípio com letra maiúscula já muda tudo”, resume a diplomata.

Valéria ainda ressalta que o capítulo onde foi colocado o princípio (com p minúsculo) limita a aplicação da medida. “É um capítulo declarativo, um capítulo que nem sequer está sujeito à solução de controversas. Ou seja, esse acordo não pode ser acionado para o comprimento de alguma medida. Você não poderia dizer vou suspender as preferências [comerciais] ao Mercosul e ao Brasil em particular porque estão desmatando a Amazônia. Isso não é possível hoje porque não está previsto dentro desse acordo”, conclui a diplomata.

A quarta cláusula do mesmo capítulo possibilita que o Brasil e outros membros do Mercosul acionem a Organização Mundial do Comércio (OMC) quando o Princípio for invocado, alegando discriminação. A cláusula estipula que “as medidas não serão aplicadas de uma forma que possa constituir uma discriminação arbitrária ou injustificável ou uma restrição disfarçada contra o comércio internacional.”

Na prática, Valeria Csukasi resume que “[A União Europeia] não vai poder tomar medidas e se tomam medidas, essas medidas teriam que estar baseadas na ciência. Se não estiverem baseadas na ciência, o Mercosul pode recorrer contra as medidas tomadas pela União Europeia. Isso que é importante”.

Para além de afrouxar a regulamentação na Europa, existe a preocupação de que o acordo em si possa facilitar a venda de agrotóxicos para produtores brasileiros, já que tarifas comerciais vão experimentar uma redução significativa para ambos os blocos. Segundo nota emitida pelo Itamaraty, “após a desgravação prevista no acordo, 92% das importações do MERCOSUL e 95% das linhas tarifárias entrarão livres de tarifas na EU.”

UCIMValeria Csukasi é diplomata e Diretora Geral Para Assuntos de Integração e Mercosul no Uruguai Na esperança de mudar as regulamentações europeias

Para Valeria Csukasi, além do Princípio da Precaução não poder ser acionado para barrar a entrada de produtos que usam muito agrotóxico, pode se criar precedentes para aumentar o volume de resíduos de agrotóxicos permitidos em determinados produtos.

“A partir do momento em que o acordo entra em vigor vamos ter um espaço de diálogo privilegiado entre o Mercosul e a União Europeia onde vamos poder colocar esses temas [sobre a regulamentação de agrotóxicos] na mesa,” diz Valeria Csukai. “O que estabelecemos [no acordo] é um diálogo específico sobre o que se chama Limite Máximo de Resíduos,” diz a diplomata.

Um estudo produzido pela pesquisadora Larissa Bombardi, diz que os produtos agrícolas brasileiros mais vendidos para a União Europeia (soja, café e cítricos) usam cerca de 20% a 30% de agrotóxicos que são proibidos na Europa.

Na União Europeia se utiliza um marcador conhecido como Limite Máximo de Resíduo para determinar se um produto pode ou não ser vendido nos mercados.

Se um alimento tiver uma quantidade de um determinado agrotóxico acima do limite permitido na Europa, ele não poderá entrar no mercado europeu. Porém, segundo o acordo, o Limite Máximo de Resíduo pode ser ajustado caso a caso, se o país exportador solicitar uma Tolerância de Importação.

Uma vez aprovado, o pedido de tolerância ajusta o Limite Máximo de Resíduo para aquele produto e libera a sua circulação no mercado. A diplomata Valeria Csukasi diz que a tendência é ver a quantidade desses ajustes crescer.

“A lista de Limites Máximos de Tolerância de Importação era uma lista pequena que cada vez mais cresce porque para cada produto e para cada substância estamos colocando limites diferentes para a produção e para a importação. Então naturalmente esta discussão se torna caso a caso,” diz.

A política do caso a caso preocupa cientistas na Europa, como Angeliki Lysimachou, Coordenadora de Ciência e Políticas Públicas da Bélgica na ONG PAN Europe, uma entidade sem fins lucrativos que busca diminuir o uso de agrotóxicos nos alimentos europeus.

“Se começarem a aplicar exceções caso a caso, essas exceções passam a ser mais difíceis de monitorar. Como resultado, um pesticida que antes era banido passa a ter um Limite Máximo de Resíduo considerado aceitável para aquele alimento”, explica Angeliki. “Por exemplo [o país exportador] pode dizer, bom, nós usamos esse agrotóxico que não é autorizado e a gente ainda detecta ele na comida, mas em quantidades muito pequenas. Portanto, queríamos pedir para aceitarem esse pedido de Tolerância de Importação. Eles então respondem que aceitam já que fizeram uma análise toxicológica e se descobriu que naquela quantidade o agrotóxico não impõe nenhum risco a saúde humana.”

Um estudo realizado por Angeliki revela que quase 80% das entradas de produtos brasileiros na União Europeia tinham algum resíduo de agrotóxicos e quase 10% tinham resíduos acima do limite permitido.

Angeliki avalia que o marcador de Limite Máximo de Resíduo não é o suficiente para vetar a entrada de substâncias tóxicas no mercado.

“Muitos agrotóxicos que são banidos na União Europeia ainda são permitidos em uma variedade de alimentos, desde que eles atendam à quantidade de resíduo permitida. Então essa ideia de que se um agrotóxico é banido ele não será detectado na comida, não funciona 100% assim. Tudo funciona caso a caso.”

Angeliki acredita que o acordo entre o Mercosul e a União Europeia pode acabar afrouxando a regulamentação sobre os agrotóxicos na Europa. “Você tem a oportunidade de solicitar uma Tolerância de Importação. Isso é algo que acaba sendo negociado a nível político. Então você tem uma regulamentação, mas ela não é tão rígida porque afinal ela muitas vezes acaba sendo uma decisão política,” diz a pesquisadora. “O que eu vejo é que [esse acordo] pode acabar sendo uma forma de se vender mais agrotóxicos para o Brasil e de vocês aumentarem a importação para Europa e as tarifas serão reduzidas para ambos os lados,” conclui.

Temor

Pesquisadores que conversaram com a Agência Pública e Repórter Brasil temem que modificar a quantidade de agrotóxicos permitidos nos alimentos caso a caso pode gerar novas exceções para que mais substâncias químicas entrem no mercado europeu.

A pesquisadora e professora da UNB de Relações Internacionais Ana Flávia Barros-Platiau acredita na hipótese de que o acordo pode acabar impulsionando o mercado de agrotóxicos. “O meu medo, na verdade, é que a que a indústria agrícola brasileira ao invés de adotar padrões rigorosos para atender a exigência Europeia, compre mais pesticida agora porque vai ser facilitado e acabe indo por outro lado. Que é sinalização que temos desse governo que é lucro rápido e práticas agrícolas predatórias,” diz. Mas ela lembra que, mesmo tendo perdido os seus poderes de aplicação, uma menção ao Princípio da Precaução ainda consta no documento. “Ele ficou enfraquecido, sim [no acordo]. Ele não é mais um revólver. Agora ele é um canivete. Mas não significa que os Europeus não vão usar esse canivete contra a gente”.

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Após acordo com Mercosul, empresário sueco promete cruzada contra produtos brasileiros

Pública - qui, 15/08/2019 - 14:35

“Um dia de manhã li no jornal que o governo Bolsonaro estava enlouquecendo com os pesticidas e que quase 200 pesticidas tinham sido liberados no mercado. Eu fiquei muito chateado e frustrado” explica, em tom indignado e com um sotaque carregado, o empresário sueco Johannes Cullberg, ao telefone. “Eu decidi que eu não posso apoiar esse tipo de comportamento. Percebi que a única maneira de demonstrar a minha insatisfação é boicotando todos os produtos brasileiros em nossas lojas”.

Johannes Cullberg é fundador e CEO do Paradiset, a maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia. Em junho, as suas lojas começaram a boicotar produtos brasileiros como suco de laranja, cacau, café, uma variedade de melões e outras frutas. Após ler sobre o acordo com o Mercosul, ele agora promete convencer outros varejistas a fazerem o mesmo.

Empresários bem-sucedido do varejo, Cullberg estabeleceu na Noruega a filial da Lidl, uma das maiores redes de supermercado de desconto do mundo. Johannes atuou como Diretor de Compras da Lidl por dois anos e nesse tempo inaugurou 25 lojas com mais de 1200 produtos. Em 2014, e interessou em promover a saúde e a sustentabilidade e por isso decidiu participar ativamente desse movimento.

“Nós temos três redes de supermercados grandes na Suécia e elas são todas muito parecidas. Então há quatro anos eu decidi fundar a minha própria rede,” conta o empresário. “O mercado se chama Paradiset, o que significa paraíso. Eu queria criar um estabelecimento que preza pelos meus valores. Na prática isso significa que as minhas lojas têm menos produtos porque só temos comida de verdade. O foco é a saúde e a sustentabilidade,” conclui.

Kate GabortJohannes Cullberg é fundador da maior rede de supermercados orgânicos da Escandinávia

Com quatro anos de vida, Paradiset já tem 4 lojas e 100 funcionários e a tendência, segundo Johannes, é expandir. Há um ano, o empresário liderou a primeira campanha de crowdfunding do mundo para beneficiar uma rede de supermercados. Levantou quase 2 milhões de euros em apenas 20 dias. Johannes acredita que a crescente influência da sua rede de supermercados vai ajudar a impulsionar a sua campanha contra os produtos brasileiros.

Quando a embaixada do Brasil na Suécia respondeu ao boicote enviando uma carta aberta, Johannes percebeu que a sua iniciativa já estava começando a surtir efeito. A carta frisava que “é preocupante que, embora muitos outros países tem um uso de pesticidas muito mais alto, só o Brasil tem sido mencionado na imprensa e na mídia”. Isso, segundo o comunicado, porque “o Brasil é o quinto ou sétimo colocado no mundo de acordo com parâmetros aplicados a pesticidas em estudos mundiais, sendo que esses rankings se baseiam em volume total por hectare ou por capita.”

A embaixada não mencionou o fato de que, no mesmo estudo mundial, feito pela Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO, na sigla em inglês) em 2013, o Brasil aparecia como líder mundial se considerarmos o total de agrotóxicos usados. Não há dados globais mais recentes.

“Na verdade, eu fiquei contente de ter recebido a carta da embaixada porque demonstrou que eu havia incomodado pessoas de alto escalão. Isso é um bom sinal. Espero que da próxima vez eu receba uma carta do governo brasileiro. Esse é o próximo passo”, diz o empresário.

Johannes decidiu também publicar uma resposta ao comunicado do governo brasileiro. “Deixa-me explicar novamente porque eu acho que um boicote de produtos brasileiros é necessário,” diz a carta. “De acordo com o European Network of Scientists for Social and Environmental Responsibility só em 2016 o Brasil registrou 4,208 casos de intoxicação por exposição a pesticidas e 355 mortes por químicas agrícolas. Eu contesto que esses números estão longe de ser aceitáveis para mim e não deveriam ser aceitáveis para ninguém.”

O boicote ganhou atenção na mídia brasileira e sueca e motivou Johannes a lançar depois uma campanha nas redes sociais com a hashtag #boycottbrazilianfood e uma petição online.

Mas Johannes diz que foi a notícia do acordo entre o Mercosul e a União Europeia que o motivou para elevar a discussão para um novo patamar. “Quando eu vi essa notícia sobre o acordo com a União Europeia e ainda por cima sabendo que a Comissária do Comércio da Comissão Europeia é sueca, eu fiquei muito chateado,” contou Johannes à reportagem.

“Agora eu vou em cima do governo sueco para ver como eu posso agitar as coisas na Suécia e na União Europeia porque me deixa louco que o Bolsonaro pode afetar tanta gente agora que está à frente do governo brasileiro. Se você pulveriza agrotóxicos nas comidas produzidas no Brasil, a gente também está consumindo isso na Suécia.”

Johannes já está começando a trilhar o caminho para levar a sua campanha adiante. O próximo passo, diz, é persuadir concorrentes na Suécia a aderirem ao boicote. “O segundo maior supermercado da Suécia está pensando em aderir ao boicote. Eu conheço os CEOs de todos os mercados. Eu acho que vou conseguir persuadi-los porque a campanha pode ser estrategicamente boa para eles em termos de relações públicas”.

O empresário acredita que os seus mais de quinze anos de experiência vão ajudá-los a impulsionar o boicote, em relação ao qual ele mantém a determinação.

“Se você não sabe como funcionam as grandes corporações vai ser difícil. Eu já fui CEO de empresas de grande porte cotadas na bolsa de valores. Então eu entendo o que motiva esse tipo de empresa. Eu sei conversar com os CEOs,” diz Johannes. “Eu quero que isso se transforme em uma iniciativa corporativa,” conclui.

Para poder conversar com os seus concorrentes Johannes diz que é importante traçar uma estratégia de divulgação baseada na ciência. Por isso, ele está se alinhando a comunidade científica e construindo com eles a linguagem da sua campanha.

“Estou contando com a ajuda de alguns professores de diversas universidades. Então eu vou juntar todos eles para utilizar o poder e o conhecimento dos especialistas. Eu acredito que é sempre bom utilizar a expertise de quem conhece melhor para poder utilizar uma linguagem [na campanha] que as corporações e outros possam compreender,” diz.

Além de atuar na frente empresarial, Johannes diz querer construir um movimento maior junto à sociedade civil na internet. Ele pretende usar o boicote para lançar luz sobre o uso alarmante de pesticidas na produção agrícola brasileira nas redes sociais e assim mobilizar as pessoas para deixar de consumir produtos brasileiros.

“Eu acho que isso tem tudo a ver com o poder do consumidor. O que eu estou dizendo é que se [os outros supermercados] não aderirem ao boicote agora, nós temos que mostrar a eles que não vamos consumir mais os produtos brasileiros. Então é isso eu estou tentando fazer é construir um movimento de baixo para cima porque acredito que isso é mais eficiente hoje,” diz o empresário.

Frida HammarJohannes lançou a campanha #boycottbrazilianfood para boicotar produtos brasileiros por uso de agrotóxicos

O dono do Paradiset diz que a sua determinação para lutar contra o uso de agrotóxicos está relacionada com uma profunda preocupação que ele tem pelo estado do nosso planeta. Inspirado pela ativista sueca de 16 anos Greta Thunberg, que lidera um movimento na Europa para frear os avanços das mudanças climáticas no mundo, Johannes diz também querer contribuir para um movimento maior.

“A minha motivação é deixar o planeta em um estado melhor do que eu o encontrei quando nasci. Para isso, vamos precisar tomar medidas sérias. Precisamos impedir homens como o Bolsonaro de fazer o que estão fazendo,” diz Johannes. “Temos que seguir o Acordo de Paris e atingir as metas impostas pela ONU e o que me preocupa é que o Bolsonaro e outros líderes mundiais estão dando meia volta e estão acelerando na direção oposta”.

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¿Las sanciones a Irán socavarán el tratado de EEUU con la ONU?

IPS español - qui, 15/08/2019 - 12:48

Sesión de la Asamblea General de las Naciones Unidas, que cada año congrega en sus días iniciales a los máximos líderes mundiales. Crédito: ONU

Por Thalif Deen
NACIONES UNIDAS, Aug 15 2019 (IPS)

Cuando a Yasser Arafat se le negó en 1988 una visa estadounidense para poder hablar ante las Naciones Unidas en Nueva York, la Asamblea General desafió a Washington al trasladar temporalmente al máximo órgano de la ONU a Ginebra, por primera vez en la historia del foro mundial.

El ya fallecido líder de la Organización para la Liberación de Palestina, quien había sido orador de la ONU anteriormente en 1974, golpeó al gobierno estadounidense de la época cuando dijo durante su discurso que “nunca se me ocurrió que mi segunda intervención ante esta honorable Asamblea, desde 1974, tendría lugar en la hospitalaria ciudad de Ginebra”.

El gobierno de Donald Trump, dentro de su batalla con Irán, ha impuesto una serie de sanciones políticas y económicas al ministro de Asuntos Exteriores iraní, Mohammad Javad Zarif, incluso cuando Washington, paradójicamente, proclama que la crisis con Teherán solo puede resolverse diplomáticamente.

Las sanciones a Zarif, impuestas el 31 de julio, también le impedirán integrar la delegación iraní a la próxima Asamblea General de la ONU, a partir del 17 de septiembre, y participar en seis reuniones de alto nivel que tendrán lugar posteriormente en el foro mundial en Nueva York.

Si a Zarif se le niega una visa, como muchos prevén, será una violación del acuerdo de 1947 entre la ONU y Estados Unidos, relativo a la sede en Nueva York, según el cual Washington debe facilitar y no obstaculizar el buen funcionamiento del organismo mundial.

En el caso de la OLP,  no era un Estado miembro de la ONU de pleno derecho, pero Irán es un miembro fundador del organismo mundial.

La administración Trump ya ha incumplido o abandonado varios acuerdos internacionales, incluido el Acuerdo de París sobre cambio climático de 2015, el acuerdo nuclear iraní de 2015 y, más recientemente, el histórico Tratado de Fuerzas Nucleares de Alcance Intermedio de 1987 con Rusia, que ayudó a sellar el final de la Guerra Fría.

¿El acuerdo de la sede de Estados Unidos y la ONU estará muy lejos de vivir una situación similar?

James Paul, quien se desempeñó como director ejecutivo del Foro de Política Global (1993-2012), un monitor independiente de las políticas de la ONU, dijo a IPS que las sanciones impuestas a Zarif han dado otro golpe a la diplomacia y al arreglo de disputas.

Zarif, señaló, no es solo un diplomático muy respetado y una de las figuras más populares del gobierno de Hassan Rouhani, es quizás la figura en Teherán más capaz de ayudar a resolver la espiral del conflicto entre Teherán y Washington.

“Un aspecto importante del movimiento de Washington contra Zarif ha pasado desapercibido: el impacto en las Naciones Unidas”, agregó.

