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Atualizado: 14 minutos 9 segundos atrás

Haddad não criou o ‘kit gay’

qui, 11/10/2018 - 14:00
Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência BrasilO deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) fez afirmação falsa sobre o envolvimento de Fernando Haddad em produção de material contra homofobia

“[Fernando Haddad] criou o ‘kit gay’.” – Jair Bolsonaro, candidato à Presidência pelo PSL, em entrevista à rádio Jovem Pan.

Ao contrário do que afirmou o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) em entrevista à rádio Jovem Pan em 9 de outubro, seu adversário na disputa eleitoral, Fernando Haddad (PT), não criou nenhum “kit gay”. O termo pejorativo é usado por críticos para se referir ao Escola Sem Homofobia. O material – composto por um caderno e peças impressas e audiovisuais – foi encomendado pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados ao Ministério da Educação (MEC) e elaborado por um grupo de ONGs especializadas, em conformidade com as diretrizes de um programa do governo federal lançado anteriormente, em 2004. Quando houve a polêmica sobre o seu conteúdo, em 2011, Haddad estava no comando do MEC.

A cartilha tinha como principal objetivo promover “valores de respeito à paz e à não-discriminação por orientação sexual”. Não há no documento nenhuma orientação que justifique a alcunha “kit gay”. Diversos especialistas em educação já se manifestaram favoravelmente ao material e entidades da sociedade civil avaliam o conteúdo como adequado para as faixas etárias indicadas. Além disso, não é possível atribuir a Fernando Haddad responsabilidade sobre a autoria do material, porque o projeto surgiu do poder Legislativo e não foi desenvolvido diretamente pelo MEC, mas por ONGs contratadas pelo ministério. Quando a cartilha foi vetada pela presidente Dilma Rousseff (PT), os materiais do kit ainda estavam sob análise da pasta. Por isso, o Truco – projeto de checagem da Agência Pública – classifica a frase de Bolsonaro como falsa.

A origem do material remonta a 2004, quando Haddad ainda não era ministro da Educação. Foi naquele ano que o governo federal lançou o “Brasil sem Homofobia – Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e Promoção da Cidadania Homossexual”. No plano de implementação da proposta há recomendações para que sejam elaborados materiais educacionais que promovam valores de respeito à paz e à não discriminação por orientação sexual.

ReproduçãoImagem ilustrativa do caderno Escola Sem Homofobia

Seguindo com atraso a recomendação do programa, o projeto Escola Sem Homofobia foi financiado pelo Ministério da Educação por meio de recursos aprovados em 2006 por emenda parlamentar da Comissão de Legislação Participativa da Câmara de Deputados. O resultado do projeto foi uma cartilha dividida em três capítulos, subdivididos em tópicos, além de dois anexos com sugestões de sequências didáticas e de como utilizar os materiais em vídeo. Dinâmicas sobre o assunto de cada tópico são propostas pelos autores para professores e alunos.

Durante uma reunião da Comissão de Legislação Participativa sobre homofobia nas escolas realizada em 2010, Beto de Jesus, secretário de finanças da Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), uma das entidades responsáveis pela criação do material, disse sentir falta da participação do então ministro da Educação, Fernando Haddad, no processo. “Eu sinto a ausência do ministro nas questões relacionadas a LGBTs”, afirmou. “Já conseguimos falar com os ministros, eles já estiveram em espaços nossos, mas o ministro Haddad ainda não esteve em espaços nossos; ele não foi nem na Conferência Nacional. Outros ministros foram.”

Em nota oficial divulgada em 20 de janeiro de 2011, as entidades envolvidas na elaboração da cartilha garantiram que todas as etapas de planejamento e execução do projeto “foram amplamente discutidas e acompanhadas de perto pelo MEC e pela Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (Secad)”.

Na época, o material teve sua distribuição aprovada e recomendada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Em nota, a Unesco disse que o conteúdo era adequado às faixas etárias e de desenvolvimento afetivo-cognitivo a que se destinam, em concordância com a Orientação Técnica Internacional sobre Educação em Sexualidade, publicada pela entidade em 2010. Além da Unesco, outros órgãos ligados à Organização das Nações Unidas (ONU), como o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (Uniaids), mostraram-se favoráveis à distribuição da cartilha em 2011.

O Conselho Federal de Psicologia também emitiu um parecer técnico favorável ao Escola Sem Homofobia. “É notório o cuidado didático-pedagógico e qualidade visual com que foi criado e desenvolvido todo o conjunto educacional apresentado no kit – vídeos, livretos, cartilhas, boletins com temas específicos e panfletos. Trata-se de uma produção densa, cuidadosa e bem articulada”, afirma o parecer.

No entanto, pressões de grupos religiosos no Congresso levaram o governo federal a recuar e a presidente Dilma suspendeu a produção e distribuição do material, em maio de 2011. À época, o kit produzido pelas entidades Pathfinder do Brasil, Reprolatina e Comunicação em Sexualidade (ECOS), com apoio da ABGLT, ainda estava sendo analisado por técnicos do MEC.

Em entrevista à revista Nova Escola, o pedagogo Ricardo Desidério, que avalia alguns conteúdos do material anti-homofobia em seu doutorado na Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp), diz que o material representaria um avanço nas escolas. “Os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais, elaborados em 1997) eram o único documento que tratava de sexualidade, mas o faziam de forma genérica. Já esse material faz um recorte prático do que precisa ser trabalhado na escola hoje”, disse Desidério.

Outros especialistas ouvidos pela Folha de S.Paulo em 2011 também aprovaram o conteúdo da cartilha contra homofobia. “Não dá para dizer que há incentivo à bissexualidade, até porque [a orientação sexual] não é algo que se resolva de repente”, disse à Folha a professora de psicologia da educação da Pontifícia Universidade Católica (PUC), Ana Mercês Bock.

O material é alvo de críticas de Jair Bolsonaro com frequência. A própria campanha de Haddad já desmentiu que o petista seria responsável pelo “kit gay” em uma publicação no site da coligação O Brasil Feliz de Novo. “A expressão preconceituosa vem sendo utilizada com intenções políticas nefastas, inclusive distribuindo imagens falsas do material e citando livros fora de contexto”, relata o texto da página.

Na mesma entrevista para a rádio Jovem Pan, Bolsonaro criticou novamente o projeto anti-homofobia falando que “não se aprende nada na escola, é filme de menino se beijando, filme de menina se acariciando”. Para o candidato, “a escola é para aprender matemática, química, física, e não sexo.” No entanto, no material do Escola Sem Homofobia não há representações de crianças mantendo relações sexuais.

Bolsonaro também direcionou recentemente suas críticas ao livro Aparelho Sexual e Cia. A obra, editada pela Cia das Letras, já vendeu 1,5 milhão de exemplares em todo o mundo e foi publicada em dez idiomas. Durante uma entrevista para o Jornal Nacional, da Rede Globo, o candidato afirmou que a obra seria distribuída nas escolas pelo MEC, relacionando-a ao “kit gay”. No entanto, o livro também não faz ou fez parte de nenhum programa do MEC, conforme desmentido pelo próprio ministério em nota oficial publicada em 2016.

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Frei Betto: “Vejo paralelo entre o momento atual e a eleição de Hitler na Alemanha”

qui, 11/10/2018 - 11:58

Frei Betto, 73 anos, é frade dominicano e um dos responsáveis na propagação da teologia da libertação no Brasil, movimento apartidário que interpreta os ensinamentos de Jesus Cristo como libertadores de injustas condições sociais, políticas e econômicas.

Autor de mais de 60 livros, Frei Betto falou à Pública, por e-mail, sobre o atual momento político e social do país. “Se o Bolsonaro ganhar a eleição, teremos um governo autoritário, uma ditadura revestida de democracia, como o governo de Hitler no início dos anos 1930 na Alemanha”, argumenta o dominicano, que recentemente lançou duas obras: Sexo, orientação sexual e “ideologia de gênero” e Por uma educação crítica e participativa (Anfiteatro).

Por razões políticas, Frei Betto foi preso duas vezes durante a ditadura militar (1964 e de 1969 a 1973). Já no período democrático, logo após a eleição de Lula, ajudou na elaboração do programa Fome Zero e trabalhou como assessor especial do ex-presidente (2003 e 2004).

O religioso nunca poupou de críticas o Partido dos Trabalhadores ao longo dos anos. “O PT, embora tenha feito o melhor governo de nossa história republicana nos dois mandatos de Lula e no primeiro de Dilma, não cuidou de promover a alfabetização política de nosso povo. E buscou assegurar a governabilidade por alianças, muitas delas promíscuas”, avalia.

Para ele, se Haddad vencer, “teremos um governo voltado às questões sociais”, mas alerta: nenhum dos candidatos “livrará o Brasil de intensa turbulência nos próximos dez anos”.

José Cruz/Agência Brasil“Bolsonaro soube surfar no vácuo da crise política, que levou ao descrédito das instituições, dos políticos e da política”

Qual avaliação política o senhor faz dessa disputa para presidente do ponto de vista dos discursos dos candidatos?

Até agora predominaram os discursos antipetista dos bolsonaristas e antibolsonaro dos haddadistas. Com o segundo turno parece que eles mudam de tom. Bolsonaro se apresenta como flor que se cheira, pleno de amor aos pobres, de defensor das mulheres, de respeitador dos homossexuais. E Haddad se foca em propostas efetivas de melhorias de vida do povo brasileiro, o que me parece acertado. Haddad se desloca do mero protesto para reais propostas.

Qual é, na sua opinião, a responsabilidade do PT nessa onda de direita? Por que o antipetismo é colocado à frente de questões que envolvem os direitos humanos?

Porque o PT, embora tenha feito o melhor governo de nossa história republicana nos dois mandatos de Lula e no primeiro de Dilma, não cuidou de promover a alfabetização política de nosso povo. E buscou assegurar a governabilidade por alianças, muitas delas promíscuas, com o que havia de mais retrógrado na política brasileira, quando deveria fazê-lo para mobilização de quem deu as vitórias do PT: os movimentos sociais.

Além disso, não criamos uma narrativa capaz de incluir o brasileiro como protagonista de um processo político. Acenamos com luz, casa, carro, escola etc., sem a contrapartida da densidade subjetiva, ou seja, uma cosmovisão que ajudasse o cidadão a se situar no conflito de classes.

O que o PT e Haddad precisam fazer para conter essa onda de direita?

Primeiro, ganhar a eleição dia 28 de outubro! Em seguida, fazer uma séria e profunda autocrítica dos equívocos cometidos ao longo de 13 anos de governo, como fiz nos livros A mosca azul e Calendário do poder, ambos editados pela Rocco, e apresentar um consistente programa de reformas estruturais.

Depois de se posicionar publicamente no primeiro turno das eleições gerais no país contra discursos de ódio e violência, agora a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) pede ao eleitor católico que, ao escolher seus candidatos, na votação de segundo turno, atente para aqueles que ajudem a preservar, e não a destruir, sistemas democráticos. Como o senhor avalia esse posicionamento da CNBB?

A CNBB deveria ter se posicionado já no primeiro turno. Mas ainda bem que o faz agora. Porém, sem a força de mobilização que têm as Igrejas evangélicas. Nestas o pastor falou, o fiel calou porque aceitou. Na Igreja Católica há, infelizmente, grande contingente de bolsonaristas.

Como Haddad pode se aproximar dos católicos e quais seriam as demandas da igreja que ele teria que atender?

É um pouco tarde para essa aproximação. O PT deveria ter mantido um canal de diálogo com todas as instituições que têm um mínimo de abertura às suas propostas. Ainda assim, Haddad deve focar seu discurso no drama social do povo brasileiro, e não na pauta moralista de alguns setores religiosos.

Como a ascensão evangélica no Congresso está mudando as relações sociais e políticas no país?

Devo dizer que respeito todas as Igrejas evangélicas, mas discordo dos cristãos – sejam eles católicos ou evangélicos – que usam o nome de Deus para fortalecer a desigualdade social e o preconceito a gays, negros, quilombolas e movimentos sociais como o MST e o MTST.

No Congresso, infelizmente a bancada da Bíblia tem esse perfil conservador e se cumplicia com as outras bancadas do B: banco, bola, bala e boi. E essa gente demoniza tudo que foge a seus interesses corporativos, como promover a acumulação privada do capital e manter o abismo entre ricos e pobres no qual o Brasil afunda.

Na sua opinião, por que Bolsonaro conseguiu dialogar mais com essa parcela do eleitorado?

Porque soube surfar no vácuo da crise política, que levou ao descrédito das instituições, dos políticos e da política, e no moralismo suscitado pela partidarização da Lava Jato.

Aborto e questões de gênero são temas que racham tanto evangélicos quanto católicos. Qual sua avaliação sobre esses temas?

Acabo de publicar uma cartilha popular intitulada Sexo, orientação sexual e “ideologia de gênero”. Esses temas têm sido debatidos com mais ardor emocional que lógica racional. Os mesmos que não aceitam a descriminalização do aborto aplaudem quando a polícia atira antes de perguntar. E a diversidade de gênero é tão inquestionável como o fato de a Terra girar em redor do Sol. Mas há quem insista que é o Sol que gira em torno da Terra… Pobre Galileu!

O senhor foi um dos perseguidos pela ditadura militar de 1964 que Jair Bolsonaro (PSL) defende abertamente. Qual o seu sentimento em relação a essas declarações públicas?

Sentimento de que o Judiciário brasileiro falhou redondamente ao criar a lei esdrúxula da anistia recíproca e não punir os responsáveis por rasgarem a Constituição e impor ao Brasil um regime de terror que, impunemente, assassinou, estuprou, prendeu, torturou e exilou ao longo de 21 anos. Bolsonaro é resultado dessa grave omissão.

O senhor vê paralelo entre 1964 e nosso atual momento?

Não. Vejo paralelo entre o momento atual e a eleição de Hitler na Alemanha, pelo voto democrático, em 1933.

Pode, por favor, explicar um pouco mais esse paralelo?

Em 1964 houve um golpe militar que expulsou do poder o presidente da República e suspendeu todas as garantias constitucionais. Não se pode comparar uma eleição democrática, como a atual no Brasil, com o golpe de 1964. Mas sim com a eleição de Hitler na Alemanha, em 1933.

Veja: Ele nada entendia da situação real do país. Nem demonstrava interesse por ela, embora atuasse ativamente na política. Por isso não gostava de ser questionado, irritava-se diante das perguntas como se fossem armas apontadas em sua direção. Não queria que a sua ignorância se tornasse explícita.

Ser estranho, ele tinha olhos alucinados afundados nas órbitas, lábios espremidos, gestos cortantes. Todo o seu corpo era rígido, como se moldado em armadura. Ao ficar na defensiva, parecia uma fera acuada. Ao passar à ofensiva, a fera exibia garras afiadas e de suas mandíbulas pingava sangue.

Sua fala exalava ódio, rancor, preconceito. Aliás, não falava, gritava. Não sabia sorrir, tratar alguém com delicadeza, ter um gesto de cortesia ou humildade. Evitava ao máximo os repórteres. Julgava suas perguntas invasivas. E temia que a sua verdadeira face antidemocrática transparecesse em suas respostas.

Educado em fileiras militares, aprendera apenas a dar e cumprir ordens, enquadrar quem o cercava e ultrajar quem se opunha às suas opiniões. Jamais aceitava o contraditório ou praticava um mínimo de tolerância. Considerava-se o senhor da razão.

A nação estava em frangalhos, mergulhada em crise ética, política e econômica, e o horizonte da esperança espelhado em trevas. Pelo país afora havia milhares de desempregados, criminalidade generalizada, corrupção em todas as instâncias de poder. O câmbio disparara, a moeda nacional perdia valor, o descontentamento era geral. O governo carecia de credibilidade e se via cada vez mais fragilizado. O povo clamava por um salvador da pátria.

Jovens desesperançados viam nele um avatar capaz de inaugurar a idade de ouro. Era ele o cara, surfando na descrença generalizada na política e nos políticos. O Executivo se debilitara por corrupção e incompetência, o Legislativo mais parecia um ninho de ratos, o Judiciário se partidarizara submisso a interesses escusos.

Ele se dizia cristão e se considerava ungido por Deus para livrar o país de todos os males. Advogava soluções militares para problemas políticos. Movido pela ambição desmedida, se apresentou como candidato à eleição democrática para ocupar o mais alto posto da República, embora ostentasse a patente de simples oficial de baixo escalão do Exército.

De sua oratória raivosa ressoava o discurso agressivo, bélico, insano. Haveria de modificar todas as leis para implantar uma ordem marcial que poria fim a todas as mazelas do país. Eleito, seria ele o comandante em chefe, e todos os cidadãos passariam a ser tratados como meros recrutas obrigados a cumprir estritamente as suas ordens.

Prometia fortalecer o aparato policial e as forças armadas. Sua noção de justiça se resumia a uma bala de revólver ou a um tiro de fuzil. Eleito, excluiria da vida social um enorme contingente de pessoas consideradas por ele sub-humanos e indesejáveis, mulheres, homossexuais, trabalhadores em luta por seus direitos e comunistas. Todos que se opunham às suas opiniões eram por ele apontados como bodes expiatórios da desgraça nacional.

Seu mandato presidencial haveria de trazer a era de fartura e prosperidade. Reergueria a economia e asseguraria oportunidades de trabalho a todos. Exaltaria os privilégios do capital sobre os direitos dos trabalhadores. Aqueles que o seguissem seriam felizes, e livres para sobrepor a lógica das armas ao espírito das leis. Os demais, excluídos sumariamente do convívio social.

Enfim, após uma série de manobras políticas e forte repressão às forças adversárias, ele foi eleito chefe de Estado. A nação entrou um júbilo. O salvador havia descido dos céus! Ou melhor, brotado das urnas.

Tudo isso aconteceu há 85 anos, em 1933. Na Alemanha alquebrada pela derrota na Primeira Grande Guerra. O nome dele era Adolf Hitler.

As comunidades de base da Igreja Católica tiveram um grande papel na politização popular nos anos 1960 e na resistência à ditadura nas décadas seguintes. Qual a diferença que o senhor vê entre essa atuação e a que é feita pelas igrejas neopentecostais neste momento?

As CEBs [comunidades eclesiais de base] sofreram desvalorização sob os pontificados de João Paulo II e Bento XVI. Então muitos fiéis pobres migraram para igrejas neopentecostais. Agora, com o papa Francisco, as CEBs voltam a ter espaço na Igreja, mas infelizmente foram debilitadas. As CEBs são a fonte da teologia da libertação. E as igrejas neopentecostais adotam a teologia da prosperidade, ou seja, do próprio umbigo, sem nenhuma dimensão social da mensagem do Evangelho.

Em uma entrevista para o El País Brasil, o senhor diz que “a igreja evangélica está cometendo o mesmo erro que a Igreja Católica cometeu na Idade Média”. O que isso significa?

No período medieval, a Igreja conquistou a hegemonia sobre a sociedade, a ponto de o papa coroar reis e nomear príncipes. Hoje algumas igrejas evangélicas procuram confessionalizar a política e anular a laicização da sociedade civil.

Por meio do poder, em cujas estruturas há cada vez mais pastores, se empenham em fazer coincidir os preceitos religiosos com as leis civis, como a demonização dos homossexuais e a condenação do Carnaval.

Amanhã um pastor na Presidência da República ou no STF pode insistir em estabelecer, em todo o país, a Lei Seca, proibindo a fabricação, a venda e o consumo de bebidas alcoólicas, como se tentou nos anos de 1930 nos EUA.

A Igreja se afastou do povo? Por que esse trabalho com as comunidades de base perdeu força?

Porque não teve apoio da hierarquia, ou seja, de bispos e padres. Como adverte o papa Francisco, enquanto a Igreja Católica não se desclerizar, isto é, abandonar o clericalismo que a domina, ele não será em “Igreja em saída”, como frisa o papa.

A esquerda se afastou da Igreja Católica ou foi a Igreja Católica que se afastou da esquerda?

Sempre houve setores da esquerda na Igreja Católica, e eu me identifico com eles. Mas hoje é raro encontrar um cardeal de esquerda, como dom Paulo Evaristo Arns; um arcebispo de esquerda, como dom Helder Câmara; um bispo de esquerda, como dom Pedro Casaldáliga. Por isso a esquerda laica não tem muito interesse em manter vínculos com a Igreja Católica.

Se Bolsonaro ganhar, o senhor vê riscos à democracia? E quais seriam os riscos de uma vitória de Haddad?

Se o Bolsonaro ganhar a eleição, teremos um governo autoritário, uma ditadura revestida de democracia, como o governo de Hitler no início dos anos 1930 na Alemanha. Se Haddad vencer, teremos um governo voltado às questões sociais, ampliando nosso espaço democrático. Mas nenhum dos dois livrará o Brasil de intensa turbulência nos próximos dez anos. Contudo, insisto em meu axioma: guardemos o pessimismo para dias melhores!

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Apoiadores de Bolsonaro realizaram pelo menos 50 ataques em todo o país

qua, 10/10/2018 - 18:55

Uma jornalista esfaqueada e ameaçada de estupro. Um carro jogado em cima de um jovem com camiseta do Lula que conversava em frente ao bar com os amigos. Uma jovem presa e agredida, jogada nua em uma cela da delegacia. Outro jovem recebe um adesivo colado à força nas suas costas, com um tapa, e depois recebe uma rasteira para cair no chão.

Todos esses ataques violentos aconteceram desde o dia 30 de setembro, em meio ao acirramento da violência eleitoral. Um levantamento inédito realizado pela Pública em parceria com a Open Knowledge Brasil revela que houve pelo menos 70 ataques nos últimos 10 dias no país.

A grande maioria dessas agressões foi feita por apoiadores de Jair Bolsonaro, candidato do PSL que está à frente nas pesquisas eleitorais. Isso mostra que as declarações de Bolsonaro que incitam a violência contra mulheres, LGBTs, negros e índios e a violência policial estão ecoando país afora e se transformaram em agressões físicas e verbais nestas eleições.

Por outro lado, seus eleitores ou pessoas relacionadas receberam 6 ataques. Em um deles está o caso de um professor da Universidade do Recôncavo Baiano (UFRB) que foi preso no dia 5 de outubro por atropelar comerciantes que vendiam camisetas do presidenciável do PSL. A Universidade nega. Existem ainda situações em que não é clara a afiliação política do agressor.

O levantamento inédito mostra como as situações de violência se espalham pelo país inteiro e não podem mais ser vistas isoladamente.

Indagado sobre as ações de seus apoiadores, Bolsonaro tentou minimizar a onda de violência política. “Eu lamento. Peço ao pessoal que não pratique isso, mas eu não tenho controle sobre milhões e milhões de pessoas que me apoiam”, disse Bolsonaro ao UOL. “Está um clima acirrado, pela disputa, mas são casos isolados que a gente lamenta e espera que não ocorram”, afirmou.

Bolsonaro foi vítima de um ataque a faca em 6 de setembro que o deixou em estado grave, enquanto fazia campanha em Minas Gerais. O agressor, Adélio Bispo de Oliveira, confessou o crime e está preso.

Entre os casos contabilizados pela reportagem da Pública, 14 aconteceram na região Sul, 33 na região Sudeste, 18 na região Nordeste, 3 na região Centro-Oeste e 3 na região Norte. Embora tenha havido também dezenas de casos de ameaças pelas redes sociais, o levantamento incluiu apenas casos de agressões e ameaças feitas ao vivo. Nesses episódios, a integridade física de pessoas ficou em risco por causa do ódio ligado à disputa eleitoral.

A partir de hoje, a organização Open Knowledge Brasil e a Brasil.io, em parceria com a Pública, vão recolher e monitorar casos de agressões ligadas às eleições de 2018. Os casos serão publicados no site Vítimas da Intolerância. Se você tem uma denúncia, envie pelo site.

Região Sul: jornalista foi atropelado

“Foi muito rápido, senti a roda como se estivesse me puxando, simplesmente caí no chão”, relata o jornalista e produtor audiovisual Guilherme Daldin, 26 anos, atropelado no dia 7 de outubro, dia da votação em primeiro turno, às 21 horas. Ele comemorava a vitória de um amigo do PDT para a Assembleia Legislativa do Paraná. Pelas circunstâncias, a vítima vê só um motivo: vestia camiseta vermelha, com uma imagem do ex-presidente Lula.

A violência ocorreu em frente ao Bar do Torto, na região central e boêmia de Curitiba, capital do Paraná, na qual é comum conversar na calçada. O jovem estava com os colegas no bicicletário. De costas para a rua, Daldin disse que repentinamente sentiu o carro, um Sandero branco, bater no lado esquerdo de sua cintura e passar por cima do pé.

“Com o movimento da roda passando sobre o meu pé, eu caí com tudo no chão e comecei a sentir a fisgada, como se estivesse puxando. Isso foi em milésimos de segundo. Não fazia ideia do que estava acontecendo, simplesmente caí e depois fiquei muito preocupado com minha perna, minha impressão é que tinha acontecido algo pior”, disse à reportagem.

Fotos: Melito/Agência Pública

O motorista fugiu sem prestar nenhum tipo de assistência. Seus amigos o seguiram. “Era um homem e uma mulher, segundo meus amigos. Ele estava com uma camiseta do Brasil [da seleção brasileira de futebol]. Pararam do lado do carro e perguntaram se era ele que tinha me atropelado. Relataram que ele abaixou o vidro e de forma bem fria fez um gesto de quem vai pegar algo no console, dizendo ‘eu tenho uma surpresinha aqui para vocês’”. Com medo de que fosse uma arma, eles foram embora. “Ninguém queria fazer justiça, mas sim averiguar, tentar entender o que motivou, pois todos que estavam na rua disseram que o cara claramente tacou o carro em mim.”

Passados três dias, Daldin conta que as dores estão aumentando, assim como a sensação de insegurança ao sair na rua. “Por sorte não foi nada grave, estou com muita dor no joelho e no pé. Agora, quando ouço um carro derrapando, sinto pânico, fico em alerta. É um misto de desespero com uma vontade de barrar a violência, ainda mais ao saber que tem muita gente com ódio exacerbado saindo às ruas. Ao mesmo tempo, bate uma angústia, medo de me identificarem na rua, sobretudo pela certa repercussão que o caso vem ganhando.”

Orientado pelos policiais militares que fizeram o primeiro atendimento no local da violência, Daldin foi no dia seguinte (8) até a Central de Flagrantes da Polícia Civil, no centro da cidade, para registrar um Boletim de Ocorrência (BO). Com a ajuda de amigos, o jornalista conseguiu identificar o motorista, pois a placa do carro foi registrada. Só que na Civil, o computador da escrivã tinha adesivos pró-Bolsonaro.

Fotos: Melito/Agência Pública

“Foi ali que me senti impotente, despossuído de direitos. Cheguei a ficar mais assustado naquele momento que no dia anterior. E agora, você vai recorrer para quem?” O jornalista mudou de delegacia e foi até o departamento da Polícia Civil em outro bairro, nas Mercês, com o objetivo de se sentir menos acuado para prestar a queixa.

Esse não foi o único caso registrado na última semana na região Sul. O levantamento da Pública verificou 14 situações de violência associadas às eleições nos estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. As vítimas sofreram agressões físicas, uma urna eletrônica foi destruída a marretadas e duas ofensas verbais, sofridas na rua, foram denunciadas em redes sociais. Numa delas, a vítima relata que o agressor chutou o cachorro abandonado que ela alimentava, enquanto a ofendia.

No dia 6 de outubro, na cidade de Maringá, Vera Lúcia Pedroso, de 53 anos, foi ferida em um ataque ao seu carro modelo Voyage. Ela dirigia durante uma carreata em apoio a Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência, quando um jovem numa moto emparelhou com o veículo e tentou tirar à força a bandeira que estava presa ao veículo.

“Estava com muita raiva. Na primeira puxada não conseguiu, na segunda quebrou o vidro, que cortou minha mão”, relatou à Pública. Foram quatro pontos no indicador da mão direita e um no mindinho. Presidente do Sindicato dos Trabalhadores das Empresas de Água, Esgoto e Saneamento de Maringá (Sindaen), Vera conta que o mesmo motoqueiro já tinha “atacado” outros carros da passeata antes de chegar ao dela.

um vídeo na internet sobre a ocorrência no qual dá para ver o motociclista sendo segurado pelas pessoas da carreata do PT. É que, depois de quebrar o vidro de Vera Pedroso, ele investiu novamente contra os veículos, sendo apanhado pelos manifestantes. “Foi quando chegaram três pessoas, que ajudaram ele a escapar e levaram a moto embora”, explicou ela. No vídeo, aparece o adesivo de apoio à candidatura presidencial do PSL.

“Não estou com medo”, disse a vítima à reportagem. “Ainda tenho muita esperança na democracia, acredito que podemos viver num país em que haja respeito e tolerância”, completou.

