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Atualizado: 1 hora 4 minutos atrás

A Agricultura de Benin teve uma boa temporada, mas não foi fácil

ter, 30/04/2019 - 10:56

COTONOU, Benin,  30 de Abril de 2019 (IPS) –  Théophile Houssou, um agricultor de milho de Cotonou, passou noites sem dormir, deitado e preocupando-se com os vários desastres que poderiam acontecer com qualquer agricultor, frequentemente pensando: “o que vai acontecer se chover forte e toda minha plantação for levada embora?”, ou “o que aconteceria se minha fazenda fosse invadida por lagartas, que acabassem comendo toda a minha plantação e não me deixassem nada?”.

A colheita de milho em Benin, como também no mínimo em 28 países da África, está sendo ameaçada pela lagarta de outono, uma praga invasiva que ataca 80 espécies diferentes de cultivos. Houssou é grato por não ter acontecido uma infestação. E agradece a “Deus por uma boa temporada, mas não foi fácil”, contou à IPS.

A produção de milho em Benin atingiu um recorde de 1,6 milhões de toneladas durante a temporada 2017-2018, comparada com 1,2 milhão de toneladas de dois anos atrás, de acordo com os dados do Ministério de Agricultura.

No centro da cidade de Cotonou, a capital comercial do país, cinco homens estão ocupados carregando abacaxis em um caminhão de dez toneladas, enquanto cinco veículos mais pesados aguardam para também serem carregados. A produção será levada para vários países da região, incluindo a Nigéria, que recebe 80% de todas as exportações de Benin.

Benin é o quarto maior país da África na exportação de abacaxi, produzindo entre 400 mil e 450 mil toneladas anualmente. As exportações para a União Europeia (UE) aumentaram de 500 toneladas para quatro mil toneladas entre 2000 e 2014, de acordo com dados oficiais.

Mais longe, o famoso mercado Dantokpa está inundado de produtos agrícolas, incluindo tomate, quiabo, soja, feijões, manga, laranja, pimentão verde, limão e todos os tipos de verduras e frutas. A competição é feroz e os preços de venda são muito baixos, mesmo em uma excelente temporada agrícola.

 

Espaço para melhorias

Apesar de o setor agrícola parecer animado, ele ostenta várias falhas. Mesmo sendo, na maioria das vezes, de subsistência, a agricultura contribui com aproximadamente 34% para o Produto Interno Bruto (PIB) das nações da África ocidental. Mais ou menos 80% das 11,2 milhões de pessoas em Benin obtêm sua renda da agricultura, de acordo com a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). A FAO acrescenta que os agricultores do país encontram desafios como infraestrutura precária e inundações, que podem destruir cultivos e estoques de sementes.

Nos documentos Plano Estratégico para o Desenvolvimento do Setor Agrícola (PSDSA) 2025 e Plano Nacional para Investimentos na Agricultura e Segurança Alimentar e Nutrição (PNIASAN) 2017-2021, o governo de Benin admitiu que a renda e a produtividade no setor está baixa, e que a força de trabalho só é recompensada parcialmente, fazendo que os produtos agrícolas sejam menos competitivos.

“A maioria dos agricultores utiliza muito pouco insumos melhorados e envolvem-se em práticas de mineração que acentuam a degradação dos recursos naturais”, aponta o documento.

“Podemos fazer melhor que isso”, opinou à IPS Marthe Dossou, um pequeno agricultor que supervisionava o descarregamento de milhares de caixas de tomates de um caminhão em condições precárias. Esses tomates vão ser exportados para a Nigéria, mas ele sente que, considerando a alta qualidade da colheita, Benin pode produzir mais para exportar. “Isso se pudermos receber ajuda, como mais recursos, incluindo empréstimos, novas técnicas de agricultura e domínio das técnicas de consumo de água”, disse.

Tamo Manuele, representante de Benin no Instituto Internacional de Agricultura Tropical (IITA), destacou à IPS que a inovação agrícola “é fundamental para erradicar a pobreza, a fome e a má nutrição, principalmente nas áreas rurais, onde a maioria da população mais pobre do mundo vive”.

“Inovação pode, primeiro de tudo, aumentar a produtividade e a renda de pequenos agricultores e, em segundo lugar, diversificar a renda de agricultores por meio do desenvolvimento da cadeia de valor. E, por último, criar mais e melhores oportunidades de diminuir a pobreza rural”, ressaltou Manuele.

 

O IITA lançou o projeto de biocombustível à base de jatrofa em 2015, em Benin, envolvendo o desenvolvimento de uma cadeia de biocombustíveis para criar pequenos negócios lucrativos e viáveis. Essas mulheres fazem sabão da árvore de jatrofa. Cortesia: International Institute for Tropical Agriculture (IITA)

 

“Agricultores, ou no mínimo atores na cadeia de valor agrícola, precisam de suporte para a conservação e o tratamento das commodities agrícolas. Com a e-agricultura, produtores podem manejar melhor a sua produção e, especialmente, estar informados sobre as oportunidades do mercado. Inovações como o sistema de garantias (um sistema de crédito de estoque no qual os agricultores, em vez de vender seus produtos, usam-nos como garantia para obter crédito do banco) e a venda em grupo podem também resolver esse problema. ONGs e outros especialistas em agricultura têm a força e apoiam de perto os agricultores”, enfatizou Manuele.

Sediado em Ibadan, na Nigéria, o IITA tem estado presente em Benin desde 1985 e apoia a pesquisa nacional em agricultura e a extensão desses serviços. “Pesquisa é uma das principais ligações que levam à inovação. Vários estudos reportam que comunidades localizadas perto de centros de pesquisas são mais informadas, expostas a inovações e mais supervisionadas por cientistas. Portanto, a vontade deles para adotar inovações é extremamente significante. Assim, o IITA Benin está mais presente no campo, com várias inovações que estão sendo testadas e gerenciadas por cientistas”, acrescentou Manuele.

Alguns agricultores dizem que estão conscientes das tecnologias agrárias, mas reclamam sobre a falta de promoção dessas inovações nas áreas em que operam. Koffi Akpovi Justin, um agricultor de temporada, foi introduzido ao método 4R, no qual quatro princípios científicos são usados para garantir que a terra esteja no nível certo de nutrientes para plantar.

“Todos vangloriam-se de que a terra na África é fértil… Eu estava frustrado e quase desisti da agricultura porque acreditava fortemente nos modos naturais de fazer as coisas. Eu só arava a terra, plantava sementes (muitas delas), começava o processo doloroso de molhá-las e, no fim, obtinha poucos resultados. Agora não mais”, comemorou Justin.

Todavia, a África subsaariana é o mercado de fertilizantes mais caros do mundo, onde pequenos agricultores compõem mais ou menos 70% da população. “Se você os usa, deve usar com cuidado, porque, se não praticar o método dos 4R, pode derramar tudo sobre os campos, poluir recursos de água que estão por perto e lençóis freáticos. Eu vivi isso muitos anos atrás, mas agora sou mais esperto”, declarou Justin.