El ministro de Asuntos Exteriores de Irán, Mohammad Javad Zarif, durante su intervención ante el Foro Político de Alto Nivel sobre los Objetivos de Desarrollo Sostenible, en la sede de la ONU en Nueva York, poco antes de que el 31 de julio Estados Unidos impusiera sanciones en su contra. Crédito: ONU

Existe una gran posibilidad de que Washington viole sus responsabilidades como país anfitrión de la ONU, ya que las sanciones de viajar a Estados Unidos impedirán que Zarif asista a la sesión de apertura de la Asamblea General y a las reuniones posteriores, señaló.

“Tal medida violaría el Acuerdo de la sede de Estados Unidos y la ONU de 1947”, dijo Paul, autor del libro “De zorros y gallinas: la oligarquía y el poder mundial en el Consejo de Seguridad de la ONU”.

Tradicionalmente, añadió, la sesión de apertura trae oradores de alto nivel de todo el mundo. Es importante no solo como momento para discursos de alto perfil, sino también de encuentros y negociaciones privadas, lejos de la atención pública.

El portavoz de la ONU, Stephane Dujarric, dijo el 6 de agosto que “obviamente, tendremos que esperar y ver qué sucede en la Asamblea General”, respecto a la presencia del ministro iraní.

“No hago predicciones, pero Estados Unidos tiene obligaciones bajo el Acuerdo del país anfitrión, al igual que otros países que albergan sedes de la ONU o conferencias de la ONU. Y, como cuestión de principio, esperamos que todos los países con tales obligaciones estén a la altura de esas obligaciones, pero tendremos que esperar y ver qué pasa”, dijo Dujarric.

Ramesh Thakur, ex subsecretario general de las Naciones Unidas y profesor emérito de la Escuela Crawford de Política Pública de la Universidad Nacional de Australia, dijo a IPS que hay tres problemas profundos del lado estadounidense.

El primero, dijo, se retiraron unilateralmente de un acuerdo nuclear negociado multilateralmente con Irán, respaldado por unanimidad por el Consejo de Seguridad de la ONU.

El Consejo pidió a todos los Estados que ayuden a implementar el acuerdo, levantar las sanciones y ayudar al desarrollo económico de Irán. Por lo tanto, al volver a imponer sanciones unilaterales, Washington viola de manera sustancial el acuerdo y viola el requerimiento del Consejo.

El segundo, añadió, las sanciones contra Zarif contravienen la declarada posición de la administración Trump a favor de una solución con Irán a través de la diplomacia, lo que obviamente no favorece sancionar al ministro de Asuntos Exteriores iraní.

El tercero es la implicación que tiene sobre la asistencia de Zarif a la Asamblea General, sostuvo.

A su juicio, el portavoz de la ONU está en lo correcto de que ello violaría el tratado de 1947. Pero para Thakur también violar el acuerdo nuclear, “es en realidad más grave” y además muestra la falta de capacidad de la ONU y el Consejo de Seguridad en controlar los actos de sus cinco miembros permanentes.

El presidente de Irán, Hassan Rouhani, durante su intervención ante la Asamblea General de las Naciones Unidas, el 25 de septiembre de 2018. Crédito: ONU

Thakur, quien también fue vicerrector superior de la Universidad de las Naciones Unidas (1998–2007), considero que algo similar sucedió cuando dos miembros prominentes de la administración Trump, el secretario de Estado, Mike Pompeo, y el asesor de Seguridad Nacional, John Bolton,  amenazaron con sanciones a la Corte Penal Internacional (CPI) y a todo su personal.

A juicio del diplomático australiano, la ONU aceptó mansamente la descarada amenaza estadounidense y los jueces del CPI abandonaron la investigación que molestaba a Washington.

Paul dijo que la administración Trump está ansiosa por presionar más a Irán y enterrar completamente el acuerdo nuclear que tanto costó alcanzar y que Washington abandonó en 2018.

Pero, salvo en Gran Bretaña e Israel, hay poco respaldo internacional a cerrar las puertas diplomáticas al trascendental acuerdo, denominado formalmente Plan de Acción Integral Conjunto sobre el programa nuclear iraní, que además de Estados Unidos suscribieron y mantienen Alemania, China, Francia, Gran Bretaña y Rusia.

“Los gobiernos de todo el mundo también se oponen firmemente a las tácticas de intimidación de la administración Trump y a que Estados Unidos desprecie una ONU abierta, donde todos los Estados miembros puedan hablar”, dijo Paul.

“Esta no sería la única vez que Estados Unidos ha denegado la entrada a funcionarios extranjeros de alto nivel, pero el retroceso ahora puede ser especialmente grave. A la luz del apoyo al acuerdo nuclear en Europa, se podría anticipar una intensa oposición a la prepotencia de Estados Unidos”, planteó.

Paul recordó que Zarif vivió en Estados Unidos como estudiante universitario y es famoso como portavoz del gobierno de los ayatolás por su perfecto dominio del inglés, sus maneras corteses y unas posiciones flexibles que incluso le han traído problemas dentro de su gobierno.

Esto, a su juicio, hace que los halcones de la Casa Blanca lo vean como “una amenaza”.

Pompeo acusó a Zarif de ser “cómplice del comportamiento ilegal del régimen”, mientras que Bolton lanzó sus propios insultos al diplomático iraní de voz suave.

“¿Los halcones neutralizarán a Zarif al prohibirle participar en la ONU, o la Casa Blanca se sentirá obligada a dejarle que represente a su país en la ONU, al menos por el momento?”, se preguntó Paul.

En un momento en que una guerra de Estados Unidos con Irán está en el tapete y unas negociaciones secretas en la ONU sobre Irán podrían aliviar las tensiones, el acatamiento del acuerdo de la sede podría tener un gran impacto en la paz y la seguridad internacionales, mantuvo.

Hay un antecedente a ese respecto. Poco antes de anunciarse las sanciones en su contra, Zarif estuvo en Nueva York para participar el 17 de julio en el Foro Político de Alto Nivel sobre los Objetivos de Desarrollo Sostenible. Entonces ya el Departamento de Estado restringió su viaje a esa actividad, pero el diplomático se reunió con miembros de Congreso estadounidense.

Estados Unidos rara vez ha denegado una visa a un jefe de Estado que visite las Naciones Unidas para dirigirse a la Asamblea General.

Pero lo hizo en noviembre de 2013, cundo negó la visa al entonces presidente sudanés, Omar Hassan al Bashir (1989-abril 2019), lo que provocó la protesta de su país ante la ONU.

La negativa a la visa al ahora expresidente sudanés tuvo entre sus razones el abierto proceso en su contra en el CPI por crímenes de guerra y genocidio, por el que había una orden de captura internacional.

Eso planteó una pregunta legítima: ¿tiene Estados Unidos el derecho de actuar implícitamente en un fallo de la CPI cuando Washington no es parte del Estatuto de Roma que creó la CPI?

T: MF

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Las leyes de la guerra son ampliamente burladas 70 años después

IPS español - qua, 14/08/2019 - 17:09

El primero de los cuatro Convenios de Ginebra, que compilan las leyes de la guerra y son la base del derecho humanitario, protege a los soldados heridos y enfermos durante los conflictos. Crédito: Cortesía del CICR

Por James Reinl
NACIONES UNIDAS, Aug 14 2019 (IPS)

Los gobiernos del mundo no están haciendo lo suficiente para evitar que los grupos armados cometan violaciones masivas, torturas y otros crímenes de guerra, denunció la Cruz Roja.

Peter Maurer, presidente del Comité Internacional de la Cruz Roja (CICR), dijo el martes 13 que 70 años después de su adopción, los Convenios de Ginebra estaban siendo violados e instó a las potencias mundiales a reprimir a quienes cometen atrocidades en el marco de un conflicto.

Los Convenios de Ginebra, establecidos en 1949 bajo el impacto de la Segunda Guerra Mundial (1939-1945) y conocidos también como las leyes de la guerra, constituyen la base sobre la que se ha ido construyendo el derecho humanitario internacional y buscan proteger a los civiles inmersos en un conflicto.

Mientras el máximo funcionario del CICR hablaba, se libraron combates en Siria, Libia, Yemen, la República Democrática del Congo (RDC) y otros puntos críticos en los que los investigadores de la Organización de las Naciones Unidas (ONU) advirtieron sobre bajas civiles generalizadas y otros posibles crímenes de guerra.

“Está claro por el terrible y evidente sufrimiento (de la población) en los conflictos actuales que (los Convenios de Ginebra) no se respetan universalmente”, dijo Maurer al Consejo de Seguridad de la ONU a través de una videoconferencia desde Ginebra, en un acto para conmemorar su 70 aniversario.

“Con demasiada frecuencia, el CICR ve el impacto en las personas cuando se viola el derecho internacional humanitario: asesinatos indiscriminados, torturas, violaciones, ciudades destruidas, traumas psicológicos infligidos”, narró.

Los cuatro Convenios de Ginebra son tratados internacionales que establecen las reglas de tratamiento de soldados heridos en los campos de batalla, del trato al personal médico y humanitario y a los prisioneros de guerra, y la obligada protección a los civiles.

Fueron adoptados el 12 de agosto de 1949, luego de largas deliberaciones.

Para Maurer, son leyes cada vez más testadas por los conflictos de hoy en día, en los que las grandes potencias se asocian frecuentemente con grupos locales, los combates se concentran en pueblos y ciudades y se despliegan drones y otros equipos militares de alta tecnología.

“No hay duda de que el campo de batalla moderno es una arena compleja; la guerra urbanizada, un número cada vez mayor de grupos armados o los conflictos conjuntos están planteando dilemas nuevos y difíciles”, dijo Maurer.

Además, subrayó, “el rápido desarrollo de tecnologías están creando nuevos frentes en el ciberespacio, así como nuevas formas de combatir, por ejemplo, sistemas de armas autónomos y tecnologías remotas”.

Diplomáticos de la ONU señalaron como ejemplo de estas nuevas formas de guerra y de violaciones a sus leyes el caso de la guerra civil de ocho años en Siria, donde las fuerzas del presidente Bashar al Assad, respaldadas por el poder aéreo ruso, son acusadas de tortura, bombardeo de civiles y uso de gas venenoso, mientras recuperan el territorio controlado por grupos rebeldes.

En Yemen, informaciones recabadas en el terreno denuncian que tanto los grupos rebeldes hutíes respaldados por Irán como la coalición pro gobierno liderada por Arabia Saudita, han atacado a poblaciones civiles, escuelas y hospitales, mientras han reclutado a niños como soldados en el prolongado conflicto.

En otros lugares, los investigadores han comprobado las violaciones del derecho internacional humanitario en Libia, los territorios palestinos ocupados y en varios puntos críticos de África, incluida la RDC, Sudán del Sur y la República Centroafricana.

Los gobiernos deberían reforzar el cumplimiento de los tratados de derecho humanitario, aprobar legislaciones nacionales que los ratifiquen, mejorar la investigación y control de crímenes de guerra y elevar los estándares éticos de los soldados y otros participantes en los conflictos, dijo Maurer, un antiguo embajador suizo.

El ministro de Relaciones Exteriores de Polonia, Jacek Czaputowicz, dijo que los comandantes militares deben saber que iniciar una campaña de limpieza étnica, por ejemplo, podrá hacerlos terminar en un banquillo del Tribunal de La Haya.

Czaputowicz, un activista prodemocracia durante la extinta Unión Soviética, dijo que las leyes de la guerra “no se observaron suficientemente” en zonas de conflicto como Libia, Sudán del Sur y en Ucrania.

El “régimen sirio definitivamente usó armas químicas y debería rendir cuentas”, dijo Czaputowicz a IPS.

La Convención de Ginebra original, que cubría la “mejora de la condición de los heridos en los campos de batalla”, fue adoptada en 1864 después de una propuesta de Henry Dunant, quien fundó el CICR.

En los años previos a la Segunda Guerra Mundial, el CICR redactó tratados adicionales para ampliar las protecciones para los civiles que quedaban atrapados en los combates, pero los gobiernos no se comprometieron con las nuevas normas.

Los horrores de la Segunda Guerra Mundial impulsaron a los gobiernos a convenir en revisar y actualizar esos tratados en 1949, agregando un cuarto para proteger a los civiles y la propiedad en tiempos de guerra. En 1977 se agregaron dos protocolos adicionales.

Las Convenios son en gran medida universales, habiendo sido ratificadas por 196 países, incluidos todos los miembros de la ONU y observadores como Palestina, que suscribió los tratados en 2014.

T: MF

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O MEC não pode tratar a universidade como uma repartição, diz presidente da Andifes

Pública - qua, 14/08/2019 - 12:00

Aos 57 anos, o reitor da Universidade Federal da Bahia (UFBa), João Carlos Salles, não tem dúvidas de que vive seu momento mais desafiador como gestor. À frente da reitoria da UFBa desde 2014, o baiano de Cachoeira assumiu em julho a presidência da Andifes – a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior.

Em sua sua primeira entrevista exclusiva à frente da associação, Salles recebeu a Agência Pública em sua sala na reitoria, localizada no centro de Salvador, no dia 12 de agosto, um dia antes de se encontrar em Brasília com o ministro da educação, Abraham Weintraub.

Durante a entrevista, o reitor explicou qual será a estratégia da Andifes diante da defasagem orçamentária dos últimos cinco anos nas federais, agora agravada com o bloqueio de 30% das verbas discricionárias, anunciada em abril pelo MEC. “É meio estranho discutir o futuro das universidades se nós não temos garantia de que em setembro as contas poderão ser pagas”, diz.

Outro assunto abordado foi o programa Future-se, que, lançado em 17 de julho pelo MEC, passa por consulta pública até amanhã e tem sido alvo de protestos e criticas. Para Salles, corre-se o risco, com o programa, de “uma renúncia do compromisso do Estado com o financiamento do ensino público superior”. Salles diz, no entanto, que não abre mão da “postura radical do debate”. “Precisar cada um desses argumentos [do Future-se] é fundamental”, afirma. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Thiago Domenici/Agência PúblicaSalles em seu gabinete em Salvador: “As universidades não podem permitir que seja comprometida sua natureza, seus valores”.

O senhor é reitor da UFBa desde 2014, citada pelo ministro Weintraub na declaração sobre a “balbúrdia” nas universidades, que antecipou várias mudanças. Como presidente da Andifes, qual será sua estratégia para lidar com esse cenário?

A primeira questão é o enfrentamento do problema orçamentário atual, há um déficit orçamentário no conjunto do sistema. Esse déficit é até maior em investimentos, tanto que a situação implicou em um conjunto de obras paradas, mas é ainda mais significativo no dia a dia, nos recursos de custeio. As universidades têm enfrentado a necessidade de diminuir contratos, reduzir despesas, suspender editais e assim por diante. E agora isso é mais grave em função do bloqueio de 30% de custeio. A primeira missão é reverter esse bloqueio e lutar para que o orçamento de 2020 não seja inferior ao orçamento de 2019, [porque] há sinais, não muito claros, de que isso pode ocorrer. Se já está difícil neste cenário, imagine se houver uma redução em relação ao que foi previsto para este ano. Se não se garantir o que foi aprovado na LOA [Lei Orçamentária Anual] do ano passado, isso pode significar um retrocesso grande no investimento e na vida da universidade atual. Não é uma primeira missão que a gente escolha, é um processo que foi trazido para nós, e não podemos driblar.

E a segunda missão?

Quando um sistema é atacado, é natural que divergências naturais, que existem e são saudáveis, possam ser enfrentadas de maneira equivocada, com afastamentos e divisões por conta de diferenças que, em circunstâncias normais, seriam bem resolvidas. Então temos que garantir a unidade, evitar que essas divergências venham a enfraquecer a associação. Essa é a segunda missão. O que nos une são os princípios da Andifes: a defesa da autonomia da universidade, do financiamento público do ensino superior, a defesa de que seja respeitada a indicação da comunidade que se mobiliza para escolher seus dirigentes…

O senhor foi eleito em chapa única e, se não me engano, foram apenas quatro votos em branco entre os 42 votantes. Isso mostra unidade na Andifes?

Acho que essa votação expressa pelo menos uma grande hegemonia em torno desses valores. O que nos dá uma boa base para trabalhar para que essa unidade se fortaleça. Programas como o Future-se desafiam o conjunto das universidades a tomar posição. A Andifes já discutiu, por exemplo, ao longo do tempo uma lei orgânica para as universidades. Ou seja, a ideia de que a universidade é um ente específico, e não uma simples repartição pública. Temos pautas imediatas que nos foram trazidas por uma reversão no quadro orçamentário das universidades – até 2014 nós não tínhamos problemas de orçamento e, de 2014 para cá, temos enfrentado essa defasagem, e agora esse bloqueio e a discussão do orçamento de 2020, como algo incontornável. Além disso, temos que formular propostas; não necessariamente de contraposição às apresentadas pelo governo, mas de proteção daquilo que é essencial à vida da universidade. Se isso vai levar a um enfrentamento, talvez a uma postura maior de confrontação, o cenário político vai dizer.

A carta de Vitória da Andifes, publicada logo após a sua eleição, não é uma carta de enfrentamento ao Future-se, não bate de frente com o programa.

Eu diria que a carta de Vitória, num certo sentido, é radical. Ela é radical na defesa do método da argumentação, radical na defesa de que as comunidades têm que ser ouvidas, respeitadas. Mas seria precipitado dizer não imediatamente. Ao mesmo tempo, a carta já adianta uma série de preocupações e objeções ao modo inicial como o Future-se foi formulado. A carta de Vitória é também radical no sentido de lembrar que é meio estranho discutir o futuro das universidades se nós não temos garantia de que, em setembro, as contas poderão ser pagas.

Eu queria ler um trecho da carta para que o senhor pudesse comentar: “Elementos interessantes do programa não são novos e antes reconhecem o que já se pratica virtuosamente no ambiente e no contexto da legislação de nossas universidades, alguns elementos novos não parecem interessantes”. Tem um recado aqui?