Foto: Arquivo Pessoal

Outro caso de violência registrado em Curitiba, capital do Paraná, ocorreu na noite desta terça-feira, 9 de outubro, próximo à reitoria da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Por volta das 20 horas, cerca de seis homens agrediram um estudante da universidade em frente à Casa da Estudante Universitária (CEU), que fica ao lado dos prédios em que são ministradas as aulas de ciências humanas.

O jovem de 26 anos, Khaliu Turt, que estava com boné do MST e camiseta vermelha, foi espancado por um grupo de torcedores com camisetas da Império Alviverde – torcida organizada do Coritiba Foot Ball Club. O estádio do Coxa, como o time é conhecido, fica a poucos metros do campus da UFPR. De acordo com um estudante, que pediu anonimato, os membros da torcida estavam se agredindo, o que teria causado pânico nas estudantes que moram ali.

Foi nesse contexto que Turt teria pedido que os homens saíssem de lá. A fachada envidraçada da Casa da Estudante foi danificada durante a arruaça. Foi aí que, de um grupo de 15 homens, seis deles começaram a espancar o jovem com chutes e golpes de capacete. No final, acrescentaram os gritos de “Aqui é Bolsonaro” e “Bolsonaro 2018”. A vítima foi levada ao Hospital Cajuru com escoriações pelo corpo e ainda realizava exames quando a reportagem foi concluída

A UFPR emitiu uma nota oficial na qual “lamenta profundamente o ato de violência ocorrido em frente às duas dependências”. E conclui: “A UFPR repudia veementemente todo e qualquer ato de violência, de preconceito ou de discriminação”.

Foto: Khaliu Turt Região Sudeste: ataques homofóbicos em nome de Bolsonaro

Ao todo, a Pública localizou 32 relatos de agressões cometidas por apoiadores de Bolsonaro na região Sudeste.

“O policial que me abordou na rua, que me agrediu, que me chutou no chão, que me deu a rasteira, ele olhou para minha cara e falou assim: ‘Ele não? Você acha gostoso? Não era isso que você queria? Eu só tiro você daí se você falar ‘ele sim’”, relatou a cozinheira e doula Luisa Alencar. Os policiais, durante a abordagem, fizeram declarações de apoio ao candidato à Presidência pelo PSL. O fato ocorreu na segunda-feira, dia 9 de outubro, na 64ª Delegacia de Polícia, no bairro Jardim Coimbra, em São Paulo.

Ela foi abordada por dois PMs por volta das 14 horas, próximo à sua casa. Estava fazendo um estêncil com os dizeres “Ele Não” em um muro. “Os policiais nem me chamaram nem me advertiram verbalmente, eles já chegaram me agredindo”, contou. Um deles arrancou sua mochila, torceu seu braço e a algemou. “Enquanto ele me prensava na parede, ele começou a gritar no meu ouvido: ‘Sua puta, ele sim, sua puta, vagabunda, ele sim. Não vai ter mais nenhum vagabundo igual a você na rua fazendo essas merdas’.”

Luisa disse que o policial pediu que ela cruzasse as pernas e depois deu uma rasteira. “Eu caí de peito no chão. Ele já prensou minha cara no chão e continuou falando ‘sua puta petista, fedida’. Ele ficou ali me agredindo.” O outro policial pediu reforço e, de acordo com a cozinheira, pouco tempo depois surgiu mais uma viatura e cinco motos da Polícia Militar. “Eles ficaram ainda fazendo uma cena, me prensando no chão, as pessoas me olhando naquela situação”, contou.

Luisa chegou à delegacia por volta das 15 horas. Ela conta que foi colocada em uma cela nua enquanto homens passavam, do outro lado das grades, olhando e rindo. “A delegada mandou eu tirar a roupa, algemada. Nisso, eles abriram já uma cela e me botaram lá dentro. Disseram que precisavam averiguar minha roupa, aí me deixaram pelada um tempo dentro da cela”, disse.

“Quem me conduziu e quem pediu para eu tirar a roupa era uma mulher, a delegada Cristiane. Só que enquanto eu estava dentro da cela passaram vários policiais homens, eles me olhavam e riam”, disse.

Ela conta que só saiu de trás das grades às 18:30, depois que obedeceu às ordens do policial e falou “ele sim”.

“Ele falava: ‘Olha pra mim, olha pra minha cara, fala ele sim’, dando risadas”, contou Luisa. “Eu saí da delegacia às 21h30. A sensação era que eu estava vivendo na ditadura.” Procurada para comentar o relato da jovem, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo enviou uma nota na qual afirma que “não há indícios de irregularidade na ação dos PMs e da delegada responsável pelo registro da ocorrência”. Afirma ainda que a autora “também carregava uma porção de maconha e foi encaminhada ao 64º DP, onde foi lavrado um termo circunstanciado de crime ambiental e porte de drogas para consumo próprio”.

Também em São Paulo, a família de Laura Carolinah estava na avenida Paulista, no domingo de eleições, quando ouviu uma ameaça: “Essa mamata vai acabar, Bolsonaro vai acabar com todos vocês, vamos poder meter bala”, disse um simpatizante de Bolsonaro.

Laura estava com seu namorado, duas sobrinhas e a irmã em uma padaria, programa típico paulistano para um domingo. Sua irmã foi falar com a atendente para saber onde sentar, quando passou por um homem que esperava uma mesa. “O homem, do nada, começou a gritar com minha irmã, disse que ela é vagabunda e que estava furando fila. Começou a gritar: ‘Pode sair daí, sua vagabunda’.” Pediu desculpas e tentou explicar que tinha sido um mal-entendido. Foi quando ele percebeu que ela não estava sozinha, mas se tratava de uma família negra.

“Quando ele me viu, viu meu namorado, minha sobrinha Any e a mais nova, Belinha [que está de rastafári], começou a gritar: ‘Essa mamata vai acabar, Bolsonaro vai acabar com todos vocês, vamos poder meter bala”, relata. Ele depois continuou para a irmã, segundo Laura: “Você é uma vagabunda, vai tomar no cu. Vocês votam no Haddad, vão perder de lavada’”, conta ela, um depoimento que fez na sua página do Facebook.

O áudio da carioca Juliana Sathler começou a circular nas redes sociais no início da tarde de terça-feira, dia 9 de outubro, alertando sobre o perigo de andar com adesivo escrito “Ele Não” na roupa. Um pouco antes de enviar o áudio para um grupo de amigos no WhatsApp, por volta de 12h30, um homem parou e empurrou Juliana em Copacabana, bairro da zona sul do Rio de Janeiro. “Ele segurou meu braço dizendo que eu era uma vadia, esquerdista, que eu deveria voltar pra casa pra aprender a lavar roupa, que o Bolsonaro ia assumir pra me ensinar tudo isso”, revela a voz ainda de choro da interlocutora. Termina o áudio com um aviso: ‘‘Eu vou pedir pra vocês tomarem muito, muito cuidado, onde andam, com quem andam, sempre que for andar de adesivo, anda em grupo’’, conclui.

Em conversa com a Pública, Juliana Sathler conta que estava perto do trabalho, em seu horário de almoço. “Eu estava vestida com a roupa de trabalho, superformal, eu estava com os adesivos do ‘Ele Não’. Ele esbarrou em mim e ele me empurrou e começou a gritar.” Conta que, quando começou a pedir ajuda, o homem soltou o braço dela e saiu correndo. “Na hora eu fiquei completamente perdida, eu fiquei assustada.” Na delegacia, informaram que ali não poderiam fazer muita coisa, que teria que fazer um BO online ou procurar uma delegacia da mulher, “visto que não tinha nenhum ferimento nem testemunhas”.

“Eu deixei bem claro que não foi um atentado por ser mulher, foi um eleitor do Bolsonaro, ele atacou uma pessoa, não o fato de ser mulher, ele atacou outra eleitora”, resume.

Um pouco menos de uma semana antes da eleição, no dia 2 de outubro, Ana Carolina Almeida foi perseguida na Linha Vermelha, na capital fluminense, quando dirigia seu carro indo do centro do Rio de Janeiro, por volta das 1h30 da madrugada, para Duque de Caxias. “Um homem emparelhou o carro comigo e gritou ‘Bolsonaro’. Eu fui acelerar, ele foi atrás de mim e me fechou, começou me emparelhar, começou a gritar comigo um monte de coisas, ‘nossa bandeira é verde amarela’, um monte de besteira aleatória’’. Ela acredita que o motivo da agressão foi porque a parte de trás do seu carro tinha adesivos escritos ‘Ele Não’. “Quando ele parou, pensei: ‘Ele vai me bater, ele vai me machucar’. Eu já estava chorando desesperadamente. Eu tinha que parar o carro porque poderia bater com ele, ia morrer nós dois.”

Ao sair do carro, o homem se apresentou como policial e mostrou um distintivo com o símbolo da República. “Falou que ia me prender, pegou uma algema, ficou me mostrando a algema, ele estava totalmente fora de si.” Ana se lembra de coisas que ele falou, como: ‘‘Vocês acham que vão mudar o mundo, não vão mudar, nossa bandeira é verde e amarela, nunca vai ser vermelha”. Mas ela acredita que o homem que a parou não era um policial. “Teve um momento que ele falou: ‘Eu vou chamar a polícia’, com distintivo no peito. E eu pensei: “Ele não é policial’, ele é maluco’’.

Ataques homofóbicos

Segundo apurou a reportagem da Pública, diversos ataques foram direcionados à comunidade LGBT na região Sudeste. São casos em que a homofobia se mistura ao ódio eleitoral.

Belo Horizonte, 09 de Outubro. Retrato de Guil, 21 anos, atacada por um eleitor de Bolsonaro esperando ônibus no centro de Belo Horizonte – Fotos: Tamás Bodolay – Horto Florestal – Belo Horizonte / Reportagem: Alice Maciel

Para a jovem transexual de Belo Horizonte Guilderth Andrade, conhecida como Guil, a única palavra que vale para descrever o momento atual é medo. “Medo. É a única coisa que consigo definir no momento”, afirmou a cabeleireira Guil, de 21 anos.

Era quase meio-dia, ela estava na praça da Estação no ultimo sábado, dia  de outubro, no centro da capital mineira, parada no ponto de ônibus. Na praça acontecia uma manifestação pró-Bolsonaro e um rapaz colou um adesivo do candidato em seu peito. “Eu falei: ‘Não quero votar nele, você tem que ter respeito’, e tirei o adesivo.” De repente, sentiu um “tapão” nas costas. O rapaz havia colado outro adesivo. “Eu o arranquei novamente.” O homem deu então uma rasteira na jovem. “Eu caí, a bota dele cortou meu tornozelo. Se eu tentasse levantar, ele ia continuar me agredindo”, afirmou Guil.

A única pessoa que a ajudou foi um homem que também estava no ponto de ônibus. “As pessoas que estavam na manifestação não fizeram nada”, lamentou. Guil disse que não fez BO por medo. “Fiquei com medo de falar”, justificou. “A situação está muito extrema, não que não era difícil, mas está ficando pior”, acrescentou.

Guil afirmou que está cada vez com mais temor de sair de casa, pois tem escutado muitos relatos parecidos com o seu, de amigos LGBTs. “A gente vai ficando acuado, trancado em casa, não estou conseguindo trabalhar. Eu quero poder existir sem ser questionada e pressionada o tempo todo”, exclamou.

Amiga de Guil, Isabela – ela pediu para não usarmos seu nome real por medo de sofrer represálias –, de 25 anos, também é transexual e foi atacada em Belo Horizonte por quatro homens vestidos com camisetas em apoio à Jair Bolsonaro, depois de ter saído de uma festa, no dia 30 de setembro. “Eles me puxaram para dentro do carro pela janela. Os dois de trás sentaram em cima de mim e deram muitos socos no meu rosto, jogaram cigarro aceso e ainda cuspiram”, contou. Segundo ela, um deles estava armado. “Durante todo o tempo, eu escutei: ‘Se ele ganhar, vamos poder caçar mais macacos’. Traveco. Não vamos te matar agora porque você ainda pode ter jeito, mas, se não tomar, você vai morrer de aids’.”

Depois dessa tortura, eles a mandaram descer sem olhar para trás, ameaçando atirar. “Meu amigo insistiu muito para que eu denunciasse à polícia, e a tentativa foi um total desastre. Todo o processo mais parecia uma tentativa de me incriminar de algo do que a solução de um crime cometido contra mim, a vítima”, relatou.

Em Niterói, um prédio na região sul foi atacado durante a comemoração da vitória de Carlos Jordy (PSL) a deputado federal.

Salomão Moutinho assistia à apuração dos votos no apartamento de uma amiga. “Estava uma gritaria entre todos os prédios, assim como em toda a cidade, de uma pessoas falando ‘ele não’, outras falando do Bolsonaro.” Mas a rixa, que no início parecia inofensiva, mudou de dimensão quando Salomão e os amigos resolveram sair de casa. “Quando a gente desceu e pisou na portaria, tinha tipo umas 30 pessoas apontando pra gente”, relata. “Eram uns 30 caras ou mais, todos com a camisa do Bolsonaro e a gente não conseguia sair.’’

Logo depois, começaram os ataques – em especial, xingamentos homofóbicos. “Também falaram para as minhas amigas rasparem o sovaco delas, começaram a gritar várias coisas, que o comunismo vai acabar, queriam que voltasse a ditadura, e uma das amigas começou a gritar que eles não sabiam o que era ditadura e que eles estavam sendo agressivos.”

Depois das ofensas, o grupo entrou no prédio, assustado. Ali, decidiu arrancar a bandeira LGBT da porta do apartamento e ficou um tempo com as luzes apagadas e em silêncio porque não sabiam se os agressores estariam dentro do prédio. Salomão diz que ligou para polícia, mas a polícia não chegou. O grupo de apoiadores do PSL ficou um tempo na frente do prédio, mas depois saiu.

“Desde o início da campanha, cada vez mais que eu vou na rua, vejo mais ataques, carro buzinando. Isso tudo era muito comum há sete anos, mas agora está voltando”, conta Salomão. “A gente está buscando sair sempre em grupo, não ficar na rua à noite. Está ficando uma relação muito ruim”’, desabafa.

Juliana Garcia estava no Bar do Zeca, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense, na sexta-feira passada, dia 5 de outubro, com a namorada. Na camisa, trazia os adesivos “Ele não” e “O filho dele também não”. Quando levantou para ir ao banheiro, dois homens foram atrás. “Começaram a falar: ‘Você está totalmente equivocada, vai defender bandido, só Bolsonaro salva esse país’.”

Juliana disse que tentou argumentar, mas mesmo assim um dos homens continuou em um tom agressivo. “Teve um momento em que ele fez o movimento das armas com as duas mãos apontadas para o meu rosto. Aí eu não tive reação, o outro homem do lado começou a rir. Saímos correndo do bar.” Ela admite ter medo de voltar ao bar e andar por Caxias.

O estudante Gabriel Garcia foi agredido por dois homens enquanto caminhava pela rua, perto de sua casa, no bairro do Ipiranga, em São Paulo: “Aqui é Bolsonaro, caralho. A gente vai acabar com os viados do Brasil”, gritou um dos homens, direcionando a fala para ele. E o outro complementou: “É só eleger que vamos acertar lâmpada nessas porras”. “Infelizmente, tive que baixar a cabeça e seguir caminho com uma vontade imensa de retrucar sabendo já de antemão que iria terminar apanhando feio e que não teria nenhum efeito”, relatou Gabriel.

 

Região Nordeste: jornalista sofre ameaça de estupro

No domingo de eleição, começo de tarde, a jornalista pernambucana Silvia Castro – o nome é fictício –, 40 anos, foi ameaçada de estupro e de morte por ser uma profissional da imprensa. Com uma faca no pescoço e imobilizada por dois homens logo depois de ter votado, os agressores diziam: “Quando o comandante [Jair Bolsonaro-PSL] ganhar a eleição, a imprensa irá morrer”.

Logo na sequência, eles – um vestido de camisa verde e outro, de camisa preta estampada com o rosto de Bolsonaro – discutiam se iriam estuprá-la ou recortar seu corpo. “E aí foi quando ele botou a faca no meu queixo, cortou o meu braço e o meu rosto”, relata a jornalista à Pública. O ato só não foi adiante graças a uma motorista que, segundo ela, desceu a rua buzinando. “Eles se assustaram e saíram andando rápido em sentido contrário ao meu.”

Assustada e em pânico, a repórter foi em busca de ajuda, deu uma volta no quarteirão, mas não encontrou nenhum policial. Silvia foi à delegacia do bairro Espinheiro e tomou as medidas legais cabíveis. Agora aguarda a investigação e a captura dos homens que a agrediram. Segundo ela, ambos tinham entre 36 e 38 anos, estavam bem-vestidos e aparentavam ser de classe média.

O que ocorreu com a jornalista não foi um caso isolado. Houve pelo menos 18 registros apenas na região Nordeste. Dos casos levantados pela reportagem na região, apenas dois não tinham como agressores militantes partidários de Jair Bolsonaro (PSL).

Entre homicídios, espancamentos e agressões verbais, os atos de violência atingiram políticos, militantes e cidadãos que, pelo simples ato de declararem em quem haviam votado, tiveram suas vidas ceifadas.

Foi caso do mestre de capoeira, o baiano Romualdo Rosário da Costa, de 63 anos, conhecido como Moa do Katende. Ele levou 12 facadas nas costas depois de ter dito que havia votado em Fernando Haddad (PT). O assassino foi preso e confessou ter matado o capoeirista por ele ser petista.

Outro caso é referente à morte de um cachorro a tiros durante um ato pró-Bolsonaro, no último dia 30 de setembro, na cidade de Muniz. Durante a carreata um homem que participava do ato desceu do veículo e atirou três vezes contra o animal. Apesar de ter sido detido na hora, logo em seguida foi liberado alegando legítima defesa, pois se sentiu ameaçado pelo cachorro.

A raiva e o extremismo se concretizaram ainda no espancamento da travesti Netinha Matias, de 40 anos, que, após ter declarado ser contra a candidatura de Bolsonaro e ao fazer campanha nas redes sociais, teve sua casa invadida e foi fortemente agredida, os agressores desferiram socos no rosto e por todo o corpo. Em uma postagem nas foto postada nas redes sociais, Netinha aparece com o nariz sagrando e com marcas de violência no tórax.  O caso ocorreu na cidade Sigefredo Pacheco, no Piauí.

No Rio Grande do Norte, uma médica que trabalha em um hospital público na cidade de Natal rasgou a receita que tinha acabado de fazer para um paciente idoso, de 72 anos, após ele ter respondido que votou no candidato do PT à Presidência. Antes de se aposentar, o idoso havia trabalhado na unidade de saúde e tinha uma boa relação com a médica.

Todas as agressões motivadas por ódio relatadas foram confirmadas pelas secretarias de Segurança Pública de cada estado à reportagem. Em alguns casos, os agressores já estão presos, outros ainda estão em investigação, como é o da jornalista pernambucana. Somente no Maranhão e em Sergipe não foram encontrados registros de atos de violência dessa natureza.

Região Norte

Em Manaus, no Amazonas, o publicitário Elói Capucho também foi agredido por um simpatizante de Jair Bolsonaro por ser gay e contra a eleição do candidato do PSL. Na segunda-feira, como de costume, ele saiu de casa às 8h40 para trabalhar, de Uber. De acordo com Elói, durante o trajeto, o motorista lhe perguntou: “Qual a sua visão política sobre o cenário atual do país?”. “Eu disse para ele que eu, como LGBT, tenho muito medo pela comunidade, me referindo ao candidato Jair Bolsonaro, por conta dos discursos de ódio dele.”

Assim que ouviu a resposta de Elói, o motorista pegou a Bíblia, disse que Deus criou homens e mulheres e começou a agredi-lo. “Eu falei: ‘Eu exijo que você me respeite. Você deve fazer apenas o seu dever de motorista e eu de cliente’. E foi quando ele puxou meu braço e, simplesmente dirigindo em uma das avenidas de maior circulação aqui de Manaus, virou para trás e disse: ‘Cala a boca, eu vou te matar, ou você prefere que eu te jogue aqui do carro pra fora?’”.

Elói disse que ficou sem reação por algum tempo e em seguida teve coragem de abrir a porta do carro em movimento. O motorista estacionou o veículo e o passageiro saiu correndo. Elói registrou BO e está esperando resposta da empresa Uber.  No total, a reportagem localizou 3 relatos de agressões na região Norte.

Centro-Oeste

Em Brasília, a estudante e ativista Mayra de Souza, de 27 anos, foi vítima de um simpatizante de Jair Bolsonaro. Ela foi xingada e agredida com dois socos na madrugada do dia 9 de outubro. De acordo com informações do jornal Correio Braziliense, a militante do movimento social Levante Popular da Juventude estava em um bar com quatro amigas quando foi abordada pelo agressor. Após repetidos pedidos para que ele se afastasse da mesa, o homem começou a gritar “Bolsonaro 2018” e, no momento em que Mayra foi fumar um cigarro, ele deu o primeiro soco, no olho esquerdo. A mulher caiu no chão e recebeu outro golpe, dessa vez no queixo. O homem fugiu do local. Mayra registrou o caso na Delegacia Especial de Atendimento à Mulher. Houve 3 casos registrados na região.

Eleitores de Bolsonaro também foram agredidos

Embora sejam ampla minoria, também há pelo menos seis relatos de simpatizantes do candidato que sofreram agressões de opositores. No dia 5 de outubro, um professor da Universidade do Recôncavo Baiano (UFRB) foi preso por atropelar um comerciante que vendiam camisetas do presidenciável do PSL. O comerciante conseguiu sobreviver e teve apenas os produtos danificados. Já o docente da UFRB responde em liberdade pelo ato de violência. O ocorrido foi em Salvador, na Bahia, na orla de Stella Maris. A Universidade publicou uma nota afirmando que “não houve atropelamento ou qualquer tentativa de atitude dolosa. Após se recusar a adquirir material de propaganda contendo imagem de um determinado candidato, o docente teria se sentido ameaçado, retirando-se bruscamente do local, causando danos materiais ao arrastar um varal contendo camisas que estavam sendo vendidas em via pública. Em seguida, o professor foi perseguido por um policial e levado à delegacia”. Na nota, a UFRB expressa solidariedade ao professor e diz: “Em um momento de extrema polarização, no qual as mensagens de ódio e de incitação à violência aumentam assustadoramente, a UFRB reitera sua crença na democracia e na valorização de princípios humanísticos, reafirmando o compromisso com a paz e com a defesa intransigente dos direitos humanos”.

Na noite de segunda-feira, dia 8 de outubro, Gilberto de Mattos levou um chute, caiu e machucou a cabeça depois de ter gritado “ele sim” quando passava por um grupo de pessoas que gritavam “ele não”, no bairro de Santa Cecília, em São Paulo. Ele afirmou que foi cercado e impedido de sair do lugar por mais de 20 pessoas que estavam no teatro Galpão Folia, e na sequência foi agredido pelas costas por um homem identificado como Rafael.

Os policiais alegaram, no BO, que foram informados no local de que Gilberto teria empurrado e dado um soco no peito de uma mulher, identificada como Ariadna, durante a discussão política. Rafael teria dado o chute em Gilberto para defendê-la. Gilberto, no entanto, negou à Pública que tenha agredido a mulher.

Atualização em 11/11 às 13:35: O caso do jovem agredido por trazer um boné do MST estava com o  nome errado. O texto original dizia que ele se chamava  Calil Purt, mas o nome dele é Khaliu Turt. O texto foi corrigido.

Também foi incluído o posicionamento da Universidade Federal doo Recôncavo Baiano a respeito do seu professor envolvido em um dos casos de agressão contra apoiadores do candidato.

O dado de casos até o  fechamento desta reportagem no sudeste é 33, e não 32.

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Haddad erra histórico eleitoral de Paulo Maluf

qua, 10/10/2018 - 17:47
Wilson Dias/Agência BrasilPaulo Maluf, na época em que era deputado federal: político teve o mandato cassado em agosto

“Você sabe que o Maluf aqui em São Paulo quase ganhou duas eleições com mais de 45% dos votos no 1º turno, depois perdeu no 2º [turno].” – Fernando Haddad, candidato à Presidência pelo PT, em entrevista à rádio Guaíba.

Em entrevista à rádio Guaíba, em 9 de outubro, o candidato Fernando Haddad (PT) comparou o desempenho de Paulo Maluf em duas eleições com o resultado do 1º turno da atual disputa à Presidência. Jair Bolsonaro (PSL) ficou com 46,03% dos votos válidos, enquanto o petista teve 29,28%. Segundo Haddad, Maluf teve mais de 45% dos votos no 1º turno em duas eleições em São Paulo, mas perdeu na segunda etapa dessas disputas. A assessoria de imprensa do candidato não indicou as fontes. O Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública – classificou a frase como falsa.

Desde a redemocratização, Maluf disputou o segundo turno quatro vezes para cargos do Executivo no município e no estado de São Paulo. De acordo com o repositório de dados eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na eleição para governador de 1990, Paulo Maluf (então no PDS) teve 5.872.473 dos votos (43,50%), enquanto Luiz Antônio Fleury Filho (PMDB) conseguiu 3.803.159 (28,17%). A porcentagem é inferior à citada por Haddad. No 2º turno, o peemedebista venceu a eleição com 7.368.730 votos (51,77%) contra 6.865.157 (48,23%).

Em 1992, na eleição para a prefeitura da capital paulista, Maluf conseguiu 48,85% dos votos (2.036.776). Eduardo Suplicy (PT) ficou em segundo lugar, com 30,69% dos votos (1.279.231). Contudo, diferentemente da afirmação de Haddad, ele conseguiu ser eleito com 58,08% dos votos válidos (2.805.201) contra 41,92% do seu adversário (2.024.957).

Nas eleições de 1998 para o governo do estado, Maluf – então filiado ao PPB – obteve 32,21% dos votos válidos (5.351.026), enquanto Mário Covas (PSDB) ficou com 22,95% (3.813.186). Covas conseguiu a vitória no 2º turno, com 55,37% (9.800.253), contra 44,63% de Maluf (7.900.598).

A última vez em que o político conseguiu ir para o 2º turno foi nas eleições para prefeito de 2000. No 1º turno, Maluf obteve 17,39% (960.581) e Marta Suplicy (PT) conseguiu 38,12% dos votos válidos (2.105.013). A candidata petista elegeu-se com 3.247.900 (58,51%), enquanto Paulo Maluf teve 2.303.508 (41,49%).

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Microbolsas: conheça os repórteres selecionados para investigar a volta da fome

qua, 10/10/2018 - 09:00

A Agência Pública e a Oxfam Brasil lançaram no final de agosto o concurso Microbolsas Fome, que abriu inscrições para que repórteres de todo o país propusessem pautas sobre a volta da fome à realidade brasileira.

Recebemos 83 propostas, vindas de 15 estados diferentes. Os vencedores foram definidos em conjunto pela Pública e pela Oxfam Brasil. “Estamos felizes pelas mais de 80 propostas enviadas. Eram de altíssima qualidade. Acreditamos que as quatro escolhidas vão contribuir muito para o jornalismo comprometido com a defesa de direitos no país”, diz Gustavo Ferroni, da Oxfam.

Para a seleção, foram consideradas a originalidade das pautas e sua capacidade de revelar os impactos da volta da fome sob diferentes aspectos. “Além da qualidade das investigações propostas, recebemos inscrições de muitos jornalistas experientes, o que revela um grande interesse em cobrir este tema tão atual. O resultado reflete isso”, comenta Natalia Viana,  co-diretora da Pública.

Nos próximos meses, os repórteres selecionados vão trabalhar com os editores da Agência Pública para produzir as pautas propostas.

Conheça os vencedores:

Chico Felitti –  mestrando de escrita na Universidade Columbia, em Nova York. Trabalhou na Folha de S.Paulo, onde foi repórter, colunista e editor, por 10 anos. Colaborador da Piauí, da Galileu e da Revista Joyce Pascowitch, foi o autor do perfil de Ricardo Pereira, um artista de rua conhecido como Fofão da Augusta, publicado pelo Buzzfeed em 2017 e que vai virar livro pela editora Todavia em novembro de 2018.

Elvira Lobato – Jornalista, formada pela UFRJ, atuou na imprensa escrita por 39 anos, 27 deles na “Folha de S. Paulo”, onde fez parte do núcleo de repórteres especiais de 1992 a 2011, quando se aposentou do jornalismo diário para se dedicar a projetos pessoais. É autora do livro “Instinto de Repórter”, sobre seus métodos de investigação jornalística. Está no ranking de jornalistas mais premiados do Brasil. Recebeu, entre outros, o Prêmio Esso de Jornalismo, em 2008, pela reportagem sobre o patrimônio dos dirigentes da Igreja Universal do Reino de Deus. Em janeiro de 2016, publicou a reportagem “TVs da Amazônia Legal-Realidade que o Brasil Desconhece”. É co-fundadora do projeto multimídia Mulheres 50+ (www.mulheres50mais.com.br).

A reportagem será feita em equipe com Angelina Nunes, Ana Lúcia Araújo, Claudia Lima, Cristina Alves, Regina Eleutério e Raquel Almeid.