Justin acrescentou que vários agricultores que vivem nas áreas longínquas não conseguem ter acesso a informações sobre inovações agrícolas. “Vários deles, a maioria em lugares muito remotos, sempre dizem: ‘sabemos que essas coisas existem e gostaríamos de usá-las, mas onde podemos encontrá-las?’. Talvez as organizações internacionais, como a ONU e o IITA, possam fazer mais para garantir que mais agricultores possam ter acesso a inovações agrícolas para impulsionar a produção de alimentos e lutar contra a fome”, destacou.

Monique Soton é uma dessas agricultoras. Ela mora no noroeste de Benin, mais ou menos a 500 quilômetros de Cotonou. “Nós estamos em áreas remotas e lá nossas vidas são concentradas em apenas sair para trabalhar na nossa plantação de manhã e voltar à tarde. Não tem rádio, não tem tevê, não tem eletricidade. Nós podemos perder informações importantes sobre os novos métodos de agricultura ou desenvolvimentos que estão acontecendo no setor, como por exemplo se um censo é feito para determinar o número de agricultores que precisam de ajuda financeira. Isso é triste”, observou à IPS essa agricultora de tomate.

Outro obstáculo importante que pequenos agricultores enfrentam em Benin é a falta de mercados. “O único mercado local que eu usava para vender meus produtos é em Dantokpa, em Cotonou. Imagina a distância da nossa área (mais ou menos 500 quilômetros)!”, enfatizou Soton, indicando que não existem estradas ou veículos para levar os produtos até lá. “Várias vezes o veículo precário que usamos para transportar nossos produtos quebra no meio de um terreno sem dono, à noite, e isso é muito assustador”, disse.

 

Inovação agrícola

O IITA tem feito contato com várias comunidades. Em Benin, em 2015, lançou um projeto de produção de biocombustível a partir de jatrofa (arbusto também chamado de pinhão manso, do mesmo gênero da mamona), que incluiu o desenvolvimento de uma cadeia de biocombustíveis para criar pequenos negócios lucrativos e viáveis.

“Especialmente, está consolidando a rentabilidade e a sustentabilidade da cadeia de valor da jatrofa, por meio da abordagem de parceria público-privada que cria trabalho para pessoas jovens, mulheres e homens. O projeto é configurado de acordo com a cadeia de valor, incluindo produção de jatrofa, extração do seu óleo, produção de sabão, moagem de grãos, eletrificação rural e outras”, explicou Manuele.

Desde o começo do projeto, 2.050 produtores, incluindo 538 mulheres, têm sido beneficiados. À parte do projeto jatrofa, o IITA informou que implementou vários outros projetos que contribuem com a segurança alimentar e a nutrição, e também melhoram a renda de vários lares rurais.

 

Solução mágica?

Embora as inovações na agricultura tenham sido bem-sucedidas, Jeroen Huising, um cientista do solo da Nigéria, advertiu que essa não é a “solução mágica” para Benin. “Eu não acredito em soluções mágicas e agricultura (inovação) certamente não é mágica. A questão sobre a pobreza rural tem pouco a ver com a inovação agrícola. Existem fatores econômicos que determinam isto”, pontuou à IPS.

“Além disso, se as inovações podem aumentar a produção de pequenos agricultores, isso não resolveria os problemas deles. A produção tem a ver, principalmente, com o uso de insumos e, mesmo assim, os preços são frequentemente muito baixos para se ter uma vida decente”, enfatizou Huising.

Soton concorda que fatores econômicos têm um enorme papel no sucesso de um pequeno agricultor, explicando que “a falta de apoio financeiro é um problema grave”. Ela ressaltou que bancos não consideram pequenos agricultores para empréstimos, “porque não preenchemos nenhum dos critérios necessários para que nos emprestem dinheiro. Então, a gente usa o dinheiro que ganhamos do tontines (um plano de investimento) e da venda de algumas das nossas propriedades. Nós temos a terra, mas falta tudo, desde sementes até fertilizantes, e o dinheiro que é preciso para contratar trabalhadores”.

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Melhorando a vida de milhões de mães e crianças

sex, 26/04/2019 - 11:02

PEMBA, Zâmbia, 26 de abril de 2019 (IPS) –  São pouco mais de três da tarde em uma quarta-feira quente no distrito de Chipata, Zâmbia Oriental, e um grupo de mulheres chega para uma reunião. Está na hora de Elizabeth Tembo ir na frente de outras mães como ela e compartilhar lições importantes sobre nutrição.

Essa é uma matéria que Tembo aprendeu no projeto implementado pelo Instituto Internacional de Agricultura Tropical (International Institute of Tropical Agriculture – IITA) e seus parceiros.

“Com o projeto, aprendi muitas práticas melhores de agricultura para produzir uma colheita com altos nutrientes, como ervilhas e soja, das quais minha família se beneficiou grandemente”, contou Tembo a uma reportagem do IITA. “E agora estou feliz de ajudar outras mulheres também. Assim, juntas, podemos reduzir a alta prevalência de desnutrição e evitar que cresça entre as crianças da nossa comunidade”, acrescentou a mãe amamentando.

O projeto Aumentando a Nutrição (The Scaling Up Nutrition – SUN), do Programa dos Mil Dias Mais Críticos, foi implementado entre 2014 e 2017 pela colaboração do IITA com a Development Aid from People to People (DAPP), e financiado pela Irish Aid, a UK Aid Direct e a Agência Internacional de Desenvolvimento Sueco (Swedish International Development Agency – SIDA). O objetivo era alcançar grávidas e mães amamentando crianças com no máximo 24 meses de idade.

“O projeto focou em promover produção, processamento e utilização de cultivos ricos em nutrientes, como hortaliças e árvores frutíferas, além de soja, ervilha, feijões, milho, laranja, batata-doce de polpa alaranjada e mamão. E o nosso papel era providenciar capacitação para treinadores baseados na comunidade, sobre produção, processamento e utilização dessas colheitas promovidas em nível comunitário”, explicou à IPS Theresa Gondwe, especialista em disseminação tecnológica do IITA no Southern Africa Research and Administration Hub (SARAH).

Em tempos recentes, especialistas reconheceram a função especial que o setor agrícola tem em mitigar a desnutrição de mães e crianças em grupos vulneráveis, por meio do aumento da disponibilidade de dietas diversificadas.

“Agora na África, governos e comunidades estão adotando inovações que estão melhorando a vida de milhões, com a produção agrícola diversificada como um caminho para melhorar a variedade de dietas em lares de pequenos agricultores pobres que produzem o que consomem”, apontou à IPS Emmanuel Alamu Oladeji, do IITA SARAH.