Tenho que confessar que esse trecho esconde quase um plágio de uma famosa frase dita por um professor ao arguir uma tese. Ele se virou para o aluno e disse: “Sua tese tem coisas novas e interessantes; mas as coisas interessantes não são novas e as novas, essas sim, não são interessantes”. Brincadeira à parte, de fato o programa [Future-se] tem coisas interessantes no sentido de que recolhe experiências e exemplos que já são praticados na universidade. Parcerias público-privadas, às vezes feitas através de fundações, iniciativas que favorecem empresas juniores, iniciativas de intercâmbio internacional, nós já encontramos dentro das universidades, não é novo. Aliás, é bom lembrar que a universidade é o lugar privilegiado para qualquer estratégia de inovação. A inovação não é feita sobretudo nas empresas, a boa inovação começa na pesquisa. E alguém que aponte inovação deve ter em conta a infraestrutura de pesquisa disponível na universidade. Podemos pensar em burocratização, que às vezes pode parecer um entrave para essa ou aquela pesquisa. Pode parecer, porque o “virtuosamente” da frase aponta para a ideia de que não vale tudo na universidade. E na universidade pública o resultado tem que estar amparado por uma legislação que proteja o interesse público. Então o “virtuosamente” vem para salientar o fato de que fazemos, sim, inovação, fazemos pesquisa, mas num contexto de legislação que não macula a natureza pública de nossa instituição.

E o que parece novo?

O que parece novo tem trazido alguma inquietação. Destacaria duas coisas, que são mais salientes, e algumas outras que também são preocupantes. Novo, em primeiro lugar, está a exigência de um contrato de gestão com organizações sociais [OSs], e que, talvez, numa nova versão, incorpore fundações. Essa ideia implica imaginar uma diminuição [que] não [é] do peso ou de um suposto poder do reitor, que não está jogo, mas do poder de uma administração central universitária, composta por pró-reitores, superintendentes ligados às várias dimensões, com pessoas da comunidade e, sobretudo, com os nossos conselhos que devem determinar para onde vão os investimentos, que cursos devem existir etc. A ideia da gestão da universidade ser em parte transferida, e também nas dimensões de ensino, pesquisa e extensão, sugere uma diminuição daquilo que é próprio de uma administração pública universitária, não de uma repartição pública, o que não somos. Essa é a primeira preocupação. A outra é o orçamento adicional suplementar, que, em tese, não redundaria numa diminuição do compromisso com a universidade. Em tese, porque é dito que não haverá retaliação para quem não vá aderir nem diminuição do financiamento público. Mas pode haver, sim, uma renúncia do compromisso do Estado com o financiamento do ensino público superior. E não apenas para quem não aderir, mas também para quem aderir, porque a parte adicional advirá de outras fontes que não de recursos públicos. Isso é preocupante, a renúncia desse compromisso, que é um compromisso de Estado.

Pode haver divisão no ensino público superior?

Essas são duas grandes novidades que impactam o sistema. Uma diminuindo a autonomia; a outra dividindo o sistema de ensino público superior em dois tipos, com regramentos distintos. Um que tem o limite do teto de gastos, o outro que pode fugir do limite do teto de gastos; um que será estimulado a captar, o outro que faz captação, mas que não será estimulado a isso porque tem um teto de gastos. Isso é complicado. Aliás, as universidades já captam recursos. O problema é que nós temos um teto para a utilização desses recursos e a demanda por tirar esse teto é antiga. Outras questões: qual foi o estudo de viabilidade desse fundo? Será que esse fundo será um bom investimento para os setores privados? Quanto tempo de maturação terá esse fundo a tal ponto que possa, sim, significar o orçamento adicional que venha a garantir o funcionamento regular das universidades? Cadê o estudo? O desafio é grande, então nós queremos uma solução robusta.

Essa interlocução com o MEC existe? A Andifes conversou com o ministério antes do Future-se? Houve uma apresentação prévia disso para vocês?

Existem regras de colaboração. Quando você é chamado a colaborar com uma proposta, a escrever um texto, as suas ideias são utilizadas e você sabe que suas ideias estão sendo utilizadas. Você só autoriza seu nome para assinar um texto se você lê o texto e concorda com ele. Então ficamos surpresos quando dito que os reitores tinham ciência. Não temos informação de nenhum reitor que tenha colaborado sabendo que estava colaborando com essa proposta. Foi registrado pelo secretário que os reitores estavam colaborando sem saber, mas nenhum reitor, ao que nos consta, colaborou diretamente na formulação da proposta.

Assessoria de Comunicação/UFBAPara Salles, a universidade é um patrimônio da humanidade. “Não é um projeto de governo, é um projeto de Estado”, afirma

Esse movimento inicial dos bloqueios orçamentários veio como associado à “balbúrdia” e direcionado a três federais, entre elas a UFBa. Por que essas três? Foi uma afronta à instituição ou é uma afronta aos reitores?

Exatamente essa estranheza. Até por isso, uma afronta à verdade. Por mais que eu ache que a UFBa, por exemplo, tem uma especial vitalidade, uma história de grande movimentação, o que nós fazemos é reconhecido no conjunto das universidades brasileiras. Temos um movimento estudantil forte, um movimento docente forte, um movimento dos técnicos forte, que sempre importaram para a defesa e o avanço da universidade, pautando questões, corrigindo rotas e trazendo novidades que são incorporadas ou não à vida universitária. Talvez em algum momento essas universidades tenham tido atividades mais dessa e daquela direção, contrariando uma leitura enviesada e pouco receptiva à vida universitária. Não vejo uma afronta ao reitor, mas um desconhecimento do que é a vida universitária.

O senhor colocaria numa perspectiva de um ataque ideológico ou não?

A universidade não tem ideologia. Ela é um patrimônio da humanidade, um valor universal. Não é um projeto de governo, é um projeto de Estado, que comporta algumas dimensões próprias. Por exemplo, liberdade de cátedra, liberdade de crítica, [que é] um modo de exercitar o conhecimento, um lugar de confrontação de gerações. Isso é um modelo em que os jovens aprendem também o exercício da democracia, de formas diversas de democracia – desde democracia direta, dos diretórios acadêmicos, até a democracia representativa dos conselhos superiores. Ou seja, a universidade é um modelo que tem uma autonomia e uma vida própria que incomoda a quem não é simpático a essa dimensão que foge ao controle. Fugir ao controle é da vida universitária. E esse controle não é de nenhum partido, não se subordina nem a governos, nem a partidos, nem a sindicatos.

O Future-se é uma forma de amarrar a universidade pública ao desejo do governo?

Veja, não renuncio à postura radical no debate. Afirmar a necessidade de debater, de precisar cada um desses argumentos, é fundamental. Mas, se eu for antecipar um juízo, me parece que houve uma escolha. O Future-se parece preferir um tipo de universidade ou olhar unilateralmente para a universidade. Lembre-se de que é um programa de universidades inovadoras e empreendedoras, não é um programa para universidades. Ele qualifica que tipo de universidade se sentiria mais à vontade com esse programa: a que tem uma relação preferencial com o mercado, com pesquisas mais aplicadas, com a possibilidade de criar novas patentes e assim por diante. Evidentemente, esse desenho não favorece esse outro lado da universidade, que preserva a memória, a tradição, que protege saberes. Um exemplo: na UFBa nós não temos apenas professores de inglês, temos excelente professores de latim, e isso é um luxo importante: faz com que a nossa universidade esteja em sintonia com grandes departamentos da Europa e dos EUA exatamente pela possibilidade de cultivar saberes que não têm aplicação imediata nem retorno imediato no mercado. Então diria o seguinte: não se trata de uma preferência política, vamos descartar a visão política do governo, do ministro, do secretário, de quem quer que seja…

É possível fazer isso?

É possível, sabe por quê? Porque acho que é menos [questão de] ser mais inclinado nessa ou naquela direção política, há um comprometimento da natureza, da essência da universidade. Ela pode se amesquinhar como um projeto mais amplo, mais generoso, mais pleno. A UFBa é uma universidade onde você tem excelência em todas as áreas do saber. Ela não favorece somente aquelas áreas que têm uma capacidade de captação, mas também não inibe essas áreas. Aqui você tem lugar para as artes, saúde, para as exatas, até para a filosofia. Então, mais do que apenas imediata filiação partidária que eventualmente o governo tenha, o risco que nós corremos – se houver risco, temos que discutir, que verificar cada uma das implicações – é o de comprometer um projeto da sociedade, que cultiva vínculos de memória e de futuro, ou seja, de inovação. Cultiva questões tradicionais e questões que são ultramodernas, questões globais da nossa comunidade científica internacional e questões locais que têm a ver, no caso da UFBa, com estarmos na Bahia, da UFMG, com estar em Minas, da UnB, com estar no Distrito Federal. Uma cor local sempre dá uma textura especial para o saber produzido, trazendo temas, questões, pautas de pesquisa específica.

Logo que assumiu a presidência da Andifes, o senhor disse que algumas questões são inegociáveis na universidade pública. O que é inegociável a partir do que vocês já sabem sobre o Future-se?

Estamos debatendo esse projeto, mas segundo certos critérios. O que um gestor, quando avalia um projeto, um sistema de ensino superior, deve pensar? O que ele deve proteger? Deve proteger, por exemplo, a unidade do sistema. Então me parece que é indesejável você ter um sistema de ensino superior federal com dois regramentos distintos. Temos que evitar uma divisão de critérios, por exemplo, em relação a planos de carreira. Vamos ter um lugar com trabalhadores com vínculos de carreira, outros celetistas, simplesmente. Um será mais determinado pelo mercado e outro, por uma maneira mais sólida e científica de avaliação. A unidade é algo a se preservar, a comensurabilidade do sistema é algo a se proteger. Um sistema de ensino superior deve tentar garantir que, na longa duração, cada unidade universitária tenha um trabalho que seja comensurável ao de qualquer outra. Seria indesejável ter universidades condenadas a não ter pós-graduação, por exemplo. É preciso garantir a integridade do sistema, que não é determinado de fora, mas pela maturidade de escolher seu destino, de exercer a escolha da aprovação de cursos, as políticas que vai implementar, [o que é] garantido no artigo 207 da Constituição. A integridade significa que o interesse do indivíduo e do grupo deve ser protegido, mas não se pode comprometer o interesse do coletivo. E, se você fragmentar a universidade em várias unidades gestoras, com capacidade de captação, que receberiam recursos isoladamente e sem se submeter a nenhum crivo coletivo, você compromete. Isso me parece inegociável.

O ministro, em uma entrevista, afirmou que defende a autonomia, mas que ela não é soberana. Qual o limite da autonomia universitária?

Isso é um truísmo. Evidentemente, autonomia não é soberania. Quem tem soberania é o povo, expressa na Constituição, não é a prerrogativa de uma universidade. A universidade tem a autonomia no contexto de uma legislação estabelecida por quem é soberano, portanto, aquilo que é dado na Constituição. Para mim, assim como o ministério não é soberano, a universidade não é soberana. Nós temos limites, marcos legais em que estabelecemos nossas ações. Mas somos autônomos, temos a prerrogativa dada pela sociedade de decidir o que pesquisar, o que ensinar, como ensinar e, de preferência, de cumprir também metas pactuadas nacionalmente. Por exemplo, a meta que leva a supor que ainda é necessário – e é necessário – aumentar o número de vagas para o país. Vagas públicas, em especial.

O ministro disse ainda que as universidade federais brasileiras têm “uma taxa de insucesso na formação do aluno muito grande”. Ele se refere à evasão, sobretudo.

A evasão nas escolas privadas é maior do que nas universidades públicas. Esse é um problema sério que não pode ser ideologizado, tem de ser enfrentado. Não se pode utilizar contra as universidades aquilo que é resultado de uma virtude de crescimento. Temos que corrigir, sim, o processo de evasão, de retenção também. Por que acaba comprometendo o acesso de mais pessoas à universidade e, é claro, a uma formação mais adequada. Mas essas são questões que são pensadas dentro da universidade. De maneira profissional: nas faculdades de Educação, nas unidades de avaliação interna.

O ministro também disse que é outra “mentira que nós estamos no topo na geração de conhecimento científico”.

As universidades públicas, incluindo as federais, são responsáveis pela quase totalidade da produção científica. Algumas questões podem ser colocadas acerca do que é relevante ou não, e isso precisa, mais uma vez, da radicalidade da discussão. Quais são os indicadores utilizados? Não podemos utilizar indicadores de exatas e aplicar em humanas, nem utilizar indicadores que são aferidos em temas mundiais para temas locais, que vão interessar a pequenas comunidades. O que não significa que a pesquisa não seja relevante. Só para lembrar, há uma área fundamental, hoje, de doenças negligenciadas, que são as que atingem pequenas populações. Evidente que não têm o mesmo status que o câncer, aids, que atingem populações mundiais de maneira muito significativa, mas isso não torna essas pesquisas irrelevantes. Se nós queremos falar com seriedade sobre o que é qualidade da produção, temos que refinar nossos índices. As universidades estão dispostas, sim, a discutir esses indicadores. E a discutir providências para evitar evasão.

“R$ 450 mil é muito dinheiro” para um diploma na federal, disse o ministro. Até que ponto o custo deve ser levado em conta?

Acho que é responsável levar o custo em conta, embora essa palavra [gere] a ideia de que se está gastando algo e não investindo no futuro. Investimento no aluno seria uma maneira mais generosa de pensar. E ao pensar [em custo] temos que saber o que estamos levando em conta. Por exemplo, estamos dividindo o orçamento global da universidade por aluno. Mas estamos levando em conta os aposentados, que equivalem geralmente a 30%, 35% da folha de pagamento? Ao colocarmos a evasão embutida no custo, será que estamos considerando isso quando vemos os dados dos países de fora? Será que evasão só existe no Brasil? Sim, acho importante discutir esses valores, porque é responsabilidade com o dinheiro público, mas temos que fazer essa conta muito precisa para não chegar a ilações que não vão ajudar a elaboração de uma política pública.

Na quinta-feira, dia 15/8, termina o prazo de consulta pública para o Future-se.

O formulário do MEC deve estar tendo resultados os mais diversos, que chegam em documentos, em textos, em vídeos, refletindo sobre o Future-se. Certamente o MEC vai fazer disso aquilo que acha mais adequado para uma proposta no espírito que ele considera adequado para as universidades. Uma vez apresentado esse projeto, cabe, sim, instar as universidades a se posicionarem, porque um outro palco de debate acerca desse projeto será então o Parlamento. E esse é um palco importante onde os interesses da universidade poderão ser confrontados.

A Andifes está preparada para esse embate no Congresso?

Vamos nos colocar à disposição. E certamente dialogar com a Frente Parlamentar pela Valorização das Universidades Federais, com a Comissão de Educação. Quero registrar que a Andifes esteve numa reunião da Comissão de Educação com o presidente da comissão, e ele se comprometeu a que o debate sobre o programa passará necessariamente pela Comissão de Educação.

O senhor está no momento mais desafiador de sua vida como gestor?

Como gestor, sem dúvida. É uma honra estar à frente da Andifes num momento difícil como este. Quero contribuir para que as universidades consigam superar esse momento de cerceamento orçamentário, que é muito grave. O governo não está apostando na educação como uma saída, quando sabemos que a educação é a única aposta segura em momentos de dificuldade e crise. Também pretendo fazer com que as universidades aprofundem o debate e se mobilizem. Eu considero, afinal, que o único dano irreparável que pode ser causado às universidades virá das próprias universidades. As universidades não podem então permitir que seja comprometida sua natureza, seus valores. Não podem deixar de ser o lugar do conhecimento, da luta contra a ignorância. Não podem ser o lugar do obscurantismo.

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Gender equality, education and the environment at the forefront of new SDG Advocate campaigns

UN SGDs - qua, 14/08/2019 - 10:00
Back in May, six innovative public figures joined the battle to push the world towards reaching the Sustainable Development Goals (SDGs) by 2030. Each of the new official SDG Advocates committed themselves to pursue the 17 goals on behalf of “peace, prosperity, people, planet, and partnerships.” As we inch closer to the SDG Summit in September, UN News caught up with some of them.
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Empresas contribuyen con detención de niños migrantes en México

IPS español - ter, 13/08/2019 - 16:22

Una niña migrante, en un centro de detención de migrantes, en Chiapas, en el sur de México. Crédito: Ximena Natera/En el Camino

Por Arturo Contreras
MÉXICO, Aug 13 2019 (IPS)

Representantes de fundaciones de empresas como Telmex, Coppel, Volaris y organizaciones como la US-Mexican Foundation presumieron sobre la ayuda que están brindando para atender de manera “rápida y eficiente” las necesidades de niñas y niños migrantes en México.

Sin embargo, organizaciones civiles especializadas advierten que brindar atención en estancias va en contra del principio que dicta que niñas, niños y adolescentes migrantes no pueden estar detenidos.

“Quieren mandar bibliotecas para niños que están en centros migratorios, cuando para empezar no debería de haber siquiera niños en centros de detención”, advirtió en entrevista Melissa Vértiz, secretaria ejecutiva del Grupo de Trabajo sobre Política Migratoria, una red de organizaciones que trabajan para incidir en las políticas migratorias del país.

Vértiz alude a la instalación de cuatro bibliotecas digitales con programas educativos para niños, niñas y jóvenes migrantes en el Centro Integrador del Migrante de Ciudad Juárez, en el extremo norte, en la frontera con Estados Unidos, y en las estaciones migratorias de Acayucan, Tenosique y Tapachula, en el sur del país.

“De acuerdo con las propias recomendaciones de Naciones Unidas y una clara obligación que tiene el gobierno mexicano de terminar la detención de niñas niños y adolescentes en estancias migratorias”, añade.

La Organización de Naciones Unidas ha señalado que retener a los niños y adolescentes migrantes contra su voluntad es violatorio de sus derechos humanos.