Hévilla Wanderley Fernandes – é graduada em Comunicação Social – Jornalismo, pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e tem 29 anos. Após concluir o curso em 2012, iniciou a carreira no caderno Cidades do Jornal Correio da Paraíba. Em seguida, trabalhou na assessoria de imprensa do Ministério Público da Paraíba (MPPB) e no Conselho Nacional de Procuradores-Gerais (CNMP). Neste período, cobriu a votação da PEC 37, proposta que, se aprovada, daria exclusividade do poder de investigação criminal para as polícias federal e civis, retirando esta atribuição de alguns órgãos e, sobretudo, do Ministério Público. De 2014 até o início de 2018, trabalhou como repórter do GloboEsporte.com/pb, onde participou de diversas coberturas esportivas. Durante os anos de GloboEsporte.com, também fez algumas matérias especiais para o G1PB. Atualmente, trabalha na Associação Paraibana do Ministério Público (APMP), e faz mestrado em ciência política na UFPB, cuja pesquisa trata da autoafirmação da identidade nordestina através do futebol.

Júlia Dolce Ribeiro – Jornalista formada pela PUC-SP e estudante do curso Tecnólogo de Fotografia do Senac. Trabalha há três anos para o jornal Brasil de Fato, cobrindo economia, política e direitos humanos. Em 2017, trabalhou por 5 semanas no jornal palestino Alternative Information Center. Fará a pauta das Microbolsas em parceria com Rute Pina, jornalista formada pela PUC-SP e repórter do Brasil de Fato há mais de dois anos. Em 2015, integrou a 26ª turma de treinamento em jornalismo do Estadão. Tem interesse em Direitos Humanos, Política e Jornalismo de Dados.

Parabéns e bom trabalho aos repórteres!

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Mensagem falsa diz que Haddad autorizou livro infantil que trata de incesto

ter, 09/10/2018 - 18:04
Reprodução Livro “Enquanto o sono não vem”, distribuído pelo MEC entre 2015 e 2017: obra foi aprovada quando Haddad não era ministro

“Que tal estimular relação sexual entre pai e filha? Espanto? Esta é a leitura que foi disponibilizada pelo ministro de Educação [Fernando] Haddad enquanto esteve à frente deste ministério. O governo comprou e distribuiu para escolas e entre criancinhas um livro em que o pai castiga a filha por ‘não querer ser dele’. Você pensa que já tinha visto de tudo? Engana-se!!! Veja a reportagem.” – Corrente de WhatsApp sobre Fernando Haddad (PT), que circula acompanhada de vídeo com reportagem do jornal ESTV, da Rede Globo.

Circula no WhatsApp a informação de que um livro que estimularia o incesto foi aprovado, comprado e distribuído pelo Ministério de Educação (MEC) a escolas da rede pública, enquanto Fernando Haddad, atual candidato à Presidência pelo PT, era ministro. O Truco – projeto de checagem da Agência Pública – analisou a mensagem e concluiu que é falsa. O livro foi para a lista de materiais em 2014 e foi retirado em 2017. Nesse período, Haddad não era mais ministro da Educação.

Reprodução Corrente de WhatsApp sobre livro que foi autorizado pelo MEC

A mensagem é acompanhada de vídeo de reportagem do jornal ESTV, da Rede Globo, que foi ao ar no dia 1º de junho de 2017. Na ocasião, escolas do Espírito Santo denunciaram o livro Enquanto o Sono Não Vem, de José Mario Brant, às prefeituras, que recolheram a obra antes da distribuição naquele ano. O MEC, então, decidiu reavaliar sua decisão.

A polêmica em torno da obra se deu pelo conto “A triste história de Eredegalda”, um dos muitos do livro, publicado pela editora Rocco. A história conta o caso de um rei que pede para se casar com sua filha. Ela se recusa e é punida pelo pai, que a tranca numa torre sem poder beber água. No final, a princesa acaba aceitando a proposta do pai, mas ele muda de ideia e escolhe um marido para a filha.

O livro foi distribuído às salas de aula das turmas de 1º, 2º e 3º anos do ensino fundamental das escolas da rede pública de 2015 a 2017. Foi selecionado pelo processo seletivo do Programa Nacional do Livro Didático em novembro de 2014, durante a gestão do ministro Henrique Paim no MEC, no governo Dilma Rousseff (PT). Nessa seleção, as 210 obras aprovadas passaram por avaliação de uma equipe composta por doutores e mestres especialistas do Centro de Alfabetização, Leitura e Escrita (Ceale) da Faculdade de Educação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Em 2017, professores, pais, e até defensores públicos de vários estados questionaram o MEC por considerarem a obra inadequada para crianças. Assim, após parecer da Secretaria de Educação Básica, os exemplares distribuídos às escolas foram recolhidos e a obra foi retirada da lista de leitura.

No período de seleção e de distribuição do livro pelo MEC, Fernando Haddad era prefeito da cidade de São Paulo, cargo que ocupou de 2012 a 2016. O candidato foi ministro da Educação antes do ocorrido, entre julho de 2005 e janeiro de 2012.

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“Quando você não acerta suas contas com a história, a história te assombra”

ter, 09/10/2018 - 15:08

O Brasil pode entrar em uma “noite sem fim” dependendo do resultado das eleições à presidência. É o que defende o filósofo Vladimir Safatle, professor livre-docente da Universidade de São Paulo. Para ele, há um golpe militar em marcha no país, com características próprias, que pode acontecer a qualquer momento: “O Brasil vai viver os próximos meses e os próximos anos com essa espada de Dâmocles na cabeça, [o golpe] pode acontecer a qualquer momento”. Em entrevista à Agência Pública, o filósofo falou sobre o apagamento do PSDB nessas eleições, a latente necessidade de ruptura política por parte da população, a ascensão do fascismo no mundo e sobre o espectro de uma ditadura militar escondida no subterrâneo das estruturas de poder: “O Brasil é a prova mais cabal de que quando você não acerta suas contas com a história, a história te assombra”.

Caio Castor/Agência PúblicaFoto: Caio Castor/Agência Pública

Qual é sua análise do primeiro turno? Os resultados te pegaram de surpresa? E aí falando não só dos 46% do Bolsonaro mas sobre a composição da Câmara e do Senado? O PSL chegar a 52 deputados.

Acho que a grande surpresa acontece depois das manifestações de sábado retrasado quando ele [Bolsonaro] começa numa linha de ascensão muito forte. E estava claro que esse descolamento da extrema direita em relação à direita tradicional iria arrebentar com a direita. O MDB e o PSDB viraram partido médios. O MDB e o DEM, que eram a base da direita brasileira, perderam brutalmente sua relevância. Embora – o que é engraçado nesse processo -, do ponto de vista dos votos na Câmara, os partidos de esquerda não tiveram impacto negativo. O PT manteve sua bancada, o Psol quase dobrou, o PSB e o PDT aumentaram suas bancadas, então aconteceu mesmo um descolamento. É um fortalecimento de uma extrema direita que não tinha representação, a não ser uma representação caricata, dentro do Congresso. Mas ficou claro que essa campanha foi uma anticampanha completa, montada pra que os espaços públicos de debate implodissem. Do ponto de vista das garantias que a democracia liberal dava pra um certo jogo democrático, isso tudo acabou. A campanha foi montada ao redor de um candidato que, quando a campanha efetivamente começa, desaparece, porque toma uma facada e se aproveita disso para ficar um mês sem aparecer até o ponto de fazer aquilo que ele fez no último debate: ele não vai e faz uma entrevista à parte para demonstrar seu desprezo ao espaço de debate. Outra característica foi a organização da campanha a partir de fake news. Foi uma campanha digna de um Goebbels nos trópicos. As manifestações [#elenão], a gente ficou dias sem entender o que estava acontecendo. Porque não é possível: uma manifestação popular forte, com muita gente na rua, que o mundo inteiro viu e só a mídia brasileira não viu, e ele sobe! Aí vieram essas explicações estapafúrdias ‘ah mas esse movimento das feministas despertou uma reação forte’ como se estivessem culpabilizando o movimento feminista pelo simples fato de elas terem tomado a frente de um processo de revolta e de resistência. Uma coisa completamente insana. Mas aí começou a ficar claro o que aconteceu. O Brasil está na rota de uma lógica de extrema direita internacional na qual você não opera mais no espaço aberto, você opera no espaço obscuro, virtual, utilizando dados da Cambridge Analytica, como os caras fizeram, para direcionar mensagens de maneira muito específica, criando esses vídeos… Eu vi os vídeos em que eles misturavam imagens das manifestações com imagens de mulheres profanando símbolos religiosos, imagens feitas para chocar a classe média brasileira. É claro, a esquerda não estava preparada pra isso, ninguém está preparado pra isso. Foi uma lógica de outro tipo de campanha que a gente nunca tinha visto. E uma campanha feita em cima do desprezo do embate no espaço público.

Você disse algumas vezes que nós temos um golpe militar em marcha e que nós não teríamos eleições. Pode falar um pouco sobre isso?

Quando o impeachment estava claro como a luz do sol e a gente dizia ‘olha vai ter o impeachment, o governo vai cair’, vários setores da esquerda diziam: ‘não, nossa democracia é sólida, é resistente, o PSDB não vai entrar nessa aventura’, não vai ser a primeira vez que eles vão tomar seus desejos por realidade. Agora, a ideia do golpe em marcha: o Brasil vai viver os próximos meses e os próximos anos com essa espada de Dâmocles na cabeça, [o golpe] pode acontecer a qualquer momento. Ele [Bolsonaro] é alguém que, se for eleito e tiver a primeira dificuldade com o Congresso, a probabilidade de ele dar um autogolpe é enorme. Ele já falou, ninguém pode dizer que ele não expressa o que ele pensa, está tudo muito claro. A primeira coisa que ele fala quando passa para o segundo turno é: ‘nós vamos acabar com esses ativismos’. Ele promete união nacional e promete acabar com os ativismos. Parece uma contradição mas não é; ele vai criar uma união nacional baseada no cadáver de todos os ativistas, daqueles que não concordam com ele. Não é uma união nacional, é uma brutalidade social que a gente só tinha visto na ditadura. A gente sabe que vai ter um governo que, na verdade, é um governo de setores das Forças Armadas misturados com fundamentalismo evangélico, que é o pior cenário possível. Um governo militar teocrático feito pra implementar um programa ultra neoliberal. De pauperização extrema, de aumento dos conflitos sociais, de precarização e vulnerabilização absolutas, de desprezo com os setores mais vulneráveis da sociedade ou seja, uma bomba que não é nem uma bomba relógio, é uma bomba armada, que pode estourar literalmente a qualquer momento. A primeira revolta que tiver, você vai ter uma situação de brutalidade social que pode muito bem levar a uma situação de exceção.

Nós temos, pela primeira vez desde a abertura, os militares se aproximando da presidência. O que isso significa?

Eu acho que no fundo a gente está retornando ao horizonte de 1964 porque nós não conseguimos terminar com a ditadura. A ditadura se acomodou a um horizonte de democracia formal mas no subterrâneo ela estava lá, presente e conservada. As polícias continuaram [a ser] polícias militares, os torturadores continuaram nas polícias, as Forças Armadas continuaram intocadas, nenhum torturador foi preso, você não obrigou os setores fascistas da sociedade a se culpabilizar pelo apoio que eles deram, você preservou os grupos políticos ligados à ditadura. Claro que isso era uma bomba relógio, que iria estourar em algum momento. Quando o pacto da Nova República se mostrasse em seu esgotamento e sua exaustão, isso iria voltar. O Brasil é a prova mais cabal de que quando você não acerta suas contas com a história, a história te assombra. E ela está assombrando o Brasil como em nenhum outro país da América Latina. Uma situação na qual nossas liberdades vão ser completamente dizimadas. A esquerda teve oportunidades muito claras de retirar do cenário politico brasileiro todos aqueles que de uma certa forma eram os filhotes da ditadura. O governo Lula chegou a ter 84% de aprovação. Nunca mais na historia desse país alguém vai conseguir 84% de aprovação. E, no entanto, nada foi feito. Agora a gente paga esse preço. 

Você já vinha falando desse apagamento do PSDB, que se concretizou, relacionando esse fato a um deslocamento da direita para a extrema direita. Pode falar um pouco sobre isso?

A direita brasileira, devido ao peso da ditadura, só podia aparecer dentro de um consórcio no qual o gestor era um ator transformista pelo PSDB. O PSDB não vinha dos grupos ligados à ditadura. Eram setores sócio-liberais, sociais democratas, que foram paulatinamente ocupando essa nova função, mas que não eram organicamente vinculados à pauta conservadora. Tanto é que eles eram conservadores na economia e liberais nos costumes. Mas vem a polarização, hoje faz quase dez anos que a gente está percebendo que a politica mundial está indo para os extremos. A questão é muito simples: as pessoas perceberam que o centro é incapaz de transformação então elas vão para os extremos. E faz anos que a gente fala ‘olha, o problema não é que você tem uma extrema direita, [o problema] é que você não tem uma extrema esquerda então você não consegue operar uma balança’. Dentro desse processo, um partido como o PSDB perde sua função. Mas o dado é que o Brasil vai passar por uma catástrofe econômica. Você vai impor um plano de ajuste hiper neoliberal que vai prejudicar todas as camadas populares que conseguiram uma certa ascensão. A carteira verde amarela, por exemplo, retira FGTS, 13o e férias. As pessoas não vão ter dinheiro para gastar. Você vai ter um mercado interno em colapso em uma situação em que o mercado externo também está em colapso. Vai se ter um pouco de dinheiro porque vai vender todas as estatais, só que esse dinheiro não vai ser utilizado para fazer politicas de combate às desigualdades, vai ser entregue diretamente ao mercado financeiro porque eles são os detentores da dívida pública. Mas você vai abater 20% da dívida pública, não vai ter mais nada pra vender, então você vai ter que negociar essa dívida pública. E, mais do que isso, o Estado não vai ter mais capacidade de indução de ascensão social. Em suma, você vai ter um Estado brutalmente pauperizado. Se esses empresários tivessem um mínimo de inteligência não seriam suicidas nesse nível; o máximo que eles vão conseguir fazer é pegar o que têm e ir morar em Miami porque aqui vai ficar insuportável. 

Existe uma ideia de que os eleitores do Bolsonaro votam nele por uma espécie de falta de esclarecimento, uma manipulação, uma impossibilidade de enxergar suas contradições ou seus verdadeiros objetivos. Você acredita nisso? Acha que os eleitores do Bolsonaro estão sendo enganados?

Você tem uns 20% que [já] estavam com ele antes dessa subida que é o eleitorado protofascista. Que a gente está vendo se manifestando com a violência, a agressividade que eles têm. Hoje [ontem] uma pessoa foi assassinada por ter feito uma defesa de um candidato opositor, então imagina o que vai acontecer quando eles estiverem no poder. Então sim, há uma parcela fascista e, se tem uma pessoa nesse mundo hoje que poderia ser analiticamente classificado como fascista, é o senhor Jair Bolsonaro. Não tem nenhum político no mundo – talvez o presidente das Filipinas, Rodrigo Duterte – os dois únicos no mundo que podem ter um discurso classicamente classificado como fascistas. Todas as características estão lá: culto à violência, um sujeito cujo sinal da campanha é uma arma apontada; um culto ao nacionalismo paranoico em um país como o Brasil, fundado a partir do genocídio indígena, do genocídio negro, quer dizer, ser nacionalista no Brasil é realmente mostrar sua carteira de identidade. E num desprezo explícito a grupos vulneráveis da sociedade, como foi com os judeus um dia, com as mulheres, com a população LGBT. Esses três elementos são fundamentais para a classificação de qualquer discurso como fascista. Sem contar um recurso contínuo a um universo religioso completamente farsesco, constituído por pastores com ficha na polícia, da pior espécie, e o caráter de racionalidade cínica disso. Ele é capaz de falar tudo o que fala e, como fez ontem, falar: ‘não é pra levar muito a sério o que eu falo, eu sou um comediante’. Adorno, quando vai analisar o fascismo, fala que o cerne da adesão ao fascismo é que, na verdade, ninguém acreditava no que era enunciado. Você ironiza a violência enquanto trucida todo mundo. Porque, se fosse pra assumir uma ética da convicção, ninguém iria suportar. Essa face cômica é constitutiva de todo discurso autoritário. Hoje em dia você percebe a comicidade do Berlusconi, do Trump, do Sarkozy e, agora, do Bolsonaro. Isso está longe de ser uma coisa que humaniza, simplesmente mostra o caráter autoritário do poder. Então você tem uma parcela da população que é fascista e deve ser nomeada como tal. E você tem uma parcela, que deve ser mais ou menos metade, que entrou porque quer uma ruptura e está disposta a pagar o preço que for por essa ruptura. Esse que foi o caráter dramático, esse que foi o problema. Permitir que as pessoas que querem essa ruptura, que tem um discurso anti-institucional, fossem para a direita.

Então você acha que está acontecendo mais ou menos como diz que aconteceu em 2013, em que em uma hora muito crítica a esquerda não se radicalizou e foi a direita quem fez isso?

Desde o 18 de Brumário de Luis Bonaparte do Marx a gente sabe que toda revolta popular produz um sujeito politico emergente capaz de ser o ator de transformações sociais e um sujeito reativo. Sempre foi assim. Não tem uma revolta popular em que você não abra para uma possibilidade de transformação e para um retorno. 2013 foi o único momento na história brasileira em que a população mostrou sua energia negativa contra o poder. A gente teve momentos em que a população em Brasília vai para o Congresso, quase quebra o Congresso, a polícia empurra as pessoas pro lado e elas tocam fogo no Palácio do Itamaraty. Olha que engraçado, depois disso começaram a surgir discursos de ordem. Por que? Porque eles queriam ordem ou porque você teve um setor da população que ficou com medo dessa revolta popular? Começou a se pedir ordem, está faltando um punho forte, mão firme e aí voltam todos esses fantasmas que assombram a sociedade brasileira desde sua instauração. Nesse horizonte a resposta possível era a esquerda mostrar à população que há um outro destino para essa recusa radical do poder, que é tomar o poder para si. Não é entregar o poder para alguém “honesto”, “correto” e “forte”.

Que “vai acabar com tudo isso”…

Que vai acabar com tudo isso, exatamente. E que normalmente vai acabar é com você, termina sempre assim. Mas, transferir o poder para a soberania popular, a esquerda não foi capaz de fazer isso. A esquerda, com sua patologia dirigista, não foi capaz de entender que era isso que era necessário. Vocês não querem representação? Tudo bem, a gente pode defender um tipo de democracia cada vez mais direta e mais próxima. Mas isso nunca apareceu na pauta da esquerda no Brasil.

Qual é o papel da esquerda agora e daqui pra frente?

Bom, primeiro ganhar as eleições. Tem 20 dias pra ganhar, não é uma operação impossível, a rejeição ao Bolsonaro é enorme e tende a não cair e a esquerda já demonstrou algumas vezes nesses últimos dias que tem a maioria dentro de um segundo turno. É claro que isso implica um tipo de mobilização e trabalho que a gente perdeu. Retomar o trabalho de base, ir pra rua conversar com as pessoas, ao invés de ficar brigando com a sua tia no Facebook. E se perder, que perca de muito pouco, isso a gente tem condição de garantir. Que seja de 48 a 52%, isso vai ser muito importante porque permite um grupo de resistência muito mais forte. Ao menos garantir que seja uma derrota por muito pouco, que é a tendência natural. E isso vai ser importante porque a violência deles vai ser imediata, já no primeiro dia. Quem espera um governo de conciliação, o Trump mostrou o contrário. Todo mundo dizia ‘ele falou muita bravata mas depois vai ser melhor’ e foi muito pior do que ele falou. Então vai ser pior do que essas bravatas. E ter metade da população brasileira mobilizada e em vigilância vai ser fundamental para sobreviver. 

Você fala que a política é antes de mais nada relacionada a circuitos de afetos. O que isso significa? E como se relaciona com o momento atual?

Eu desenvolvi isso em um livro que no fundo era sobre a situação brasileira. Havia uma discussão sobre a politica estar sendo marcada pelo ódio e eu estava tentando insistir: veja, eles também pensam que a gente é marcado pelo ódio, começa por aí. Então algo como ‘mas eles são irracionais’ é uma péssima descrição. A questão era saber que tipo de afeto os move e cria formas de vida. Porque o embate é sobre formas de vida, isso é muito claro. Não é só sobre programa econômico, não é só sobre questões ligadas à segurança, é sobre formas de vida. Você tem grupos para os quais a nossa forma de vida é um insulto. Tanto que eles misturam questões ligadas à sexualidade, misturam questões ligadas a formas de trabalho, a modelos de sociedade, a acolhimento ou não de refugiados, é todo um tipo de vida social que está sendo colocado em questão. Mas isso significa que essas vidas sociais são suportadas por certos afetos e é claro que um elemento decisivo para alguém como Bolsonaro é o medo como afeto político central. Não é alguém que vai garantir que você tenha um futuro melhor, mais próspero, mais livre. Não. É algo como “eu vou estar seguro” e “não vai ter ninguém corrompendo” que são duas ideias completamente equivocadas. Alguém como ele não garante uma sociedade menos corrupta porque a corrupção vem sempre de par com o autoritarismo. Como alguém que endeusa um regime corrupto pode ser contra a corrupção? Como alguém que fala sobre o setor militar como um horizonte ideal pode ser contra a corrupção? Afinal a ditadura militar foi um dos regimes mais corruptos que o Brasil já conheceu. Todas essas grandes empreiteiras que corromperam o estado da Nova República foram formadas no regime militar. O regime militar é cheio de casos de corrupção: Coroa Brastel, Capemi, Projeto Jari, Petropaulo, eu poderia passar o resto da entrevista falando desses casos. Foi um regime que se alimentou dos políticos mais corruptos que já existiram. Antonio Carlos Magalhães, Jose Sarney, Paulo Maluf foram herdeiros da ditadura. E o senhor Bolsonaro se aliou a figuras corrompidas, a começar pelo pastor Edir Macedo, que foi parar na cadeia por corrupção, o pastor Silas Malafaia. São figuras que estão muito mais para a página policial do que outra coisa. Sem contar os casos próprios dele [Bolsonaro]. Por outro lado, é alguém que promete segurança mas não vai dar segurança nenhuma porque vai criar um país de conflito social aberto, de pauperização, que vai aumentar a violência social porque essa violência não vem do nada, ela vem do fato de a desigualdade no Brasil ser um insulto à humanidade. Então a raiva contra essa situação pode gerar algum tipo de violência direta. Quem diz que o regime militar teve paz social, claro, só para quem mora nos bairros nobres. Mas e o que acontecia nas favelas? Os esquadrões da morte, a brutalização absoluta, veja os números. Tudo isso é uma ficção, uma falácia que rapidamente vai ser demonstrada na sua inverdade.

Você já falou sobre o que a gente pode esperar caso o Bolsonaro seja eleito. O que a gente pode esperar caso o Haddad se eleja na sua opinião?

Não dá pra dizer que não vai ser turbulento. Mas isso é até mesmo irrelevante diante da possibilidade de impedir o Brasil de entrar em uma noite sem fim. Porque o Bolsonaro é alguém pior do que a ditadura militar. No governo ditatorial, eles não precisaram mobilizar de maneira explícita todo esse sistema de violência social contra grupos vulneráveis que o Bolsonaro mobiliza a todo momento. Então você pode imaginar o nível de violência que virá. Ele tem esse elemento a mais, precisou mobilizar. A ditadura militar não tinha associação com grupos evangélicos, religiosos. A participação da igreja católica não era direta, não tinha padre prefeito, parlamentar. E na época diga-se de passagem a igreja católica estava mais progressista do que conservadora. Então é ainda pior. Qualquer coisa que vier já é insuperavelmente melhor do que uma vitória do Bolsonaro.

 

*Colaborou Guilherme Peters

 

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Renato Janine: “um dos caminhos do PT agora é assumir a bandeira da civilização contra o retrocesso”

seg, 08/10/2018 - 16:54

“Os valores democráticos não estão interiorizados no Brasil”, afirma Renato Janine Ribeiro nesta entrevista concedida na manhã desta segunda-feira à Pública. Ao falar das eleições e do segundo turno, o ex-ministro da educação de Dilma Rousseff (PT) recapitula a configuração histórica que, na sua opinião, levou ao clima de polarização.

Umas das principais referências da classe intelectual brasileira, Janine avalia que um dos caminhos do PT é assumir a bandeira da civilização contra o retrocesso. “Primeiro, para esse eleitorado reticente contra o PT vir a votar no Haddad, o Haddad tem que ser mais do que o Haddad, tem que ser mais do que o PT”.

A polarização indicada pelas pesquisas eleitorais e confirmada nas urnas não se deve, ele avalia, aos erros cometidos somente pelo PT, mas também pelo PSDB, “dois partidos comprometidos com os direitos humanos mas que entraram numa luta figadal pelo poder”.

“Havia uma crença do PSDB de que o MDB faria o trabalho sujo, tiraria o inimigo, o PT e que depois disso, enfim, eles poderiam ganhar as eleições. Infelizmente, isso é muito parecido, sem comparar esse impeachment a um golpe militar, mas é parecido com a ilusão dos que patrocinaram o golpe de 1964”, diz.

Apesar de semelhanças com a trajetória de Trump, Janine aponta que nosso judiciário tem sido mais complacente com Bolsonaro: “O Bolsonaro é uma pessoa que nenhum processo contra ele andou. Tem processos antigos, nenhum andou. Ele faz o que quer e o Judiciário é complacente, deixa passar”.

Fabio Rodrigues Pozzebom/Agência BrasilNesta entrevista, Janine explica alguns dos motivos que levaram a polarização entre PT e PSL no segundo turno

O segundo turno está posto entre Fernando Haddad e Bolsonaro. O que representa essa polarização?

Isso é muito difícil porque tem muitos aspectos. O primeiro aspecto é o fato de que você tem um desastre que vem de muitos erros cometidos nesses anos. Primeiro lugar, houve um erro do PSDB de promover o impeachment, com isso ele acabou se colocando a reboque da extrema direita que foi para a rua com ele.

Os dois esteios do golpe dentro das instituições para retirar a presidente Dilma, MDB e o PSDB, foram acusados de vários atos de corrupção. E como eles também têm acusados de corrupção e não conseguiram melhorar a percepção que as pessoas têm da economia, as críticas feitas ao governo Dilma acabaram emplacando para o lado deles.

Então, aquilo que começou como uma desmoralização da esquerda acabou desmoralizando todos os protagonistas políticos.

Havia uma crença do PSDB de que o MDB faria o trabalho sujo, tiraria o inimigo, o PT e que depois disso, enfim, eles poderiam ganhar as eleições. Infelizmente, isso é muito parecido – sem comparar esse impeachment a um golpe militar – mas é muito parecido com a ilusão dos que patrocinaram o golpe de 1964. Nos dois casos houve uma ideia que seria feita uma cirurgia, uma “limpa”. No caso de 64 uma limpa muito mais dolorosa, acabou implicando tortura, cassação de mandatos, ato institucional. No caso de 2016 foi feita dentro da lei, no sentido básico da coisa, mas havia a ideia de que um ato cirúrgico seria feito e depois o Brasil voltava a ser como era antes.

Nós dois casos não funcionou. Em 1964 o golpe não bastou, ele teve depois que ser completado por uma outra cena de golpe, a prorrogação do mandato, o fim das eleições diretas e, finalmente, o ato 5 e a tortura e a supressão das liberdades. Dessa vez, não foi tão longe, mas o fato é que dois anos e meio depois de tirada a presidente Dilma as coisas continuam fracas, continuam sem perspectiva para o povo.

Ao mesmo tempo essas pessoas que apoiaram, que acreditaram na demonização do PT, continuam acreditando nisso. Não é por que o governo atual deu errado que eles querem de volta a Dilma. Não querem. Então, quando todos os protagonistas da política dos últimos anos, basicamente, PT e PSDB, que disputaram a presidência de 1994 até 2014, quando todos eles estão, vamos dizer, “errados”, então se abre espaço para uma solução extremista, para uma solução radical, que é o que gente está vendo.

Existe o erro de cálculo dos que patrocinaram a expulsão do PT e o PT também cometeu erros. Talvez o principal seja mesmo a dificuldade de diálogo da então presidente Dilma. Teve o erro dela e do Aécio, por assim dizer, que não tentaram um diálogo que teria sido muito difícil mas que teria nos poupado dessa situação atual.

E quais os outros aspectos que o senhor aponta nessas eleições?

Tem muitos outros aspectos. Faz tempo que a Juliana Fratini, que é cientista política, coloca a questão se o Facebook elege candidato. De certa forma, a força do Bolsonaro em boa parte vem disso, das redes. Ainda não está eleito, mas é o favorito para a eleição. Ele foi também cavando esse espaço nas instituições ao longo dos anos, não é uma pessoa totalmente fora desse espaço, é deputado há 30 anos. Não é um outsider completo, mas mesmo assim é um outsider.