Isso vem de especialistas que estão mais e mais de acordo com que a disponibilidade e o acesso a alimentos, sozinhos, não são o suficiente sem um nível necessário de nutrientes. Por sua parte, o IITA desempenhou um papel fundamental no Ano Internacional dos Pulses (sementes secas), em 2016, que promoveu cultivos tradicionais com alto valor proteico, como ervilha, feijões, lentilha, grão de bico e fava.

De acordo com um artigo publicado pelo IITA, os pulses podem parecer pequenos, mas eles são um grande desafio, pois nutricionistas constatam consistentemente que seus baixos perfis glicêmicos e alto conteúdo de fibras ajudam a prevenir e gerenciar as chamadas doenças da riqueza, como obesidade e diabetes.

Também acredita-se que, por causa da proteína que possuem, podem ajudar o mundo a administrar suas práticas pecuárias de maneira mais sustentável. Desse modo, mais pessoas podem desfrutar de dietas de renda média melhores e mais variadas, sem sobrecarregar os recursos naturais.

Com a chegada da mudança climática, que já tem colocado uma grande pressão no sistema alimentar, a necessidade de abordagens mais sustentáveis na agricultura e a integração de dietas diversificadas para uma melhor nutrição tem ganhado um significado extra.

De acordo com a Organização das Nações Unidas, até 2050, o aumento da população e a mudança de dieta vão elevar a necessidade de alimentos em 60%. Todavia, como a mudança climática já está colocando pressão no sistema alimentar e nos meios de subsistência rurais por causa de secas, inundações e furacões, acidificação dos oceanos e a elevação do nível do mar e das temperaturas, são necessárias abordagens mais amigáveis com o ambiente e o clima.

Adaptação, portanto, é um componente indispensável para acabar com a equação da fome, especialmente para pequenos agricultores, que já estão lutando com os caprichos da mudança do clima.

O Fundo Mundial para a Natureza (World Wide Fund for Nature – WWF) Zâmbia tem um projeto de adaptação à mudança climática para pequenos agricultores no sudoeste do país. “Estamos apoiando pequenos agricultores na construção da resiliência climática”, ressaltou à IPS Nachilala Nkombo, diretora do WWF Zâmbia. “Providenciamos treinamento direto sobre abordagens inteligentes para a produção de alimentos e trabalhando com os sistemas de extensão do governo, bem como com uma rede de agricultores, para propagar conhecimento entre os agricultores”, detalhou.

Nkombo acredita que as políticas agrícolas africanas têm que integrar a mudança do clima em todos os níveis para lidar com o crescimento da população e a crescente pressão nos sistema de produção de alimentos. “Precisamos de um equilíbrio adequado. Não podemos simplesmente abrir novas terras porque a população está crescendo, mas também buscar métodos para desempenhar um papel no reflorestamento em larga escala”, observou.

De volta ao projeto SUN, Gondwe está convencida do impacto positivo da intervenção. “O projeto enfatizou a diversificação de cultivos para melhorar a nutrição e tem exemplos de sucesso em Luapula e nas províncias Leste e Norte, onde o projeto foi implementado. E a maioria dos agricultores envolvidos no projeto viu uma mudança positiva no seu modo de vida”, disse.

Lyness Zimba, do distrito de Lundazi, no leste de Zâmbia, deu seu depoimento sobre o que aprendeu. “Eu levei a sério as aulas semanais, dadas por especialistas em agricultura e saúde”, testemunhou para uma reportagem do IITA.

“Fomos ensinados sobre uma variedade de tópicos, como a importância de alimentar as nossas crianças com comidas saudáveis e como cultivar e utilizar a variedade de culturas altamente nutritivas para obter o máximo de benefícios nutricionais. As receitas facilitaram a preparação de refeições nutritivas para as nossas crianças; nós não somos mais os mesmos”, concluiu Zimba.

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“Pessoas afetadas pela hanseníase sofrem múltiplas discriminações”

sex, 15/03/2019 - 18:44

RIO DE JANEIRO,  (IPS) – “Existem mais de 50 países com leis discriminatórias contra as pessoas afetadas pela hanseníase, e há muita discriminação também na administração do Estado e na sociedade”, disse em entrevista à IPS Alice Cruz, relatora especial das Nações Unidas para a eliminação da discriminação contra as pessoas afetadas pela hanseníase e suas famílias.

A relatora especial, de origem portuguesa, foi uma das participantes especiais do I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, também conhecida como lepra, realizado entre os dias 12 e 14 de março, na cidade brasileira do Rio de Janeiro.

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Afetados pela hanseníase na América Latina se unem por direitos e voz

sex, 15/03/2019 - 18:19

RIO DE JANEIRO, 14 de março de 2019 (IPS) – Com a decisão de fundar uma coalizão regional para promover direitos e maior participação em fóruns e decisões nacionais e internacionais, concluiu-se o I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Hanseníase, popularmente conhecida e estigmatizada como lepra.

A sessão final do encontro, no dia 14, aprovou 40 das 58 propostas apresentadas em três dias de debates pelos 111 participantes, na sede da Fundação Oswaldo Cruz, renomado centro de pesquisas científicas, médicas e epidemiológicas da cidade brasileira do Rio de Janeiro.

José Picanço, de 46 anos, separado de sua família e entregue recém-nascido a um orfanato porque seus pais foram diagnosticados com a doença em 1972, é uma das pessoas cujos direitos a uma reparação ainda não foram cumpridos, assim como de seus três irmãos.

Quando a família conseguiu se encontrar novamente, oito anos depois, o pai rejeitou os filhos. A mãe acolheu-os, mas morreu pouco depois. “Eu só vivi cinco meses com ela, uma santa”, lembrou Picanço, mal contendo as lágrimas durante seu depoimento no encontro.

“Humilhados como filhos de leprosos, sofrendo assédio escolar e sexual, muitos dos meus companheiros de orfanato entraram na droga, alcoolismo. Foi um holocausto”, disse Picanço. “Eu acertei meu irmão na cabeça, sem saber que ele era meu irmão”, lamentou.

“Das 15 mil a 20 mil crianças separadas de suas famílias, mais de 80% sofrem de depressão”, informou Picanço em entrevista à IPS, detalhando parte dos danos causados pela antiga regra de segregar os chamados leprosos.

O isolamento obrigatório foi generalizado no mundo, durante diferentes períodos históricos, e continua em alguns países, mesmo depois de se saber que a doença tem cura e deixa de ser contagiosa pouco depois de se iniciar o tratamento.

Oficialmente, o Brasil aboliu essa prática em 1976, mas de fato ela permaneceu por mais dez anos. Suas vítimas diretas foram compensadas a partir de 2007, mas não seus filhos. Estimular políticas de reparação para crianças separadas, propuseram os ativistas reunidos no Rio de Janeiro.