El representante de la empresa Volaris recordó que, como parte de su programa Reuniendo Familias, vende boletos de avión a un dólar (más impuestos) a migrantes centroamericanos que, con ayuda del Instituto Nacional de Migración, “pudieron volver a su hogar”.

Así hizo el sábado 3 de agosto con un avión lleno de personas originarias de El Salvador.

Vértiz explica, sin embargo, que este tipo de medidas podrían poner en mayor peligro a esta población, pues muchos de estos migrantes huyeron de sus países por cuestiones de seguridad, y regresar a ellos podría significar un enorme riesgo.

Estas empresas dieron sus testimonios en un acto llevado a cabo el día 7 de agosto en la Secretaría (ministerio) de Relaciones Exteriores, encabezado por el subsecretario para América Latina y el Caribe, Maximiliano Reyes, quien dijo que estas acciones se desprendían del plan migratorio anunciado por el gobierno de México el pasado 17 de julio.

“Si ponen computadoras, bibliotecas y bonitas las áreas de niñez, en realidad eso no está solucionando el problema central, que es que la detención migratoria es una regla en el caso de niñas, niños y adolescentes”, critica Vértiz.

Este tipo de iniciativas deja ver un problema que el plan migratorio del gobierno de México: el distanciamiento que tiene su política migratoria de las organizaciones que históricamente han atendido a los migrantes en el país.

“Desconocíamos que iba a haber la implementación de estos nuevos acuerdos entre el Instituto Nacional de Migración junto con la Secretaría de Relaciones Exteriores y con las procuradurías de atención a población migrante de cada estado”, asegura Brenda Ochoa, directora del centro de derechos humanos Fray Matías de Córdoba, basado en Tapachula, Chiapas, en la frontera con Guatemala.

“No tenemos ninguna idea de a dónde se va a dirigir el apoyo y la ayuda”, asegura Ochoa.

Fundamental, atender procuradurías

De acuerdo con Ochoa, es imposible pensar en este tipo de acciones si antes no se atiende el tema de las procuradurías (defensorías) de la infancia, que muchas ocasiones no cuentan con el personal adecuado.

El 5 de julio, funcionarios federales que atienden a población migrante denunciaron a Yolanda López Bravo, procuradora federal de Protección a niñas, niños y adolescentes, por haberse referido a los africanos que protestaban en un albergue en Chiapas como “caníbales”.

La denuncia fue recibida en el Sistema Nacional del Derecho Integral de la Familia, la gobernación y la Comisión Nacional de Derechos Humanos.

“El tema de las procuradurías está muy mal. Lo de la procuradora federal es una sorpresa, pero a nivel local siempre se ha tenido el problema de que los procuradores locales no atienden las necesidades de la población migrante”. explica.

Este artículo fue originalmente publicado por En el Camino, un proyecto de Periodistas de a Pie . IPS-Inter Press Service tiene un acuerdo especial con Periodistas de a Pie para la difusión de sus materiales.

RV: EG

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Macri se derrumba y el peronismo preparara su regreso en Argentina

IPS español - ter, 13/08/2019 - 15:20

En la noche del domingo 11 se vendieron en Buenos Aires camisetas con el rostro de Cristina Fernández, presidenta entre 2007 y 2015, o con los dedos en "V" de victoría, propios del peronismo, que está otra vez cerca de gobernar Argentina. Crédito: Daniel Gutman/IPS

Por Daniel Gutman
BUENOS AIRES, Aug 13 2019 (IPS)

En medio de un crítica situación económica y social, Argentina parece a las puertas de ver el regreso al gobierno del peronismo, el heterogéneo movimiento que ha dominado la política nacional por buena parte de los últimos 70 años.

El presidente centroderechista, Mauricio Macri, depende de una hazaña o un milagro para ser reelegido en las elecciones del 27 de octubre. Así lo creen casi todos los analistas políticos después de su derrota por un margen inesperado de 15 puntos en las elecciones primarias del domingo 11.

La expresidenta centroizquierdista Cristina Fernández, quien dejó el poder muy desgastada en 2015 y hasta hoy es acosada por 11 investigaciones de presunta corrupción, ha sido la lideresa capaz de unificar al peronismo, que concurrió dividido hace cuatro años.“El resultado, por lo categórico, es extraordinariamente difícil que se modifique. Macri ya no cuenta con la confianza de los votantes, en el medio de una situación complicada que demanda una credibilidad que no tiene. Será necesario algún acuerdo con la oposición”: Marcelo Leiras.

Esta vez –en una jugada exitosa, aparentemente pensada para contrarrestar su fuerte imagen negativa-  lo hizo desde el segundo lugar de la fórmula y eligió como candidato a presidente a Alberto Fernández, un dirigente moderado y de escasa popularidad, que en los últimos años fue duramente crítico con la ahora senadora.

“Estas elecciones primarias funcionaron como un plebiscito, con una pregunta imaginaria que fue si los argentinos queremos seguir con Macri durante cuatro años más. La respuesta masiva fue no”, explicó a IPS Carlos de Angelis, director del Centro de Estudios de Opinión Pública de la Facultad de Ciencias Sociales de la Universidad de Buenos Aires.

Los casi cuatro años de Macri en el gobierno vieron un aumento de la pobreza y la indigencia, mayor desempleo, cierre de empresas y comercios, una inflación galopante y un marcado deterioro del poder adquisitivo del salario.

El presidente, sin embargo, insiste en que su rumbo económico –de recorte del déficit fiscal y altas tasas de interés que asfixiaron la actividad económica- es “el único camino” y al que se vio forzado por el gasto excesivo de su predecesora y otras distorsiones de sus políticas populistas que llevaron al estancamiento.

En ese difícil contexto, el oficialismo hizo campaña con el discurso de que su derrota conduciría a un régimen autoritario, con un Alberto Fernández sin verdadero poder y manejado por la exmandataria.

Pero la expresidenta mantuvo su bajo perfil incluso en la noche del triunfo en las primarias: mientras los principales dirigentes de su espacio festejaban en Buenos Aires, ella mandó un sobrio video desde su casa en la patagónica ciudad de Río Gallegos, más cercana a la Antártida que a la capital argentina.

“Macri pidió aguante y la sociedad respondió que no puede aguantar más. Ahora lo problemático es cómo sigue, porque tiene que gobernar hasta el 10 de diciembre y, en el medio, enfrentar una elección”, agregó De Angelis.

El presidente Mauricio Macri junto a su compañero de fórmula, Miguel Pichetto, en conferencia de prensa el día después de las elecciones primarias, en que aseguró que la fuerte devaluación de la moneda local y el derrumbe de los activos bursátiles argentinos es “una muestra de lo que puede pasar”, si en octubre pierde la reelección y el peronismo regresa al gobierno. Crédito: Presidencia de la Nación

Argentina tiene un particular sistema electoral, en la cual los partidos políticos deben elegir sus candidatos en elecciones primarias, abiertas, simultáneas y obligatorias (PASO).

Pero esta vez ningún partido tuvo competencia interna, por lo cual las PASO sirvieron nada más –y nada menos- que como una gran encuesta nacional, en la que votó aproximadamente 75 por ciento de los casi 34 millones de habilitados para hacerlo.

El resultado fue de casi 48 por ciento para la fórmula Fernández-Fernández contra 32 por ciento de la de Macri, en un contexto de fuerte polarización que deja poco margen para que cualquiera de estos dos candidatos crezca de aquí a octubre.

Con cifras idénticas, Fernández ni siquiera necesitaría una segunda vuelta, ya que la Constitución Nacional consagra presidente a quien obtenga en el primer turno 45 por ciento de los votos, o solo más de 40 por ciento si le separa de su seguidor una ventaja de al menos 10 puntos porcentuales.

“El resultado, por lo categórico, es extraordinariamente difícil que se modifique. Macri ya no cuenta con la confianza de los votantes, en el medio de una situación complicada que demanda una credibilidad que no tiene. Será necesario algún acuerdo con la oposición”, expresó a IPS Marcelo Leiras, director del departamento de Ciencias Sociales de la Universidad de San Andrés.

Este país del Cono Sur americano entró formalmente en una crisis financiera en abril de 2018, cuando su elevado endeudamiento y la desconfianza de los mercados internacionales de crédito produjo una devaluación de 50 por ciento de la moneda nacional en pocos días y aceleró la inflación.

Nada menos que 75 por ciento de los casi 34 millones de argentinos habilitados a votar participaron el 11 de agosto en las elecciones primarias, pese a que no se escogía nada porque los partidos presentaron una sola candidatura. En la práctica, la jornada se convirtió en una macroencuesta que evidenció que el presidente Mauricio Macri perdió la confianza de la mayoría de los argentinos. Crédito: Daniel Gutman/IPS

El golpe fue sentido especialmente por los pobres, que son un tercio de la población pero se elevan a la mitad en el universo de los menores de 18 años, en un país con una población total de 44 millones.

La situación llevó a Macri a buscar la ayuda del Fondo Monetario Internacional (FMI), que otorgó a Argentina un monumental préstamo de 57.000 millones de dólares pero impuso a cambio un severo programa fiscal.

La magnitud del préstamo fue leída por analistas como una apuesta del FMI por la continuidad de Macri. En la misma sintonía están los presidentes de derecha Donald Trump (Estados Unidos), Jair Bolsonaro (Brasil).

También el mundo de las finanzas internacionales, que el lunes 12 castigó al país por el resultado electoral con caídas de más del 50 por ciento del valor de las empresas argentinas en las Bolsas de Buenos Aires y Nueva York.

Hubo además una nueva devaluación de un 30 por ciento del peso argentino, que anuncia una mayor inflación para las próximas semanas, ya que en la frágil economía local el aumento del dólar se traslada a casi todos los precios locales.

¿Otra vez una presidencia recortada?

Así, en un clima enrarecido en el que distintos sectores del poder comenzaron a pedir a Macri que se olvide de la reelección y se concentre en llegar al final de su mandato de la manera más ordenada posible, el presidente prefirió redoblar su apuesta al miedo y dijo que los nuevos temblores financieros son “solo una muestra de lo que puede pasar. El mundo ve esto como el fin de la Argentina”.

Una mujer muestra una camiseta con el rostro de Alberto Fernández en la capital de Argentina, durante los festejos por el amplio triunfo del peronismo en las primarias del 11 de agosto, que lo convirtieron en amplio favorito para conquistar la presidencia en las elecciones del 27 de octubre. Crédito: Daniel Gutman/IPS

“Hoy estamos más pobres que antes de las PASO. El kirchnerismo (por la línea política que conduce Cristina dentro del peronismo) tiene un problema de crebilidad en el mundo. Debería hacer autocrítica y resolverlo”, dijo Macri, quien prefirió dejar en segundo plano que su gobierno haya perdido legitimidad entre los argentinos.

Sus declaraciones recibieron un fuerte rechazo, incluso fuera de la política. El conductor más popular de programas de entretenimientos en la TV, Marcelo Tinelli, pidió al gobierno “reflexionar por qué la gente le da la espalda con su voto”.

Para el economista Martín Kalos, lo que pasó el día después de las PASO no debería sorprender: “Fue una reacción lógica del mundo económico y financiero ante el cambio que se avecina, que provoca incertidumbre en un contexto de crisis y volatilidad del cual tiene que hacerse cargo el actual gobierno”.

La situación de inestabilidad llevó a que muchos aquí recuerden los sucesos de 1989, cuando el peronista Carlos Menem (1989-1999) ganó las elecciones y se produjo una hiperinflación que llevó al presidente radical Raúl Alfonsín (1983-1989) a traspasarle el poder anticipadamente.

“Dependerá de la capacidad de liderazgo que tenga en estos meses fundamentalmente Macri, quien por supuesto no ayuda cuando echa todas las culpas hacia afuera”, agregó Kalos a IPS.

Edición: Estrella Gutiérrez

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Bosques en llamas y otras catástrofes en tiempos de cambio climático

IPS español - seg, 12/08/2019 - 15:35

Los campesinos que viven en las estribaciones del monte Kenia creen que la quema de los bosques provocará las lluvias. El nuevo informe del Grupo de Expertos sobre el Cambio Climático de las Naciones Unidas alerta que la deforestación es uno de los principales impulsores del cambio climático. Crédito: Valéry Hugotte/Flickr

Por Miriam Gathigah
NAIROBI, Aug 12 2019 (IPS)

Los campesinos que viven en las estribaciones del monte Kenia tienen una creencia: si queman el bosque, vendrán las lluvias.

“En general, creemos que el cielo está cubierto por una gruesa capa de hielo y solo un incendio forestal puede elevarse lo suficiente como para derretir este hielo y darnos lluvia”, dijo a IPS Njoroge Mungai, un residente de la aldea de Kiamungo, en el condado de Kirinyaga, que se encuentra en lasestribaciones de esa montaña que es la más alta de Kenia y la segunda más elevada de África.

No es de extrañar entonces que Kirinyaga sea uno de los condados más afectados por los incendios forestales del país, según los Servicios Forestales de Kenia (KFS, en inglés).

Durante los primeros dos meses de este año, se registraron al menos 114 incendios forestales en Kenia y al menos cinco de sus mayores bosques se vieron afectados negativamente, según KFS.

Tan solo en unos días, en febrero un incendio forestal devastó un estimado de 80.000 acres de páramos forestales del monte Kenia. Los expertos en bosques y vida silvestre insisten en que las comunidades que viven alrededor de estas áreas forestales son responsables de los incendios.

La pérdida significativa de la cubierta forestal no ocurre solo en África, pese a que la deforestación es uno de los principales impulsores del cambio climático en el planeta, según un nuevo informe mundial.

Los científicos del Grupo Intergubernamental sobre el Cambio Climático (IPCC) de las Naciones Unidas han señalado que el mundo está mirando una catástrofe climática.

Estas advertencias están contenidas en un nuevo Informe Especial del IPCC sobre Cambio Climático y Tierra, publicado el  8 de agosto en Ginebra.

En coautoría de 107 científicos, casi la mitad oriundos de países del Sur en desarrollo y 40 por ciento mujeres, el informe coloca frontalmente la gestión de la tierra en el centro del combate al cambio climático, afirmando que las estrategias efectivas para abordar el calentamiento global debe colocar los sistemas de uso sostenible de la tierra en su núcleo.

“El centro del informe del IPCC se encuentra el nexo entre el cambio climático y el uso insostenible de la tierra, incluidos los sistemas alimentarios mundiales insostenibles”, dijo a IPS Richard Munang, coordinador del subprograma sobre clima en la Oficina de África de ONU Medio Ambiente, cuya sede central y regional está en Nairobi.

Munang asegura que este nexo “ya está en primer plano en África, especialmente ahora que el continente está perdiendo la cobertura forestal a un ritmo mucho más alto que el promedio mundial”.

Además, explica que  África tiene el segundo costo más alto del mundo de degradación de la tierra, estimado en 65.000 millones de dólares anuales, lo que ejerce una presión negativa sobre el crecimiento económico.

“Si bien las pérdidas promedio resultantes de la degradación de la tierra en la mayoría de los países se estiman en nueve por ciento del producto interno bruto (PIB), algunos de los países más afectados están en África y pierden un asombroso 40 por ciento de su PIB”, dijo Munang.

Es un hecho, indica el IPCC, que el cambio climático en sí mismo puede aumentar la degradación de la tierra a través del aumento de la intensidad de la lluvia, las inundaciones, la intensidad de la sequía, el estrés por calor y los períodos secos.

Pero, de hecho, son las prácticas de gestión de la tierra las que han inclinado el equilibrio del aumento de la degradación de la tierra, subraya el informe

La agricultura, la producción de alimentos y la deforestación son los principales impulsores del cambio climático, alerta el IPCC.

Según el informe, la tierra es un recurso crítico y también parte de la solución al cambio climático. Sin embargo, a medida que se degrada más tierra, se vuelve menos productiva y al mismo tiempo reduce la capacidad del suelo para absorber carbono. Esto a su vez exacerba el cambio climático.

Como resultado de cambios significativos en el uso de la tierra, presiones de la actividad ganadera y una reducción sustancial en la fertilidad del suelo, los investigadores de la ONU (Organización de las Naciones Unidas) plantean ahora que un tercio de las emisiones totales de carbono provienen de la tierra.

Wilfred Subbo, profesor de recursos naturales en la Universidad de Nairobi, observa los hallazgos con preocupación: “La tierra está bajo una gran presión y estamos presenciando cada vez más cómo los cambios ambientales inducidos por los humanos contribuyen a las catastróficas emisiones de carbono”.

“De hecho, nos estamos dirigiendo directamente a un desastre climático y este informe ha resaltado cómo la tierra dañada ya no sirve como ese gran sumidero que absorbe las dañinas emisiones de dióxido de carbono”, dijo a IPS.

El informe también señaló que “el calentamiento global y la urbanización pueden incrementar el calentamiento en las ciudades y sus alrededores, especialmente durante eventos relacionados con el calor, incluidas las olas de calor”.

“El año pasado, el Programa de Desarrollo de las Naciones Unidas (PNUD) indicó que la transición urbana de África no tiene precedentes en términos de escala y velocidad, y que el continente es 40 por ciento urbano ya hoy”, dijo Subbo.

El informe también destaca que el cambio climático está afectando los cuatro pilares de la seguridad alimentaria: disponibilidad (producción y rendimiento), acceso (precios y capacidad para obtener alimentos), utilización (nutrición y cocinado) y estabilidad (interrupciones en la disponibilidad).

“La seguridad alimentaria se verá cada vez más afectada por el cambio climático futuro a través de la disminución del rendimiento, especialmente en los trópicos, el aumento de los precios, la reducción de la calidad de los nutrientes y las interrupciones de la cadena de suministro”, dijo Priyadarshi Shukla, copresidente del Grupo de trabajo III del IPCC, durante el lanzamiento.

“Veremos diferentes efectos en diferentes países, pero habrá impactos más drásticos en los países de bajos ingresos en África, Asia, América Latina y el Caribe”, remarcó.