Faz alguns anos, propus a ideia de que o Brasil estava chegando à quarta agenda democrática. A primeira agenda foi o fim da ditadura militar, o estabelecimento da democracia, uma democracia superior a todas que tivemos antes, que durou 30 anos – a mais longeva e talvez a única democracia que tivemos antes foi a da constituição de 1946, que durou 19 anos.

A segunda agenda democrática foi o fim da inflação. A inflação era extremamente negativa para a vida social. A terceira agenda, inclusão social com Lula e Dilma. Nós tivemos todas essas etapas que foram muito boas para o Brasil. E o que acontece? Em 2013 a sociedade vai pras ruas e diz: “isso não basta”.

Toda essa queixa de 2013 caminhou para o lado de uma solução política, essas manifestações queriam mudanças políticas. Cinco anos depois a decepção é tão grande que as pessoas continuam querendo que melhore isso tudo mas focaram, sobretudo, na segurança pública, na saúde e no combate à corrupção. A educação foi, vamos dizer, deixada muito de lado, porque o movimento bolsonarista é, inclusive, contra o poder emancipatório e liberador da educação.

Hoje a política deixa de ser a solução, como se descortinou por uma breve janela de tempo em 2013, e passou a ser o problema. Então, há uma aversão aos políticos que favorece a candidatura de gente nova, mas gente nova que não expressa o novo. Esses casos surpreendentes, o juiz que liderou a votação no Rio para o governo, o candidato do Partido NOVO que lidera em Minas Gerais são nomes que não pertencem às oligarquias políticas que foram, em boa parte, derrotadas nesta eleição.

Por que o antipetismo e o combate à corrupção está, para muitos, acima de valores democráticos e de civilidade como respeito aos direitos humanos e educação?

Em parte é culpa do PT e do PSDB. Dois partidos comprometidos com os direitos humanos mas que entraram numa luta figadal pelo poder. Podemos dizer que o PSDB é responsável, porque perdeu quatro eleições presidenciais seguidas e preferiu virar a mesa em vez de perguntar o que ele tinha errado. O PSDB deveria ter ser olhado no espelho em 2014, depois da eleição e dito, “vamos mobilizar as bases, fazer um novo projeto, vamos dizer o que podemos fazer diferente para o Brasil”.

Fernando Henrique tinha a ideia disso. Ele basicamente tinha dito que o PSDB não tinha o que dizer aos pobres. Que era o PT que podia dizer. Mas o crescimento de uma classe média graças às políticas do PT abriu um público para o PSDB. Esse público o PSDB poderia falar de empreendedorismo, de combate a corrupção, falar de políticas liberais. Grosseiramente falando, é a ideia do FHC no artigo dele “Papel da oposição” de 2011, que saiu na revista Interesse Nacional. Acontece que o PSDB preferiu a via fácil de contestar o resultado das eleições. Que o Bolsonaro já anuncia que está mais ou menos fazendo. Se ele não ganhou no primeiro turno é porque houve fraude.

Quer dizer, a pauta dos direitos humanos ficou sem força?

Isso tudo fez com que essa pauta civilizada dos Direitos Humanos fosse para segundo plano, em que os partidos que defendem isso agora estejam fracos e com dificuldade de se organizarem entre si.

São Paulo e Minas, dois dos estados mais importantes do Brasil do ponto de vista populacional, têm um tucano no segundo turno, mas o tucano finalista em São Paulo vai com o Bolsonaro. O tucano finalista em Minas, o adversário dele é que está com o Bolsonaro. Então, qual vai ser a política comum ao PSDB?

Para o interesse do Dória, o PSDB deveria apoiar o Bolsonaro. Para o interesse do Anastasia, o PSDB tem que ficar neutro. E tem que conseguir os votos do PT que acabaram ficando sem dono. O Anastasia como segundo colocado está na mesma situação que o Marcio Franca em São Paulo. Pode conseguir votos para a esquerda, mas se aderir à esquerda perde votos à direita.

A situação do Anastasia é o inverso da situação do Dória. Então, um partido que nasceu com uma forte carga dos direitos humanos hoje tem como principal nome competitivo o Dória, que é um sujeito que tem descaso total com essa bandeira.

Como você vai fazer uma pauta civilizacional, como você vai defender a civilização contra a barbárie se existem pessoas que estão dispostas a continuar se aliando a barbárie? Isso criou uma cisão muito grande.

Quais os caminhos que o Haddad pode trilhar para tirar a desvantagem contra Bolsonaro?

Tem vários caminhos que o Haddad pode trilhar contra o Bolsonaro. Um deles, para muita gente, inclusive para mim, um dos mais importantes, é assumir a bandeira da civilização contra o retrocesso. Retroceder 300 anos em termos de valores é muito complicado. Agora, não sei se essa é a pauta principal contra o Bolsonaro, mas é a pauta que deveria reunir o eleitorado de centro-esquerda e o eleitorado mais de direita, porém, civilizado.

E você veja, quando o Alckmin fica abaixo de 5%, não quer dizer que só o PSDB ficou com 5% da população. Tem gente, inclusive, que tem os valores tucanos e que não votou no Alckmin. Tem que entender o motivo. Assim como você olha a eleição para governo em São Paulo e o Marinho tem só 10% dos votos, quer dizer que tem eleitores petistas, realmente convictos do petismo, que não foram para ele. Porque esse esvaziamento?

Mesmo se você olhar o histórico das últimas eleições, vigorava a questão dos três terços. Um terço centro-esquerda, PT, um terço mais para direita e um terço de indecisos. E os terços eram gordos ou magros. Por exemplo, você podia ter um terço gordo do PT no primeiro turno da eleição presidencial, 2014, e um terço magro do PSDB. Agora você olha Haddad com 28%, ele está abaixo do terço magro e o Bolsonaro com 47% superou de longe a questão dos terços. Ele tirou gente dos indecisos, desse centro que ficava de um lado para o outro, tirou gente do PSDB, fez quase toda a direita. Quer dizer, a pauta dos direitos humanos ficou de lado e ficou até antipática.

Você tem toda uma parte da população que ouve falar em direitos humanos e tira o seu revólver. Isso é uma coisa delicada. É espantoso e tem que ter estudos mais sérios disso. Mas é espantoso que o pessoal de gente que subiu na vida graças ao Lula votou no Bolsonaro. Foram pessoas que foram tiradas da miséria pelo Lula e votaram no Bolsonaro. Isso é assustador.

A adesão a Bolsonaro vem de uma solidariedade de tipo fascista?

Claro que não! Isso é muito conjuntural. É um momento que está tudo desarticulado, tudo sem rumo, então você tem uma concentração grande em um candidato sem estrutura mas que consegue essa votação. Esse é o lado que é parecido com o Collor. Quer dizer, também uma época em que o Brasil estava numa situação muito difícil e o Collor conseguiu aquela votação. Depois o Collor foi governar com quem? Foi governar com o PFL [atual DEM], basicamente. O Bolsonaro também vai ter que governar com gente que já existe. Não vai fazer um negócio sem ninguém.

Quer dizer, muitos que votam nele é por falta de rumo. É um voto muito da falta de esperança. Não é aquela história de que a esperança venceu o medo. Agora o medo venceu a esperança.

As pessoas sentem que foram enganadas. Elas estão revoltadas por que para elas, PT e PSDB, enganaram. PMDB, enganou. Esse é um momento em que é muito importante ter o que oferecer a essas pessoas, ter o que dizer a elas. A última coisa a se fazer é dizer que metade da população brasileira é fascista. Isso não é mesmo.

Por que o senhor acha que a chamada terceira via não conseguiu emplacar?

Qual terceira via, né? Na verdade, você tem a certa altura uma polarização de duas famílias políticas. Uma família de centro-esquerda e uma família de direita, extrema-direita. Então eu não vejo muito centro nessa história. Talvez Marina fosse centro, o Joaquim Barbosa e o Afif Domingos, que acabaram nem concorrendo. Os outros candidatos, você tem alguns que foram se colocando à direita, é o caso do PSDB. Esses candidatos foram assumindo esse papel.

Você têm candidatos que foram indo para direita, e na esquerda e na centro-esquerda, uma divisão entre Haddad e Ciro. Se eles tivessem ido juntos talvez fosse diferente mas se fossem juntos talvez não somassem tantos votos quanto somaram separados. Se houvesse uma candidatura, por exemplo, Ciro presidente, Haddad, vice, talvez eles não somassem tantos votos. Talvez nem houvesse segundo turno.

Houve uma divisão na centro-esquerda. E do lado da direita você teve o que? Teve uma extrema-direita forte com o Bolsonaro praticamente sozinho e teve um racha grande na direita.

A direita foi com 5 candidatos que acabaram mais ou menos embolados, porque o menos de 5% do Alckmin, a votação do Amoêdo, do Meirelles – tem todo um conjunto que teve uma votação muito próxima entre si. A terceira via, nisso tudo, sumiu. Não tem. Eu não acho o Ciro terceira via e acho que a Marina na hora de fazer as grandes opções, em 2014 para cá, ela foi mais movida pelo ódio ao PT do que pela independência dela.

Ela agiu bem politicamente em 2010 quando ficou neutra; em 2014 ela errou ao apoiar o Aécio. Mas sobretudo, acho que o pior foi a Marina ter tido uma atuação tão pequena na vida política esses anos. Ela devia ter feito do jeito dela, com o estilo dela, uma caravana da cidadania. Deveria ter percorrido o Brasil, ter sido uma voz presente o tempo todo. Podia ter feito o que o Lula fez em 1994, um governo paralelo, que não teve grande impacto, mas que significava o PT agitando uma alternativa ao governo FHC. E a Marina não agitou uma alternativa ao governo Dilma.

E agora?

Hoje nós temos duas polarizações. A sociedade brasileira está dividida em três. Tem o fator de polarização que é o impeachment/golpe e outra que é o retrocesso versus os valores civilizados. E o problema é que essas duas linhas de corte são diferentes. Você tem gente que é contra, não dá valor, não dá importância aos valores civilizados, que é contra o PT, e vota no Bolsonaro. Você tem gente que dá importância aos valores civilizados, é contra o Bolsonaro e vota no PT.

Mas você tem gente que é contra o PT e contra o Bolsonaro, que é a favor da civilização mas não gosta do PT. Esse terceiro contingente é muito grande. Então os três terços como ficaram? O terço mais a direita virou quase metade, contra o PT e que não dá importância aos valores civilizatórios; o terço petista emagreceu para 28%, podendo crescer com o Ciro. E você tem uma parte da população, 20%, grosso modo, se incluir, brancos, nulos, abstenções que engordam um pouco, mas tem 20 e poucos por cento da população que estão divididos. Se o Haddad não for capaz de pegar todos esses 20 e poucos por cento e de virar uma parte do Bolsonaro, ele perde.

Não perde apenas o Haddad, perdem os valores civilizados.

O Haddad para ter chances precisaria fazer um aceno ao centro como muitos analistas têm dito desde ontem? O senhor concorda?

Isso que eles chamam de centro eu chamo de direita. São duas coisas. Primeiro, para esse eleitorado reticente contra o PT vir a votar no Haddad, o Haddad tem que ser mais do que o Haddad, tem que ser mais do que o PT. O Haddad tem que dar um passo. No que consiste esse passo eu não sei. Não sei se é reforma da previdência, reforma trabalhista.

Os outros também estão numa situação que têm que dizer se são a favor ou não do Bolsonaro. Então você tem que ter um diálogo, uma conversação. Agora, eu não sei se esse diálogo é só com os líderes que foram votados e perderam a eleição, se é só com Alckmin, Amoêdo, Marina. É bom ter diálogo com eles todos mas esse diálogo é, sobretudo, com os eleitores dessas pessoas.

Pessoas essas que manifestaram uma vontade contra Bolsonaro e contra o PT. Então, é essa a faixa da população que vai ser disputada agora. Se essa faixa da população se abster, anular o voto, votar em branco, tudo isso canaliza em favor do favorito.

O senhor vê risco a democracia dentro desse cenário conjuntural brasileiro com um candidato como Bolsonaro sendo vencedor das eleições?

Acho que sim. Ele afirmou muitas coisas que são contra os valores democráticos, quer dizer, não é uma pessoa que tenha respeito pelos direitos humanos, não é uma pessoa que respeite as regras do jogo. Já disse várias vezes que só aceita o resultado se ele ganhar. Então isso tudo são riscos. E isso tudo num momento que as instituições estão muito desmoralizadas. Poderes Executivo e Legislativo foram os primeiros a perderem a reputação, mas o Judiciário e o Ministério Público são hoje também alvo de muita desconfiança por conta de auxílio-moradia e outras questões.

Os EUA, por exemplo, construíram nessa doutrina dos três poderes baseados muito na ideia de que os poderes têm que ser capazes de resistir a um governante corrupto, a um governante ruim, a um governante antidemocrático. Então você tem três poderes para limitar isso. No Brasil isso é muito fraco. Os EUA têm 230 anos com essa configuração, o Brasil tem 30, e mesmo nos EUA o Trump está estressando as instituições. Aqui elas são muito mais fracas.

O Bolsonaro é uma pessoa que nenhum processo contra ele andou. Tem processos antigos, nenhum andou. Ele faz o que quer e o Judiciário é complacente, deixa passar. É uma coisa muito complicada.

O senhor falou do Trump. O senhor vê semelhança entre os dois?

Sim, muitas semelhanças. Inclusive parece que o Stephen Kevin Bannon aconselhou o Eduardo Bolsonaro alguns meses atrás. São dois candidatos com um retórica muito desrespeitosa em relação a quem diverge deles. Duas pessoas que não dão muito valor às instituições democráticas e nem aos direitos humanos. Acho que é muito parecido. Agora o ambiente nos EUA cria certas incitações ao Trump que aqui não cria ao Bolsonaro.

Por exemplo?

Trump emplacou os nomes dele na Suprema Corte muito extremistas e conseguiu separar crianças dos pais, na fronteira, que vai diretamente contra a ética universal. Agora, houve certas oposições a isso maiores do que no nosso Judiciário.

Por exemplo, a Globo, outros canais, fizeram tudo para fazer esses debates rigorosamente dentro da lei. A cobertura da Globo foi tão minuciosa que deu os mesmos minutos no Jornal Nacional para cada candidato, embora com as interrupções do Bonner, da Renata. Embora fosse mais um discurso dos jornalistas do que uma entrevista. Bem ou mal a Globo fez isso. De repente, na última hora, a Record passa uma entrevista do Bolsonaro, só dele, e o Judiciário deixa passar – apesar das leis exigirem uma equilíbrio entre as coisas.

Aqueles dois rapazes que quebraram a placa com o nome de Marielle Franco, não houve nenhuma sanção contra eles. Um deles foi eleito com a maior votação, inclusive.

Os jornais estão preocupados. Outros nem tanto. Os valores democráticos não estão interiorizados no Brasil.

Como assim?

Se estivessem interiorizados não teria ameaça a gays, ameaça às mulheres.

O senhor acha que a educação falhou?

Falhou. A educação falhou. Agora, é claro, que esses valores não é só a escola que dá. Têm valores que vêm da família, e a sociedade brasileira é uma sociedade que não chegou a interiorizar o valor do respeito ao outro. O respeito ao outro é fraco no Brasil. Quer dizer, colonização, escravidão. Nós temos uma situação de interiorização de valores retrógrados que perdura.

Desde a redemocratização o senhor lembra de momento tão delicado?

Não lembro. Perto da eleição atual, a eleição do Collor, que assustou muita gente e se esperava um avanço democrático, é brinquedo.

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Países tão desiguais como o Brasil têm violência menor

sex, 05/10/2018 - 18:30
José Cruz/Agência Brasil O candidato à Presidência Fernando Haddad (PT), em evento da Unecs: comparação sobre desigualdade e violência está correta

“Há países tão desiguais como o nosso que não têm uma violência tão grande.” – Fernando Haddad, candidato à Presidência pelo PT, em entrevista à revista Carta Capital.

Em entrevista à revista Carta Capital, o candidato a presidente Fernando Haddad (PT) disse que existem países tão desiguais quanto o Brasil que não registram tanta violência. O Truco – projeto de checagem da Agência Pública – analisou dois rankings de desigualdade e fez o cruzamento com o número de homicídios por 100 mil habitantes nesses países. Os dados mostram que a frase de Haddad é verdadeira.

A assessoria de imprensa do candidato não enviou a fonte da informação. Há diversos indicadores para avaliar a desigualdade econômica em cada país. Um dos mais utilizados é o coeficiente Gini, uma medida de desigualdade desenvolvida pelo estatístico italiano Corrado Gini em 1912. O coeficiente é um número entre 0 e 1, onde 0 corresponde à completa igualdade, ou seja, a uma situação onde toda a população recebe o mesmo salário, e 1 corresponde à completa desigualdade, onde uma pessoa recebe todo o rendimento e as demais nada recebem. Criado a partir do coeficiente, o índice de Gini é expresso em uma escala de 0 a 100.

Segundo o Banco Mundial, a desigualdade expressa pelo índice de Gini está caindo no Brasil. Entre 2011 e 2015, o índice foi de 52,9 para 51,3. Ainda não há dados posteriores a 2015 no site do Banco Mundial. No entanto, essa base de dados conta com números de anos diferentes para cada país. Apesar disso, o Banco Mundial considera os dados comparáveis e reúne todas as estatísticas na mesma página em seu site. Um ranking com o índice de Gini de 158 nações posiciona o Brasil em 10º lugar entre os países mais desiguais do mundo.

O Brasil está em 9º lugar no mais recente ranking mundial de homicídios intencionais a cada 100 mil habitantes. São 31,3 ocorrências a cada 100 mil moradores. O dado, relativo ao ano de 2016, é do relatório Estatísticas Globais de Saúde, divulgado em maio de 2018 pela Organização das Nações Unidas (ONU). O índice de violência brasileiro é inferior apenas ao de Honduras, Venezuela, El Salvador, Colômbia, Trinidad e Tobago, Jamaica, Lesoto e África do Sul, nessa ordem.

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Comparando as duas bases de dados, é possível encontrar nove países mais desiguais que o Brasil. Em sete deles, a violência é inferior à registrada aqui. Apenas na África do Sul e em Lesoto, mais desiguais que o Brasil segundo esse ranking, a violência registrada por meio da taxa de homicídios a cada 100 mil habitantes é superior à brasileira. Os outros sete países mais desiguais registram menos homicídios a cada 100 mil habitantes do que o Brasil.

Além dos países que são mais desiguais que o Brasil há outros seis países que têm índice de Gini no mesmo patamar do brasileiro, entre 50 pontos e 52 pontos no ranking: Suazilândia, Colômbia, Panamá, Guiné-Bissau, Ruanda e Honduras. Desses cinco países, somente dois têm índices de homicídios piores que os do Brasil: Colômbia, com 43,1 mortes por homicídio a cada 100 mil habitantes, e Honduras, com 55,5 a cada 100 mil. Os outros três países têm taxas muito menores: Suazilândia registra 20 mortes a cada 100 mil habitantes, Panamá tem 20,5, Ruanda, 5,5, e Guiné-Bissau, 9,2.

Publicada em dezembro de 2017, a Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, coordenada pelo economista francês Thomas Piketty, também analisa a desigualdade social em diferentes países, mas utilizando um método diferente do índice de Gini. O relatório avalia quais países têm maior concentração de renda nas parcelas mais ricas de sua população. De acordo com o estudo, em 2015, último ano analisado, o líder em uma das categorias era o Brasil. Aqui, o 1% mais rico detinha 27,8% da renda do país naquele ano, índice mais alto dentre todos os países pesquisados. O segundo colocado é a Turquia, com 21,5% da renda concentrada no 1% mais rico da população. Os dados estão disponíveis no banco de dados World Inequality Database (WID), que monitora a evolução da concentração de renda no mundo nos últimos anos. No entanto, a análise da renda concentrada no 1% mais rico não é a única possível.

No recorte que compara os 10% mais ricos em relação ao resto da população, o Brasil não está em primeiro lugar. O país fica atrás da África do Sul, onde o grupo mais rico concentra 65% da renda nacional. O Brasil, com 55,6%, também fica ligeiramente atrás de alguns países do Oriente Médio, como o Líbano, com 57,1%, e dos Emirados Árabes Unidos, com 56% de concentração de renda nos 10% mais ricos.

Tanto Turquia quanto Líbano e Emirados Árabes registram índices de homicídios a cada 100 mil habitantes muito inferiores ao do Brasil segundo o relatório Estatísticas Globais de Saúde, da ONU. A África do Sul, no entanto, tem taxa pior que a brasileira.

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Alckmin erra ao comparar oferta de crédito brasileira e chilena

sex, 05/10/2018 - 17:48
Valter Campanato/ Agência BrasilO candidato à Presidência Geraldo Alckmin, do PSDB, durante evento da Unecs, em agosto: estudos não comprovam afirmação do político

“O Chile tem o dobro da oferta de crédito que o Brasil.” – Geraldo Alckmin (PSDB), no debate da Rede Record.

Questionado por Ciro Gomes (PDT) a respeito do problema das pessoas endividadas no país, o candidato à Presidência Geraldo Alckmin (PSDB) propôs o aumento de oferta de crédito no Brasil para recuperar a economia. Segundo ele, os recursos movimentados em crédito no país são baixos: metade em comparação ao Chile. O Truco – projeto de checagem da Agência Pública – concluiu que a afirmação é falsa. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI) possuem dados diferentes a respeito disso. No entanto, nenhum deles mostra a oferta de crédito total chilena como o dobro da brasileira.

No debate, Alckmin não deixou claro a que tipo de crédito se referia. Para tratar do crédito oferecido a todos os setores utiliza-se o indicador de crédito ampliado, que é aquele destinado a empresas, pessoas físicas ou governos. O indicador também inclui todos os tipos de fontes de crédito – empréstimos, financiamentos, juros, títulos e ações adquiridos por instituições do sistema financeiro. De acordo com outro levantamento do Banco Mundial, o Brasil ofertou 111% do Produto Interno Bruto (PIB) em crédito ampliado em 2017. Já o Chile ofertou 128% – bem menos que o dobro do Brasil.

O FMI possui dados diferentes a respeito da oferta de crédito do Chile. Segundo a organização, o Chile ofertou 141,22 trilhões de pesos chilenos em crédito ampliado em 2016. O valor corresponde a 84,5% do PIB do país para o ano, que foi de 167,2 trilhões de pesos chilenos. No mesmo ano, o Brasil teve PIB de R$ 6,26 trilhões e ofertou 111% desse valor em crédito ampliado – R$ 6,96 trilhões. Ou seja, segundo o FMI, a oferta de crédito ampliado no Brasil foi maior que a do Chile, ao contrário do que afirma Alckmin.

Considerando apenas o crédito ofertado para o setor privado, dados do FMI mostram que o Chile ofertou 135,4 trilhões de pesos chilenos em 2016 – 80% do PIB do período. A porcentagem para o Brasil, segundo o FMI, foi a mesma apresentada pelo Banco Central no período, 62,14% – R$ 3,89 trilhões em crédito ofertados para o setor privado e um PIB de R$ 6,26 trilhões. Novamente, bem longe do “dobro”, apontado pelo candidato.

De acordo com o indicador mais recentes de crédito ampliado do Banco Central Brasileiro, R$ 7,3 bilhões foram ofertados em crédito em agosto deste ano. Isso representa 108% do Produto Interno Bruto do país – R$ 6,75 bilhões no período.

A assessoria de imprensa do candidato enviou como fonte levantamento do Banco Mundial sobre a porcentagem de crédito nacional direcionado ao setor privado em relação ao Produto Interno Bruto (PIB) do país. Segundo o estudo, o Brasil ofertou 59,7% do PIB em crédito para o setor privado em 2017. O Chile, por sua vez, teve oferta de crédito ao setor privado equivalente a 112,5% do PIB – 7 pontos porcentuais a menos (ou 6,1%) que o dobro do crédito ofertado pelo Brasil. O dado, portanto, não se refere à oferta total de crédito do país, mas apenas àquela direcionada ao setor privado.

A assessoria de imprensa do candidato foi comunicada sobre o selo, mas não enviou contestação no prazo determinado.

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Bolsonaro usa informação falsa ao criticar plano de governo do PT

sex, 05/10/2018 - 17:09
ReproduçãoEm transmissão ao vivo no Facebook, no dia 2 de outubro, Jair Bolsonaro (PSL) fez afirmação falsa sobre plano de governo de PT

“Propostas do [plano de governo] PT, algumas apenas: desmilitarização das polícias, militares obviamente […] Outro item: revogação da Lei de Anistia.” – Jair Bolsonaro (PSL), em transmissão ao vivo no Facebook.

Em transmissão ao vivo em sua página do Facebook, no dia 2 de outubro, o candidato a presidente Jair Bolsonaro (PSL) criticou algumas propostas que disse constarem no plano de governo do PT, como a desmilitarização das polícias e a revogação da Lei de Anistia. No vídeo, o candidato cita o documento Caderno de Teses – Resgatar o petismo no PT como se fosse o programa de Fernando Haddad (PT). Na verdade, trata-se de uma das sete teses apresentadas no 5º Congresso Nacional do PT, em 2015, pelas tendências que compõem o partido. Cada uma delas fez diferentes propostas para o país, mas essas ideias não representam a posição oficial da legenda. O Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública – classificou a declaração como falsa.

A assessoria de imprensa do candidato não respondeu sobre a fonte usada. No documento Caderno de Teses – Resgatar o petismo no PT, a tendência chamada Diálogo e Ação Petista propôs a revogação da Lei da Anistia e a desmilitarização das polícias. Além dela, mais duas vertentes – a Direção Nacional da Articulação de Esquerda e a Chapa Militância Socialista – colocaram a desmilitarização das polícias como pauta a ser cumprida em seus próprios Cadernos de Teses. Essas e outras ideias foram apresentadas no Congresso. O partido votou cada resolução e o que foi aprovado entrou em um documento final.

O documento final do Congresso do PT em 2015 incorporou a pauta da desmilitarização e trata da responsabilização dos militares por crimes cometidos durante a ditadura, mas não fala de revogação da Lei da Anistia. Além disso, tal documento não tem qualquer relação com as propostas oficiais na campanha de 2018.

No plano de governo do PT, não há propostas para desmilitarizar as polícias militares e estaduais. O que consta na diretriz enviada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a questão é o seguinte: “É preciso também avançar no debate sobre a militarização das polícias, assegurando democratização, representação civil e processos internos mais justos, além da valorização do profissional da segurança e do fortalecimento da polícia científica”. Em relação à Lei de Anistia, promete implementar as recomendações da Comissão Nacional da Verdade, que não propõe a revogação dessa lei, criada em 28 de agosto de 1979.

As teses utilizadas como fonte pelo candidato não representam propostas de governo do PT. No final do Congresso em 2015, o Partido dos Trabalhadores divulgou a Carta de Salvador em que mostra as resoluções aprovadas por todo o partido. Foi incorporada, naquele ano, a desmilitarização das polícias e as conclusões presentes no relatório final da Comissão Nacional da Verdade que orientam a extinção da Justiça Militar, o reconhecimento pelas Forças Armadas de sua responsabilidade institucional pela ocorrência de graves violações de direitos humanos durante a ditadura militar e a proibição da realização de atos oficiais em comemoração ao golpe militar de 1964, entre outras medidas.

No ano passado, em Brasília, aconteceu o 6º Congresso do PT. As resoluções aprovadas pelo partido, quanto aos temas citados por Jair Bolsonaro, não mudaram. A desmilitarização das PMs e as recomendações da Comissão Nacional da Verdade foram incluídas no documento.

Além de isentar os militares de responsabilizações, a Lei de Anistia também dispõe sobre o restabelecimento dos direitos políticos e sobre a volta ao serviço de militares e funcionários da administração pública que foram excluídos de suas funções durante a ditadura, entre outras providências. Sua revogação não é mencionada na Carta de Salvador, nem pela Comissão Nacional da Verdade.

O relatório final do Congresso do PT em 2015 reivindica que os agentes públicos sejam responsabilizados juridicamente (nas esferas criminal, civil e administrativa) pelas violações de direitos humanos ocorridas no período. Dessa forma, a proposta poderia ser considerada como uma revogação parcial, embora isso não seja dito explicitamente. E tal proposição não consta no plano de governo do PT em 2018, ao contrário do que afirma Bolsonaro. A assessoria da campanha de Fernando Haddad não respondeu sobre questionamentos feitos pela reportagem até o momento da publicação.

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Títulos cancelados afetam mais eleitores de cidades com IDH abaixo da média

sex, 05/10/2018 - 09:22

No último dia 26 de setembro, o Supremo Tribunal Federal (STF) manteve por 7 votos a 2 o cancelamento dos títulos dos eleitores que não fizeram o recadastramento biométrico obrigatório nos municípios determinados pela Justiça Eleitoral. No total, mais de 3,3 milhões de títulos eleitorais foram cancelados em 1.248 cidades de 22 estados do país.