Suas reivindicações e propostas serão levadas em setembro ao Congresso Mundial das associações de pessoas afetadas, a ser realizado em Manila, nas Filipinas, que também vai acolher as contribuições da África e da Ásia, aprovadas em encontros semelhantes realizados anteriormente.

“O objetivo é formar uma grande rede de ativistas, para fortalecer o movimento” pela erradicação da doença e os cuidados para as pessoas afetadas, destacou Kiyomi Takahashi, da Fundação Nippon, que promove o processo internacional de debates e cooperação.

A reunião no Rio de Janeiro levou a um “diálogo de alto nível, resultado da longa história de atividades do Morhan e da Felehansen”, admitiu a especialista japonesa à IPS, referindo-se ao Movimento de Reintegração das Pessoas Afetadas pela Hanseníase, do Brasil, e a Federación de Entidades de Personas Afectadas por la Lepra, da Colômbia, os dois organizadores do encontro regional.

 

Os brasileiros José Picanço (em primeiro plano) e Evelyne Leandro deram seu testemunho sobre a maneira diferente como foram afetados pela doença de Hansen, durante um encontro latino-americano e caribenho sobre o assunto, na cidade brasileira do Rio de Janeiro. Picanço foi separado de seus pais, que tinham lepra, ao nascer, em 1972, e só pôde estar com eles oito anos depois, pouco antes de sua mãe morrer. Leandro escreveu um livro sobre as dificuldades de ser diagnosticado com a doença na Alemanha, onde mora. Crédito: Mario Osava/IPS

 

“O Morhan é meu porto seguro para propagar que crianças separadas devem ser ouvidas e ter oportunidades”, pontuou Picanço, lembrando que ingressou no movimento em 1992. Hoje ele dá palestras sobre os efeitos diretos e indiretos do estigma que ainda hoje a doença acarreta para os afetados e seus familiares.

 

Uma benção

A doença “foi uma bênção para mim”, testemunhou à IPS Isaías Dussan Weck, vice-presidente da colombiana Felehansen, de 50 anos. O diagnóstico, em 2006, derrubou-o, contou. Ele perdeu o desejo de trabalhar ou sair, deixou falir seu negócio de fornecimento de produtos de limpeza, e até pensou em suicídio. Ele ignorou as manchas em seu corpo que não o impediam de trabalhar e viajar, até que se espalharam para o rosto, e ele notou partes insensíveis.

Foi tratado e curado, deixando apenas uma certa insensibilidade no braço e dores na perna esquerda. Mas tudo foi mal até que foi convidado para reuniões com outros pacientes ou portadores de sequelas. “Comecei a entender, ouvindo seus testemunhos e prantos, porque uma garota negra com deficiências severas disse que a lepra foi uma bênção para ela”, explicou Dussan.

O ativismo em benefício dos afetados, contra os estigmas e os danos causados pela doença, na associação do departamento de Huila, no sudoeste da Colômbia, permitiu a ele “ganhar novo sentido para a vida, conhecer e praticar o verdadeiro amor ao próximo”.

“Ajudar e ver melhorar a vida de um paciente é uma emoção maravilhosa, levar vontade de viver para outras pessoas”, concluiu. Essa nova paixão levou-o à Felehansen e a assumir funções de liderança na federação.

Uma experiência semelhante foi experimentada por sua compatriota Irma Romero, 42 anos, presidente da Fundação Nuevo Amanecer, de Barranquilla, na costa norte da Colômbia. Sua longa odisseia, até o diagnóstico de um especialista há cinco anos, revela a incapacidade do sistema médico de atender a chamada hanseníase, doença ainda encarada como “um castigo divino”.

Romero parou de trabalhar na indústria têxtil devido a uma deficiência e à depressão. “Eu nem podia andar”, lembrou. “Até reneguei a Deus”, confessou à IPS. Um tratamento com plantas medicinais, automedicação, a rejeição de familiares, tentativas de separá-la dos dois filhos e o abandono do marido compuseram seu martírio, que não terminou com o tratamento e a cura.

Fisicamente só restou insensibilidade nas mãos e nos pés, bem como dores no nervo ciático, mas a discriminação continuou. “Minha vida mudou ao entrar na associação das pessoas afetadas”, há quatro anos. “Lá encontrei afinidades, despertou-me um amor pelo meu próximo que não sentia antes”, disse a ativista, que chegou à presidência da fundação no ano seguinte e reconciliou-se com Deus.

 

A colombiana Irma Romero, natural da cidade de Barranquilla, no ônibus que serviu de transporte para os participantes do I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Hanseníase, realizado entre os dias 12 e 14 de março na cidade do Rio de Janeiro, no Brasil. Crédito: Mario Osava / IPS

 

Sua fundação possui 60 associados, com adesões e abandonos frequentes. Em Barranquilla, ela estima que há “cerca de 200 afetados, mas muitos mais ocultos”. Esta é uma das dez associações que compõem a Felehansen, das quais oito abordam a enfermidade como hanseníase ou doença de Hansen, uma fala lepra e outra deficientes, mas que de fato limita-se àqueles que têm diagnóstico tardio.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) define a lepra, como a denomina, como uma doença infecciosa e crônica, que “não é muito contagiosa” e “é transmitida por meio de gotículas nasais e orais durante contato próximo e frequente com casos não tratados”. Seus últimos registros indicam que, em 2017, houve 211.009 novos casos globais, segundo dados oficiais de 159 países. Isso corresponde a 0,3 casos por dez mil habitantes, o que o torna “eliminado”, segundo o critério da OMS.

 

Mudança de denominação, outra proposta

Propor a hanseníase como denominação oficial é uma das propostas do encontro latino-americano, liderado pelo Brasil que já a adotou, proibindo inclusive a menção a lepra no sistema de saúde desde 1995.

São conceitos diferentes, porque lepra e leproso têm conotações muito negativas, de “sujeira, praga, impurezas e punição divina”, reforçadas por numerosas menções com essa carga moral na Bíblia, argumentou Faustino Pinto, um dos coordenadores nacionais do Morhan.

Os colombianos, no entanto, não estão convencidos dessa mudança. “As pessoas só conhecem a lepra, não sabem o que é hanseníase. Para levar e explicar a questão para a população, é preciso dizer lepra”, argumentou Romero.

“Teremos que educar as novas gerações com o conceito de Hansen”, ressaltou o médico norueguês Gerhard Hansen, que descobriu o bacilo causador da doença, porque os adultos dificilmente esquecerão o estigma. “É mais difícil desaprender do que aprender”, opinou Dussan.

Outra proposta do Encontro é ampliar o atual Comitê de Assistência ao Imigrante Brasileiro Afetado pela Hanseníase a todos os latino-americanos e caribenhos, além de estendê-lo a outras regiões. A referência dessa questão é Evelyne Leandro, uma brasileira de 37 anos que vive na Alemanha há nove anos e teve muitas dificuldades para ser diagnosticada com a doença em um país onde é muito rara e quase não há médicos que a conhecem.