Sin embargo, Munang señala que no todo está perdido.

“Más de 90 por ciento de los países de África han ratificado sus compromisos de acelerar la acción climática para cumplir con el Acuerdo de París, alcanzado en 2015”, en el marco de la Convención Marco de las Naciones Unidas sobre Cambio Climático.

Este acuerdo busca lograr un futuro sostenible con bajas emisiones de carbono.

Munang enfatiza que tales objetivos climáticos exigen que los países adopten prácticas ecológicas ambiciosas como la agroforestería, el uso de fertilizantes orgánicos y de energía limpia, entre otros.

El especialista considera que varios países africanos están en el buen camino.

“A Etiopía le ha ido muy bien y ha establecido un nuevo récord mundial no oficial al plantar más de 350 millones de árboles en solo 12 horas”, afirmó.

Kenia aspira a funcionar completamente con energía limpia para 2020 y tiene el récord de tener el parque eólico más grande de África, mientras que Marruecos cuenta con el parque solar más grande del mundo.

“La clave en el futuro es cambiar la perspectiva y considerar estas acciones dentro del objetivo más amplio de construir empresas competitivas a nivel mundial con cobeneficios de acción climática”, dijo Munang.

Mientras tanto, de vuelta a las estribaciones del monte Kenia, Mungai dice que hay esfuerzos para educar a la comunidad sobre los incendios forestales y el efecto que tiene tanto en la tierra como en el clima.

“Esta creencia (de que el fuego atrae la lluvia) tomará tiempo para cambiar porque fue transmitida por nuestros abuelos. Pero el gobierno del condado está enfocado en abordar estos problemas para que las generaciones futuras aprendan a hacer las cosas correctamente”, afirmó.

T: MF

El artículo Bosques en llamas y otras catástrofes en tiempos de cambio climático fue publicado originalmente en IPS Agencia de Noticias.

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Emissários evangélicos de Trump atuaram para mudar embaixada brasileira em Israel

Pública - seg, 12/08/2019 - 14:05

“Vou dizer por que Bolsonaro não tem outra opção e ele vai mudar a embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém. O primeiro ponto: ele já está falando sobre reeleição. Se ele não mudar a embaixada, ele esquece o apoio dos evangélicos. Esquece. Ele vai ficar sem credibilidade e o meio evangélico decide uma eleição, e você sabe disso. Ele não tem opção, ele vai mudar, sim. Ele vai mudar não porque a embaixada de Israel está dando pressão, não é porque os judeus estão dando pressão. Ele vai mudar por causa dos evangélicos”, avalia a presidente da Comunidade Internacional Brasil e Israel, pastora Jane Silva.

Meses antes da campanha eleitoral do ano passado, a pastora, que atua nos bastidores do Congresso Nacional para angariar aliados pró-Israel, gravou no seu celular um vídeo em que o então deputado federal e presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) promete transferir a embaixada para Jerusalém, caso eleito.

Com o discurso de que o novo governante do Brasil deveria ser o candidato que levantasse essa bandeira, os assessores evangélicos de Donald Trump defenderam abertamente a eleição de Bolsonaro.

ReproduçãoA pastora Jane Silva gravou um vídeo com Jair Bolsonaro, então candidato à Presidência na ocasião, em que ele prometia a transferência da embaixada para Jerusalém

 

O pastor Mario Bramnick e a ex-congressista Michele Bachmann, que participam da Iniciativa da Casa Branca para a Fé e a Oportunidade (ICBFO), um grupo de líderes cristãos nomeados como assessores especiais por Donald Trump, fizeram campanha para ele em vídeos divulgados na internet.

“Estou fazendo esta mensagem para encorajar todos os meus amigos no Brasil a somente votarem para um candidato à Presidência do Brasil que apoie a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém”, disse Michele Bachmann em vídeo, justificando que a Bíblia promete bênçãos e prosperidades às “nações e aos indivíduos que abençoarem Israel”.

Na sequência da mensagem de Michele, divulgada pela Comunidade Internacional Brasil e Israel, aparece Bolsonaro assumindo esse compromisso para a pastora Jane Silva. “Busquei apoio incondicional pra Bolsonaro por causa da embaixada”, afirmou a pastora Jane ao enviar o vídeo para a Agência Pública.

A ICBFO (White House Faith and Opportunities Initiative, em inglês), que desde maio do ano passado se transformou em um escritório formal da Casa Branca, reúne os mais influentes líderes evangélicos conservadores dos Estados Unidos que representam três correntes extremistas evangélicas: sionistas (pró-Israel); contra o aborto e os direitos dos LGBTs; e os pregadores do evangelho da prosperidade (que prometem cura física e crescimento econômico àqueles que doam dinheiro para a igreja).

Conforme mostra a investigação “As Transnacionais da Fé”, uma colaboração entre 16 meios latino-americanos, sob a liderança da Columbia Journalism Investigation, da Universidade Columbia, esse grupo faz um trabalho de diplomacia “subterrânea” para exportar e promover a política do governo americano e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, no Oriente Médio, como a mudança da embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém. E os países da América Latina estão na mira deles: a Guatemala seguiu a decisão dos Estados Unidos. Honduras e Brasil são tidos como os próximos países a fazer mudança.

Mario Bramnick e Michele Bachmann vieram especialmente para o Brasil em 8 de agosto do ano passado para participar de um evento na Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte, em comemoração aos 70 anos de Israel. O encontro foi organizado pela pastora Jane Silva e contou com a ajuda financeira do então tesoureiro do PSL de São Paulo, o judeu Victor Sarfatis Metta. Ele disse à Pública que o recurso saiu do seu bolso e também de outros doadores, por acreditarem na causa.

Mas não foi apenas um evento em apoio a Israel. Jair Bolsonaro, candidato do PSL, foi o único presidenciável convidado a participar – ele acabou não comparecendo porque o evento ocorreu no mesmo dia do debate da TV Band. Mas seu filho Eduardo Bolsonaro, atualmente indicado para ser embaixador do Brasil dos Estados Unidos, foi representá-lo e fez as honras da casa ao entregar uma chave simbólica do Brasil a um parlamentar israelense.

“No domingo agora, outubro 28, vai ser o dia em que a igreja vai se levantar no Brasil”, profetizou Mario Bramnick, em vídeo divulgado pelo Conselho Apostólico Brasileiro a quatro dias das eleições presidenciais. “Eu creio que Deus está levantando Jair Bolsonaro como o Ciro de vocês para esse tempo, para ter um alinhamento com os Estados Unidos e com Israel e para mover a embaixada para Jerusalém”, defendeu, referindo-se ao rei da Pérsia que libertou os judeus. Nesse vídeo, ele falou também sobre a sua articulação para influenciar outros países a acompanhar os mesmos passos dos Estados Unidos.

“Falei com o presidente [Donald Trump] a respeito da missão que nós tínhamos e eu levei comigo alguns dos líderes da Casa Branca que têm fé para falar a presidentes das nações da América Latina para que eles transferissem suas embaixadas para Jerusalém. Nós nos reunimos com presidentes da Guatemala, de Honduras e outras reuniões ao redor”, contou.

Bramnick narrou ainda uma conversa que teve com o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu sobre o assunto: “Quando nos reunimos com o primeiro-ministro Netanyahu, ele estava muito contente a respeito dessa transferência. Ele disse que é importante um início com pequenas nações, mas em seguida precisaríamos de nações maiores, como o Brasil”.

Mario Bramnick e outros membros da ICBFO começaram a turnê na América Latina com uma visita à Guatemala, em janeiro do ano passado. A missão, organizada pela Coalizão Latina para Israel (LCI), dirigida pelo pastor, foi para homenagear e recompensar o presidente do país, Jimmy Morales, por ter anunciado, um mês antes, sua decisão de transferir a embaixada de seu país para Jerusalém. Estados Unidos e Guatemala mudaram suas embaixadas para Jerusalém em maio de 2018, com dois dias de intervalo.

Conforme fontes ouvidas pelos jornalistas da investigação transnacional, Morales, em troca da transferência da embaixada, teria obtido apoio dos americanos para acabar com a Comissão Internacional contra a Impunidade na Guatemala (CICIG), das Nações Unidas, criada por um acordo da ONU e do governo do país em 2006 para combater a corrupção. O órgão investigou Morales por financiamento ilegal de campanha.

Após a viagem à Guatemala, líderes evangélicos da Casa Branca se reuniram com o presidente de Honduras durante sua visita a Washington em junho de 2018 e outras duas vezes nos meses seguintes. Eles trataram da mudança da embaixada de Honduras para Jerusalém.

“Acompanhamos a atitude da América”

No Brasil, o lobby pela transferência da embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém ganhou força em 2017, quando Donald Trump reconheceu a cidade sagrada – a ONU entende que o status final da cidade de Jerusalém deve ser definido no contexto das negociações de paz – como a capital de Israel.

Naquele ano, os parlamentares brasileiros da bancada evangélica começaram a pressionar o governo a fazer o mesmo. “Nós acompanhamos a atitude da América, por isso o nosso discurso e a nossa luta é tão recente e acreditamos nessa promessa: eu abençoarei os que te abençoarem e amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”, explicou à Pública o ex-senador e pastor Magno Malta (PL-ES), citando a passagem da Bíblia usada pelos evangélicos para justificar a defesa da mudança da embaixada. A prioridade dada a essa bandeira foi uma novidade na atuação dos evangélicos brasileiros na política.

Forte aliado de Jair Bolsonaro nas eleições, Magno Malta fez parte do Grupo Parlamentar de Amizade Brasil-Israel, não coincidentemente criado em 2017. Segundo ele, Bolsonaro também encampou esse discurso inspirado nos Estados Unidos. “Foi exatamente na época em que o Trump, antes do começo do processo eleitoral, levou a embaixada dos Estados Unidos para Jerusalém, tirando de Tel-Aviv, e declarou Jerusalém capital de Israel, como nós acreditamos. E, ao tomar essa atitude, nós passamos a verbalizar a mesma coisa, que, se ganhássemos as eleições, essa seria a atitude, levaríamos também a embaixada do Brasil, reconhecendo Jerusalém como capital de Israel e como parceiro do Brasil”, contou.

A expectativa dos evangélicos era que Jair Bolsonaro anunciasse a mudança em sua primeira viagem oficial a Israel, em março deste ano. O presidente, no entanto, apenas inaugurou um escritório de negócios na cidade sagrada “para a promoção do comércio, investimento, tecnologia e inovação, a ser coordenado pelo Ministério das Relações Exteriores”. O Itamaraty informou que ainda não há data marcada para a inauguração do escritório e que a transferência da embaixada do Brasil de Tel-Aviv para Jerusalém continua em estudo.

O presidente sofre forte pressão contrária à transferência da embaixada, principalmente dos militares e ruralistas, que temem que a medida possa gerar prejuízo para a economia brasileira. De acordo com informações da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, atualmente as vendas brasileiras para os 22 países árabes afiliados à Liga Árabe rendem, em exportações, US$ 11,4 bilhões. A entidade destaca que, no conjunto, essa seria a quinta parceria comercial do Brasil no exterior. O país é ainda o maior exportador global de carne bovina e frango halal, produzidos de acordo com os preceitos da religião muçulmana.

Os militares também já demonstraram não gostar da ideia da mudança da embaixada. O vice-presidente, general Hamilton Mourão, chegou a dizer em uma entrevista à Folha de S.Paulo que essa medida pode transferir “a questão do terrorismo internacional” para o Brasil.

Entrevistado pela Pública, o embaixador da palestina no Brasil, Ibrahim Alzeben, criticou a possibilidade de mudança da embaixada. “Existem duas Jerusaléns: existe Jerusalém Oriental e Jerusalém Ocidental. E Jerusalém Oriental é um território ocupado. Jerusalém Oriental é a capital do Estado da Palestina. A questão de Jerusalém é um dos temas a ser discutido na fase final do acordo de paz entre Israel e Palestina. O fato de tomar uma decisão unilateral por parte de qualquer outro país é atrapalhar o processo de paz, o processo de negociação entre palestinos e israelenses”.

Na sua avaliação, “o conflito entre Israel e Palestina é territorial e político”. “Deixo bem claro que o assunto não é evangélico, não é católico, não é muçulmano, não é judeu”, observou. “É de direito internacional, não é religioso. O conflito não é religioso. Tratar de confundir isso é realmente enganar ao mundo e servir a interesses mesquinhos”, reforçou.

O embaixador contou que recentemente esteve com o presidente Jair Bolsonaro e com seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), em uma conversa “absolutamente amigável e boa”. Ibrahim disse que a partir deste mês irá retomar a conversa com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo, com a Câmara dos Deputados e com o Senado. “O nosso interesse é melhorar, não só manter, as boas relações com o Brasil”, destacou.

Apesar de ter frustrado as expectativas de seus apoiadores religiosos, Jair Bolsonaro e Eduardo Bolsonaro já reafirmaram o compromisso de campanha em redes sociais, em entrevista à imprensa e em conversas com aliados.

Próximo a lideranças da Casa Branca, o filho “03” do presidente atua como uma espécie de chanceler paralelo e é cotado pelo pai para ser o embaixador do Brasil nos Estados Unidos. “Jane, nós vamos mudar a embaixada para Jerusalém. E se Deus quiser outros países virão conosco”, prometeu ele em conversa de WhatsApp com a obstinada pastora Jane Silva, no dia 5 de novembro de 2018. Os prints foram enviados para a reportagem pela própria pastora.

ReproduçãoEm conversa no WhatsApp, Eduardo Bolsonaro prometeu a mudança da embaixada à pastora

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A pastora Jane Silva

Desde o início da década de 1990, Jane Silva tem uma forte atuação pró-Israel. À Pública ela contou que morou dois anos em Israel, por indicação de um amigo, onde foi fazer um curso sobre assuntos bíblicos. “Eu vi no meio do cristianismo, principalmente no meio dos evangélicos, um antissemitismo muito grande. E vi uma falta de conhecimento sobre os planos de Deus para Israel e sobre a situação política de Israel de uma forma gritante”, destacou.

Jane disse que se aprofundou no assunto e começou a ser chamada pelas igrejas para dar palestras e seminários no Brasil e em outros países. Segundo ela, ao perceber o desconhecimento dos cristãos sobre o que ela diz ser “a verdade sobre Israel”, sentiu uma necessidade de fundar uma comunidade. “No meu ponto de vista, Israel já tem todo o seu destino traçado pela Bíblia e nós, cristãos, precisamos, vamos dizer assim, de fazer o que a Bíblia manda: ‘Orai pela paz de Jerusalém’.”

A pastora organiza anualmente viagens de brasileiros para Israel. “Eu faço a parte de divulgação, de criar o evento, de criar os projetos, de divulgar Israel, de fazer seminários. Sai todo um grupo junto e voltam todos juntos e todos participam da mesma programação”, explicou. Para cada pessoa que leva, ela recebe uma comissão de um operador de turismo em Israel. “Não trabalho com nenhum governo, nem de Israel nem do Brasil. Não recebo dinheiro de nenhum governo e não me envolvo com corrupção. Meu trabalho é como o seu, honesto”, explicou.

“Sobre Jane Silva o que eu posso dizer é que é uma pastora evangélica muito amiga que trabalha faz anos para aproximar o povo brasileiro com Israel tanto como pessoa como organizadora de eventos e como pastora. E, sem dúvida, o trabalho dela, junto com o trabalho de outros líderes evangélicos, contribui de uma forma positiva para esse movimento e essa decisão do governo brasileiro”, destacou à Pública o cônsul-geral de Israel em São Paulo, Dori Goren. Questionado, ele não quis comentar sobre as negociações junto ao governo para a mudança da embaixada.

Celebração por Israel e ato profético para vitória de Bolsonaro

Confiante na promessa da família Bolsonaro, a presidente da Comunidade Internacional Brasil e Israel foi um forte cabo eleitoral do presidente. O evento em comemoração dos 70 anos de Israel realizado por ela na Igreja Batista da Lagoinha – a mesma igreja da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves – nos dias 8 e 9 de agosto de 2018, a dois meses das eleições, virou um ato de campanha para Bolsonaro, apesar de tais atos serem proibidos pela legislação eleitoral brasileira.

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A Igreja Batista da Lagoinha é presidida por Márcio Valadão, pai da cantora gospel Ana Paula Valadão e do pastor da igreja em Orlando, nos Estados Unidos, André Valadão, que declararam voto em Jair Bolsonaro.

Entre as autoridades brasileiras que participaram do encontro, estavam a então candidata à Câmara dos Deputados pelo PSL do Distrito Federal, deputada federal Bia Kicis, o presidente da Federação Israelita de Belo Horizonte, Salvador Ohana, o cônsul honorário de Israel em Minas, Silvio Musman. A deputada Joice Hasselmann (PSL/RS) chegou a ter sua presença anunciada. Procurada, não respondeu às perguntas da Pública.

Durante a celebração, Eduardo Bolsonaro representou seu pai. “Conte com nosso apoio, nós amamos você, seu pai, a família Bolsonaro, e vou levar vocês todos para Israel”, afagou Jane Silva. Na sua apresentação, Eduardo criticou a política externa dos governos petistas de Lula e Dilma em relação a Israel. E disse que desmarcou outros compromissos para estar ali presente. “Porque de fato eu acredito que trata-se de uma data importante, trata-se de um público seleto, e de fato eu desmarquei outros compromissos para estar aqui a sua disposição porque eu sei que seu trabalho é sério e faz um bom tempo já que eu olho pra você, eu lembro de Israel”, disse ao abrir sua fala. Ele entregou uma chave simbólica do Brasil ao parlamentar israelense Robert Ilatov, sob as orações de Michele Bachmann.