Levantamento inédito da Pública, feito com base nos dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e do IBGE, mostra que os cancelamentos se concentraram em cidades pequenas, com colégios eleitorais menores e Índices de Desenvolvimento Humano Municipal (IDH-M) abaixo da média nacional.

Ao todo, cerca de 1,7 milhão de títulos eleitorais foram cancelados em 1.178 cidades com colégios eleitorais abaixo de 50 mil eleitores, segundo os dados do TSE. Metade do total de títulos foi cancelada nesses municípios, que também possuem IDH-M abaixo da média nacional. Enquanto esse grupo de municípios registra IDH-M de 0,646, a média nacional é de 0,727.

Os cancelamentos ocorreram em municípios com maiores taxas de pobreza e de população rural do que a média brasileira. O grupo de cidades que registram cancelamentos possui em média 13,6% da população em situação de pobreza extrema (mais que o dobro da taxa nacional, de 6,6%) e 26% da população em situação de pobreza – renda domiciliar média de R$ 140,00 –, índice mais elevado do que o registrado nacionalmente em média (15,2%), segundo os dados do Censo de 2010 do IBGE. Mais de 1 milhão de títulos eleitorais (quase um terço do total) foram cancelados em municípios com mais de um quarto da população em situação de pobreza.

O grupo de municípios que registram os cancelamentos possui em média um quinto da população (20,1%) em zona rural. Nacionalmente, essa proporção é de 15,6% em média, segundo o Censo de 2010. Em municípios com mais de 30% da população em zona rural, o dobro do que é registrado nacionalmente, foi cancelado um total de 1 milhão de títulos eleitorais.

Durante o julgamento no STF, o TSE justificou, em ofício enviado ao ministro Luís Roberto Barroso, os critérios de escolha dos municípios. A partir de 2015, o cadastro biométrico passou a ser obrigatório após a publicação da resolução Res-TSE 23.440/2015, em cujo artigo 9º o tribunal estabeleceu os critérios para isso. Os incluídos são aqueles previamente indicados para o cadastro biométrico pelos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs), inscritos em zonas eleitorais que registrem transferências de eleitores superiores a 10% em relação ao ano anterior, que tenham o eleitorado (população em idade de voto) superior ao dobro da população não votante e maior que 65% da população total, além de disponibilidade orçamentária suficiente para implementar o cadastro biométrico.

O TSE defendeu também, no ofício enviado ao Supremo, a adoção da biometria, argumentando que ela visa “conferir legitimidade ao corpo eleitoral” e evitar duplicidades e pluralidades de inscrição. Não necessariamente cada título eleitoral cancelado corresponde a um eleitor específico: há casos de eleitores com mais de um título eleitoral, além de títulos cancelados referentes a eleitores acima de 70 anos ou analfabetos, para os quais o voto não é obrigatório, eleitores que morreram e não foram retirados do cadastro eleitoral, entre outras hipóteses.

O tribunal afirmou ainda que a revisão do eleitorado é um “procedimento realizado ao longo de todo o ano não eleitoral […]” e que é observado o critério da “ampla e prévia divulgação destinada a orientar o eleitor quanto aos locais e horários em que deverá comparecer, a documentação a ser apresentada, a duração dos trabalhos (nunca inferior a 30 dias), e às consequências do não atendimento à convocação”. Para o TSE, reverter os cancelamentos àquela altura significaria comprometer o calendário eleitoral.

O recadastramento biométrico, no entanto, fez com que o número de títulos eleitorais cancelados antes da disputa eleitoral quase triplicasse. Antes das eleições de 2014, 1,2 milhão de títulos eleitorais foram cancelados, segundo o TSE. Em relação à última eleição presidencial, levando-se em conta os números absolutos, os cancelamentos cresceram 183%.


Em Queimados (RJ), quase 40% dos títulos eleitorais foram cancelados

Queimados, localizada na Baixada Fluminense, foi a mais afetada pelo cancelamento de títulos eleitorais por falta de cadastramento biométrico, de acordo com levantamento feito pela Pública. Do total de 113 mil eleitores registrados pelo TSE em 2016, 38,5% ficarão de fora destas eleições. É a maior taxa, se comparada aos outros 1.247 municípios onde houve a suspensão de títulos.

A cidade também está no topo dos índices de violência no país, de acordo com o Atlas da Violência 2018, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Segundo o estudo, Queimados tem taxa de 134,9 mortes violentas para cada 100 mil habitantes.

Localizada no sul do Pará, Cumaru do Norte está em segundo lugar no ranking dos municípios mais afetados pela anulação dos títulos, com 34,4% de documentos cancelados. A cidade passou de 7.596 para 4.899 eleitores depois do cadastramento biométrico. A cidade tem o perfil da maioria dos municípios atingidos: IDH abaixo da média nacional, de 0,55 (ligeiramente acima do que a Organização das Nações Unidas classifica como “baixo”), com aproximadamente um quarto da população (24,5%) em situação de extrema pobreza e 74% na zona rural. Além disso, cerca de 11% da população é indígena.

A terceira colocada no ranking é Água Azul do Norte (PA), onde 28,7% dos títulos eleitorais foram cancelados. Nesse município paraense, mais de um quinto da população (22,3%) está em situação de pobreza e mais de 80% vivem em área rural. A Pública entrou em contato com os Tribunais Eleitorais do Pará e do Rio de Janeiro solicitando um posicionamento a respeito do alto índice de anulação de títulos, mas não houve retorno até o fechamento desta edição (veja o mapa com as 10 cidades mais afetadas).

Na avaliação do cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Lucas Cunha, o cancelamento de títulos por falta de cadastramento biométrico pode causar impacto no resultado das eleições, principalmente em regiões em que os eleitores se interessam menos por política e que tendem a ter um perfil socioeconômico mais específico: “com menor renda, menor escolaridade, regiões de menor IDH”. Ele justifica que o perfil socioeconômico, desde as eleições de 2006, tem tido relação direta com as preferências do eleitorado. Lucas Cunha pondera, no entanto, que o não comparecimento eleitoral também tem um viés socioeconômico. “Tem eleitores com cadastramento biométrico que não vão votar”, observa.

O cientista político da Universidade Federal do Rio de Janeiro Jairo Nicolau tem outra visão. Para ele, o cancelamento de 3,3 milhões de títulos eleitorais após o cadastramento biométrico não vai prejudicar o resultado do pleito. Ele chegou a essa conclusão após comparar o universo de eleitores aptos a votar em 2014 e 2018. “Como o recadastramento aconteceu em todo o país, o mais provável é que as eliminações em um território tenham sido compensadas em outros. Eleitores que não moravam mais em Salvador, por exemplo, acabaram tirando o título em outra cidade; já os novos moradores da cidade teriam se registrado como eleitores soteropolitanos”, argumentou em artigo publicado no site Observatório das Eleições, projeto que une cientistas políticos e instituições de pesquisa de diversas universidades.

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Campanha de Haddad tira conclusão falsa sobre pesquisa

qui, 04/10/2018 - 19:51
Divulgação/Portal AbrasFernando Haddad (PT) em evento da Unecs, em agosto: levantamento do Ibope mostrou empate técnico com Bolsonaro

“43%. Haddad sobe e vence Bolsonaro no 2º turno.” – Post na conta de Instagram de Fernando Haddad, candidato à Presidência pelo PT.

Um dia depois da divulgação, em 3 de outubro, da pesquisa Ibope para presidente, o perfil do candidato Fernando Haddad (PT) no Instagram publicou uma imagem dizendo que o candidato petista vence Jair Bolsonaro (PSL) no 2º turno. A imagem credita o dado ao levantamento do Ibope publicado sob o código TSE BR-08245/2018. O Truco – projeto de fact-checking da Agência Pública – verificou a postagem, que teve mais de 23.700 curtidas até as 17 horas de 4 de outubro, e concluiu que a afirmação é falsa. A pesquisa Ibope registrada sob o código indicado não mostra que Haddad vence Bolsonaro no 2º turno, mas que eles estão tecnicamente empatados.

Em entrevista ao Truco nos Estados, projeto da Pública que faz a checagem de sete disputas para governador, a CEO do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari, disse que não é possível apontar líderes quando as pesquisas mostram um cenário de empate técnico. “A palavra ‘lidera’ não é adequada para uma situação de empate técnico”, afirmou.

Post da campanha no Instagram

A última pesquisa do Ibope, que pode ser consultada no site do instituto, e é citada na postagem como fonte da informação, tem margem de erro estimada de 2 pontos porcentuais para mais ou para menos sobre os resultados encontrados no total da amostra. Na simulação de 2º turno entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro, o petista tem 43% das intenções de voto contra 41% de Bolsonaro. Pela margem de erro, Haddad tem entre 41% e 45%, enquanto Bolsonaro tem entre 39% e 43% das intenções. Os dois candidatos estão, portanto, tecnicamente empatados. Foram entrevistados 3.010 votantes. O nível de confiança utilizado é de 95%, ou seja, há uma probabilidade de 95% de os resultados retratarem a realidade.

No site do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é possível consultar todos os registros feitos pelo Ibope para a disputa presidencial de 2018. Desde agosto o instituto fez sete simulações entre Bolsonaro e Haddad. Em apenas uma das simulações é possível afirmar que Fernando Haddad venceria Jair Bolsonaro no 2º turno. Trata-se da pesquisa do dia 24 de setembro, quando Haddad tinha 43% e Bolsonaro marcava 37% das intenções de voto. Nos outros seis cenários, Haddad e Bolsonaro aparecem empatados dentro da margem de erro em cinco simulações. Bolsonaro venceria Haddad apenas no levantamento de 11 de setembro, com 40% das intenções de voto contra 36% de Haddad.

A postagem também está incorreta ao afirmar que Haddad subiu, já que o candidato apenas oscilou positivamente dentro da margem de erro desde a última pesquisa realizada. Nas últimas quatro consultas feitas pelo Ibope, Haddad não registrou nenhuma queda ou crescimento. O candidato teve apenas oscilações de 1 ponto porcentual para mais ou para menos. Essas oscilações, por serem menores do que os 2 pontos porcentuais da margem de erro da pesquisa, não sinalizam queda ou crescimento.

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Checamos os economistas dos 5 principais candidatos

qui, 04/10/2018 - 16:19
Reprodução Economistas ligados aos candidatos à Presidência: Paulo Guedes, Guilherme Mello, Mauro Benevides, Pérsio Arida e Eduardo Giannetti (da esq. para a dir.)

A instabilidade política causada pela eleição presidencial, aliada a fatores externos, levou o dólar a ultrapassar a barreira dos R$ 4 em 22 de agosto. A cotação da moeda caiu recentemente, mas continua em um patamar alto. As flutuações também ocorrem na bolsa de valores, a Bovespa, que sofre variação dependendo do resultado das pesquisas eleitorais. Diante de uma recuperação econômica em ritmo lento, as medidas que podem ser tomadas pelo candidato eleito colocam os economistas ligados a suas campanhas no centro do debate. Por esse motivo, o Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública – analisou 10 frases dos economistas ligados aos cinco presidenciáveis mais bem colocados nas pesquisas.

Paulo Guedes, ligado a Jair Bolsonaro (PSL), exagerou ao falar sobre o gasto do Produto Interno Bruto (PIB) em saúde e sobre a carga tributária brasileira em comparação com outros países. Guilherme Mello, economista da campanha de Fernando Haddad (PT), usou um dado discutível na comparação do crescimento de gastos dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff e outro impossível de provar, dizendo que a maior parte do desemprego está nas cidades e na construção civil.

Mauro Benevides, ligado a Ciro Gomes (PDT), acertou quando afirmou que a taxa de investimento do setor público é a menor da história. Citou, no entanto, um dado falso ao dizer que Ciro produziu o maior superávit primário do governo quando foi ministro da Fazenda. Pérsio Arida, economista de Geraldo Alckmin (PSDB), fez uma afirmação falsa sobre o desempenho do Vietnã no Programa para Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa) e usou um dado discutível sobre a grade de crédito no país. Já Eduardo Giannetti, da campanha de Marina Silva (REDE), exagerou no cálculo de quanto o salário mínimo representa em relação ao salário mediano no Brasil. Ele acertou ao afirmar que países que gastam valor semelhantes ao do Brasil, por aluno, no Pisa, têm resultado superior, enquanto nações que gastam menos têm desempenho igual.

As campanhas foram comunicadas sobre o resultado da checagem. Não houve contestação aos selos atribuídos no prazo determinado.

Paulo Guedes, ligado a Jair Bolsonaro (PSL)

“[O Brasil] gasta (…) 5% [do PIB] em saúde, mais que alguns países desenvolvidos.” – Paulo Guedes, economista da campanha de Jair Bolsonaro (PSL), em entrevista ao El País.

Ao criticar as dívidas e a gestão de gastos do governo brasileiro em entrevista para o El País publicada em 28 de agosto, o economista responsável pela área econômica da candidatura de Jair Bolsonaro (PSL), Paulo Guedes, afirmou que o Brasil gasta mais em saúde (5%) em relação ao PIB do que alguns países desenvolvidos. A frase foi classificada como exagerada, pois o Brasil despende um porcentual menor do que o citado. Além disso, supera somente dois países desenvolvidos nesse tipo de despesa, enquanto outros 33 do ranking da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), com Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) acima de 0,8, estão em posições superiores.

A assessoria de imprensa da campanha de Bolsonaro não forneceu a fonte da informação. O Brasil gastou 4,05% do PIB em saúde (R$ 248 bilhões) em 2017, segundo informações enviadas pelo Ministério da Saúde – número 19% inferior ao citado pelo economista. No ranking da OCDE sobre despesas governamentais com saúde nos países, os dados mais recentes disponíveis são de 2015. Nesse período, o governo brasileiro gastou em saúde 3,9% do PIB (R$ 231 bilhões), de acordo com o documento “Conta-Satélite de Saúde” do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Além disso, o Brasil não gastou mais em saúde do que a maioria dos países da OCDE. De acordo com ranking composto por 44 países referente ao ano de 2015, o Brasil ocupou a 36ª posição – ficou à frente apenas de África do Sul (3,5%), Letônia (3,3%), Turquia (3,2%), Rússia (3,1%), China (3,1%), México (3%), Indonésia (1,1%) e Índia (1%).

Dessa forma, o Brasil está abaixo da média de 6,5% de gastos com saúde em relação ao PIB dos países da OCDE. Os Estados Unidos (13,8%), Alemanha (9,3%), Suíça (9,2%), Japão (9,1%), França (8,8%), Dinamarca (8,6%) e Noruega (8,6%) estão no topo do ranking. Dos 35 países que gastam mais que o Estado brasileiro em relação ao PIB, 33 possuem um IDH considerado “muito alto” (acima de 0,8), enquanto somente a Costa Rica (5,9%) e a Colômbia (4,4%) têm um IDH alto (entre 0,7 a 0,799).

Entre os países abaixo do Brasil no ranking, somente a Rússia obteve um IDH considerado muito alto. A Letônia não se encontra no ranqueamento do IDH de 2015, mas em 2014 teve um índice de 0,819. África do Sul, Índia e Indonésia foram classificadas com um IDH médio (entre 0,550 e 0,699).

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Na mesma entrevista, o economista disse que o país gasta 6% do PIB em educação e que seria mais do que alguns países desenvolvidos, o que é verdadeiro. De acordo com o documento “Aspectos Fiscais da Educação no Brasil”, realizado pela Secretaria do Tesouro Nacional em junho deste ano, em média, o governo brasileiro gastou em educação, de 2015 a 2017, 6,271% do PIB.

Em 2015, foram destinados 5,996% do PIB ao setor, enquanto em 2016 foram 6,259% e, no ano passado, 6,56%. Segundo o levantamento feito pela OCDE sobre os gastos públicos em educação em 40 países em 2015, o Brasil gastou 5% do PIB nesse tipo de despesa. O país ficou entre as seis nações que mais gastam, perdendo apenas para Costa Rica (6,6%), Noruega (6,3%), Finlândia (5,6%), Islândia (5,5%) e Bélgica (5,4%). Rússia (2,6%), Japão (2,9%) e Indonésia (3%) são os que menos gastam no ranking.

“Os impostos [no Brasil] são de níveis já de países muito desenvolvidos e muito acima dos países emergentes.” – Paulo Guedes, economista da campanha de Jair Bolsonaro (PSL), em entrevista à Jovem Pan.

O plano de governo de Jair Bolsonaro promete a “gradativa redução da carga tributária brasileira”. De maneira coerente com essa proposta, o coordenador econômico da campanha, Paulo Guedes, criticou os altos impostos no Brasil e disse que a carga tributária está no nível de países muito desenvolvidos e muito acima de países emergentes. A afirmação, no entanto, é exagerada.

A assessoria de imprensa da campanha de Bolsonaro não indicou a fonte da afirmação de Guedes. Segundo dados da OCDE, o Brasil é o 25º país com a carga tributária mais alta entre 79 países. A organização informa que os impostos representavam 32,16% do PIB brasileiro em 2016. Com números parecidos, o último relatório da Receita Federal diz que a carga tributária brasileira chegou a 32,7% do PIB no mesmo ano.

O Brasil está cerca de 5 pontos porcentuais acima da média de carga tributária para os 79 países pesquisados – 26,9%. Apesar de ser maior que grande parte dos países analisados pela entidade, a carga tributária brasileira é cerca de 2 pontos porcentuais menor que a média dos 36 países-membros da OCDE, que foi de 34,3%. Também é menor que a média dos países com alto grau de desenvolvimento, ou com Índice de Desenvolvimento Humano maior que 0,9, que foi de 34,4%. A maior parte dos países com esse IDH possui carga tributária acima de 36,3%. Assim, os impostos no Brasil estão ligeiramente abaixo do nível de países muito desenvolvidos.

No que diz respeito aos não desenvolvidos, ou emergentes, o Brasil tem maior porcentagem de impostos em relação ao PIB do que a maioria desses países. A carga tributária média de países africanos é de 19,1%, e a de países latino-americanos, de 22,7%. Contudo, a carga tributária brasileira é menor ou muito próxima à de alguns países emergentes. É o caso de Cuba, onde os impostos representam 41,7% do PIB; de Barbados, com 32,24%, da Argentina, com 31,3%, e da Tunísia, com 30,3%. Dessa forma, os impostos no Brasil não estão no mesmo nível de países muito desenvolvidos, mas um pouco abaixo. Também não estão muito acima dos emergentes, ficando inclusive abaixo de alguns deles.

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“O crescimento real de gastos do governo Dilma é menor do que o crescimento real dos gastos com o governo Lula.” – Guilherme Mello, economista da campanha de Fernando Haddad (PT), em entrevista à Central das Eleições, da GloboNews.

Os gastos do governo são medidos nos relatórios do Tesouro Nacional. Eles avaliam o tamanho da despesa pública em valores correntes e também em relação ao PIB brasileiro. O valor total da despesa aumentou menos no governo Dilma Rousseff (PT) em comparação com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Em valores correntes, os gastos cresceram 170% durante o governo Lula e 70% durante o governo Dilma.

Em relação ao PIB, contudo, a despesa subiu mais nas gestões da ex-presidente do que nas de Lula, ao contrário do que sugere o economista Guilherme Mello, da campanha de Fernando Haddad (PT). Isso demonstra que, apesar de não ter crescido tanto em termos absolutos quanto no governo Lula, a despesa pública cresceu mais do que a produção de riquezas do país durante a gestão Dilma. Como a conclusão a respeito da afirmação de Guilherme Mello varia de acordo com a metodologia adotada, a frase é considerada discutível.

A assessoria de imprensa da campanha de Haddad não informou a fonte usada pelo economista. A despesa primária do Governo Central, que inclui Tesouro Nacional, Banco Central e Previdência Social, é divulgada mensalmente no relatório Resultado do Tesouro Nacional. Trata-se do montante que o governo despende em investimentos e também na manutenção da máquina pública. Segundo o documento, que traz a série histórica da despesa primária desde 1997, em valores correntes, o gasto do Governo Central passou de R$ 260,12 bilhões em 2003, primeiro ano de mandato de Lula, para R$ 707,26 bilhões em 2010, quando o ex-presidente deixou o cargo. O aumento foi de 170%.

Já na gestão Dilma Rousseff a despesa foi de R$ 733,34 bilhões em 2011 para R$ 1,164 trilhão em 2015. O aumento foi, portanto, de 58%. Se considerado também o ano de 2016, no qual Dilma foi alvo de um processo de impeachment que a afastou do cargo em maio e culminou com a posse definitiva de Michel Temer em agosto, o aumento foi de 70%, já que as despesas naquele ano foram de R$ 1,249 trilhão.

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O crescimento da despesa do Governo Central em relação ao PIB, no entanto, mostra um avanço maior dos gastos no governo Dilma em comparação com a gestão de Lula. Esse é um indicador utilizado por especialistas e divulgado no próprio relatório do Tesouro Nacional porque permite comparar o aumento dos gastos públicos com o crescimento da economia nacional. Quando os gastos aumentam mais do que o PIB, eles passam a representar uma parcela maior da economia.

Em 2003 as despesas do Governo Central representavam 15,1% do PIB. Já em 2010, último ano do governo Lula, as despesas eram 18,2% do PIB. O aumento foi de 3,1 pontos percentuais em oito anos.

No governo Dilma, as despesas eram 16,8% do PIB em 2011, primeiro ano de mandato, e 20% em 2016, quando a petista foi afastada do cargo. O aumento foi de 3,2 pontos porcentuais em pouco menos de seis anos.

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O cenário de crescimento da despesa em relação ao PIB e queda em valores brutos durante o governo da petista é analisado no artigo “A política fiscal do governo Dilma”, dos economistas Esther Dweck e Rodrigo Alves Teixeira, do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Os pesquisadores explicam, no artigo, que no período de 2011 a 2014, que corresponde ao primeiro mandato de Dilma, “a taxa de crescimento das despesas é praticamente igual a do segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso e é também bem inferior aos dois mandatos do presidente Lula, a despeito do senso comum”.

No entanto, os autores destacam também que no governo Dilma as despesas como porcentual do PIB estavam se acelerando. Eles indicam como motivos para essa aceleração o menor crescimento do PIB e das receitas arrecadadas pelo governo, devido à crise econômica, e a piora acentuada do resultado fiscal, que acarretou o aumento da dívida pública.

“Boa parte do desemprego está nas cidades e no setor da construção civil.” – Guilherme Mello, economista da campanha de Fernando Haddad (PT), em entrevista à Central das Eleições, da GloboNews.

Ao explicar a estratégia para aumentar o número de empregos no país, o economista Guilherme Mello, assessor econômico da campanha de Fernando Haddad, disse que boa parte do desemprego se encontra nas cidades e no setor da construção civil, e que a ideia é retomar as obras paradas do governo para criar novos empregos. A frase é impossível de provar, porque os órgãos oficiais não classificam o desemprego por setor no país.

A assessoria de imprensa da campanha de Haddad não encaminhou as fontes. De acordo com dados do Censo Demográfico de 2010 do IBGE, 75,89% da população se concentra em áreas predominantemente urbanas, enquanto 16,89% vivem em áreas predominantemente rurais e 7,21% em áreas intermediárias. Como existem mais pessoas nas cidades, a demanda por emprego é maior. Dessa forma, o número de desempregados e empregados também segue essa tendência.

Dados do segundo trimestre (de abril a junho) de 2018 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, mostram que, dos 91,237 milhões de trabalhadores do país, apenas 9,3% trabalhavam no setor da agricultura, pecuária, produção florestal e pesca, localizada principalmente na parte rural do país. Os setores de comércio, reparação de veículos e automóveis, indústria geral, informação, comunicação e atividades financeiras, que são tipicamente urbanos, somam 43%. Logo, é possível afirmar que tanto o emprego quanto o desemprego se concentram nas cidades.

O IBGE respondeu ao Truco que não estima se os trabalhadores são urbanos ou do campo, nem analisa o desemprego por grupamentos de atividade. A Pnad Contínua possui dados de desemprego por faixa etária e gênero, entre outros indicadores. Atualmente, existem 12,9 milhões de desempregados no Brasil.

O único indicador por tipo de atividade é para o total de pessoas ocupadas. Por exemplo, segundo a Pnad Contínua, existiam 6.561.000 de trabalhadores no setor da construção civil no segundo trimestre deste ano. No mesmo trimestre do ano passado, existiam 6.731.000 pessoas nessa atividade. Houve uma redução de 170 mil empregados (2,52%), sendo o setor com mais desligamentos nesse período. De acordo com a assessoria do IBGE, contudo, não é possível considerar essa redução como desemprego, pois esses trabalhadores desligados podem ter encontrado outro emprego com ou sem carteira assinada.

O Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério do Trabalho, que levanta dados de admissões e demissões nos empregos formais, não calcula o desemprego no país. Em resposta ao Truco, a pasta informou que mesmo se o saldo entre o número de admitidos e demitidos for negativo, não é possível afirmar que isso representa o desemprego em determinado setor, pois o indivíduo pode ter trocado de emprego ou ter se tornado um empreendedor, por exemplo. De janeiro a julho de 2018, a construção civil abriu 52.194 postos de trabalho. Em 2017, esse setor teve maior número de desligamentos de todas as atividades. Foram 103.866 postos de trabalho fechados, número 71,29% inferior ao ano anterior, que teve 361.874 postos encerrados.

Mauro Benevides, ligado a Ciro Gomes (PDT)

“De 1947 a 2017, o setor público brasileiro tem a menor taxa de investimento do setor público da história, 1,8% do PIB.” – Mauro Benevides, economista da campanha de Ciro Gomes (PDT), em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

Apresentando suas propostas para a recuperação econômica do país, o economista da campanha de Ciro Gomes (PDT) Mauro Benevides chamou atenção para a necessidade de aumento de investimento do setor público brasileiro. Segundo ele, a taxa de investimento público chegou ao menor nível em 70 anos. A afirmação é verdadeira.

Questionada, a assessoria de imprensa do partido não enviou a fonte da afirmação. Contudo, levantamento da Instituição Fiscal Independente (IFI), do Senado Federal, confirma os dados. De acordo com a IFI, em 2017, foram investidos R$ 121,2 bilhões pelo setor público, somando governo federal, estadual, municipal e empresas públicas estatais (exceto subnacionais). Isso representa 1,85% do PIB do ano, que foi de R$ 6,5 trilhões.

O valor foi o menor da série histórica pesquisada, que começa em 1947. Antes disso, o menor valor registrado tinha sido em 2016, quando a taxa de investimento do setor público foi de 2,28% do PIB e antes, em 1999, quando foi de 2,43%.

A taxa de investimento público está em trajetória de queda desde 2013, quando atingiu 4,06% do PIB. O valor mais alto atingido foi de 10,58% em 1976. No que diz respeito ao investimento público apenas do governo (somando federal, estadual e municipal), também foi a taxa mais baixa registrada – 1,16% do PIB.

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“De 1991 a 2017, quem produziu o maior superávit primário no governo federal foi o presidente Ciro, quando foi ministro da Fazenda.” – Mauro Benevides, economista da campanha de Ciro Gomes (PDT), em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura.

Ao defender a trajetória de Ciro Gomes (PDT), o economista Mauro Benevides afirmou que o candidato foi o ministro da Fazenda que produziu o maior superávit primário no período entre 1991 e 2017. No entanto, a afirmação é falsa. Durante o tempo em que Gomes esteve à frente da Fazenda, de setembro a dezembro de 1994, o resultado fiscal primário foi negativo, ou seja, não houve superávit, mas déficit.

A fonte da informação não foi informada pela campanha do candidato do PDT. Ciro foi ministro da Fazenda por quatro meses no ano de 1994, no final da gestão Itamar Franco. Na época, ele era membro do PSDB, partido do qual se desfiliou para se juntar ao PPS pouco depois de deixar o ministério.

O superávit primário para o período entre 1991 e 2002 é calculado pelo Banco Central e fica disponível para consulta no Sistema Gerenciador de Séries Temporais (SGS). Quando o resultado é positivo, ou seja, quando as despesas do governo são inferiores à arrecadação, há superávit. Quando o resultado é negativo, há déficit.

Nos meses de setembro a dezembro de 1994 o resultado primário total do setor público consolidado, com Petrobras e Eletrobras, foi negativo, como mostra o gráfico abaixo. O segundo gráfico, que traz o resultado primário de todos os meses entre 1991 e 2001, mostra que há poucos períodos em que há superávit nas contas públicas.

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O superávit só passou a ser calculado mensalmente pelo Tesouro Nacional a partir de 1997, usando uma metodologia diferente que impede a comparação com os dados anteriores do Banco Central. O valor do superávit mensal calculado pelo Tesouro não é expresso em porcentagem do PIB, mas em valores correntes. Ainda assim é possível perceber que, no período entre 1997 e 2017, há diversos meses em que é registrado superávit, diferente da série histórica anterior, do Banco Central, que vai de 1991 a 2001, na qual predominam meses de déficit primário.