Ela foi ajudada pela suspeita da mãe, informada no Brasil por uma campanha de divulgação sobre a doença, e pela existência de institutos de medicina tropical na Alemanha. Seu caso e o de outros imigrantes na Europa estão relacionados em seu livro Hanseníase, a Luta Contra uma Doença há Muito Esquecida.

Edição: Estrella Gutiérrez

 

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Na América Latina permanece um fardo simbólico e bíblico contra a lepra

qui, 14/03/2019 - 09:26

RIO DE JANEIRO, 13 de março de 2019 (IPS) – Cientificamente conhecida como doença de Hansen, a hanseníase carrega uma carga simbólica do passado, que hoje os afetados e especialistas no assunto da América Latina buscam derrubar, inclusive no uso da linguagem.

O debate ocorreu no âmbito do I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, realizado na cidade brasileira do Rio de Janeiro, entre os dias 12 e 14 de março, em um painel chamado Hanseaníase versus Lepra.

“As pessoas ainda usam o termo lepra como um forte instrumento de preconceito e discriminação, o que faz com que os afetados tenham medo e não busquem atenção médica e tratamento precoce”, explicou à IPS Francisco Faustino, um brasileiro tratado e curado da doença.

O ativista faz parte do Movimento de Reintegração de Pessoas Afetadas pela Hanseníase (Morhan), que organizou o Encontro junto com a Federación de Entidades de Personas Afectadas por la Lepra, da Colômbia.

O evento reúne instituições internacionais e representantes de sete países da América Latina, juntamente com outros do Norte industrial e conta com o apoio especial do Ministério da Saúde brasileiro e da Fundação Nippon, que acompanha o processo de encontros regionais para um Congresso Mundial sobre a doença, a ser realizado nas Filipinas, em setembro.

O Brasil é o único país que substituiu a palavra lepra em suas campanhas de saúde. Doença de Hansen ou hanseníase é normalmente utilizada como terminologia oficial na maioria dos países, juntamente com a de lepra, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) usa doença de Hansen como segunda denominação, mas ainda privilegiando o nome mais tradicional.

Além de sua denominação, o Brasil é o único país das Américas que, de acordo com dados oficiais, não eliminou a doença e concentra 95% dos cerca de 30 mil novos diagnósticos por ano no continente. Entidades como a Sociedade Brasileira de Hansenologia consideram que pode haver quatro ou cinco vezes mais novos casos por ano sem registro, enquanto a OMS considera erradicada a doença quando detectado menos de um caso por dez mil habitantes.

Faustino atribui isto, em grande medida, ao “preconceito que ainda existe nesse termo”. “Esperamos que a comunidade de saúde mude sua posição e que comece a tratar a doença como uma patologia que tem diagnóstico, tem tratamento, tem cura”, incentivou. A pessoa continua sofrendo os estigmas e discriminações, mesmo quando está curada. “Ainda se pensa que é uma doença contagiosa apenas com o contato, pela aproximação”, destacou a título de exemplo.

Segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (OPS), essa doença “não é muito contagiosa” e “é transmitida pelas gotículas nasais e orais em contatos próximos e frequentes com casos não tratados”. A OMS e a OPS explicam em fascículos informativos conjuntos que a lepra é causada pela bactéria Mycobacterium lepra, também conhecida como bacilo de Hansen, é infecciosa e crônica, evolui lentamente, com um tempo médio de incubação de cinco anos e sintomas que podem aparecer até 20 anos depois.

 

O brasileiro Francisco Faustino, que tinha lepra e curou-se completamente, é um ativista para substituir esse termo por hanseníase, por causa da carga simbólica do nome tradicional, como propôs durante um painel especial no I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, realizado na cidade brasileira do Rio de Janeiro. Crédito: Fabiana Frayssinet/IPS

 

A doença afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, a mucosa das vias respiratórias e os olhos, podendo causar lesões progressivas e permanentes nessas áreas se não for tratada. Artur Custódio, coordenador da brasileira Morhan, lembrou que, na antiguidade, era considerada como lepra um conjunto de doenças como sífilis, elefantíase, vitiligo e a hoje chamada hanseníase.

“A lepra bíblica refere-se à escamação, sujeira, pecado, e a hanseníase não é nada disso. Temos que dar um novo significado a essa doença para enfrentar e combater o estigma. A palavra tem força”, argumentou Custódio em diálogo com a IPS. “Nós não vamos mudar os conceitos dos filmes de Hollywood sobre leprosos, ou as histórias bíblicas. O que temos que mudar também são as atitudes. É como se tivéssemos que criar um novo conceito, trabalhar um novo produto. Nenhum banco seria chamado de ‘banco falido sociedade anônima’ porque todos estariam com medo de colocar dinheiro nesse banco”, comparou.

Para Custódio, essa discussão sobre o nome e o ônus de seu significado também ocorre em países como a Colômbia, o Japão ou os Estados Unidos. “Este é um movimento importante. As palavras trazem estigma. O nome é uma estratégia”, resumiu.

O também brasileiro Luciano Curi, do governamental Instituto Federal do Triângulo Mineiro, fez uma pesquisa para seu doutorado sobre a história da lepra – antiga, medieval e moderna – que o levou a estar “convencido” de que essa imagem não se refere à hanseníase atual.

“Essa abordagem como sinônimo, além de não ter um fundamento histórico e científico, é muito perigosa. A lepra do mundo antigo e medieval era pensada a partir de uma matriz religiosa. Correspondia ao impuro. E hanseníase foi pensada a partir do pensamento médico. As primeiras obras médicas datam do século 19, quando a doença começou a ser compreendida cientificamente”, explicou Curi à IPS.

Uma imagem, lembrou Curi, existia em várias populações antigas da região mesopotâmica, no Egito e também entre os hebreus, atribuindo “algum tipo de contaminação espiritual” e designando um padre para expulsá-la.

No Brasil e em outros países da América Latina, essa definição levou-os da exclusão ao isolamento em leprosários, separados de todos, inclusive de suas famílias, até meados do século 20.

Segundo Curi, a “mudança de terminologia é urgente e necessária”. Nesse sentido, apontou que o Brasil foi pioneiro ao mudar outras terminologias. “Não dizemos mais loucura, dizemos doença mental, não dizemos mais peste. Esse esforço em todo o mundo é importante. O nome não é uma questão menor”, resumiu.

Jorge Domínguez, representante do Ministério da Saúde do Peru, também opinou à IPS que o nome “lepra” não contribui para a ida espontânea dos pacientes aos postos de saúde. Em seu trabalho de dez anos como coordenador regional de hanseníase, na província de Alto Amazonas, na fronteira com o Equador, ele testemunhou inúmeros casos de pessoas “escondendo-se” das autoridades de saúde por medo de serem enviadas para os “leprosários”, como eram chamadas essas instituições já abolidas em alguns países latino-americanos.