Reprodução InstagramEduardo Bolsonaro entregou uma chave simbólica do Brasil ao parlamentar israelense Robert Ilatov

Na noite anterior, no púlpito da Igreja Batista da Lagoinha, Mario Bramnick comparou Donald Trump ao rei Ciro e disse que “chegou a hora do Brasil de orar e eleger uma pessoa como o rei Ciro para presidente”. O comentário gerou risos na plateia, uma vez que um dos candidatos que concorriam com Bolsonaro era Ciro Gomes (PDT). Resolvida a confusão, ele prosseguiu.

“Dois anos atrás, a igreja na América acordou. Nós estávamos tendo leis matando bebês. Leis a favor de casamentos que não são casamentos bíblicos. E tínhamos um governo que virava as costas contra Israel e a igreja acordou. Nós saímos da nossa zona de conforto. Nós somos a luz. Nós somos o sal. É hora da igreja se levantar!”, conclamou. “Nós ficamos tão surpresos quanto o presidente Trump ficou surpreso, todo mundo sabe porque a igreja acordou, nós olhamos para o tempo e vimos que a América estava se afastando de Israel, se afastando da santidade, e soubemos que o tempo para mudança era agora”, detalhou o pastor, elevando a voz durante a pregação.

“Então, esse não é apenas mais um culto. Não é apenas mais um evento sobre Israel. Eu estive em eventos como esse antes da eleição. E de repente a igreja começou a abraçar sua autoridade”, profetizou. “Eu declaro que o Brasil vai dar a luz para uma pessoa como rei Ciro da Babilônia, que o próximo presidente do Brasil vai ser um presidente que vai honrar a vida, que vai honrar o casamento, que honra e abençoa a nação de Israel. Nós declaramos: a embaixada do Brasil vai ser transferida, unida, e a capital eterna da nação de Israel: Jerusalém. Nós declaramos que Jerusalém não será dividida.”

Ontem dançamos, rezamos e falamos de política c/Mario Braminck🇺🇸Dep.Robert Ilatov🇮🇱Chaim Silberstein🇮🇱Reverenda Jane Silva🇧🇷

6 meses antes d mudar a emb.EUA p Jerusalem a ex-Sen. @MicheleBachmann 🇺🇸orou p tal. Agora faltam 6 meses p posse do novo presidente do Brasil! pic.twitter.com/QpR1OASp6F

— Eduardo Bolsonaro🇧🇷 (@BolsonaroSP) 10 de agosto de 2018

Articulações após a vitória

Confirmada a vitória de Jair Bolsonaro, Mario Bramnick e Eduardo Bolsonaro voltaram a se encontrar em Miami, no dia 1o de dezembro. O deputado federal postou uma foto no Facebook com o consultor evangélico da Casa Branca: “Conversa agradável e séria com o pastor americano Mario Bramnick sobre como ocorreu a mudança da embaixada americana em Israel para Jerusalém. Eu acredito que nós devemos fazer o que tem que ser feito, o certo. Amanhã o sol nascerá do mesmo jeito”, escreveu na sua rede social. Nessa viagem aos Estados Unidos, Eduardo tratou também do assunto com o genro e conselheiro do presidente Donald Trump, Jared Kushner, em Washington.

Kushner é o criador do plano pela paz do Oriente Médio, proposta chamada por Trump de “o negócio do século”, que evita mencionar a criação de um Estado palestino e se concentra em levantar US$ 50 bilhões para projetos de desenvolvimento em Gaza. O plano foi rejeitado pelos palestinos.

Segundo Eduardo, Kushner, que é judeu, se prontificou a fornecer informações e a ajudar no planejamento da mudança da embaixada do Brasil de Tel-Aviv para Jerusalém. “Não se sabe ao certo a data, quando ocorre, mas temos a intenção”, afirmou o deputado quando questionado por jornalistas sobre a mudança após a reunião. “A questão não é perguntar se vai, é perguntar quando vai”, afirmou.

Dias depois da visita de Eduardo Bolsonaro aos Estados Unidos, uma comitiva dos embaixadores da fé de Donald Trump pousou no Brasil, onde se encontraram, em Brasília, com a recém-nomeada ministra, a pastora Damares Alves, e com deputados da bancada evangélica. Eles se reuniram também com o presidente Jair Bolsonaro no Rio de Janeiro.

Da Casa Branca, além de Mario Bramnick, vieram o pastor Jim Garlow – conhecido ativista contra o casamento de pessoas do mesmo sexo – e o pastor Ramiro Peña. Também participaram do encontro Albert Veksler, diretor do Café da Manhã de Oração por Jerusalém (Jerusalem Prayer Breakfast – JPB) – movimento que reúne líderes religiosos, empresariais e governamentais para, em uma reunião anual na capital de Israel, rezar pela paz de Jerusalém –, e o pastor Josué Valandro, da Igreja Batista Atitude, frequentada por Jair Bolsonaro e sua mulher, Michele Bolsonaro.

O recém-eleito presidente ganhou de presente um xale de oração israelense do pastor Peña em agradecimento “por todo seu apoio a Israel”. “Estamos muito gratos pela oportunidade de estarmos com o presidente eleito Bolsonaro em solidariedade com ele. Cristãos evangélicos nos Estados Unidos estão bem conscientes de seu papel na nova cena política na América do Sul e estão orando vigorosamente por sua saúde e prosperidade de sua nação”, disse o pastor Garlow.

Jim Garlow e Bramnick lideram organizações que atuam para disseminar a política pró-Israel, por meio do discurso religioso, às lideranças de outras nações. Garlow e sua mulher, Rosemary, estão à frente da Well Versed, que busca “impactar líderes parlamentares, embaixadores, presidentes, primeiros-ministros, reis e outros líderes influentes em todo o mundo”. Michele Bachmann também faz parte.

Já Bramnick preside a LCI, que criou uma força-tarefa “formada por líderes de negócios e líderes da fé cristã e judaica na América Latina e nos Estados Unidos”, que se articulam para “incentivar, influenciar e educar líderes de países latino-americanos em sua decisão de declarar Jerusalém como a capital de Israel e sua decisão para mudar suas embaixadas para Jerusalém”. Um brasileiro compõe o comitê executivo da América Latina da organização de Bramnick: o apóstolo Fernando Guillen, da Coalizão Internacional de Líderes Apostólicos.

Conexão Brasil, Israel e Estados Unidos

De acordo com a pastora Jane Silva, foi o congressista israelense Robert Ilatov, seu amigo pessoal, quem articulou a participação de Mario Bramnick e Michele Bachmann na celebração dos 70 anos de Israel em Belo Horizonte, às vésperas das eleições. Ilatov é o fundador e presidente do Café da Manhã de Oração por Jerusalém e Michele Bachmann é a vice-presidente.

Foi durante o café da manhã de junho do ano passado em Jerusalém que Jane Silva, a única a representar o Brasil no evento, pediu o apoio de Ilatov para a celebração dos 70 anos de independência do país que ocorreria três meses depois em Belo Horizonte. “Eu falei para ele que eu queria muito que ele me ajudasse no evento em BH, que era pelos 70 anos de Israel e que, querendo ou não, esses 70 anos de Israel também ia ter ato profético para que o presidente Bolsonaro pudesse ganhar e que eu precisaria de muito apoio”, disse a pastora.

Assim como os assessores evangélicos de Trump, Robert Ilatov também manifestou sua preferência por Jair Bolsonaro. Em um vídeo divulgado pela deputada Bia Kicis (PSL-DF), ele manda um recado direto para o então candidato do PSL: “Senhor Jair Bolsonaro, eu queria muito lhe desejar boa sorte nessas próximas eleições para ser o novo presidente do Brasil. Nós sabemos que você é um amigo verdadeiro do Estado de Israel e do povo judeu”, disse. “Que você tenha muita sorte nessas eleições e que as pessoas que votarem em você sejam abençoadas também”, concluiu.

No Café da Manhã de Oração por Jerusalém, Jane Silva entregou uma comenda em homenagem ao país com a assinatura de 70 parlamentares – uma para cada ano da existência de Israel. Bolsonaro, então deputado federal, assinou por 1955, ano de seu nascimento, enquanto o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, firmou pelo ano inaugural de Israel, 1948. “O Victor [Metta] me ajudou para eu ir porque estava muito em cima da hora”, destacou.

O ex-tesoureiro do PSL também ajudou a pastora a arrecadar recursos para levar lideranças políticas e religiosas para Jerusalém em novembro, depois das eleições. “O Victor Metta, ele batalhou para conseguir dinheiro tanto no evento aqui em BH como no evento em Israel”, contou Jane Silva.

A grande maioria dos participantes era do PSL. “Nunca dinheiro do partido, mas sempre dinheiro pessoal e de outros doadores. Eu procuro pessoas bem- intencionadas, que elas acabam se cercando, se juntando, e graças a Deus eu consegui ajudar a atividade dela, não muito, mas a gente fala sempre em valores pequenos porque a gente não está acostumado a grandes verbas”, disse Metta, que atualmente é assessor especial do Ministério da Educação, à Pública. Questionado novamente, ele disse: “Pra ser sincero, não lembro nem se fui eu ou se foi algum outro doador que eu arrumei, mas eu consegui de alguma forma ajudar”.

Segundo Jane Silva, essa viagem “foi uma continuidade da celebração em Belo Horizonte”. A pastora entregou 50 medalhas para os escolhidos como “embaixadores da paz”. Alguns desses homenageados – entre eles os deputados federais Pablo Oliva (PSL-AM) e Carla Zambelli (PSL-SP), o senador Carlos Viana (PSD-MG), a vice-governadora de Santa Catarina, Daniela Reinehr (PSL), o deputado estadual de São Paulo Castello Branco (PSL) e a atriz Regina Duarte – viajaram com ela para Israel.

A pastora Jane Silva entregou 50 medalhas para os escolhidos como “embaixadores da paz”

Jair e Eduardo Bolsonaro também receberam a medalha, mas, recém-eleitos, não participaram da viagem.

Em abril deste ano, a pastora participou da comitiva do presidente a Israel – Bolsonaro embarcou no dia 30 de março para o país, onde ficou até 3 de abril. Ali, ela entregou a medalha. “Fui convidada pela Apex [Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos] e pela Embrapii [Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial]”, contou. “Eu participei dos principais eventos. Eu participei das atividades que tiveram com os empresários, atividades que tiveram com os brasileiros”, acrescentou. Segundo ela, o custo da viagem ficou a cargo dos convidados.

Jane Silva diz que é “amiga de todos os políticos, com algumas exceções”, é “amiga da embaixada de Israel” e é “querida pelo Parlamento de Israel”. Além de atuar no Brasil, a Comunidade Internacional Brasil e Israel possui um escritório nos Estados Unidos desde 2017, mesmo ano em que Donald Trump reconheceu Jerusalém como capital de Israel. A pastora esteve presente na inauguração da embaixada americana em Jerusalém, em maio de 2018, segundo ela.

Próxima do movimento sionista dos Estados Unidos, Jane Silva garante que foi o líder do ministério Cristãos Unidos por Israel, pastor John Hagee, quem pressionou Donald Trump a fazer a mudança da embaixada de Tel-Aviv para Jerusalém. “Quando ele viu que não saía nada, ele foi no presidente e falou: ‘Presidente, o senhor quer (não exatamente nessas palavras) continuar sendo presidente ou o senhor quer sofrer um impeachment? O senhor assumiu o compromisso com os evangélicos, os evangélicos estão cobrando e o senhor não está fazendo a sua promessa’, contou. Ele fez uma oração na cerimônia de abertura da embaixada americana em Jerusalém, no ano passado.

Outro grande doador de campanha de Trump, o empresário de cassinos e bilionário Sheldon Adelson também tinha exigido a mudança da embaixada ao então candidato à presidência dos Estados Unidos.

Em abril deste ano, John Hagee se encontrou com o presidente Jair Bolsonaro, em almoço no Rio de Janeiro organizado pelo pastor da Assembleia de Deus Silas Malafaia, em que compareceram alguns dos principais pastores do país, além do governador do Rio, Wilson Witzel, e os presidentes do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP).

“Quando você começar a abençoar Israel de maneira prática, haverá uma explosão sobrenatural”, pregou o pastor americano durante o encontro. “Queremos cumprir esse compromisso, mas, como um bom casamento, tem que namorar, ficar noivo. Nesse caso, a noiva me merece”, justificou Jair Bolsonaro aos convidados, ao explicar a demora no cumprimento da promessa de campanha.

A pastora Jane Silva acredita que “se fosse só pelo Bolsonaro, o Bolsonaro já teria feito” a mudança da embaixada. No entanto, observa, “existe no governo Bolsonaro um grupo de pessoas do primeiro e segundo escalão que não quer a mudança”. A pastora destacou que está “superquieta” e que está aguardando o momento certo para “dar uma prensa” no governo.

“O Bolsonaro vai cair em descredibilidade se ele não fizer isso, porque é uma promessa de campanha”, disse. E alertou: “Não adianta ele querer mudar nos 48 do segundo tempo”.

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Conheça Sheldon Adelson, bilionário que convenceu Trump a mudar embaixada para Jerusalém

Pública - seg, 12/08/2019 - 14:05

É certo que não foi apenas por acreditar nas palavras da Bíblia que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decidiu mudar a embaixada do país de Tel- Aviv para Jerusalém. Nem foi por isso que o empresário do ramo de entretenimento deu poder a uma equipe de pastores evangélicos na Casa Branca para que fizessem lobby em nações latino-americanas, convencendo seus governantes a fazer o mesmo. Uma das maiores influências por trás da atitude de Trump foi o magnata dos cassinos Sheldon Adelson, fundador e presidente da Las Vegas Sands (LVS), e sua mulher, a israelense Miriam Adelson. A companhia é líder do setor de resorts integrados a cassinos no mundo, com nove empreendimentos espalhados entre os Estados Unidos, Cingapura e China.

Maior doador de campanha de Donald Trump – foram US$ 20 milhões na campanha e outros US$ 5 milhões arrecadados para a cerimônia da posse – e forte aliado do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, Sheldon Adelson é apontado como o principal articulador da política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio. Além de transferir a embaixada para Jerusalém, o governo americano cortou o financiamento para ajuda a refugiados palestinos e desmantelou o acordo nuclear com o Irã.

Sheldon Adelson se ofereceu para ajudar a financiar a mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém, conforme revelou o New York Times em fevereiro do ano passado. Durante a inauguração da embaixada, os Adelsons ganharam assentos privilegiados, ao lado de Netanyahu e sua esposa, da filha de Donald Trump, Ivanka, e seu marido, Jared Kushner, e do secretário do Tesouro, Steven Mnuchin, de acordo com a reportagem investigativa da ProPublica e da WNYC.

Miriam escreveu um relato da cerimônia, elogiando Donald Trump, que foi copublicada na primeira página dos dois jornais que o próprio Adelson tem em Israel: o Israel Hayom – diário gratuito que afirma ter a maior circulação no país – e o Las Vegas Review-Journal. “A abertura da embaixada é um momento de coroamento para a política externa dos EUA, para o nosso presidente, Donald Trump. Pouco mais de um ano após seu primeiro mandato, ele rencentrou os Estados Unidos como porta-estandarte da clareza moral e da coragem em um mundo que muitas vezes se sente à deriva.”

De acordo com o ProPublica, o presidente da Organização Sionista da América, Morton Klein, que também estava na inauguração, contou que o Sheldon Adelson lhe disse: “O presidente Trump prometeu que faria isso e fez isso”. Ao jornal, o CEO da Câmara de Comércio Judaica Ortodoxa, Duvi Honig revelou: “Sheldon me disse que qualquer país que queira mudar sua embaixada para Jerusalém, ele os levará – o presidente e todos – para a abertura”.

Em parte pelo menos, ele está cumprindo essa promessa. Em 16 de maio, o magnata dos cassinos emprestou seu avião particular para o presidente da Guatemala, Jimmy Morales, e sua comitiva, viajarem para participar da inauguração da embaixada do país em Jerusalém, segundo o jornal Nomada, membro da investigação conjunta “As Transnacionais da Fé”, uma colaboração entre 16 meios latino-americanos, sob a liderança da Columbia Journalism Investigations, da Universidade Columbia.

Tanto os Estados Unidos quanto a Guatemala mudaram suas embaixadas para Jerusalém em maio de 2018, com dois dias de intervalo.

De origem pobre, Sheldon Adelson é hoje o 24º homem mais rico do mundo, segundo a lista de bilionários da Forbes de 2019, com uma fortuna avaliada em US$ 35,1 bilhões. Parte de seus recursos é destinada a organizações judaicas e sionistas. De acordo com a Forbes, ele doou US$ 410 milhões para a Birthright, uma entidade que envia jovens judeus em viagens gratuitas para Israel. O magnata dos cassinos financia também a Organização Sionista da América, a mais antiga liga pró-Israel nos Estados Unidos.

No seu site, a organização informa que se dedica a educar o público, autoridades eleitas, mídia e estudantes de faculdades e promover fortes relações EUA-Israel. “A ZOA (Zionist Organization of America) trabalha para proteger os estudantes de faculdades e colégios judaicos da intimidação, assédio e discriminação, e na luta contra o antissemitismo em geral”, acrescenta.

Ainda é obscuro se há interesses econômicos de Adelson na sua militância pró-Israel. Fato é que a proximidade com o homem na Casa Branca – Trump também teve cassinos em Las Vegas, onde competia diretamente com Adelson – parece estar abrindo portas também para os negócios do magnata. E o Brasil está na sua mira.

Las Vegas SandsSheldon Adelson é apontado como o principal articulador da política externa dos Estados Unidos no Oriente Médio Em encontro, Trump falou a Bolsonaro sobre legalização de cassinos

De acordo com uma reportagem investigativa da ProPublica e da WNYC, em fevereiro de 2017, durante um encontro com o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, Donald Trump mencionou o interesse de Adelson em construir um cassino no Japão, segundo duas fontes do jornal. O jogo no país é legalizado e o mercado, competitivo. De acordo com a reportagem, por mais de uma década, Adelson e sua empresa, a LVS, tentam conseguir uma licença para construir um resort com cassino multibilionário.