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“O Vietnã melhorou o Pisa [Programa para Avaliação Internacional de Estudantes] dele 40 pontos em nove anos e partindo de um patamar muito mais alto que o nosso.” – Pérsio Arida, economista da campanha de Geraldo Alckmin (PSDB), em entrevista à Central das Eleições, da GloboNews.

A nota média dos estudantes do Vietnã não cresceu 40 pontos em nove anos. Na verdade, a pontuação do país caiu em todas as disciplinas avaliadas no período entre 2012 e 2015. Não há dados do Pisa para o Vietnã antes de 2012. Portanto, a afirmação de Pérsio Arida é falsa.

O Programa para Avaliação Internacional de Estudantes (Pisa, na sigla em inglês) é um teste mundial aplicado a cada três anos para medir o desempenho escolar de alunos de 15 anos de idade em 72 países. Cerca de 540 mil estudantes fizeram a prova em 2015, ano do último exame. Criada pela OCDE, a prova inclui questões sobre ciência, matemática, leitura, resolução colaborativa de problemas e finanças. A pontuação média dos estudantes de cada país é utilizada para compor um ranking nas disciplinas de matemática, leitura e ciências.

No Vietnã, a pontuação média dos estudantes foi 511 pontos em matemática, 508 em leitura e 528 em ciências no ano de 2012, primeiro ano em que o exame foi aplicado no país. Três anos depois, em 2015, a média de matemática caiu para 495 pontos; a de leitura também caiu, para 487; e a de ciências baixou para 525. Portanto, não é possível verificar uma evolução de 40 pontos em nove anos, como afirma Arida, porque o país só aplicou o Pisa em duas ocasiões e houve queda na nota média em todas as disciplinas.

A nota média dos estudantes brasileiros é medida pelo Pisa desde o ano 2000 para leitura, desde 2003 para matemática e desde 2006 para ciências. A nota do Brasil evoluiu em todos os quesitos entre 2006 e 2009, mas caiu de 2009 para 2012 em leitura e ciências e, mais tarde, de 2012 para 2015, retrocedeu nas três disciplinas.

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A nota do Vietnã em 2015 foi maior que a do Brasil nas três categorias avaliadas. O país ficou em 8º lugar no ranking de ciências, à frente de países como o Reino Unido, Alemanha e Austrália, e em 22º lugar no ranking geral que engloba as três disciplinas, usado por entidades independentes com base nas notas médias das três matérias avaliadas no Pisa. Já o Brasil aparece na 63º posição na classificação geral, atrás de países latino-americanos como Colômbia, México e Costa Rica. No ranking de leitura, disciplina em que tem o melhor desempenho, o Brasil está apenas em 59º lugar.

A boa nota do Vietnã, no entanto, esconde problemas que são reconhecidos até mesmo pela OCDE. De acordo com dados da própria OCDE, apenas 48,5% dos jovens de 15 anos de idade do Vietnã participaram da prova em 2015. No Brasil, 63,7% dos adolescentes de 15 anos fizeram a avaliação no mesmo ano.

Segundo uma análise da consultoria inglesa FFT Education Datalab, que produz pesquisas sobre educação com base em dados públicos, os resultados do Pisa no Vietnã oferecem “uma perspectiva inflada do quão bem o país está educando seus jovens”. Para a entidade, a amostra relativamente pequena em relação à população produz um resultado pouco fidedigno no Vietnã, onde muitos jovens de 15 anos não frequentam a escola. Se fosse analisada a totalidade dos jovens dessa idade, a nota média do país poderia ser até 60 pontos menor do que a divulgada, de acordo com o relatório.

“Se você olhar nossa grade de crédito, vai de 7% ao ano até 300% ao ano.” – Pérsio Arida, economista da campanha de Geraldo Alckmin (PSDB), em entrevista à Central das Eleições, da GloboNews.

O economista responsável pelo plano econômico de Geraldo Alckmin (PSDB), Pérsio Arida, disse que as modalidades de crédito do sistema financeiro variam de 7% a 300% ao ano no Brasil. A frase foi classificada como discutível, porque reflete apenas as variações disponíveis para pessoas físicas. Para pessoas jurídicas, a diferença entre os valores mínimo e máximo da grade de crédito é ainda maior. As duas análises são válidas.

A assessoria de imprensa da campanha de Alckmin não encaminhou a fonte da afirmação. De acordo com as taxas médias de juros por modalidade de crédito elaboradas pelo Banco Central, em julho de 2018 a menor porcentagem foi de 6,7% ao ano nas “taxas reguladas” do crédito rural. Já a maior tarifa foi de 303,2% ao ano, no crédito especial. A diferença entre as duas é de 296,5 pontos porcentuais – número 1,19% superior à diferença indicada por Pérsio Arida. As instituições financeiras encaminham as informações para o Banco Central, que realiza uma média das taxas de juros.

Para pessoas jurídicas, os dados são diferentes. A menor taxa da grade foi de 3,7% ao ano, na categoria adiantamento sobre contratos de câmbio (ACC). O cheque especial obteve a maior taxa média do período, com um encargo de 336,1% ao ano. Subtraindo os pontos porcentuais dessas modalidades o resultado é de 332,4, sendo 14,1% superior à faixa com variação de 293 pontos porcentuais citada por Arida.

Eduardo Giannetti, ligado a Marina Silva (REDE)

“O salário mínimo hoje, no Brasil, é 70% do salário mediano no Brasil. Esse número é muito maior hoje no Brasil do que no padrão internacional. Inclusive na OCDE.” – Eduardo Giannetti, economista da campanha de Marina Silva (REDE), em entrevista à Central das Eleições, da GloboNews.

Questionado a respeito do reajuste do salário mínimo, Eduardo Giannetti, coordenador econômico da campanha de Marina Silva (REDE), acredita que, na situação econômica atual, o valor só deve ser reajustado para manutenção do poder de compra. Para ele, não é possível aumentar mais do que isso. Um dos argumentos usados pelo economista é de que o salário mínimo brasileiro representa 70% do salário mediano no país, uma proporção muito maior do que a encontrada em outros países do mundo.

O salário mediano é o valor de remuneração situado exatamente no ponto que separa duas parcelas da população de mesmo tamanho: os assalariados que ganham menos e o grupo dos que recebem mais. Já a média é a soma das rendas divididas pelo número total de trabalhadores.

Dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho, no entanto, indicam que o salário mínimo brasileiro representava 52,8% da remuneração mediana em dezembro de 2017, resultado próximo ao dos países da OCDE – 53%. Por isso, a afirmação foi considerada exagerada.

A assessoria de imprensa da campanha de Marina não forneceu a fonte do dado citado pelo economista. Em 2018, o salário mínimo brasileiro subiu para R$ 954 por mês. Isso representa 43,9% do salário médio no país, que é de R$ 2.242, segundo a Pnad Contínua, do IBGE. O Ministério do Trabalho, pela Rais, possui dados diferentes. Segundo o órgão, a remuneração média no país foi de R$ 2.973 em dezembro de 2017 – o salário mínimo no período (R$ 937) representava 31,5% desse valor.

O IBGE não faz o cálculo do salário mediano do país. A Rais também não disponibiliza esse cálculo, mas o Ministério do Trabalho informou ao Truco que a remuneração mediana para dezembro de 2017 foi de R$ 1.774. O salário mínimo no mesmo período representava 52,8% desse valor.

Estudo do Banco Mundial realizado em 2015 compara a relação entre salário mínimo e salário mediano em 17 países latino-americanos. O livro Desigualdade Salarial na América Latina, de Joana Silva e Julián Messina, mostrou que, em 2014, o salário mínimo brasileiro (R$ 724 na época) correspondia a 63% do salário mediano dos trabalhadores (R$ 1.136). O estudo utiliza dados levantados pelo Banco Mundial e pelo Centro de Estudos Distributivos, Trabalhistas e Sociais da Universidade Nacional da Prata, na Argentina, de 1995 a 2014. No período, o salário mínimo brasileiro não chegou a 70% do salário mediano nenhuma vez – a porcentagem mais alta registrada foi de 68% em 2013 (R$ 678 de salário mínimo sobre R$ 1.000 de salário mediano). Considerando todos os países analisados, o salário mínimo correspondia em média a 70% da renda mediana em 2011. Naquele ano, a proporção para o Brasil foi de 64%.

A OCDE também compara a relação entre salário mínimo e o salário mediano e médio de 31 países, mas não inclui o Brasil. Em média, o salário mínimo representava 53% do salário mediano dos países pesquisados em 2017, proporção quase igual à brasileira. Em relação aos salários médios, a relação é de 41%, também próxima à do Brasil.

“Países que gastam (…) mais ou menos o mesmo [dinheiro público] que o Brasil [por aluno] – como Chile, México e Turquia – têm resultado educacional superior ao nosso no Pisa. Países que gastam menos que o Brasil por aluno, como Colômbia e Indonésia, têm resultados iguais aos nossos.” – Eduardo Giannetti, economista da campanha de Marina Silva (REDE), em entrevista à Central das Eleições, da GloboNews.

Eduardo Giannetti, coordenador econômico da campanha de Marina Silva (REDE), disse que Chile, México e Turquia gastam por estudante um valor semelhante ao do Brasil, mas possuem uma colocação superior no Pisa, enquanto Colômbia e Indonésia gastam menos e têm uma posição semelhante. A frase é verdadeira.

A assessoria de imprensa da campanha de Marina não encaminhou as fontes. Em 2015, segundo ranking da OCDE, o Brasil investiu US$ 3.199 por estudante do primário até o pós-ensino médio (engloba também cursos profissionalizantes que não sejam considerados como ensino superior), ocupando o 34º lugar entre 37 países. No ranking geral da média das três notas do Pisa, criado por entidades independentes, o Brasil ficou em 63º lugar entre 70 países, com 395 pontos – 401 pontos em ciências, 407 em leitura e 377 em matemática.

Na 62ª posição (395,33 pontos), a Indonésia está logo acima do Brasil no ranking, enquanto a Colômbia está no 58º lugar (410,33). Ambas tiveram uma colocação próxima e um pouco superior à do Brasil no ranking geral do Pisa e gastaram menos por estudante, respectivamente, US$ 2.938 e US$ 1.480.

Quanto aos países que têm um gasto semelhante ao do Brasil e possuem posições superiores na avaliação de ensino, o México teve um gasto 6,28% inferior ao do Brasil, em 2015, com um investimento de US$ 2.998 dólares por aluno. E, no Pisa, ficou nove colocações acima do desempenho brasileiro, conquistando a 54ª posição (415,67 pontos). O governo turco está em 50º lugar (423,33) no ranking e gastou US$ 3.715 por aluno – 16% acima da despesa brasileira.

O gasto do Chile é superior ao do Brasil. Em 2015, o país investiu US$ 4.227 por estudante do primário ao pós-secundário (número 32,13% superior à despesa brasileira). No ranking de gastos por aluno da OCDE, os países citados pelo economista, incluindo o Brasil, estão nas últimas seis posições dentre 37 nações. No ranking geral do Pisa, o país chileno está em 44º lugar (443) – 19 posições à frente da média brasileira.

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Políticos do Brasil não são os mais caros do mundo

qua, 03/10/2018 - 14:41
Marcello Casal Jr/Agência BrasilO candidato João Amoêdo (NOVO), em entrevista à EBC: post no Facebook fez comparação errada sobre salários de parlamentares

“O Brasil tem os políticos mais caros do mundo.” – João Amoêdo (NOVO), em sua página oficial no Facebook.

Favorável à redução dos gastos públicos, João Amoêdo (NOVO) criticou o salário dos políticos brasileiros em postagem no seu Facebook. O candidato disse que o país tem os políticos mais caros do mundo. A afirmação vem acompanhada de um gráfico que compara o salário de parlamentares com a renda média da população de cinco países. O Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública – analisou a frase do candidato e concluiu que é falsa.

Não existem estudos que considerem a relação entre a renda média e salário dos parlamentares para todos os países do mundo. A reportagem levantou informações sobre outros países em organizações internacionais e com ajuda das plataformas de fact-checking Africa Check, na Nigéria, Chequeado, da Argentina, e Faktiskt, da Suécia – que, assim como o Truco, também integram a International Fact-Checking Network (IFCN), a rede internacional de checagem coordenada pelo Instituto Poynter, nos Estados Unidos. Foi possível descobrir que, na Colômbia e na República Dominicana, a relação entre salário de parlamentares sobre a renda média é maior do que no Brasil.

Reprodução/ Facebook João AmoêdoPost na página de João Amoêdo (NOVO) no Facebook no dia 20 de setembro

A única fonte que mostra o Brasil como o país com os políticos mais caros do mundo, a partir de uma comparação com a renda média, é o gráfico exibido pela campanha de Amoêdo no Facebook. A peça mostra que o salário de um parlamentar no Brasil é 16 vezes maior do que a renda média da população. Segundo o post, na Argentina a relação é de 4,6 vezes; nos Estados Unidos, é de 3,1 vezes; na Austrália, de 2,9 vezes; e na Suécia, de 1,6 vezes. O maior problema do levantamento está em comparar apenas 2,6% das nações do mundo – 5 dentre as 193 que integram a Organização das Nações Unidas (ONU). Por conta disso, ele não é válido para mostrar qual país de fato tem os políticos mais caros. Há também imprecisões nos dados.

No caso do Brasil, da Austrália e dos Estados Unidos, os valores são reais ou muito próximos disso. No Brasil, o rendimento médio de pessoas ocupadas é de R$ 2.242 por mês e o salário mensal de parlamentares é de R$ 33.763 – 15 vezes maior. Na Austrália, a renda média era de 5.896 dólares australianos e o salário de um parlamentar era de 16.586 dólares australianos em 2016 – 2,8 vezes mais. Nos Estados Unidos, em 2015, o salário dos parlamentares era de US$ 174 mil por ano e a renda média, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de US$ 60.690 – 2,9 vezes maior.

Nos outros dois países mencionados, a relação entre salários dos parlamentares e renda média foi subestimada. Na Suécia, o salário médio de um legislador é de 65.400 coroas suecas por mês – 2,8 vezes maior que o salário médio da população (23.475 coroas suecas por mês, ou 281.700 por ano em 2016), não 1,6 vezes, como aparece na postagem. Na Argentina, o salário médio de pessoas ocupadas era de 15.807 pesos argentinos por mês no primeiro trimestre de 2018, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censo (Indec) do país. No período, o salário líquido de um parlamentar era de 112.700 pesos por mês, conforme indicado por essa reportagem do Chequeado – 7,1 vezes maior que o salário médio da população, não 4,7, como aparece no post.

A relação entre salário dos parlamentares e renda média é maior que no Brasil em pelo menos dois países não considerados no gráfico. Um estudo da organização latinoamericana Directorio Legislativo comparou o salário de legisladores na região com os respectivos salários mínimos dos países em 2016. Cruzando os ganhos dos parlamentares na América Latina com as estimativas de salário médio realizadas pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), foi possível descobrir que na Colômbia e na República Dominicana os legisladores ganham mais em relação à população do que no Brasil.

Na Colômbia, o salário médio de um legislador é de 26.749.000 pesos colombianos por mês, conforme apontado pela ONG. Isso correspondia a 38 salários mínimos no país, mesma relação do Brasil, e a 24 salários médios colombianos – 1.112.332 pesos colombianos por mês, segundo a OIT. Na República Dominicana, o salário médio de um legislador é de 261.888 pesos dominicanos – 18 vezes maior que o salário médio de 14.049 pesos dominicanos e 29 vezes o salário mínimo do país. Enquanto isso, no Brasil, a relação entre os ganhos dos parlamentares e o salário médio é de 15 vezes.

Fontes adicionais

Questionada sobre a fonte da afirmação usada por Amoêdo, a assessoria de imprensa do candidato mandou levantamentos que não têm qualquer relação com o gráfico exibido no Facebook. Foi enviado um estudo da Transparência Brasil que diz que o país é o que mais gasta com o Congresso, em comparação com 11 países. A pesquisa divide o orçamento total dos parlamentos desses países por seus Produtos Internos Brutos (PIBs). Segundo o estudo, que usa dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) e da União Interparlamentar (UIP), o Brasil gasta 0,19% do seu PIB com os orçamentos do Senado Federal e da Câmara dos Deputados.

A assessoria enviou também uma tabela produzida internamente pela equipe da campanha de Amoêdo, com dados de 56 países. O levantamento considerou o orçamento do parlamento nessas nações em 2012, dividido pelo número de parlamentares de cada um deles, e obteve assim o custo por parlamentar – os dados foram retirados da UIP. Esse custo foi comparado ao PIB per capita dos países no mesmo ano, segundo dados do Banco Mundial, chegando na relação entre os dois valores. Na tabela, o Brasil era o país que tinha o maior custo por parlamentar em relação ao PIB per capita – 374 vezes maior.

A análise de dados de PIB per capita disponibilizados pelo Banco Mundial e de orçamento por parlamentar da UIP de 95 países, contudo, mostra que pelo menos três deles possuíam custo por parlamentar em relação ao PIB per capita maior que o do Brasil em 2012. A Nigéria, segundo o Banco Mundial, tinha um PIB per capita de US$ 5.339 e seus parlamentares custavam US$ 4,3 milhões por ano – um valor 816 vezes maior. Na República Dominicana, o orçamento anual por parlamentar (US$ 7,7 milhões) correspondia a 667 vezes o PIB per capita do país (US$ 11.494). E no Camarões a correspondência era de 618 vezes – o orçamento por parlamentar era de US$ 1,8 milhões por ano contra um PIB per capita de US$ 3.021.

Apesar de os estudos mostrarem que o custo dos parlamentares no Brasil é alto, existem países com políticos ainda mais caros. Na comparação entre salário de parlamentares e salário médio, os legisladores são mais caros na República Dominicana e na Colômbia. Já comparando o orçamento por parlamentar e o PIB per capita, na Nigéria, em Camarões e na República Dominicana, o custo dos políticos era maior que no Brasil. Por isso, não é correto afirmar que o Brasil possui os políticos mais caros do mundo.

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Aplicativo usado na campanha de Geraldo Alckmin é investigado pelo Ministério Público Eleitoral

qua, 03/10/2018 - 12:00

No mesmo ano em que o Facebook se tornou o maior fornecedor de campanhas eleitorais – a empresa de Mark Zuckerberg já faturou mais de R$ 19,4 milhões com impulsionamento de propagandas políticas, segundo o TSE –, um aplicativo de celulares tem ganhado centralidade na estratégia digital de diversos candidatos. E chamado a atenção do Ministério Público Eleitoral (MPE) .

O app Talkative, desenvolvido pela startup pernambucana Wololo, foi adotado por campanhas políticas de peso – desde a dos presidenciáveis Geraldo Alckmin, do PSDB, e João Amoêdo, do partido Novo, até candidatos a governador como Rodrigo Rollemberg, que concorre no distrito federal pelo PSB.

Em seu site oficial, o app promete ser mais barato e mais eficiente que o impulsionamento de conteúdos no Facebook para conquistar votos. “Pare de pagar por likes e cliques”, diz o texto do app.

Disponível gratuitamente na Play Store, a plataforma pode ser usada por todo tipo de marca ou empresa. Os contratantes pagam cerca de R$ 1 para cada usuário cadastrado em sua base de militantes virtuais. Cada “comunidade” dentro do Talkative pode ter até 800 voluntários. Mas, diferentemente do Facebook, segundo a descrição do app, por apenas R$ 1 cada militante chegará a compartilhar em diversas redes, atingindo uma média de 500 amigos. “Lembre-se, 90% acreditam na opinião dela. Independente de quantos cliques isso gerar, o custo ainda será de apenas R$ 1 por mês”, diz.

Tanto as comunidades dentro do Talkative quanto os apps personalizados são gerenciados pela Wololo, que tem 30% da sua clientela formada por contratos com campanhas eleitorais.

Os contratantes podem optar por uma versão personalizada, sem limite de usuários, como a campanha tucana à Presidência. O aplicativo se chama “Talckmin” e já foi baixado mais de mil vezes na Play Store. Hoje, segundo apurou a reportagem da Pública, ele está sendo investigado pelo MPE, que averigua se as vantagens oferecidas aos militantes contrariam a lei eleitoral.

Outra versão do aplicativo, usada pelo Partido Novo na campanha presidencial de João Amoêdo, o Novo Mob, contabiliza mais de 10 mil downloads e 49 mil usuários cadastrados, e é tido como o grande trunfo do empresário nas redes. Ele incentiva seus usuários a curtir, assistir e compartilhar postagens do candidato no Facebook, além de disponibilizar propagandas eleitorais para serem enviadas pelo WhatsApp e demais redes sociais. Em troca, os militantes recebem “pontos” e podem ganhar até “prêmios” por isso. E promete entregar informações em primeira mão, “missões exclusivas” e “medalhas” pela participação.

A promessa de prêmios do Partido Novo foi questionada por usuários no Twitter na última semana de agosto. Depois disso a empresa Wololo suprimiu tais recompensas em todos os seus aplicativos.

A Lei das Eleições veda “a utilização de impulsionamento de conteúdos e ferramentas digitais não disponibilizadas pelo provedor da aplicação de internet, ainda que gratuitas, para alterar o teor ou a repercussão de propaganda eleitoral, tanto próprios quanto de terceiros”.

Para o advogado Irapuã Santana, mestre em direito processual que assessorou a presidência do TSE, “a legislação sobre o impulsionamento de conteúdos nas redes sociais durante as eleições busca impedir justamente esse tipo de ferramenta digital, pois ela altera a forma como a propaganda eleitoral é distribuída”.

Usado em pelo menos 18 campanhas

Nas últimas semanas, a Pública acompanhou versões do App Talkative usadas por diversas campanhas. E identificou variadas premiações oferecidas aos militantes.

No app do Partido Novo, o Novo Mob, o eleitor mais engajado recebia uma ligação de João Amoêdo, segundo a reportagem apurou junto a uma fonte do partido. Na campanha de Ada de Luca, candidata a deputada estadual em Santa Catarina pelo MDB, o usuário mais ativo ganhava um lugar no grupo de marketing digital da candidata – o aplicativo não deixava claro se havia alguma remuneração pelo posto. A candidata não deu retorno aos questionamentos enviados por e-mail.

Eden Wiedemann, CEO da Wololo, afirmou à Pública que o Talkative não oferece nenhum tipo de recompensa vinculada às ações dos usuários na plataforma. “Alguns candidatos ofereceram recompensas na pré-campanha, quando isso era permitido”, argumenta.

No entanto, a reportagem identificou promessas de prêmios durante a campanha eleitoral, que foram retiradas do ar, mas podem ser vistas nas imagens abaixo, retiradas quando estavam ativas, no dia 29 de agosto.

Reprodução da AppStore em 29/08 Print do Novo MOB na App Store, com a promessa de prêmio Reprodução da AppStore em 29/08 Print do ConectADA, de Ada de Luca, na página do ranking de militantes Reprodução da AppStore em 29/08 ConectADA oferece espaço em grupo de marketing digital ao militante mais engajado Reprodução da AppStore em 29/08 Regulamento da premiação do ConectADA Reprodução da AppStore em 29/08 Na App Store, Novo MOB prometia prêmios durante a campanha eleitoral Anterior Próximo

“A legislação eleitoral não fala nada sobre a hipótese de um candidato oferecer a participação em um evento às pessoas mais engajados na campanha, como uma discussão ou uma roda de conversa”, acrescentou o executivo. “Não há nada referente a isso na lei eleitoral. A orientação que demos aos candidatos foi de não realizar ações desse tipo. Mas você consideraria um prêmio vinculado ao voto de uma pessoa oferecer a participação em um evento para discutir propostas?”, questiona.

Em nota, a assessoria de imprensa do Novo afirmou que a promessa de prêmios “é uma mensagem padrão do aplicativo contratado, cuja alteração já foi solicitada”. O partido acrescenta que “não oferece nenhum tipo de contrapartida durante o processo eleitoral” e que “o aplicativo apenas ranqueia o engajamento dos seus usuários para estimular a divulgação do partido e da candidatura”.

O advogado Irapuã Santana discorda. Para ele, a compra de votos não precisa necessariamente envolver valores financeiros ou materiais. “A lei eleitoral é taxativa: o partido ou o candidato não pode sequer prometer qualquer tipo de vantagem para o eleitor em troca de apoio político”, diz. Por aumentar artificialmente a repercussão de conteúdos postados no Facebook, ele avalia que “o aplicativo é uma forma de burlar a lei eleitoral”.

Banido e investigado

O aplicativo Talckmin chamou atenção do MPE, que abriu um procedimento para apurar irregularidades na campanha do presidenciável Geraldo Alckmin. O órgão elaborou um laudo elencando indícios de irregularidades e solicitou esclarecimentos.

Um dos pontos que chamaram atenção dos técnicos do MPE, em primeiríssima análise, foi a existência de um tipo de premiação. Segundo um membro do MPE, mesmo que a premiação seja simbólica, a legislação eleitoral sobre compra de votos proíbe o oferecimento de “vantagem pessoal de qualquer natureza”. A mera promessa de algum tipo de vantagem já seria um indício de transgressão da lei.

Procurada, a campanha de Geraldo Alckmin não retornou os e-mails e mensagens de nossa reportagem.

Essa “zona cinzenta” chamou também atenção da Apple, que decidiu banir da App Store os aplicativos de candidatos no começo de setembro. Além do Talckmin, Novo Mob, Ada de Luca e Rollemberg, também foram excluídos os aplicativos de Paulo Skaf (MDB-SP), Rodrigo Rollemberg (PSB-DF), Waldez Góes (PDT-AP), Paulo Câmara (PSB-PE), Reinaldo Azambuja (PSDB-MS), e Expedito Júnior (PSDB-RO). Entre os candidatos a deputado, Lucas Vergílio (SD-GO), Romero Sales Filho (PTB-PE) e Weverton Rocha (PDT-MA) também foram identificados utilizando o app. Todos eles são oferecidos pela Wololo.

Dentro do App do Partido Novo, existem comunidades dos candidatos Alano Queiroz (deputado federal, GO), Valdemar Kjaer (deputado federal, RO), Luiz Barbosa Neto (deputado federal, SC), Paulo Grando (deputado federal, MT), Ricardo Mellão (deputado estadual, SP) e Tunico Caldeira (deputado federal, MG).

Tanto os apps do Novo quanto dos demais candidatos ainda podem ser baixados para a plataforma Android, no Google Play.

Segundo Wiedemann, a decisão da Apple veio depois do que ficou conhecido como “mensalinho do Twitter” – o aplicativo Follow, ligado ao deputado federal Miguel Corrêa (PT-MG), remunerava influenciadores digitais para compartilhar comentários e conteúdos favoráveis a políticos do PT. A prática é vedada pela legislação eleitoral. Recentemente, o Facebook baniu o uso do Follow e desmantelou a rede de perfis que se envolveram no caso.

Agora, a Wololo está acionando a Apple na Justiça. “Quando ocorreu a questão com o Follow, a Apple retirou vários apps relacionados a campanhas e fez algumas alegações técnicas, dizendo que nenhum aplicativo pode oferecer recompensa em dinheiro. Mas o Talkative não faz isso”, explica Wiedemann.

Procurada, a Apple não atendeu as ligações da Pública e não respondeu aos questionamentos encaminhados por e-mail.

Wiedemann afirma que entre as cláusulas do contrato da Wololo com os candidatos está a proibição de compartilhar notícias falsas, usar o app para difamar adversários ou praticar qualquer irregularidade eleitoral.

Sem transparência

Entre os 18 candidatos que usam o aplicativo, localizados pela Pública, apenas Rollemberg e dois candidatos a deputado federal do Partido Novo declararam ao TSE que contrataram diretamente a Wololo. Paulo Grando (Novo-MT) declarou um contrato de R$ 6 mil com a empresa e Valdemar Kjaer (Novo-RO) afirma que contratou R$ 6,3 mil em serviços prestados pela firma. Rollemberg declarou um contrato no valor de R$ 80 mil. Os dados são do Tribunal Superior Eleitoral.

A Pública procurou a assessoria dos candidatos citados, mas não obteve retorno na maioria dos casos.

Por meio de sua assessoria, Paulo Skaf (MDB) informou que a Wololo não foi contratada por sua campanha. Romero Sales Filho (PTB-PE), candidato a deputado estadual, foi procurado, mas disse que não prestaria esclarecimentos. “O app é aberto, você pode baixar e usar, lá estão todas as informações disponíveis sobre o uso. Não há mais nada o que esclarecer”, declarou.

Em nota, o Partido Novo se pronunciou apenas sobre as premiações oferecidas no aplicativo e sobre o número de usuários cadastrados, mas silenciou a respeito da prestação de contas parcial.

Wiedemann afirma, sem citar nomes, que uma das campanhas contratou o serviço por meio de uma agência de propaganda. Questionado sobre os demais nomes que constam nessa reportagem, ele afirma que “são as agências de comunicação que tratam sobre isso com a gente. Não são todos os contratos que passam por mim”.