“A mesma coisa foi vivida nos tempos de Cristo, quando os leprosos eram banidos e isolados. O mesmo aconteceu na selva. Quando fui trabalhar, uma vez fiz uma visita e havia uma pessoa que tinha lepra e sua família a discriminava. Havia sido feito um quarto e passavam a comida por baixo da porta”, contou Domínguez, que é enfermeiro.

“A falta de conhecimento das pessoas com relação à doença era muito grande”, apontou Domínguez, acrescentando que, em sua rede de saúde, começaram a trabalhar “essa questão do estigma e da rejeição”, treinando em primeiro lugar médicos e enfermeiros, “porque havia alguns que, quando viam um paciente com lepra, escondiam-se”.

Essa campanha diminuiu a ocorrência de hanseníase registrada em sua região, de 35 a 45 no ano passado, para entre oito e dez novos casos hoje. “Por mais que tenhamos divulgado por meio da mídia, muitas pessoas ainda se assustam. Mudar a terminologia ajudaria as pessoas a não serem mais discriminadas”, disse Domínguez.

Porém, além da linguagem, Domínguez acredita que a pesquisa sobre essa doença, da qual sabe-se muito pouco, deve ser reforçada. “Por que afeta algumas pessoas mais do que outras? Por que no Brasil há tantos casos e são tão poucos no Peru e não se contagiam mesmo estando em lugares da fronteira comum?”, questionou.

“Também é importante fortalecer a comunicação, a informação para a população. A hanseníase tem tratamento gratuito de seis meses a um ano, tem cura e até pessoas que chegam com sequelas podem amenizá-las”, concluiu Custódio.

 

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Estigma persegue portadores de hanseníase na América Latina

qui, 14/03/2019 - 06:01

RIO DE JANEIRO, 12 de março de 2019 (IPS) – O estigma e a discriminação são feridas sociais que se busca exorcizar no I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, também conhecida como lepra, um termo já abandonado pelos especialistas no Brasil, onde o evento reúne centenas de ativistas.

Os direitos e a integração dessas pessoas em todos os aspectos da Estratégia Mundial para a Hanseníase 2016-2020, da Organização Mundial de Saúde (OMS), são os temas do encontro, realizado na cidade brasileira do Rio de Janeiro, entre os dias 12 e 14 de março. Nesta reunião serão estabelecidas as estratégias da região, assim como em outros encontros que já aconteceram nas últimas semanas na Ásia e na África.

O objetivo é que todas as experiências e propostas se alinhem para o Congresso Mundial sobre a doença, a ser realizado nas Filipinas em setembro, destacou durante a sessão de abertura Kiyomi Takahashi, da Fundação Nippon, que dá um suporte especial ao encontro.

O Brasil ocupa uma posição de destaque nesse debate, pois é considerado o único país que ainda não eliminou a doença e registra a maior incidência no mundo, com 25 mil a 30 mil novos casos por ano, 95% do total das Américas, de acordo com dados oficiais.

É um número inaceitável de “uma doença que tem cura e é tratada no sistema de saúde pública”, destacou Artur Custódio, coordenador do brasileiro Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), que organizou a reunião latino-americana junto com a Federación de Entidades de Personas Afectadas por la Lepra, da Colômbia.

Além disso, o Brasil destaca-se por abolir a palavra lepra, que carrega uma alta carga acumulada de preconceitos. Desde 1995, a lepra passou a ser referida como hanseníase, ou doença de Hansen, no país, embora a Organização Mundial de Saúde e a Organização das Nações Unidas geralmente usem ainda o termo lepra para designar a doença.

 

Vista parcial dos participantes do I Encontro Latino-Americano e Caribenho de Entidades de Pessoas Afetadas pela Doença de Hansen, de sete países da região e organizações internacionais. É a primeira vez que ativistas regionais se reúnem para propor políticas em defesa da dignidade das pessoas afetadas pela hanseníase. Crédito: Mario Osava/IPS

 

Claudio Salgado, presidente da Sociedade Brasileira de Hansenologia, considera adequado que o Brasil não esteja entre os países que classificam a doença como eliminada, uma vez que o critério é de menos de um caso para cada dez mil habitantes.

As estatísticas mascaram a realidade de uma doença que permanece oculta. Elas apontam que, de 5,3 milhões de casos em 1980, houve uma queda para 597 mil em 2001, mas não atingiram a meta de eliminação prevista pela OMS até o ano 2000.

Os dados oficiais indicam que, de 2003 a 2005, os casos recuaram quase 65% no mundo, caindo para 169.709, um resultado considerado “impossível em epidemiologia”, explicou Salgado à IPS. Para ele, quando o combate a uma doença como a hanseníase é adequado, sua incidência cai de forma constante, mas de forma lenta e regular, não abruptamente ou em saltos, detalhou.

Os números nem sempre dão uma real dimensão da realidade. Como exemplo Salgado mostrou os dados da cidade de Palmas, capital do Estado do Tocantins, onde um esforço para o diagnóstico precoce apontou um aumento entre 2013 e 2016, de 41,9 casos para 219 casos por dez mil habitantes. Isso significa, segundo ele, que, quando se decide tratar a doença seriamente, o número de pessoas afetadas aumenta.

Outro indicador do Brasil mostra um problema adicional: há 39% de “demanda espontânea” por tratamento, o que aponta para a falta de informação e assistência. Isso ocorre porque as consultas espontâneas ocorrem em “casos avançados de sequelas já aparentes”, difíceis de tratar e por vezes incapacitantes, ressaltou Salgado.

“A meta de eliminação em 2000 teve um efeito positivo, ampliando iniciativas e programas de informação e assistência. Mas declarar que a meta foi alcançada gerou o efeito colateral de abandono do compromisso”, lamentou Salgado, que atua como professor da Universidade Federal do Pará, na Amazônia brasileira. Para ele, essa situação está levando à perda de conhecimentos, com redução da pesquisa em universidades e dos serviços de prevenção e tratamento. Somando-se a isso o estigma da doença, a tendência é que o número de casos volte a crescer.

Faltam pesquisas para explicar porque a doença afeta tantas pessoas no Brasil e tem baixa incidência do outro lado das fronteiras, disse Jorge Dominguez Sobrino, do Ministério da Saúde do Peru, que trabalha na prevenção e tratamento da hanseníase na província de Alto Amazonas, na fronteira com o Equador. “Talvez diferenças genéticas sejam uma causa”, ponderou à IPS.

No Peru, o número de novos casos indica a “eliminação”, mas há alta predominância em algumas províncias, especialmente em cidades pequenas. “Há uma grande prevalência oculta”, reconheceu Sobrino.