Um movimento semelhante tem ocorrido para beneficiar os negócios do magnata no Brasil, segundo apurou a Agência Pública.

Conforme divulgado pelo Estado de S. Paulo, a legalização dos cassinos foi tema de conversa entre Trump e Jair Bolsonaro durante visita do presidente brasileiro a Washington, em 19 de março. Dois dias após esse encontro, o ministro do Turismo, Marcelo Álvaro Antônio, afirmou que o governo deverá provocar um debate no Congresso Nacional sobre a possibilidade de permitir que cassinos possam operar integrados a resorts. Exatamente o modelo de negócios de Sheldon Adelson.

Ao ser questionado pela Pública sobre as articulações do ministro a respeito do assunto, o Ministério do Turismo afirmou por meio de nota: “Em primeiro lugar, é preciso separar a liberação de cassinos integrados a resorts e jogos de azar como um todo. Neste momento, este é um assunto que está em discussão no Congresso Nacional”. Segundo o órgão, o ministro nunca se encontrou com o empresário Sheldon Adelson.

Entretanto, em visita ao Brasil em maio do ano passado, o bilionário americano deixou claro quais são seus interesses no país. “Estou aqui para considerar o investimento em um ou mais resorts integrados”, afirmou em entrevista ao Valor Econômico. De acordo com o jornal, “o LVS quer que os cassinos fiquem restritos aos complexos turísticos – o modelo integrado que, para a companhia, é a única que pode trazer os benefícios desejados”.

“Na Argentina, há pequenos cassinos, mas não temos interesse nisso”, observou Adelson.

Coincidentemente, o mesmo modelo foi defendido pelo ministro do turismo, Marcelo Álvaro Antônio.

Promessa de investimento de US$ 10 bilhões no Rio de Janeiro com bênçãos de Crivella

Um dos principais entusiastas da ideia dos cassinos integrados a resorts tem sido o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella. Bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus e sobrinho do líder da igreja, bispo Edir Macedo, ele chegou a se reunir em maio do ano passado com Sheldon Adelson para tratar do tema. Em entrevista ao Valor Econômico publicada em dezembro, Crivella disse que quer ajuda do governo federal para liberar os cassinos. “As pessoas sabem que, se não tivermos emprego, vamos para o caos social. E joga quem quiser”, justificou.

“Lutei muito no ano passado, não consegui, mas quero que o Bolsonaro me ajude. Que é [aprovar] uma superlicença para termos um cassino. Recebi a visita do Sheldon Adelson e ele está interessadíssimo. A ideia dele era comprar [a área do aeroporto] Santos Dumont. Tirei isso da cabeça dele, para ele comprar o Porto Maravilha. E nós termos aqui um cassino tipo o que ele fez em Cingapura, onde 5% é o cassino, e tem centro de exposições, centro de convenções, hotel com duas torres enormes, de 50 metros, e piscina lá em cima. Ele me disse que fatura mais em Cingapura do que todos os cassinos de Las Vegas. Tá louco para investir. Compromisso dele: investir US$ 10 bilhões e gerar 50 mil empregos. Vamos ter aqui um grande empreendimento”, contou ao jornal.

Questionado pelo Estadão sobre o jogo ser pecado para algumas igrejas, o bispo e prefeito completou: “Quem acha que é pecado não deve jogar”.

A Pública solicitou uma entrevista com o prefeito, mas até o fechamento desta reportagem não teve nenhum retorno.

Conforme apurou a reportagem, o projeto da LVS foi abraçado também pelo governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC). Antes de anunciar investimento na Cidade Maravilhosa, no entanto, o grupo tentou negociar primeiro com o governador do estado de São Paulo, João Doria (PSDB), sem sucesso. A LVS estava interessada no Complexo do Anhembi, de acordo com uma fonte que acompanhou as negociações.

O lobby da LVS no Brasil

Não é de hoje que Adelson faz lobby para legalizar os cassinos no Brasil. O presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Turismo, deputado federal Herculano Passos (MDB-SP), contou à Pública que foi convidado para almoço com Sheldon Adelson em Brasília em duas ocasiões, em 2016 e 2017. “Além de mim, participaram outros parlamentares e representantes do Poder Executivo”, acrescentou. Segundo ele, o empresário disse que o grupo LVS tem interesse em abrir três complexos integrados de lazer com cassinos no país.

Conforme apurou a Pública, o escritório de advocacia Lowenthal Advogados representa os interesses da LVS no país e articula com o Congresso Nacional e o governo federal para que o modelo de cassino integrado a resort seja liberado no país.

Nos anos 2017 e 2018, os consultores da LVS, Fabio Lowenthal, da Lowenthal Advogados, e Henry Lowenthal, da GR8 Capital Consultoria Empresarial, se reuniram pelo menos quatro vezes com representantes do primeiro e segundo escalão do governo federal.

Todas essas reuniões foram registradas nas agendas oficiais dos respectivos anfitriões. No dia 4 de outubro de 2017, eles se reuniram com o então secretário adjunto de Planejamento e Assuntos Econômicos, Júlio Alexandre Menezes da Silva. Em 28 de novembro de 2017, estiveram com a então subchefe de assuntos parlamentares da Secretaria de Governo da Presidência, Mariangela Fialek.

ReproduçãoTodas as reuniões foram registradas nas agendas oficiais

Já em 2018, no dia 28 de fevereiro, eles se encontraram com o então secretário de Acompanhamento Fiscal, Energia e Loteria do Ministério de Economia, Mansueto Facundo de Almeida Júnior. Participaram também dessa reunião a consultora Camila Barbosa, o vice-presidente de relações governamentais da LVS, Andrew F. Abboud, e o economista e professor da Fundação Getulio Vargas, Samuel Pessôa. Conforme registrado na agenda, o assunto da pauta foi: “jogos em complexos de resorts”.

Já com o ex-presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Antonio Carlos Ferreira de Souza, essa mesma equipe conversou sobre “mecanismo de combate à lavagem de dinheiro nas atividades de jogos de azar”, em 20 de setembro de 2018.

A reportagem da Pública ligou diversas vezes para a Lowenthal Advogados, mas não conseguiu falar com Fabio Lowenthal e, apesar de ter deixado recado, não teve retorno. Um email foi enviado também para o consultor da LVS. A reportagem não conseguiu contato com Henry Lowenthal nem com Camila Barbosa. O professor Samuel Pessôa não quis dar entrevista.

A reportagem solicitou uma entrevista com Sheldon Adelson e enviou uma série de perguntas à assessoria da LVS no Brasil. Por meio de nota, eles informaram que “há algum tempo a LVS tem acompanhado as discussões sobre legalização de jogos no Brasil, tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado” e que “a LVS entende que o Brasil é um grande destino turístico com diferentes belezas naturais e o país possui um dos maiores potenciais turísticos inexplorados do mundo”.

“A LVS estará pronta para investir no Brasil imediatamente, desde que o processo de legalização e o arcabouço regulatório sigam os altos padrões de outras jurisdições como Cingapura, Macau e Nevada, que têm um ambiente de jogo limitado e estritamente regulado. As discussões que vêm ocorrendo no Congresso nos últimos anos são muito interessantes para o Brasil, pois podem atrair um grande investimento internacional para a construção de novos complexos turísticos espalhados por todo o Brasil. Esse processo aumentaria o número de turistas internacionais que visitam o país, colocando o Brasil como um novo destino para as principais feiras e convenções internacionais (segmento MICE). O resultado desses novos investimentos no setor de turismo seria a geração de novos empregos, aumento de renda, novos investimentos internacionais privados, aumento da receita tributária, aumento do gasto dos turistas no Brasil, entre outros”, diz a nota.

No Congresso, a “Lei Sheldon Adelson”

A pauta sobre a legalização dos cassinos esquentou este ano no país depois que começou a tramitar na Câmara dos Deputados o Projeto de Lei 530/2019, de autoria do deputado federal Paulo Azi (DEM-BA), que autoriza a “exploração, em todo Território Nacional, de jogos de fortuna exclusivamente em cassinos estabelecidos em resorts integrados”. É exatamente o modelo de negócios capitaneado por Sheldon Adelson.

Os resorts, de acordo com o texto, “são empreendimentos que se compõem de meios de hospedagem e de um conjunto de instalações, serviços e produtos voltados ao entretenimento do visitante, tais como centros de convenções, cassinos, spas, restaurantes, bares, shoppings, galerias de arte, museus, teatros, espetáculos musicais, campos de golfe, praças esportivas, parques temáticos e parques aquáticos”.

No texto do projeto, Paulo Azi justifica que o objetivo da proposta “parte da premissa que o jogo já existe no Brasil, mas é majoritariamente ilegal e minoritariamente legalizado por meio de loterias operacionalizadas pela União (Caixa Econômica)”. Segundo o projeto, o que se pretende não é criar algo novo, “mas legalizar, regulamentar e tributar essa parte majoritária, de forma a trazer para a formalidade uma atividade já em curso, além de fortalecer e dinamizar o turismo no Brasil”.

Mas o projeto de lei casa tanto com os interesses e o perfil dos negócios do grupo LVS que a proposta recebeu o apelido de “Lei Sheldon Adelson”. Além de restringir a legalização do cassino dentro de resorts, o projeto restringe o número de licenças para cada cidade: “Um resort cassino por Estado ou no Distrito Federal, com população até 15 milhões de habitantes; dois resorts cassinos por Estado ou no Distrito Federal, com população entre 15 quinze e 25 milhões de habitantes; três resorts cassinos, no máximo, por Estado ou no Distrito Federal, com população superior a 25 milhões de habitantes”, diz o texto.

Uma pessoa que acompanha as negociações do grupo no Brasil contou à Pública que essas foram as duas exigências de Sheldon Adelson: que a legalização fosse restrita ao modelo de cassinos integrados a resorts e que o número de licenciamento para cada cidade fosse restrito.

Apesar de ter se reunido com Sheldon Adelson em duas ocasiões, o deputado federal Herculano Passos disse que “em momento algum” foi “abordado pelo empresário, ou quem quer que seja, para apresentar ou intermediar apresentação de projeto sobre cassinos, apesar de defender a causa”.

“Eu acredito que, no formato que o projeto principal está, atende perfeitamente o setor de turismo e, como ele já foi amplamente debatido e aprovado pela Comissão Especial, indica que não só eu, mas os membros da Comissão também acreditam no potencial econômico da legalização dos cassinos no Brasil”, afirmou.

O parlamentar justificou ainda que, como presidente da Frente Mista em Defesa do Turismo, defende esse tipo de empreendimento porque “não irá atrair apenas jogadores, mas visitantes com os mais diversos interesses”.

Para ele, a lei “movimenta o setor do turismo, da cultura, de eventos, esporte, comércio, além de toda a cadeia produtiva que gira ao redor desses segmentos. Cerca de 200 mil brasileiros saem do país para jogar em cassinos estrangeiros. O que queremos é manter essas pessoas no Brasil e ainda atrair turistas estrangeiros que venham para jogar, mas também para conhecer o Brasil e movimentar toda a nossa economia”.

À Pública, o chefe de gabinete do deputado autor da proposta, Paulo Kauffmann, negou também que Sheldon Adelson tenha influenciado na elaboração do texto. “Nós ouvimos todo o setor. O deputado foi a Portugal para conhecer como funcionava os cassinos em Estoril, esteve nos EUA, esteve em Cingapura para ver como funcionam os cassinos do Sheldon Adelson lá em Cingapura. A gente olhou tudo, e é óbvio que você vai precisar de investidores estrangeiros”, destacou. Mas ele reconhece que a verba para tais empreendimentos virá de empresas como as de Adelson. “Não tem investidor nacional para um nível desse. Muito pelo contrário, você quer buscar os lá de fora para investir aqui dentro, para gerar emprego, para gerar renda. Não é só o Sheldon que está interessado, tem um grupo na Europa que está interessado. Quem puder botar euro, botar dólar aqui, melhor.”

De acordo com a assessoria de comunicação da LVS no Brasil, existem outros grupos interessados em investir no modelo de cassinos integrados a resorts no Brasil, como, por exemplo, a MGM Resorts International e a Caesars Entertainment, também de Las Vegas.

Em entrevista ao site Games Magazine em 2017, em Brasília, a vice-presidente do grupo Caesars Entertainment e ex-prefeita de Las Vegas, Jan Jones, afirmou que o grupo quer investir R$ 7 bilhões em três cassinos integrados a resorts no país: “Achamos que o Brasil é a maior oportunidade de expansão no mundo e estamos assistindo e monitorando as discussões da legislação e oferecendo subsídios técnicos para os parlamentares de maneira a que eles entendam muito bem o que nossa indústria representa para a economia”, contou ao site. Ela disse ainda que “todas as companhias internacionais estão com os olhos abertos para o Brasil”.

“Vejo o Brasil como a última grande fronteira para a indústria de jogos e vamos alcançá-la em breve”, acrescentou.

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Lei pode ser votada em setembro

O chefe de gabinete do deputado Paulo Azi garantiu que a proposta que prevê a legalização dos cassinos integrados a resorts conta com o apoio do presidente Jair Bolsonaro (PSL). Segundo ele, o ministro da Economia, Paulo Guedes, incentivou o deputado a enviar o projeto ao Congresso. “O deputado [Paulo Azi] conversou com o ministro Paulo Guedes. O ministro Paulo Guedes ficou muito entusiasmado. O presidente Bolsonaro, na época da campanha, recebeu o deputado, eles conversaram sobre isso e ele disse que gostaria muito que isso viabilizasse”, lembrou. “Outro dia fomos conversar com Onyx [ministro-chefe da Casa Civil]. Ele é bem favorável. Chegou inclusive a levar o projeto para o presidente. O presidente gostou”, acrescentou.

Durante a campanha eleitoral, no entanto, Jair Bolsonaro negou que legalizaria os cassinos no Brasil: “Eu vou legalizar os cassinos no Brasil? Dá para acreditar numa mentira dessas? Nós sabemos que o cassino, aqui no Brasil, se tivesse, ia ser uma grande lavanderia, serviria para lavar dinheiro e também para destruir as famílias que muita gente ia se entregar ao jogo e o caos, então, se faria presente junto ao seio das famílias aqui do Brasil”, disse.

Enquanto isso, a “Lei Sheldon Adelson” já está pronta para ser votada em plenário. Mas há uma disputa entre os parlamentares que defendem a legalização de outros jogos, como bingo e jogo do bicho, e os que querem apenas a aprovação do modelo de cassinos integrados a resorts. A proposta de autoria do deputado Paulo Azi foi apensada ao PL 442/1991, que é mais abrangente e traz regras para outras modalidades de jogos.

“O que vai ser discutido em plenário? Vai depender de quem o presidente da Câmara vai indicar como relator de plenário. Se for o deputado Paulo Azi, é evidente que ele vai tentar direcionar e tirar essa parte de jogo do bicho, caça- níqueis, jogo do bingo, porque a gente não vê nisso nenhum ganho de emprego. A gente só vê nisso aí uma facilidade para lavagem de dinheiro. Enquanto você trabalha com resorts integrados, é muito mais fácil de controlar”, ressaltou Paulo Kauffmann.

Segundo o presidente da Frente Parlamentar Mista em Defesa do Turismo, na última semana antes do recesso parlamentar, membros da Comissão de Turismo se reuniram com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, pedindo que alguns projetos do setor sejam pautados num esforço concentrado, no mês de setembro. Entre as propostas, está a legalização dos cassinos. “No entanto, ainda não há uma confirmação de que o projeto vá para a pauta”, afirmou Herculano Passos.

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Transnacionais da fé

Pública - seg, 12/08/2019 - 14:05

O projeto “Transnacionais da fé” é uma colaboração de 16 meios latinoamericanos, sob a liderança da Columbia Journalism Investigations da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia (Estados Unidos). Os parceiros latinoamericanos são: Agência Pública (Brasil); El País (Uruguai); CIPER (Chile); El Surtidor (Paraguai); La República (Peru); Armando.info (Venezuela); El Tiempo (Colombia); La Voz de Guanacaste e Semanario Universidad (Costa Rica); El Faro (El Salvador); Nómada e Plaza Pública (Guatemala); Contracorriente (Honduras);
Mexicanos Contra la Corrupción y la Impunidad (México); Centro Latinoamericano de Investigación Periodística (CLIP); e Univisión (Estados Unidos).

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Os pastores de Trump chegam à Brasília de Bolsonaro

Pública - seg, 12/08/2019 - 14:05

“Esse estudo não é sobre se Deus aceita ou não uma guerra. Ele aceita”, anuncia o pastor americano Ralph Drollinger, em um dos seus estudos bíblicos semanais, com uma voz emotiva porém pausada, calculada para que os visitantes de seu site acompanhem o raciocínio. Em seguida, explica que a frase bíblica “Bem-aventurados são os que promovem a paz porque serão chamados filhos de Deus” (Mateus 5:9) diz respeito apenas a “como os fiéis devem conduzir suas vidas pessoais”. Ou seja: não vale para os governos, que podem, sim, ir à guerra.

Publicado em maio de 2018, aquele “estudo bíblico” tinha razão de ser, segundo o próprio pastor: ajudar os membros do governo americano a refletir sobre “a ameaça de guerra com a Síria, o Irã e a Coreia do Norte” – movimentos iniciados pelo presidente americano Donald Trump. E convencê-los de que ir à guerra é abençoado pela própria Bíblia. Dias depois, Drollinger seria ainda mais explícito na sua pregação, ao pedir que “você, como servidor público, ajude a reduzir a tendência antibíblica secular em direção ao pacifismo e não intervencionismo! Isso vai levar a um crescente caos global!”.