Ele acrescenta que os contratos podem ser celebrados também pelos partidos, agências de publicidade e até por pessoas físicas, que nesse caso deveriam ser declaradas doadoras da campanha. Ele acha improvável que candidatos coloquem o app nas lojas de aplicativos sem prestar contas. “A maior parte das campanhas fecham as contas relativas ao [marketing] digital apenas no final da eleição”, diz.

“O Facebook só libera as notas fiscais de impulsionamento duas semanas depois da compra, por exemplo. Então, quem está comprando mídia só vai prestar contas disso no final da campanha. Falo isso por experiência própria”, afirma.

Em um parecer recente, o MPE afirmou que “entende que a realização de despesas em data anterior à data de entrega da prestação de contas parcial e não informadas à época configura irregularidade grave e insanável, que enseja a desaprovação das contas”. O parecer foi emitido no julgamento da prestação de contas da campanha de 2016 de uma candidata a prefeita, em documento assinado pelo procurador Francisco Machado Teixeira, da Procuradoria Regional Eleitoral de Pernambuco (PRE-PE), em maio.

O CEO reafirma que a responsabilidade sobre prestar contas adequadamente sobre os contratos compete exclusivamente à contabilidade das campanhas.

Talkative no Amapá

Entre os candidatos que não declararam, um nome que salta aos olhos é o de Waldez Góes (PDT-AP), atual governador do Amapá, que concorre à reeleição. No ano passado, o governo do Amapá firmou um contrato com a Wololo para que o Talkative fosse utilizado gratuitamente durante seis meses pela Secretaria de Comunicação do Amapá para realização do chamado “endomarketing”, comunicação interna com todos os servidores públicos do estado.

O MPE no estado investiga a ligação entre o contrato do governo do estado e campanhas eleitorais aliadas. A investigação é “prematura” e ainda “trabalha sobre indícios”, segundo fonte do MPE ouvida pela Pública.

Eden Wiedemann explica que o órgão apura a existência de algum tipo de relação entre o termo de cessão da Wololo com o governo do estado e campanhas eleitorais.

Waldez Góes é alvo de uma ação da PRE-AP pela prática de “conduta vedada ao agente público” durante a campanha eleitoral. Segundo a procuradoria, o governador aproveitou-se das prerrogativas do cargo para realizar ato de campanha no Comando-Geral da Polícia Militar do Amapá, no dia 31 de agosto, interrompendo as atividades do curso de formação de soldados para divulgação de sua campanha eleitoral para cerca de 300 alunos.

Por e-mail, a reportagem tentou conversar com a procuradora regional eleitoral do Amapá, Nathalia Mariel, mas não obteve retorno.

O CEO da Wololo afirma que a plataforma do governo do Amapá nunca chegou a ir ao ar e não tem nenhuma relação com a campanha de reeleição. “A gente chegou a assinar o termo de cessão, realizou treinamentos com a equipe do governo, mas o app nunca foi lançado”, alega. “A aplicação do Waldez foi contratada pelo partido para o período eleitoral, sem nenhuma relação com o termo de cessão”, diz.

Questionado sobre a ausência da Wololo nas contas da campanha de Waldez, Wiedemann reafirma que o contrato foi feito por meio do partido para a campanha. “Essa questão sobre o lançamento do contrato na prestação de contas teria que ser vista diretamente com eles”, esclarece.

A Pública tentou entrar em contato com Waldez Góes, que não respondeu às nossas mensagens.

Eden Wiedemann, CEO da Wololo, já foi secretário de Meios Digitais do Governo do Distrito Federal e coordenou o núcleo digital da pré-campanha presidencial de Eduardo Campos (PSB), em 2013. Ele também foi diretor de redes sociais da campanha de José Serra (PSDB) à prefeitura de São Paulo.

Além de Wiedemann, a Wololo tem como sócios o advogado João Loyo de Meira Lins, o produtor e empresário Alexandre Balls Sallouti, o programador Gustavo Fune de Oliveira, o engenheiro Sergio Rapoport e o publicitário Jackson Teani Fullen.

Compartilhamento no escuro, mas sem robôs

Ao instalar o Talkative, o usuário concede ao aplicativo a permissão para acessar sua localização de GPS, além de acesso aos arquivos e fotos armazenados no dispositivo. Pelo Facebook, o usuário compartilha com o aplicativo seu nome, foto de perfil, endereço de e-mail e também a autorização para o envio de notificações. O conjunto de permissões pode ser usado para a entrega de mensagens segmentadas para públicos de acordo com sua zona eleitoral, por exemplo.

Porém, alguns posts encontrados nos aplicativos dos candidatos pela reportagem não permitem que o usuário leia o inteiro teor das mensagens que está compartilhando – o que pode ser um problema do ponto de vista legal, além de contrariar os termos de uso do próprio Facebook, que proíbe que páginas restrinjam o acesso ao conteúdo “solicitando que as pessoas curtam, compartilhem ou recomendem antes de visualizá-lo”.

Casos como esse foram identificados pela Pública nos apps de Geraldo Alckmin, Romero Filho, Reinaldo Azambuja, Lucas Vergílio e também no do Partido Novo.

Questionado, Wiedemann afirma: “Isso é um pequeno bug que estamos corrigindo”. Segundo ele, em posts com textos muito longos, o usuário não consegue ler completamente a legenda. No caso de vídeos, o conteúdo não é carregado.

Reprodução da AppStore em 29/08 Comparativo entre o Talkative e outras plataformas de anúncios online, apresentada no site do app Reprodução Talkative/Agência Pública Post de Geraldo Alckmin no facebook compartilhado pelo Talckmin Reprodução Talkative/Agência Pública Visualização do post de Geraldo Alckmin com o inteiro teor da legenda da imagem cortado Reprodução Talkative/Agência Pública Post de Geraldo Alckmin sobre sua propaganda "não é na bala que se resolve" tem a legenda cortada. Bug impede que vídeo seja assistido no Talkative Reprodução Talkative/Agência Pública Post de Geraldo Alckmin sobre sua propaganda "não é na bala que se resolve" tem a legenda cortada. Bug impede que vídeo seja assistido no Talkative Reprodução Talkative/Agência Pública Usuário é incentivado a compartilhar história de Geraldo Alckmin sem poder ler o inteiro teor do conteúdo Reprodução Talkative/Agência Pública Usuário é incentivado a compartilhar história de Geraldo Alckmin sem poder ler o inteiro teor do conteúdo Reprodução Talkative/Agência Pública Posts de Romero Sales Filho são compartilhados sem que o usuário possa ler toda a legenda Reprodução Talkative/Agência Pública Posts de Romero Sales Filho são compartilhados sem que o usuário possa ler toda a legenda Reprodução Talkative/Agência Pública Posts de Romero Sales Filho são compartilhados sem que o usuário possa ler toda a legenda Reprodução Talkative/Agência Pública Posts de Romero Sales Filho são compartilhados sem que o usuário possa ler toda a legenda Reprodução Talkative/Agência Pública Posts de Romero Sales Filho são compartilhados sem que o usuário possa ler toda a legenda Reprodução Talkative/Agência Pública Reinaldo Azambuja pede para que usuários compartilhem seu post sem revelar inteiro teor da publicação Reprodução Talkative/Agência Pública Reinaldo Azambuja pede para que usuários compartilhem seu post sem revelar inteiro teor da publicação Reprodução Talkative/Agência Pública Reinaldo Azambuja pede para que usuários compartilhem seu post sem revelar inteiro teor da publicação Reprodução Talkative/Agência Pública Usuários não conseguem assistir ao vídeo da publicação antes de compartilhar no facebook Reprodução Talkative/Agência Pública Usuários não conseguem assistir ao vídeo da publicação antes de compartilhar no facebook Reprodução Talkative/Agência Pública Usuário não consegue assistir ao vídeo de Rodrigo Rollemberg, nem é capaz de ler toda a legenda Reprodução Talkative/Agência Pública Usuário não consegue assistir ao vídeo de Rodrigo Rollemberg, nem é capaz de ler toda a legenda Reprodução Talkative/Agência Pública Usuário é levando a compartilhar post de Lucas Vergílio sem poder ler o inteiro teor da nota Reprodução Talkative/Agência Pública Usuário é levando a compartilhar post de Lucas Vergílio sem poder ler o inteiro teor da nota Reprodução Talkative/Agência Pública Novo MOB pede que usuário compartilhe vídeo no facebook, mas oculta inteiro teor da legenda e apresenta "bug" na reprodução do vídeo Reprodução Talkative/Agência Pública Novo MOB pede que usuário compartilhe vídeo no facebook, mas oculta inteiro teor da legenda e apresenta "bug" na reprodução do vídeo Reprodução Talkative/Agência Pública Novo MOB pede que usuário compartilhe vídeo no facebook, mas oculta inteiro teor da legenda e apresenta "bug" na reprodução do vídeo Anterior Próximo

Procurado, o Facebook não quis comentar oficialmente o caso até o fechamento desta reportagem.

Organizando a militância

De acordo com Fred Perillo, marqueteiro eleitoral que usa o Talkative em uma campanha, sua lógica é a mesma do “boca a boca”: “Um político falar sobre si mesmo em uma propaganda é normal e esperado. Quando o seu amigo compartilha algo sobre um candidato, ele está recomendando esse candidato para a rede de contatos dele. Isso tem muita força”. Perillo entende que ampliar o alcance de um conteúdo é cada vez mais difícil desde que o Facebook passou a reduzir drasticamente o alcance de publicações feitas por páginas e empresas, no começo do ano. Agora, quando uma postagem passa a receber um engajamento intenso de forma orgânica (aquele que é realizado espontaneamente pelo usuário), ele acaba sendo visto por mais seguidores. E o marqueteiro confirma que o uso do Talkative ampliou o alcance orgânico da campanha que gerencia.

O professor Fábio Malini, coordenador do Laboratório de Estudos de Imagem e Cibercultura (Labic-Ufes), acredita que o mecanismo do Talkative é de organização da militância, semelhante aos grupos no Facebook. “Militantes têm muitos grupos diferentes. Aí eles compartilham esses posts nos grupos e os membros dos grupos também compartilham.”

“A quantificação dos compartilhamentos pelo Facebook é também um pouco enganosa, pois uma pessoa pode compartilhar várias vezes o conteúdo em vários grupos”, explica. “[A campanha] Ter um ecossistema de grupos e páginas em torno de uma candidatura e mais estratégias como essa do Talkative pode inflar o número de compartilhamentos e fazer com que a página tenha mais organicidade”, complementa Malini.

O especialista acredita que o app é um “uso muito inteligente de tecnopolítica” e que não vê problemas legais na sua utilização, desde que os usuários estejam engajados no app voluntariamente, sem usar perfis falsos ou robôs.

“Não há nenhum tipo de automação ou obrigação para os usuários da plataforma. Tudo é feito de forma voluntária. Os botões de compartilhamento no Facebook e no Twitter existentes no Talkative funcionam diretamente por meio da API oficial dessas redes”, defende Wiedemann. “Se você fosse proibir o Talkative, teria que proibir também os botões de compartilhamento que os candidatos usam em seus sites, por exemplo”, argumenta.

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Era voto de cabresto, virou permuta

ter, 02/10/2018 - 11:58

Colar o adesivo na porta de casa é R$ 30. Se for bandeira, é mais de R$ 100. Quem promete votar e entrega o número do título de eleitor recebe R$ 40. Balançar bandeira durante visita do candidato na comunidade, R$ 40 ou R$ 50. Para vigiar das 8h às 17h30 as bandeiras na rua é mais ou menos R$ 500 pelo mês inteiro. Esses exemplos de compra de votos e de cabos eleitorais foram relatados à Pública por moradores da comunidade dos Coelhos, na região central de Recife. “[Os candidatos] Pegam o título, o povo fica com medo e vota mesmo. Eles dizem que vão olhar quantos votos tiveram na área”, contou uma jovem de 22 anos.

A capital pernambucana tem em média 18 denúncias por dia relacionadas a campanhas, sendo 15% de crimes eleitorais e 74% de propagandas irregulares. Pernambuco é um dos que mais registram essas reclamações no país, conforme estatísticas do Sistema Pardal do Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PE). O estado foi campeão de denúncias nas eleições municipais de 2016 e caminha para ser novamente neste ano, com 1.780 registros até o último dia 27, disputando com São Paulo, que tinha 1.943 (no país todo eram 13.970 denúncias). Só em Recife foram 747 denúncias (74% de propaganda eleitoral, 14% de crimes eleitorais, 4% de uso da máquina pública, 7% de outras irregularidades, 1% de compra de votos, 1% de doações). Não dá para saber se o eleitor pernambucano é o que mais fiscaliza e denuncia ou se os candidatos do estado são o que mais infringem as regras – podem ser as duas coisas.

Joana Suarez/Agência PúblicaCampanha política na comunidade dos Coelhos

Uma certeza entre os moradores é que, depois da eleição, os políticos somem, não dão mais as caras na comunidade – são como Papai Noel, que só aparece no Natal. “A gente tem uma cidadania no Brasil focada no voto. Os candidatos compram o voto do cidadão e acham que já pagaram. Não se sentem obrigados a voltar”, afirmou a cientista política Ana Maria de Barros, professora do mestrado em direitos humanos da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

Maria José da Silva, 46 anos, mora em uma casa de palafita na favela Roque Santeiro, no bairro dos Coelhos. “Entra prefeito, sai prefeito e eu continuo aqui morando nessa imundície. Quando cheguei aqui, meu filho tinha 6 meses, ele fez 28 anos e eu já tive mais dois meninos”, calculou. Seu barraco de tábua fica suspenso sobre o rio Capibaribe, em meio a grande quantidade de lixo que surge quando a maré seca. Há mais de duas décadas ela espera receber um imóvel do governo para sair da área de risco.

Propaganda forçada

“Muitos vêm aqui agora nesse período de eleição, gente que nunca vimos, chega abraçando, mas não volta depois”, reclamou Maria José. “Aqui só vai melhorar quando Jesus vier buscar o seu povo, fia”, diz.

A descrença dos moradores com os políticos manifesta-se na mesma proporção da quantidade de adesivos espalhados na comunidade. A reportagem percorreu o bairro dos Coelhos e grande parte das residências tinha propagandas de políticos coladas nas portas e paredes, mesmo nas mais simples, feitas de tábuas. Ao menos 15 candidatos de diferentes partidos distribuíram as propagandas, que estão até em máquinas de lavar e geladeiras. As bandeiras, proibidas de serem afixadas em bens particulares, também estavam lá. Uma delas era do deputado estadual Beto Accioly, que tenta a reeleição pelo PP. “Minha tia que está apoiando e vai receber uma ajuda. Eu conheci ele agora”, afirmou o homem que estava na residência. Procuramos Accioly por telefone, por e-mail e em sua página de Facebook, mas não obtivemos retorno.

O Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PE), em Recife, havia apreendido, até semana passada, mais de 400 bandeiras colocadas em locais não permitidos e lavrado 60 autos de apreensão. O adesivo é liberado, desde que autorizado pelo proprietário e de forma gratuita. Mas nos Coelhos a maioria tinha recebido uma “ajudinha” do candidato ou o material havia sido colado sem permissão do dono do imóvel. “Eu viajei e quando voltei [os adesivos] já estavam aí”, disse uma senhora que mora na comunidade há mais de 50 anos e não se identificou. Ela fala que nunca viu nenhum político fazer nada de bom para eles e por isso vai anular o voto. “Só vou [às urnas] porque sou obrigada, não confio em ninguém”, esbravejou sentada em frente a sua casa cheia de imagens de santos, onde o povo se reúne para rezar.

Quando os candidatos vão fazer comício, eles chegam com seu material de campanha, pagam os seguradores de bandeiras e deixam a cena combinada. “Eles trazem comida, cachaça, soltam fogos, mas vão embora rápido”, comentou o morador Cássio Conrado, de 40 anos. A maior evidência de que os políticos eleitos não costumam voltar ao bairro dos Coelhos é a condição precária da comunidade: casas de tábua, esgoto na rua, falta de água, demanda por vagas em creche e escola, dificuldades para atendimento médico e marcação de consultas. O que não falta é problema para solucionar e gente se queixando nas vielas.

Realidade de favores

Segundo o Censo de 2010, o bairro dos Coelhos tinha uma população de 7.633 habitantes morando em 2.232 casas. Esse número, agora, deve ser maior, já que as palafitas aumentaram nos últimos anos – segundo os moradores são cerca de 2 mil barracos sobre o rio, fora as mais de 900 casas de alvenaria e tábua. As mulheres são responsáveis por 53,6% dos domicílios. Há oito anos, de acordo com o IBGE, a média era de 3,6 moradores por habitação e um rendimento mensal de R$ 900 por família. Quase 70% da população é negra (preta e parda).

O funcionário público Jorge Gerônimo foi eleito líder comunitário com pouco mais de mil votos. Ele é referência nos Coelhos para quem precisa de ajuda para marcar consultas médicas na rede pública estadual sem enfrentar filas, entre outros favores. Segundo Gerônimo, a população dos Coelhos aumentou muito, já passa de 10 mil pessoas. “Meninas que eram crianças já estão com filhos.” Mas não há creches em número suficiente e as crianças de 4 anos não conseguem vaga na escola. “Não tem nada fácil para o pobre”, disse. Enquanto a reportagem conversava com Gerônimo, uma jovem se aproximou para perguntar se ele tinha conseguido a consulta com a fonoaudióloga para o seu filho autista. “Está demorando muito”, comentou a moça. A criança já consulta com neurologista há um ano, através do apoio do líder comunitário. “Eu vou ligar pra doutora e te dou uma posição amanhã de manhã”, respondeu ele.

Nas ruas do bairro, veem-se cartazes com uma montagem da foto de Gerônimo ao lado do deputado federal André de Paula, candidato à reeleição pelo PSD. “Ele me procurou porque sabe que assim o voto aparece, e eu estou apoiando, temos que acreditar… ou vai dessa vez ou não vai mais”, falou Gerônimo, admitindo, em seguida, que os políticos somem e só quem fica atendendo as demandas da comunidade é ele. O candidato que ele apoiou nas últimas eleições não ganhou.

“Estou há mais de 30 anos ajudando esse povo. Nenhum deputado ou vereador fez nada pra gente. Eles vivem no gabinete deles, só vêm aqui em época de eleição.” Gerônimo almeja disputar para vereador de Recife no próximo pleito, não entrou ainda por não ter “capital de giro”, nas palavras dele. André de Paula foi procurado pela reportagem, por e-mail, telefone e canais que ele disponibiliza nas redes sociais ao eleitor, mas não respondeu.

Direito é privilégio político

O acesso à educação, saúde, água potável, saneamento básico e calçamento é um direito, mas acaba tornando-se um privilégio nas comunidades pobres, quando concedido por meio de benefício político de um vereador. É o chamado sistema de favor e tutela, como explica a cientista política Ana Maria: “Uma rede de poder é exercida nas favelas, que vai do cabo eleitoral ao deputado. Os moradores não têm informação e acreditam que o acesso aos direitos passa pelo político”. Ela avalia que a maioria dos vereadores é eleita pelo “voto de permuta”. Não é mais o voto de cabresto, “esse novo eleitor não está trocando o voto dele por dentadura, mas por uma vaga de emprego, por coisas que melhoram a vida dele”, considera a cientista política.

Graças a esse “benefício” que o eleitor recebeu, ele se sente preso e amarra toda a família ao candidato. O vereador Marco Aurélio conseguiu um emprego para o filho de Manoel Monteiro, que, por isso, sempre faz campanha para o político na comunidade dos Coelhos. Este ano, o candidato concorre à vaga de deputado estadual pelo PRTB. “Marco Aurélio arruma emprego, paga enterro, compra as coisas do dinheiro dele para ajudar até quem não vota nele”, disse Monteiro, e logo chamou um morador para exemplificar que os canos novos para a rua dele foram comprados pelo candidato e a obra iria começar em breve. O encanamento atual não aguenta chuva e alaga todas as casas. “Aquela família ali votava com Jorge [Gerônimo], agora vota em Marco Aurélio”, apontou Monteiro, mas os dois candidatos citados não são concorrentes diretos. A Pública tentou contato com Marco Aurélio por telefone, mas não teve sucesso. Assim como no caso de André de Paula, a reportagem perguntou sobre as propostas deles para a comunidade dos Coelhos e ficou sem resposta.

Rede de poder

Em Pernambuco, famílias tradicionais comandam as prefeituras do interior. Filhos, esposas e parentes vão herdando, eternizando-se na política e formando a rede de poder cuja moeda principal é o voto. A política, que é pública, passa a ser privada. “No Nordeste, o coronelismo é mais forte. De Recife a Petrolina, os grupos de famílias se revezam no poder há mais de cem anos”, afirmou Ana Maria, citando alguns exemplos de sobrenomes que dominam no estado: em Pesqueira, os Mendonças; em Caruaru, os Lyras; em Petrolina, os Coelhos.

A prática da propaganda irregular e de crime eleitoral é grande em Pernambuco, justamente por causa do acirramento político entre esses grupos tradicionais, sendo nas eleições municipais o jogo mais sujo. Para quem está nos movimentos sociais e na luta cotidiana, enfrentar essas oligarquias, que também concentram o poder econômico, é muito difícil, avalia Ana Maria. “As famílias se perpetuam através do assistencialismo nas periferias e favelas e mantêm os currais eleitorais”, completou a professora da UFPE.

O vereador Ivan Moraes Filho é militante de movimentos sociais em Pernambuco há 15 anos e disputa uma vaga para deputado federal pelo Psol. Em entrevista à Pública, ele disse que, nas visitas às comunidades, gosta de explicar o que é um mandato parlamentar e falar sobre os recursos usados na campanha. “Levo algumas questões que dificilmente chegam para eles: ‘Tu imagina de onde vem o dinheiro da compra do voto? O gás subiu quanto? Quando um político compra teu voto, ele te deve mais o quê?’”.  Moraes Filho ressalta que não são apenas os pobres que veem o voto com descaso e enxergam o período eleitoral como oportunidade de ganhar dinheiro. “A elite também está desinteressada pelo voto e bem preocupada com seus próprios interesses. Só que nesses casos as negociações acontecem de outra forma.”

Voto de opinião

Nem cabresto nem permuta. Há que se garantir o voto de opinião, defende a cientista política Ana Maria. “Como um filho ou um sobrinho de um prefeito, que caiu na política, vai representar sua pauta?”, questiona. As pessoas que vivem nas áreas mais pobres necessitam resolver seus problemas de sobrevivência, mas também precisam se livrar da política assistencialista, que sacia a fome imediata do cidadão e o torna dependente. “Temos a obrigação de recuperar a boa política, ao invés de pedir ditadura e lutar contra a democracia”, aponta Ana Maria. Isso significa votar em pessoas comprometidas com os reais interesses da comunidade, que reconheçam os direitos, tragam, além de polícia, lazer e cultura para a favela.

No bairro dos Coelhos, em Recife, Janete Batista Sobrinho, de 46 anos, é a “Fia do Posto”, a única candidata a deputada federal que mora na comunidade. Ela é agente de saúde e sanitarista. Tem um ou outro cartaz dela espalhado nas ruas, que é candidata pela Rede. A reportagem da Pública não conseguiu falar com ela na comunidade nem pelos seus canais de contato. Na sua página de Facebook, só tem uma postagem em referência a sua candidatura com o lema: “A mudança é você quem faz”.

Raio X dos Coelhos

Em 2016, o sociólogo Aciole Neto, da organização filantrópica Gestos, publicou um relatório sociodemográfico sobre o bairro dos Coelhos. Em relação à saúde, a comunidade tem dois postos de saúde, um deles existe há 20 anos e é fruto da mobilização da comunidade junto a prefeitura. Esse cobre cerca de 900 famílias e o outro atende cerca de 1.200. Mas o bairro possui o Instituto de Medicina Infantil de Pernambuco, o Imip, hospital de referência para todo o estado, que fica sobrecarregado. E, a poucos metros da favela, está o bairro da Ilha do Leite, com o maior polo médico privado do Norte e Nordeste do país, pela concentração de clínicas luxuosas e hospitais particulares.

Joana Suarez/Agência PúblicaPernambuco é o estado que mais registra denúncias de crimes eleitorais e propagandas irregulares

Quando a demanda é educação, a situação nos Coelhos não é melhor. O relatório mostra que há apenas uma escola municipal e a indisponibilidade de creches é ainda mais grave. A Creche Municipal Vovô Artur é a única da comunidade, atendendo 95 crianças. Não existem outras unidades nos bairros próximos.

Denúncias, fiscalização e punição

Em casos de descumprimento da legislação federal, o responsável é alertado pelo fiscal a adequar a propaganda. “As apreensões [do material] só ocorrem se não houver uma pessoa para retirar ou se estiver atrapalhando algum local público e de uso comum, que não pode ter propaganda”, explicou Flávio Melo, presidente da comissão de propaganda eleitoral do TRE em Recife. Ele acredita que muitas das irregularidades ocorrem devido ao desconhecimento da população.

A compra de votos é crime eleitoral. De acordo com a Lei das Eleições, o candidato que doar, oferecer, prometer ou entregar ao eleitor algum bem para obter o voto, desde o registro da candidatura até o dia da eleição, está sujeito a pena de multa, cassação e pode tornar-se inelegível por oito anos. O eleitor que receber, solicitar dinheiro ou qualquer outra vantagem, para si ou para outra pessoa, também está sujeito a crime. Mas o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) entende que deve haver provas robustas contra o acusado para condená-lo.

A fiscalização depende de o cidadão apresentar denúncia e comprovação. Até o dia 27, foram contabilizadas em todo o país cerca de 14 mil denúncias. O sistema Pardal aceita arquivos fotográficos, áudios e vídeos, enviados via web ou aplicativo de celular. A identificação do denunciante pode ser preservada. “O candidato é notificado para apresentar defesa e tudo é encaminhado ao Ministério Público Eleitoral”, esclareceu Melo.

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Com dado falso, post diz que ato pró-Bolsonaro reuniu 1 milhão em SP

seg, 01/10/2018 - 18:28
Reprodução/ Facebook Eduardo BolsonaroManifestação a favor de Jair Bolsonaro (PSL) na Avenida Paulista no dia 30 de setembro: ato ocupou três quarteirões

“Nunca imaginei que pudesse haver tantas pessoas na Av. Paulista num domingo de garoa à tarde apoiando JB [Jair Bolsonaro]. Segundo a PM foi 1 milhão de pessoas!!! Em nome de meu pai, muito obrigado pela força! O Brasil tem jeito!” – Eduardo Bolsonaro (PSL), candidato a deputado federal, em post no Facebook no dia 30 de setembro.

Vários protestos contrários e favoráveis ao candidato à Presidência pelo Partido Social Liberal (PSL), Jair Bolsonaro, ocorreram no último final de semana de setembro em diferentes cidades do país. Em São Paulo, manifestantes que se posicionam contra ao candidato reuniram-se no sábado, 29, no Largo da Batata e caminharam até a Avenida Paulista, passando pela Avenida Rebouças. No domingo, dia 30, ocorreu um ato que reuniu pessoas favoráveis ao político, na Avenida Paulista.

Os movimentos tiveram repercussão nas redes sociais. Eduardo Bolsonaro, filho do deputado federal, postou em seu Facebook a informação de que 1 milhão de pessoas compareceram à manifestação favorável a seu pai, segundo a Polícia Militar. A postagem foi acompanhada de fotos dos manifestantes na Avenida Paulista e teve 129 mil compartilhamentos até as 18 horas do dia 1º de outubro. A informação também foi publicada pela página “Mulheres A FAVOR de Jair Bolsonaro”, responsável pela organização do evento. O Truco – projeto de fact-checking da Agência Pública – analisou o caso e concluiu que a afirmação é falsa.

A Polícia Militar de São Paulo não divulgou informações a respeito do número de pessoas que compareceram aos atos do fim de semana – nem no sábado, nem no domingo. O candidato, autor da postagem, não respondeu ao questionamento do Truco sobre a fonte da informação. Os organizadores também não divulgaram estimativa sobre o número de pessoas.

No Facebook, eventos reunindo pessoas para a manifestação em apoio ao candidato do PSL em São Paulo não ultrapassaram 30 mil pessoas interessadas ou com presença confirmada. O maior deles, organizado pela página “Fatos Relevantes” ligada ao site de Jair Bolsonaro, contava com 6,2 mil confirmados e 20 mil interessados. Outro evento, realizado pelas páginas “Bolso Mulher”, “Direita São Paulo”, “São Paulo conservador” entre outras, convocava pessoas para a manifestação no domingo usando a hashtag #1milhãonaPaulistacomBolsonaro, mas contava com apenas 15,4 mil confirmados ou interessados. Já a página “Mulheres A FAVOR de Jair Bolsonaro”, que possui cerca de 300 mil curtidas ou seguidores, não criou nenhum evento convocando seus participantes.