 

Norah Salcedo (D), da Bolívia, e Silvia Uieacu, do Peru, participantes da primeira
reunião de pessoas afetadas pela hanseníase, a lepra, queixaram-se da precariedade da
assistência em seus países para pessoas que têm a doença. Crédito: Mario Osava/IPS

 

O diagnóstico precoce é um direito primário em relação à hanseníase, concordaram Salgado e Custódio. Será necessário rever e mudar algumas bases das estratégias para eliminar a doença. Uma preocupação dos especialistas é a identificação de muitos casos em crianças, indicando contágio por parentes ou pessoas próximas não diagnosticadas.

Uma contradição nos dados oficiais é exatamente que muitos países, que declararam ter baixado a hanseníase a uma taxa inferior a um caso por dez mil habitantes, apontam um número preocupante de crianças afetadas.

Além disso, onde há menos casos registrados, como no sul do Brasil e em outros países latino-americanos, são mais sérios os danos nos afetados, devido ao diagnóstico tardio, quando os efeitos já estão instalados, como perda de nervos periféricos, dedos ou membros inteiros.

A hanseníase, presente na humanidade desde tempos imemoriais, é uma doença infecciosa e crônica, causada pelo bacilo Mycobacterium leprae, como definido pela OMS, que afeta principalmente a pele, os nervos periféricos, a mucosa das vias aéreas superiores, os olhos e outras estruturas.

Norah Salcedo, da cidade de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, é uma das pessoas que sofreram danos irreversíveis nos membros e precisa de muletas. “Não há tratamento adequado no meu país, os pacientes continuam a perecer sem assistência”, queixou-se à IPS.

 

 

A Bolívia é um país que “eliminou” a hanseníase, de acordo com dados oficiais. A ignorância sobre a doença é grande, reconheceu Salcedo, assim como a peruana Silvia Uieacu..

Sete países latino-americanos estão representados nesta primeira reunião regional dos afetados, que reúne autoridades de saúde e representantes de organizações internacionais, como a Organização Pan-Americana de Saúde, e instituições japonesas, especialmente a Fundação Nippon, além de especialistas da Alemanha e Estados Unidos.

O Brasil também atrai a atenção internacional por conta da compensação para as vítimas do sistema de segregação nos chamados leprosários, onde os doentes eram isolados. Essa prática foi mantida por lei no país até 1986, embora já se soubesse sobre a possibilidade de cura desde 1941 e que o tratamento interrompe a infecção.

Desde 2007, o Estado brasileiro compensa as pessoas isoladas, mas agora a organização Morhan procura estender a reparação aos filhos que foram separadas de seus pais. Estima-se que cerca de 16 mil crianças sofreram essa separação forçada.

São políticas que interessam aos movimentos semelhantes em outros países da América Latina, explicaram os participantes durante os debates do primeiro dia.

Muitas pessoas segregadas nesses “leprosários” continuaram a viver neles depois da desativação, porque eles não têm chance de voltar para suas comunidades de origem ou de reconstruir suas vidas, destacaram os ativistas.

Edição: Estrella Gutiérrez

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América Latina e Caribe alinham ações para cumprir metas globais de educação

qui, 07/03/2019 - 18:50
Garantir progresso regional para atingir as metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 4 — assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos — foi o norte do 1º Encontro do Comitê Regional de Gestão do ODS-E2030 para a América Latina e o Caribe, concluído no início de fevereiro em Santiago, no Chile.

A reunião apresentou avanços em relação aos mecanismos de monitoramento, acompanhamento e relato das metas do ODS 4 realizadas pelo Instituto de Estatística da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e pelo Laboratório Latino-Americano de Avaliação da Qualidade da Educação (LLECE).

Garantir progresso regional para atingir as metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 4 — assegurar a educação inclusiva e equitativa e de qualidade, e promover oportunidades de aprendizagem ao longo da vida para todas e todos — foi o norte do 1º Encontro do Comitê Regional de Gestão do ODS-E2030 para a América Latina e o Caribe, concluído no início de fevereiro em Santiago, no Chile.

Em dois dias de trabalho, os representantes dos países-membros desse comitê e das organizações envolvidas acompanharam o andamento dos compromissos assumidos na II Reunião Regional de Ministros da Educação da América Latina e do Caribe, realizada em Cochabamba em julho de 2018.

O comitê concordou em concentrar seu trabalho nas ações de equidade e inclusão durante os primeiros doze meses de trabalho. Em particular, os participantes concordaram em trabalhar para enfrentar os desafios educacionais que a migração intra-regional trouxe, como, por exemplo, medidas específicas para reconhecimento, certificação e acreditação de graus e competências, e iniciativas contra o abandono escolar.

Nesta reunião, foram definidas linhas de cooperação regional e foi elaborado um plano de ação para o período 2019-2021, à luz do roteiro para a implementação do ODS4-E2030 na América Latina e no Caribe.

Acordos foram tomados para iniciar as atividades dos quatro grupos de trabalho regionais com ações coordenadas e articuladas em políticas e estratégias; financiamento e governança; comunicação e conscientização; e revisão e monitoramento. Tudo isso à luz dos quatro temas priorizados pelos ministros da educação da região: aprendizagem ao longo da vida, igualdade e inclusão, professores e trabalhadores da educação e repensar a qualidade da educação.

A reunião apresentou avanços em relação aos mecanismos de monitoramento, acompanhamento e relato das metas do ODS 4 realizadas pelo Instituto de Estatística da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) e pelo Laboratório Latino-Americano de Avaliação da Qualidade da Educação (LLECE).

Observou-se também o processo de coordenação regional da agenda de Educação 2030, após duas reuniões ministeriais, uma de alto nível técnico e duas reuniões de acompanhamento realizadas na região em 2017 e 2018.

(#Envolverde)

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Agricultores garantem terras e alimentos graças a olhos no céu

seg, 11/02/2019 - 11:07

BULAWAYO, Zimbabwe, 11 de fevereiro de 2019 (IPS) – Seis anos atrás, enquanto pensava em como melhor usar suas técnicas de engenharia, Rose Funja, empreendedora em tecnologia de informação e comunicação (TIC) tanzaniana, decidiu entrar em uma competição de inovação. Anos depois, ela transformou uma ideia digital em um negócio viável para ajudar pequenos agricultores a terem acesso a crédito nas nações do leste africano.

Na Tanzânia, agricultores lutam para conseguir crédito, porque vários não têm ativos financeiros ou um registro de desempenho para oferecer como garantia. Todavia, Funja teve uma ideia para ajudar agricultores, particularmente mulheres, a provar a posse de terras que possam usar como garantia para obter créditos.

Foi uma solução inteligente: usar tecnologia de sistema de informação geográfica (GIS) para gerar informação útil para os agricultores. “Um agricultor pode ter uma grande área de terra, mas se não tem a posse legal do terreno, não pode usá-lo produtivamente”, explicou Funja à IPS.