Não foi a primeira vez nem seria a última que o fundador do ministério evangélico Capitol Ministries encontraria na Bíblia uma justificativa para as ações mais radicais do governo Trump. Afinal, o objetivo da igreja fundada por Drollinger é basicamente “converter” políticos e servidores públicos a uma visão cristã evangélica da política que se casa perfeitamente com a visão da ultradireita americana. “Sem essa orientação, é bem mais difícil chegar a políticas públicas que satisfaçam a Deus e sejam benéficas ao progresso da nação”, resume Drollinger em um dos estudos em seu site.

ReproduçãoRalph Drollinger, fundador do ministério evangélico Capitol Ministries, ganhou uma camiseta da Seleção Brasileira do pastor Raul José Ferreira Jr.

Enquanto o presidente americano nega os acordos sobre o aquecimento global – e questiona abertamente se ele de fato existe –, Drollinger rechaça em outro estudo bíblico que o homem possa impactar o meio ambiente. “Todos devem ficar seguros sobre a habilidade e vontade d’Ele de sustentar o ecossistema do nosso mundo”, diz, concluindo, com voz exaltada: “Que verdades gloriosas Deus nos deu! São um tapa na cara dos teóricos de moda que tentam nos assustar com o aquecimento global”.

E se alguém questiona se a maior promessa de Trump – construir um muro na fronteira com o México para evitar a entrada de imigrantes e refugiados – pode conviver com o princípio cristão da compaixão –, ele tem a resposta pronta: “Compreende-se do Gênesis 11 que as nações, pelos desígnios de Deus, devem ter diferentes línguas, culturas, e fronteiras”, raciocina. “As leis imigratórias de cada nação devem ser baseadas na Bíblia e estritamente aplicadas – com a absoluta confiança e a garantia de que Deus aprova tais ações.” Quem garante é o pastor.

A Capitol Ministries – nome que significa “Ministério do Capitólio”, símbolo do Congresso americano – foi fundada pelo ex-jogador de basquete Ralph Drollinger na Califórnia, em 1996, para “criar discípulos de Jesus Cristo na arena política pelo mundo todo”. A ideia do pastor era levar para a política seu trabalho anterior, focado em evangelizar atletas.

Até o ano 2010, seu público eram deputados estaduais; naquele ano, o primeiro ciclo de estudos foi fundado em Washington, no Congresso americano. Mas foi em 2017 que Drollinger deu seu salto para o primeiro plano da política mundial, quando fundou o primeiro grupo de estudos dedicado apenas a membros do governo de Donald Trump. O encontro semanal, em um local não revelado, reúne dez membros do alto escalão do governo, incluindo o vice-presidente, Mike Pence, e o secretário de Estado, Mike Pompeo, que dirige a política externa. O ex-diretor da Agência de Proteção Ambiental Scott Pruitt, que articulou a saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, sobre aquecimento global, e já questionou o efeito de emissões de carbono sobre o clima, também chegou a participar.

Muito além de um simples falatório, as pregações de Drollinger têm efeito prático em um governo que mais de uma vez reconheceu ter sido eleito graças ao voto evangélico. Em junho do ano passado, um de seus sermões foi usado pelo ex-procurador-geral Jeff Sessions para apaziguar os corações dos eleitores quanto à detenção de milhares de crianças imigrantes em péssimas condições na fronteira com o México. “Eu citaria a vocês o apóstolo Paulo e seu comando claro e sábio em Romanos 13, para obedecer às leis do governo porque Deus ordenou o governo para seus desígnios”, disse Sessions, invocando a Bíblia, e não a legislação americana, como justificativa. Enquanto a imprensa americana reagia chocada, Drollinger fez questão de expor suas digitais por trás da declaração.

“Eu tive a distinta honra de ensinar a ele sobre esse assunto e muitos outros”, disse. “Não há nada mais animador, quando você é um professor da Bíblia, do que ver um dos caras com quem você está trabalhando articulando algumas coisa que você ensinou.” A frase, de fato, é uma repetição do manual básico de Drollinger, e Sessions, quando estava no governo, realmente frequentava seus estudos bíblicos.

Separar pais dos seus filhos seria aprovado pela palavra de Deus, diz o pastor. “Quando alguém viola a lei de um país, deve antecipar que uma das consequências do seu comportamento ilegal será a separação dos seus filhos. É esse o caso de ladrões ou assassinos que são presos”, justifica.

Em busca de Bolsonaro, Capitol chega ao Brasil

Financiada pelo vice-presidente Mike Pence e pelo secretário de Estado Mike Pompeo, segundo afirmou o próprio Drollinger em seu site, a Capitol Ministries também se vale da influência do governo americano para cumprir sua missão, entre aspas, divina: dominar o mundo. Desde o ano passado, abriu capítulos em cinco países latino-americanos – México, Honduras, Paraguai, Costa Rica e Uruguai –, anunciou que abrirá em outros dois – Nicarágua e Panamá – e acaba de aportar no Brasil, com lançamento oficial programado para a segunda quinzena de agosto no Senado Federal, “sem muita badalação, voltado apenas para autoridades” e “com a presença de Drollinger e sua esposa”, como explicou à Agência Pública o pastor da Igreja Batista Vida Nova, Raul José Ferreira Jr., que será o responsável por conduzir os estudos bíblicos no Senado e na Câmara.

Ele diz ainda que, “se Deus permitir”, vai conduzir também estudos bíblicos na Casa Civil junto ao presidente Jair Bolsonaro e seus ministros, traduzindo as palavras do pastor americano para o presidente brasileiro. “Nós estamos realmente trabalhando firme para que possa haver ao menos um encontro do pastor Drollinger com o presidente Bolsonaro agora em agosto, para que a partir daí a gente possa desenvolver um trabalho. Mas, mesmo que o presidente não esteja entre eles, nós vamos tentar construir um trabalho dentro da Casa Civil, junto dos ministros diretamente ligados ao palácio”, diz.

O objetivo dos estudos bíblicos, que são traduzidos para o espanhol e em breve para o português, é disseminar a visão de Drollinger sobre o cristianismo aplicado à política. “Nossa ideia é chegar a nível de Presidência da República e ministros, primeiro escalão. A gente tem um slogan que é ‘first the firsts’, ou seja, primeiro os primeiros. Através dessas pessoas com relevância a gente pode mudar o destino da nossa nação”, diz o pastor Ferreira Jr., que, indicado pelo diretor regional no Brasil, pastor Giovaldo de Freitas, passou por uma semana de treinamento em Seattle com Ralph Drollinger e sua equipe.

ReproduçãoO pastor Raul José Ferreira Jr., responsável por conduzir os estudos bíblicos no Senado, com o presidente Jair Bolsonaro Reuniões bíblicas nos gabinetes dos deputados

As aspirações da Capitol Ministries no Brasil são ambiciosas, embora o pastor Ferreira Jr. chame de “trabalho de formiguinha”: conduzir, a portas fechadas nos gabinetes, reuniões bíblicas individuais com parlamentares, especialmente os não convertidos, além de reuniões coletivas semanais – e ainda garantir que cada parlamentar do Congresso Nacional receba os estudos impressos, por e-mail e por mensagem no celular. “Nosso objetivo é reconstruir a nação a partir de valores cristãos que são forjados através do estudo da palavra”, define o pastor.

Para tanto, ele diz que o ministério de Drollinger já conta com o apoio de alguns parlamentares que são membros atuantes da Frente Parlamentar Evangélica, como o senador e pastor Zequinha Marinho (PSC-PA), o deputado Sóstenes Cavalcante (DEM-RJ) e o deputado e também pastor Roberto de Lucena (Podemos-SP).

Giovaldo Freitas, o homem da Capitol Ministries no Brasil

As negociações para a chegada da Capitol Ministries ao Brasil começaram ainda no governo Temer, em 2017, como explicou à Pública o diretor do ministério no Brasil e pastor da Igreja Batista de Moema, Giovaldo Freitas, em seu escritório em São Paulo. Naquele ano, Giovaldo era parte do Global Leadership Summit, uma organização evangélica americana que realiza grandes eventos de capacitação para lideranças empresariais no mundo todo. Em um dos eventos do grupo em Chicago, o pastor foi convidado pelo hoje coordenador da Capitol Ministries na América Latina, o peruano Oscar Zamora, a participar de um almoço que acertaria os detalhes da vinda do ministério para o Brasil.

Giovaldo passou então pelo treinamento de Drollinger em Washington com pessoas do mundo todo: “Tinha várias pessoas da América Latina, alguns do Caribe, da Europa, gente da Ásia… Gente da Argentina, Paraguai, Uruguai, Equador, Colômbia, Bermudas, Bahamas, Guatemala, Honduras, Costa Rica, México, Holanda, Romênia, Rússia…”, lembra. E acrescenta: “Foi muito interessante porque de repente eu me vejo ali conversando com um senador americano superempolgado porque estava vindo para o Brasil. Nessa reunião tinha oito senadores e dois deputados [americanos]”. O pastor não quis revelar os nomes dos políticos americanos presentes, mas disse que também houve, na ocasião, um painel com a presença de três secretários de Trump: a secretária de Educação, Betsy DeVos, o secretário de Energia, Rick Perry e o da Agricultura, Sonny Perdue.

Segundo ele, os laços religiosos têm dado frutos políticos: “Inclusive, esse secretário de Energia tem mantido conversa com nosso ministro de Minas e Energia exatamente por causa da chegada da Capitol Ministries”, revela.

Desde então, o pastor descreve que várias negociações aconteceram no Congresso brasileiro, além de reuniões com embaixadores do Itamaraty e com o chefe de gabinete de Temer, em maio de 2018, “para decidir algumas coisas” sobre o lançamento no Brasil, segundo Giovaldo. Questionado pela reportagem, ele não quis entrar em detalhes. A Pública encontrou registros de uma reunião com o então ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Ronaldo Fonseca, em julho do ano passado, na qual estavam Giovaldo e outro ex-membro da Capitol Ministries, o pastor Evandro Beserra.

Em julho do ano passado, o ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Ronaldo Fonseca, se reuniu com Giovaldo e outro ex-membro da Capitol Ministries, o pastor Evandro Beserra

Embora diga que a intenção do ministério não é “levantar bandeiras”, o pastor admite que existe uma aproximação natural com os partidos mais à direita. O novo governo é, para ele, o cenário como ideal para a chegada: “Na primeira semana de abril, nos reunimos com o Onyx Lorenzoni [ministro-chefe da Casa Civil], que foi muito receptivo, evangélico do Rio Grande do Sul, foi um tempo muito gostoso. O presidente Bolsonaro estava em Israel, então não pudemos ter contato, mas fomos muito bem recebidos”, comentou.

Segundo a professora de direito e diretora do Centro Jurídico sobre Gênero e Sexualidade na Universidade de Columbia, Katherine Franke, a exportação de missões fundamentalistas dos EUA para a América Latina, com a benção do governo federal, viola os princípios de separação de Estado e Igreja determinada pela Constituição dos Estados Unidos. “O governo está promovendo a religião como um projeto oficial do governo e isso claramente viola uma das cláusulas. Mais ainda, o governo está promovendo uma visão particular da religião, sem fazê-lo imparcialmente. E esse é um segundo tipo de violação ”, disse a especialista à coalizão de veículos que faz parte do projeto “Transnacionais da Fé”.

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Batistas à frente

Para Christina Vital da Cunha, professora da Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião, alguns elementos se destacam nessa chegada do ministério de Drollinger ao Brasil: um deles seria o novo protagonismo político da Igreja Batista, antes vista como mais progressista e também mais afastada da política – ministra Damares Alves é pastora batista, a primeira-dama, Michelle Bolsonaro, também, além de outros integrantes do governo. É o caso da Igreja Batista Vida Nova, de Raul José Ferreira Jr., que liderará os estudos dentro do governo.

“A gente pode observar um elemento diferente do que vinha acontecendo no Brasil desde então, que é uma afinação orgânica entre Estados Unidos e outros países da América Latina a partir desse elemento religioso e que tem na política institucional um lugar importante de atuação. Se vê um alinhamento conservador no Brasil, na América Latina e em outros países no mundo, que nos países da América Latina tem nesses religiosos evangélicos e católicos seus principais atores”, aponta. E chama atenção para a legitimação de um discurso à direita por meio da Bíblia, algo que já tem sido feito em certa medida no Brasil desde a campanha de Bolsonaro. “Outra coisa a se observar é se haverá disputas de poder com instituições já estabelecidas, como a Igreja Universal e a Assembleia de Deus.”

À Pública, o pastor Giovaldo adianta que existe distinção entre o trabalho da Capitol Ministries e o da Frente Parlamentar Evangélica: “São coisas diferentes. Nosso objetivo lá dentro não são os evangélicos. Os estudos bíblicos são pra quem não tem uma relação com a igreja, com Deus. É de evangelização, caminhar junto, orar. Aí, se porventura alguns reconhecerem Cristo como seu Senhor e salvador, eles poderão vir a fazer parte da FPE [Frente Parlamentar Evangélica]”, diz, apesar de reconhecer que a parceria com parlamentares evangélicos – como os citados pelo pastor Ferreira Jr. – é fundamental e que os primeiros estudos bíblicos serão conduzidos no gabinete do senador Zequinha Marinho e no do deputado Silas Câmara (PRB-AM), pastor da Assembleia de Deus e presidente da Frente Parlamentar Evangélica.

Na América Latina

Drollinger nega que sua organização faça lobby, reconhecendo apenas que seu objetivo é converter políticos para Cristo. Mas a Capitol Ministries chegou a Honduras, país centro-americano, pelas mãos do próprio vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence. Em junho de 2018, quando o presidente hondurenho, Juan Orlando Hernández, fazia uma visita oficial a Washington, Mike Pence e o secretário de Estado, Mike Pompeo, sugeriram a ele que iniciasse um capítulo da Capitol Ministries na presidência e em seu Congresso.

“Também é bom saber que o vice-presidente Pence e o secretário de Estado Pompeo influenciaram de maneira tão efetiva o presidente Hernández para lançar o Capitol Ministries entre os membros do gabinete”, escreveu Ralph Drollinger no comunicado de inauguração dos estudos bíblicos em Honduras, em 8 de novembro de 2018.

Em 2017, Drollinger recrutou Oscar Zamora, um pastor peruano que estudou teologia no West Coast Christian College, na Califórnia. Desde então, Zamora viaja pelo continente negociando a abertura de ministérios nos parlamentos da região, mantendo um perfil discreto e evitando dar entrevistas. Os pastores, como aconteceu com Giovaldo, são recrutados no Global Leadership Summit, programa que ele lidera na América do Sul. Três dos pastores de Drollinger afirmaram à reportagem que as reuniões são financiadas com recursos americanos.

Na Costa Rica, a Capitol Ministries ficará a cargo do presidente da igreja Assembleia de Deus, Ricardo Castillo Medina. O religioso vai dirigir os estudos da Bíblia entre os membros do Congresso, “para que possam tomar decisões baseadas em uma consciência pura e limpa”, diz. Em março deste ano, Ralph Drollinger e sua esposa, Danielle, foram até o país se reunir com um grupo de congressistas em um café da manhã convocado sob o lema “Reconstruindo uma Nação” – nome do livro de sua autoria – no hotel Radisson, em um elegante bairro da capital.

“Quero dizer a vocês que o vice-presidente Mike Pence e o secretário de Estado Mike Pompeo me pediram que eu os saúde. Esses dois homens amam a Jesus Cristo com todo o seu coração e eles estão impactando, literalmente, o mundo inteiro. Eles estão tomando esses princípios e com sua personalidade os projetam”, disse Drollinger. E previu: “Se você conquista líderes políticos para Cristo, vai ter conquistas residuais para seu país; vai ter efeitos enormes, muito positivos sobre a direção que tomará a Costa Rica”.

Mas não é só de governos orgulhosamente de direita que a Capitol Ministries tem se aproximado. No último dia 19, durante as comemorações dos 40 anos da Revolução Sandinista na Nicarágua, lideradas com pompa por Daniel Ortega e sua esposa, Rosario Murillo, em meio a uma crise política que matou mais de 300 pessoas, levou mais de 500 manifestantes à cadeia e a milhares de exilados, Ralph Drollinger estava lá. Segundo uma nota à imprensa, foi o próprio Ortega quem convidou a Capitol Ministries a abrir o ministério no país. No convite, Ortega declarou: “Sabemos que, se as pessoas a quem Deus confiou o destino da nação nascerem de novo, nossos deputados legislarão de acordo com a Bíblia”. E foi assim que, diante de milhares de pessoas, Drollinger ressaltou os valores cristãos do país e agradeceu a oportunidade oferecida pelo governo de Ortega. “Eu oro pela sua nação, oro por você, oro pelos líderes do governo para que todos possamos refletir os atributos de Cristo todos os dias”, disse Drollinger, segundo o jornal oficial La Voz del Sandinismo.

A guerra contra a Igreja Católica liderada pelo governo de Ortega certamente entra nessa conta. Em entrevista à Pública em julho de 2018, o escritor e ex-vice-presidente do país Sergio Ramírez disse que um dos pontos mais sensíveis à possível reeleição em 2021 era justamente este: “Ortega também tem a Igreja Católica contra ele. O governo começou a atacar igrejas católicas, como no caso do tiroteio de 15 horas na Igreja da Divina Misericórdia, em Manágua [em 13 de julho, estudantes refugiados na igreja sofreram 15 horas de tiros da polícia]. Estão atacando padres, quebrando templos católicos. Parece-me que se meter contra a Igreja Católica em um país eminentemente católico como o nosso é uma guerra perdida”.

Os estudos bíblicos no gabinete presidencial e no Congresso nicaraguense ficarão a cargo de Arsenio Herrera, pastor da maior igreja evangélica de Manágua, Hosanna Church. Herrera foi discípulo do criador da Hosanna, o americano David Spencer, a quem se atribui o feito de ter convertido mais de 500 almas por semana nos primeiros anos da igreja e que, pouco antes de sua morte, recebeu de Ortega e Rosario Murillo a cidadania nicaraguense em honra aos serviços prestados ao povo da Nicarágua.

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