Em 2013, Funja entrou no Programa AgriHack de Talento para o Leste da África (AgriHack Talent Programme for East Africa), uma competição organizada pelo Centro Técnico de Agricultura e Cooperação Rural (Technical Centre for Agricultural and Rural Cooperation – CTA), sediado na Holanda.

A ideia de Funja ganhou segundo lugar na competição e o seu prêmio foi dinheiro e a mentoria do Centro de Inovação Buni (Buni Innovation Hub), na Tanzânia. Em 2015, com um parceiro e alunos da Universidade de Bagamoyo, na Tanzânia, ela desenvolveu o AgrInfo, mas somente um ano depois começou a trabalhar em tempo integral no negócio.

Agora o AgrInfo cria perfis para agricultores, com o tamanho e localização das suas fazendas, e as colheitas que nelas produzem. Esses dados então são colocados em uma plataforma online, à qual instituições financeiras podem ter acesso para avaliar a credibilidade desses agricultores e sua qualificação para empréstimos.

“Informação disponível em tempo real é essencial para tomar decisões, especialmente em agricultura”, destacou Funja, que tem bacharelado em Engenharia da Computação e mestrado em Engenharia de Sistemas de Informação e Comunicação.

O Banco de Desenvolvimento Africano (African Development Bank) constatou que 12 milhões de jovens entram no mercado de trabalho ao longo do continente todo ano, enquanto apenas três milhões de empregos são criados, deixando vários desempregados. Contudo, o agronegócio oferece abordagens inovadoras para que a juventude desenvolva e implemente soluções inteligentes de TIC para pequenos agricultores.

“A TIC pode ser uma mudança para o desenvolvimento agrícola. A tecnologia está oferecendo benefícios econômicos para a juventude vender bens e serviços usando uma plataforma online”, apontou Funja à IPS. O AgrInfo tem sido capaz de ajudar, por uma pequena taxa, mais de 300 pequenos agricultores na capital da Tanzânia, Dodoma, a terem acesso a instituições financeiras após o mapeamento das suas fazendas.

“Temos ajudado agricultores a saberem o que eles têm e eles têm sido capazes de usar suas terras para obter crédito e comprar insumos”, detalhou Funja. O sucesso veio por meio de tentativa e erro, paixão e criação de valor, acrescentou. Planos estão sendo feitos para aumentar para um milhão o número de subscritos no serviço, e para estender o serviço a outros atores na cadeia de valor da agricultura, como serviços de extensão do governo.

Um começo voador

Quando Funja começou o negócio, usou o GIS e um GPS de mão como aparelhos para coletar dados. Em 2017, ela foi apresentada, por meio do CTA, ao uso aplicado de Sistemas Aéreos não Tripulados (Unmanned Aerial Systems – UAS) e foi treinada no aspecto comercial da operação de drones. Os UAS são baseados em tecnologia de drones e fornecem informação mais rápida e mais precisa. Funja tornou-se uma das pilotos pioneiras de drones na Tanzânia.

O CTA colaborou com a Parrot, uma fabricante francesa de drones, para apoiar empresas de tecnologia iniciantes no desenvolvimento da precisão necessária para a agricultura na África. Avançando dois anos, de 2017 até este ano, o objetivo do projeto do CTA é ajudar a estabelecer aproximadamente 30 empreendimentos que são operados principalmente por jovens nos países da África onde a legislação permite.

Os drones, uma tecnologia relativamente nova na África, oferecem novas oportunidades a jovens empreendedores em TIC, que ajudam agricultores a aumentar sua produtividade, sustentabilidade e rentabilidade. Ferramentas digitais contribuem para melhorar a posse da terra, avaliando colheitas, pragas e doenças, de acordo com pesquisa realizada pelo CTA.

“Considerando o fato de que, em 2017, os drones eram uma tecnologia nova para a África, o nosso projeto teve uma função importante para estabelecer um ambiente favorável”, avaliou à IPS Giacomo Rambaldi, coordenador sênior do AgriHack no CTA. “O projeto apoiou o Painel de Alto Nível sobre Tecnologias Emergentes da União Africana (UA) na seleção de drones para agricultura de precisão como uma das tecnologias mais promissoras que fomentariam o desenvolvimento da África”, destacou.

Em janeiro de 2018, o Conselho Executivo da UA recomendou que todos os membros utilizassem as oportunidades que os drones oferecem para a agricultura. A África deve priorizar a adoção, o desdobramento e o aumento de drones para a agricultura de precisão, por meio da capacitação, infraestrutura de apoio, fortalecimento regulatório, pesquisa, desenvolvimento e engajamento de interessados, afirmou uma reportagem publicada em 2018 pela Nepad (New Partnership for África’s Development), intitulada Drones no Horizonte: Transformando a Agricultura Africana.

A reportagem observa que a otimização do lucro agrícola, por meio do aumento da produtividade e da melhoria da produção, é resultado da aplicação de vários desenvolvimentos inovadores durante os anos, um deles o uso de drones.

“Enquanto certas intervenções, e a revolução verde em particular, têm beneficiado vários países em desenvolvimento, isto não tem sido o caso na África. Essa situação apela para uma revisão das regras e práticas agrícolas, e um entendimento explícito de que regras que possibilitem a promoção da tecnologia de drones devem ser formuladas”, recomenda a reportagem.

Drones para o desenvolvimento agrícola

Funja contou à IPS que as empresas digitais são atraentes, mas precisam de uma gestão inteligente, fundos e de comprometimento integral. “Uma aplicação digital é apenas uma ferramenta, mas o valor vende. Se não tiver valor, não tem negócio”, pontuou.

A Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (Food and Agriculture Organisation – FAO) declarou que a tecnologia de drones tem grande potencial para tratar de alguns dos problemas mais urgentes encarados pela agricultura para acessar dados de qualidade em tempo real. O setor da agricultura será o segundo maior usuário de drones no mundo nos próximos cinco anos, de acordo com uma pesquisa realizada pela Goldman Sachs.

Investimentos em TIC podem ter uma função importante de acelerar a transformação agrícola na África e podem aumentar a produtividade e a renda de pequenos agricultores, ressaltou a empresa de consultoria em desenvolvimento Dalberg Consuloria em Desenvolvimento Global.

“A África tem a maioria das terras aráveis do mundo que não são cultivadas. Porém, desbloquear o grande potencial agrícola requer um desenvolvimento estratégico das capacidades de TIC”, apontou à IPS Andres Johannes Enghild, consultor no escritório de Nova York da Dalberg. “Se as novas soluções de TIC são bem cuidadas, elas podem, por exemplo, melhorar o vínculo dos agricultores com o mercado e atrair investidores internacionais”, completou.

Apesar do potencial agrícola da África, a região continua sendo aquela com as mais altas taxas de insegurança alimentar e desnutrição no mundo. Hoje, agricultores têm acesso limitado para melhorar as práticas agrícolas, uma área em que a TIC pode fazer uma grande diferença. E Funja é uma das empreendedoras que faz isso possível.

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