Segundo reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, os manifestantes ocuparam 3 quarteirões da Avenida Paulista na altura do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp) na manifestação pró-Bolsonaro no domingo. Fotos do evento confirmam essa estimativa. Segundo a ferramenta MapChecking, a zona em questão possui 22.375 metros quadrados e, em densidade máxima de ocupação (7 pessoas por metro quadrado), pode conter 155,6 mil pessoas. Ou seja, é impossível que as três quadras da Avenida Paulista tivessem sido ocupadas por 1 milhão de manifestantes.

Manifestação contra Bolsonaro

O principal evento relacionado à manifestação contrária a Jair Bolsonaro, realizado no sábado, possuía 322 mil pessoas confirmadas ou interessadas. Já o grupo ligado à organização do ato contava com 3,8 milhões de pessoas até a publicação da checagem.

Apesar de maior engajamento nas redes sociais, também não há estimativas oficiais a respeito do número de pessoas que compareceram à manifestação contrária a Bolsonaro em São Paulo. As organizadoras estimam que o ato reuniu 500 mil pessoas, conforme informado ao Truco. Segundo o MapChecking, a área na qual os manifestantes contrários à Bolsonaro se agrupavam, o Largo da Batata, corresponde a 70 mil metros quadrados e sua capacidade máxima de lotação (7 pessoas por metros quadrados) é de 490 mil pessoas.

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Atentados de direita fomentaram AI-5

seg, 01/10/2018 - 14:53

Documentos inéditos, guardados há meio século nos arquivos do Superior Tribunal Militar (STM), jogam luzes no cenário que levou ao recrudescimento da ditadura militar, com a edição do AI-5 (Ato Institucional número 5) em dezembro de 1968. Depoimentos de personagens, relatórios oficiais e uma infinidade de papéis anexados a processos que somam cerca de 10 mil páginas, ao qual a Pública teve acesso, demonstram que o AI-5 fez parte de um plano para alongar a ditadura com atentados a bomba em série, preparados no final de 1967 e executados até agosto do ano seguinte por uma seita esotérica, paramilitar e de extrema direita.

Até esse momento, episódios de ação armada da esquerda, que também ocorreram, eram apontados como causa para a decisão dos militares de endurecer o regime.

Comandadas por um líder messiânico a serviço da linha dura do governo militar, as ações terroristas da direita, que chegaram a ser atribuídas, equivocadamente, às organizações de esquerda, segundo apontam as investigações, tiveram como estratégia aquecer o ambiente como preparação do “golpe dentro do golpe”, o que daria ao regime uma longevidade de mais 17 anos.

Na cadeia de comando do grupo se destacam um general da reserva Paulo Trajano da Silva, que se dizia amigo pessoal do então presidente-ditador Artur da Costa e Silva, e, na linha de frente do plano, um complexo personagem, Aladino Félix, conhecido como Sábado Dinotos, líder da seita, mentor e também autor dos atentados.

Arquivo NacionalTrecho do depoimento do General Paulo Trajano da Silva sobre sua ligação com o então presidente Costa e Silva

Formado por 14 policiais da antiga Força Pública (como era chamada à época a Polícia Militar de São Paulo), todos seguidores fanáticos de Aladino Félix, o grupo executou 14 atentados a bomba, furtou dinamites de pedreiras e armas da própria corporação, além de praticar pelo menos um assalto a banco, plenamente esclarecido. Foram os pioneiros do terrorismo, e os responsáveis pela maioria das ações terroristas registradas no período – um total de 17 das 32 contabilizadas pelos órgãos policiais.

Primeiros atentados foram da direita

A evidência de que foi a direita quem tomou a frente nas ações que serviram de pretexto para o fechamento do regime aparece pela primeira vez num relatório do delegado Sidney Benedito de Alcântara, assistente do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), sobre o inquérito em que a polícia esclarece os crimes a partir de prisões ocorridas em meados de agosto de 1968. Com data de 18 de dezembro, cinco dias depois da edição do AI-5, o delegado afirma que os atentados da direita “começaram bem antes do atual terrorismo de esquerda”, numa referência ao início da fase mais acirrada dos conflitos armados que marcaram a fase mais dura da repressão política.

Pela cronologia das investigações, os paramilitares começam furtando dinamites, no final de dezembro de 1967, armas no Quartel-General (QG) da Força Pública em 16 de janeiro de 1968, e executam explosões de bombas entre 10 de abril até 19 de agosto, com atentados em série, o último deles dois dias antes de o grupo ser desbaratado.

Os alvos principais dos atentados, cuja autoria o grupo de Aladino Félix assumiria, foram justamente os órgãos que depois centralizariam a repressão contra a esquerda em São Paulo: o II Exército, cujo QG ainda funcionava na rua Conselheiro Crispiniano, o prédio do Dops, instalado então no largo General Osório, e o QG da Força Pública, na praça Júlio Prestes, todos na região central.

O grupo explodiu também bombas na Bovespa (Bolsa de Valores de São Paulo), no oleoduto de Utinga, em prédios onde funcionavam os setores de alistamento da PM (era Força Pública) e de varas criminais da capital (Lapa e Santana) e em pontilhões e trilhos que davam acesso à estrada de ferro que ligava o litoral e os subúrbios da região metropolitana ao centro da capital.

Superior Tribunal Militar/ Integra-JMUExplosão de bomba na entrada do prédio da Bolsa de Valores de São Paulo

As ações de esquerda, porém, que mais tarde se alternariam com as da direita, se iniciaram apenas em 19 de março de 1968, com a explosão de uma bomba que feriu três estudantes na biblioteca do consulado dos Estados Unidos, no Conjunto Nacional, na avenida Paulista. O atentado mais grave, que matou o soldado Mário Kozel, sentinela do QG do II Exército, já funcionando no Parque Ibirapuera, só ocorreria em 26 de junho do mesmo ano.

O general Silvio Corrêa de Andrade, chefão da Polícia Federal em São Paulo, chegou a sustentar à época, em entrevistas, que o governo não tinha dúvidas sobre quem estaria por trás de todos os atentados. “Sabemos de onde partiu o golpe: foram os homens da esquerda. Mas acabaremos por agarrá-los”, disse ele.

Perícia realizada em metralhadora, pistola e munições apreendidas em poder de Aladino Felix e seu bando indica que as armas pertenciam à Força Pública

O mesmo general se mostraria surpreso quando o grupo de Aladino Félix acabou se revelando através de uma investigação criminal de rotina, à revelia dos órgãos de informação do governo federal, que mirava apenas descobrir os autores do roubo a uma agência do Banco Mercantil e Industrial (BMI) de Perus, ocorrido no dia 1º de agosto de 1968.

Maconheiros e malandros

O delegado Ruy Prado de Francischi, lotado na 40ª DP, em Vila Santa Maria, na zona norte, rastreando os passos de “maconheiros e malandros”, conforme consta no relatório do Dops, recolheu informes sobre a quadrilha que roubou o BMI. O delegado descobriu que os assaltantes, com os rostos cobertos por lenços (estilo copiado dos filmes de faroeste, então a coqueluche de Hollywood), haviam rendido o vigia e funcionários da agência com armas furtadas do QG da Força Pública, em 16 de janeiro, de onde haviam sido levados uma metralhadora INA, três pistolas Walther e 13 revólveres Taurus.

Identificados, presos e conduzidos ao xadrez do Deic, os quatro assaltantes, todos já fichados à época por crimes comuns, depois de intensas sessões de tortura, contaram que o mentor do roubo havia sido o soldado da Força Pública Jessé Cândido de Moraes, o segundo homem na hierarquia do grupo. Preso no dia 21 de agosto, e também submetido a variados tipos de sevícias, o policial citou, pela primeira vez, o nome de Aladino Félix como um dos destinatários do dinheiro roubado.

Autor de livros sobre ufologia e de profecias bíblicas, místico venerado por um séquito, Aladino Félix tinha servido como militar na Segunda Guerra e era reconhecido por relevantes serviços prestados ao golpe de 1964, além de manter contatos com autoridades do regime militar. Como um delator de luxo, fornecia informações sobre as ações das organizações de esquerda e supostas conspirações contra o governo envolvendo oficiais da Força Pública.

Detido um dia depois de Jessé, em 22 de agosto, Aladino Félix foi levado para o Deic. Lá, também torturado, conforme atestaria um laudo pericial da própria polícia, mas longe da influência das autoridades federais, descreveu em detalhes, num manuscrito de 25 páginas em folhas de caderno espiral, todos os atos praticados por seu grupo nos oito meses que antecederam sua prisão. Aladino Félix, abandonado pelo governo, que perdeu o controle sobre sua prisão, passa a contar por que organizou o grupo. De acordo com ele, a motivação básica das ações era levar o regime a assumir medidas ditatoriais agudas. Num dos trechos do manuscrito, Aladino Félix afirma que recebia ordens da Casa Militar do Palácio do Planalto, chefiada à época pelo general Jayme Portella, e de fontes do Ministério da Justiça através da Polícia Federal.

Integra-JMU/ Superior Tribunal MilitarTrecho do depoimento manuscrito de Aladino Félix, assumindo a autoria do roubo de armas e apontando sua conexão com o alto comando da Presidência da República

 

Poderia ser apenas bravata, mas um dos papéis apreendidos em seu escritório, no 21º andar do edifício Martinelli, não deixa dúvida sobre as relações de Aladino Félix/Dinotos com o escritório central da Polícia Federal (PF), em Brasília:

“Prezado senhor Dinotos,

Recebi sua carta e desde já aceite meus agradecimentos pelas informações nela contidas.

Encaminhei imediatamente cópia das informações ao meu Diretor, tendo ele ficado também impressionado e levará o assunto às autoridades superiores.

Esperando contar com a valiosa cooperação que o senhor vem prestando, aguardo novas notícias”.

A carta, datilografada numa folha com o brasão da República e timbres do Ministério da Justiça e Polícia Federal, é assinada pelo inspetor Firmiano Pacheco, com data de 8 de maio de 1968, portanto três meses antes de Aladino Félix e seu grupo serem presos.

Superior Tribunal Militar/ Integra-JMUCarta mostra a relação com altas patentes do governo; foi publicada, à época, no Jornal Última Hora

A onda de atentados era de pleno conhecimento do governo, que tinha consciência, segundo Aladino Félix, de que o regime entrara numa fase de desgaste e estava em meio a uma forte crise quatro anos depois do golpe. “Brasília queria que nossas ações continuassem até dezembro de 1968 ou janeiro de 1969”, escreve no manuscrito, entregue à polícia em 27 de setembro de 1968. Todos os integrantes de seu grupo, ouvidos em inquéritos civis e militares, reafirmariam que a motivação era levar o regime a editar medidas de exceção.

Aladino Félix sustenta que, diante de pressões que só aumentavam, o governo concordara com a linha dura do regime. “Para evitar a reformulação dos planos revolucionários, a única forma proposta e aceita pelo governo federal, através do general Paulo Trajano, foi a ação terrorista”, escreve no mesmo manuscrito. Segundo Félix, “o terrorismo foi então como uma saída de emergência para o governo federal, pois não podia agir contra tantos implicados na trama e nem lhes convinha dar-lhes a liberdade para reassumir as rédeas que lhes foram arrancadas pela revolução de março de 1964”.

Superior Tribunal Militar/ Integra-JMUTrecho do depoimento escrito por Aladino Felix, aponta a sua conexão com o alto comando da Presidência da Republica e até quando deveria atuar

Todos os integrantes do grupo contaram, depois de presos, que no caso do furto das armas Trajano participou dos detalhes do planejamento e, diante da possibilidade de identificação dos autores, garantiu que “acertaria” com a Polícia Federal um jeito de evitar que fossem encontradas impressões digitais. Disseram que o general ainda forneceu um álibi caso surgissem suspeitas sobre o sumiço dos envolvidos no dia da ação: todos estariam com ele, Trajano, numa caçada no Mato Grosso

O general Paulo Trajano

Apontado por Aladino Félix como o homem que deu a ordem para o furto das armas no QG da Força Pública e do atentado a bomba no antigo QG do II Exército, Trajano expressa espontaneamente no depoimento que prestou no dia 2 de setembro de 1968, no inquérito aberto pelo II Exército para investigar o envolvimento do general com o grupo, um desejo de que, cem dias depois, se revelaria profético: “O governo federal deveria aproveitar o momento para endurecer o regime, acabando de vez com a desordem reinante no país”, disse.

Ao Dops, que assumiu o caso assim que o grupo se responsabilizou pelos atentados terroristas, o general Trajano conta que havia relatado o furto das armas ao então chefe da PF no Rio (Guanabara à época), general Luiz Carlos Reis de Freitas. Afirma que, assim que soube do furto das armas na casa de Aladino Félix, chegou a comentar com Freitas que o episódio serviria para “desnortear” oficiais da Força Pública que, segundo versão nunca comprovada, conspiravam contra o governo.

A mesma história foi contada por Aladino Félix em seu relato-confissão. Segundo ele, os oficiais da Força Pública preparavam uma rebelião para derrubar Costa e Silva. O movimento teria sido gestado na França, através de contatos do ex-presidente Juscelino Kubitschek com Charles de Gaulle, numa articulação que envolvia, no Brasil, os dirigentes da Frente Ampla liderada por Carlos Lacerda e apoiada por outros líderes cassados pela ditadura. O levante ocorreria no dia 25 de janeiro, com o assassinato do presidente e do ex-governador Abreu Sodré. Nesse dia, diz, Costa e Silva estaria na capital, participando das comemorações em homenagem ao aniversário da cidade. Lacerda também estaria em São Paulo, num evento no Teatro Municipal, de onde daria a senha para desencadear a rebelião, que seria seguida por levantes na Brigada Militar gaúcha e nas PMs de Santa Catarina, Paraná, Minas Gerais, Goiás e Bahia.

No início de janeiro, segundo as investigações, Aladino Félix e Trajano se encontrariam várias vezes. O general diria que ouvira e acreditara na conspiração e, como era amigo de Costa e Silva, que anos antes havia sido seu comandante no Segundo Batalhão de Infantaria do Exército em São Paulo, decidiu informar o governo. No depoimento, diz que Aladino Félix teria se passado como aliado dos conspiradores e chega a afirmar, numa versão que a própria polícia acha delirante, que viu um primo e homem de confiança de Lacerda, Paulo Bucker Lacerda, “confabulando” com o místico no escritório deste.

O general sustenta que, convencido dos riscos que o regime e o presidente corriam, procurou a chefia da Polícia Federal do Rio de Janeiro (à época Guanabara). De fato, dias depois, ele e Aladino Félix foram ao Rio e detalharam o que sabiam – este colocou tudo num relatório datilografado. A PF passou a tratar como informação real e a repassou ao chefe da Casa Militar do Palácio do Planalto, general Jayme Portella. Costa e Silva, então, cancelou a viagem a São Paulo.

No dia 27 de janeiro, com Marinha e Aeronáutica de prontidão, o Exército cercou e fez uma série de incursões pela capital paulista, mas nada de anormal foi registrado. Só em março os jornais noticiariam que um golpe havia sido abortado e apontavam o principal responsável pelo desmonte dessa rebelião: Aladino Félix. Era aplaudido pela direita e, em entrevistas, chegou a afirmar que enviou, sim, um bilhete que chegara às mãos de Costa e Silva.

Nos meses seguintes, as ações da direita e da esquerda se alternariam. A VPR (Vanguarda Popular Revolucionária) colocaria a bomba na sede do Estadão, que à época estava instalado na rua Major Quedinho, no centro da capital, e roubaria um paiol de armas no Hospital Militar do Exército. Por outro lado, os paramilitares dariam curso aos atentados em série. Num só dia, 19 de agosto, véspera das primeiras prisões por causa do roubo ao BMI, explodiriam as bombas no Dops e nas varas distritais criminais da Lapa e de Santana.

Os terroristas e o militar

Com o esclarecimento do roubo ao BMI, vieram à tona o furto das armas e os demais atentados. Trajano admitiu, em depoimento ao Dops, que foi informado e viu as armas furtadas na casa de seu amigo Aladino Félix, mas negou que soubesse das demais ações.

Depoimentos e acareações feitas pela polícia colocam o general, no entanto, na cena em que se planejou o furto: todos disseram que, consultado sobre a ação, o general pediu um tempo para responder, e que só teria dado a ordem de execução depois de conversar com o comando da PF no Rio.

Superior Tribunal Militar/ Integra-JMUDocumentos referentes à explosão de bomba jogada do alto de um prédio para atingir o Quartel General do 2o. Exército. Duas funcionárias de uma loja ficaram feridas

Um dos militares do grupo, o sargento Rubens Jairo dos Santos, diretamente envolvido em várias explosões de bomba, aponta o dedo direto para o amigo do presidente: “O general Trajano deu a ordem para colocar a bomba no QG do II Exército”, afirmou o militar em depoimento. O objetivo, segundo ele, era assustar e alertar o então comandante da força, general Syseno Sarmento, sobre a continuidade da conspiração entre oficiais da Força Pública, mesmo depois de “abortado” o “plano” de assassinar o presidente.

O delegado do Dops tachou de “evasivas” as respostas do general nas acareações e afirmou que os que o acusaram de envolvimento no furto se comportaram de maneira firme e convincente. Mas, em relação à suposta conspiração contra Costa e Silva ter motivado o comportamento do general, o delegado Sidney Benedito de Alcântara se mostra mais crédulo. Em seu relatório, ele diz que o general Trajano “queria ser solidário a Costa e Silva, com quem servira na vida militar e de quem recebeu valiosos apoios”. Reconhece, no entanto, ser implausível que um militar experiente se deixasse iludir por teorias conspiratórias que o teriam feito assumir “conduta terrorista”. No final do relatório, repete o que imagina ter passado pela cabeça do líder da direita ao ordenar os ataques aos seus seguidores: “O governo ver-se-á na contingência de adotar represálias, impondo um regime de força, desviando, dessa forma, o Brasil do abismo a que está caminhando”.

Poupado pela Justiça Militar de São Paulo, que nem sequer o considerou investigado, Trajano se tornaria alvo de um inquérito só mais tarde, aberto inicialmente no Rio e, depois, transferido para o II Exército, em São Paulo. Foi preso em setembro no QG da Segunda Divisão do II Exército até que concluísse seu interrogatório, algo como uma prisão provisória nos dias de hoje. Mesmo acusado de terrorismo, foi solto alguns dias depois por decisão unânime dos ministros do STM, entre os quais votou contra a decretação de prisão preventiva o general Ernesto Geisel, que em 1974 sucederia o general Emílio Garrastazu Médici, chefe do extinto Serviço Nacional de Informações (SNI) no período dos atentados da direita.

O SNI e a farsa

As suspeitas de que a cúpula do regime militar sabia dos atentados da direita em São Paulo são reforçadas por um relatório do SNI de agosto de 1969. Numa retrospectiva sobre o papel da Força Pública, então com 36 mil homens livres do “micróbio vermelho” e, portanto, “força antirrevolucionária” a favor do regime, o agente diz que o grupo de Aladino Félix tinha a intenção de levar todo o arsenal dos 350 homens que integravam o antigo Departamento da Polícia Militar e que a autoria do atentado ao QG da Força Pública foi encoberta por oficiais graduados da corporação, supostamente mancomunados com as ações paramilitares.

O agente informa que o soldado Jessé, que classifica como “lugar-tenente” de Aladino Félix, e os sargentos Rubens Jairo dos Santos e Juarez Nogueira Firmiano, que participaram da maioria dos atentados, chegaram a ser presos no mesmo dia em que o petardo explodiu no QG da Força Pública, em 10 de abril de 1968, destruindo um dos elevadores. Os três foram soltos, frisa o agente do SNI, sem nem sequer serem investigados.

“No dia seguinte ao da explosão, após o término do expediente, o major Edson [Edson Isaac Corrêa] desceu à prisão e os colocou em liberdade por ordem do cel. Vilela [José Vilela dos Santos, então comandante do Estado Maior da Força Pública]. É evidente que tais elementos, se pressionados, iriam revelar o plano e para que isso não acontecesse, os oficiais tomaram aquela atitude”, escreve o agente do SNI.

O responsável pelo inquérito policial-militar (IPM), capitão Cid Benedito Marques, orientado por superiores para “nada investigar”, passou então a ouvir pessoas que o agente denomina de “trouxas”. O depoimento de Aladino Félix nesse IPM foi só para cumprir tabela: o místico negou que soubesse de qualquer detalhe e foi dispensado com as honras de sempre. “Referido IPM encontrou sérios obstáculos para nada apurar, somente vindo à tona mais tarde [os atentados], com a descoberta pela Polícia Civil do terrorista Sábado Dinotos”, afirma o agente do SNI.

“Será que é cego?”

No IPM da Força Pública há outras evidências de que entre os arapongas que integravam os órgãos de informação do governo as ações do grupo eram um segredo de Polichinelo. A mulher de um dos soldados envolvidos, Alice Moreira, revela, em depoimento prestado no início de maio, que algumas reuniões de planejamento das ações ocorreram em sua casa.

Alice afirma que Aladino Félix sempre estava presente, se apresentava como judeu anticristão e anticomunista, falava de discos voadores, religião – parte de um proselitismo esotérico que a polícia chamou de “isca dourada” – e, no que de fato interessava, encerrava suas palestras com um discurso político radical, pregando a destruição de estabelecimentos públicos. Alice diz ter tomado conhecimento, nessas reuniões, de que as armas furtadas estavam com o líder do grupo.

Há, ainda, nos autos do mesmo IPM outros indícios que jamais poderiam ter sido menosprezados numa investigação rigorosa: um bilhete que, embora anônimo, já esclarecia, em abril, de onde partiam os atentados. O autor se dirige ao capitão Cid Benedito Marques e vai ao ponto: “Será que é cego? Onde está a sua experiência de soldado? Não vê que o plano terrorista que se desenvolve em São Paulo está estreitamente ligado ao cidadão Aladino Félix e que os maiores terroristas, seus seguidores, na maior parte, são da Força Pública?”, diz o signatário, que se apresenta como amigo secreto do capitão e assina com o curioso pseudônimo de “Altos Significados”. Os quatro meses seguintes seriam marcados por intensos atentados a bomba praticados pelo grupo.

Apontado por Aladino Félix como um dos conspiradores que pretendiam derrubar Costa e Silva, o capitão acabou afastado do IPM. As investigações só seriam retomadas mais tarde por outro oficial, quando o delegado Francischi já havia destrinchado as ações do grupo a partir do roubo ao BMI, em agosto.

Ao concluir seu relatório, no dia 30 de maio de 1968, o capitão Cid apontava “Sábado Dinotos e seus sectários” como suspeitos das ações terroristas, “atividades essas”, ele faz questão de destacar, “que já são do conhecimento do II Exército, DOPS e Polícia Federal”. Não há registro de qualquer procedimento aberto pelos órgãos federais até a prisão do grupo.

“Com um pouco mais de chance, teria o cap. Cid desbaratado ainda no início todo o grupo terrorista e, o que é melhor, teria evitado uma série de atentados terroristas”, escreve, em 12 de outubro de 1968, o tenente-coronel Raul Humaitá Villa Nova, no relatório que encerraria o IPM da Força Pública.

Conforme demonstra a cronologia dos episódios relatados nos autos, o grupo surgiu como força paramilitar no final de 1967, executou as primeiras ações em janeiro, intensificou os atentados de abril a agosto e só seria descoberto, por acaso, pelo vínculo com um roubo comum. O caso, como se viu, foi esclarecido com o uso da tortura por um setor da Polícia Civil, o Deic, que reprimia os crimes contra o patrimônio, mas não se vinculava à polícia política. As investigações deixam claro que, apesar das fortes evidências sobre a autoria dos atentados, a extrema direita agiu com intensidade e desenvoltura até a prisão de Aladino Félix, em 22 de agosto.

O grupo foi investigado durante cinco anos, de 1968 a 1973, em três inquéritos civis (um deles tocado pela Polícia Federal, tão pífio que não chegou a nenhuma conclusão), dois IPMs, um processo da Segunda Auditoria da Justiça Militar paulista e, ainda, duas apelações, que tramitaram no STM e, finalmente, no Supremo Tribunal Federal (STF).

“Gênio e louco”

Quando a história do terrorismo veio à tona, o conceito do homem que “salvara” a vida do presidente e evitou a “contrarrevolução” virou de pernas para o ar. De lúcido e paparicado colaborador do regime militar, Aladino Félix passou a ser tratado como um doido. A polícia o descreve depois como um místico que falava ter sido contatado por alienígenas e que se apresentava como o ungido que reunificaria as 12 tribos de Israel, enfim, um Messias.

À exceção do general Trajano, que o conhecia havia cinco anos e intermediou os contatos de Aladino Félix com as altas fontes do governo, todas as outras autoridades militares ouvidas no IPM do II Exército passaram a descrevê-lo como excêntrico. “Imaginação fértil e fantasiosa”, disse, em 23 de outubro de 1968, o coronel Edgard Barreto Bernardes, da PF, designado para averiguar as denúncias sobre o plano de assassinato de Costa e Silva.

“Pessoa com ideia fixa sobre subversão, atentados e conspiração”, acrescentou o então chefe da PF no Rio, coronel Florimar Campello. O diretor-geral da PF, general Luiz Carlos Reis de Freitas, afirmou que era um “lunático esperto e oportunista em busca de notoriedade”. O delegado Alcântara o perfilaria como misto “de gênio e de louco”.

Concatenadas, as declarações das autoridades, todas prestadas no mesmo dia, em depoimento que consumiu menos de uma lauda datilografada, levavam à desconstrução de Aladino Félix. O governo só não conseguiria explicar por que teria acreditado nos delírios de um místico a ponto de determinar a manobra militar em janeiro de 1968 para inibir uma suspeita história de golpe.

Como a imprensa já estava sob censura, as mesmas autoridades que acreditam no seu relato em janeiro e eram informadas diariamente pelo SNI nem se deram ao trabalho de esclarecer por que passaram a tratá-lo como lunático só sete meses depois da primeira investigação. Já no primeiro relatório sobre o caso, o delegado Alcântara afirmava que Aladino Félix “realmente” tinha contatos com autoridades do governo federal até ser preso.

Crime e perdão

Em 30 de setembro de 1970, a Segunda Auditoria da Justiça Militar de São Paulo afastou Trajano do processo por achar que “não era o caso” de investigá-lo. Os quatro conselheiros, acatando o relatório do juiz Nelson Machado Guimarães (o único civil da turma e cuja atuação ficou marcada por sentenças implacáveis e duras com militantes da esquerda), consideraram que não havia provas sobre os atentados e condenaram Aladino Félix e o soldado Jessé Cândido de Moraes, pela Lei de Segurança Nacional, a cinco anos de reclusão por “terrorismo”, apenas com base no furto das armas. Os demais envolvidos foram condenados a penas mais baixas, entre um e três anos.

Com a abertura de IPM contra o general Trajano, detentor de foro privilegiado, o processo subiria para o STM. Lá, inconformado com a sentença, o advogado do grupo, Juarez de Alencar, sustentou toda a linha de defesa no perfil dos réus e nos objetivos políticos dos atentados que, segundo ele, haviam sido desvirtuados no inquérito policial. Disse que Aladino Félix e os militares “estavam convictos, na sua posição de homens de direita, e de defensores da Revolução de Março, da absoluta legalidade revolucionária de suas ações”.

Alencar lembra que Trajano, “companheiro e amigo” de Costa e Silva, deu ao regime “notícia indiscutível da intentona”, argumentou que “quem está com o governo não pode ser condenado pelo próprio governo” e pediu não apenas a absolvição de todos, mas também que os militares liderados por Aladino Félix fossem perdoados, reincorporados à Força Pública e promovidos.

Foi atendido quase plenamente. Em outubro de 1970, seguindo parecer da procuradora Mary do Valle Monteiro no recurso de apelação, os ministros do STM absolveram todos os demais acusados e reduziram a pena de Aladino Félix para oito meses. O STM descartou os atentados a bomba e os demais crimes, fixando a pena só pelo furto das armas, procedimento bem diferente do aplicado pela mesma justiça aos militantes da esquerda armada.

Aladino Félix permaneceu preso, aguardando um exame de sanidade mental solicitado pelo Conselho Permanente de Justiça, este convencido pelos argumentos de que se tratava de um doido. O general Paulo Trajano da Silva, já absolvido, também estava livre de desconfortos.

Semi-imputável

O laudo assinado por dois psiquiatras forenses, José Roberto Belelli e Carlos Roberto Hojaij, o define como detentor de personalidade egocêntrica, com inteligência acima da média e domínio pleno dos temas sobre os quais era instado a falar, mas, no final, corrobora a tese das investigações: “Não se trata de doente mental. Trata-se de portador de perturbação da saúde mental cuja capacidade de entendimento ao tempo dos fatos era apenas parcial”, dizem no documento encaminhado no dia 7 de outubro de 1971.

Superior Tribunal Militar/ Integra-JMUConclusão do laudo psiquiatríco realizado em Aladino Felix, também conhecido como “Sabado Dinotos”, durante o período em que esteve preso

A procuradora Mary Valle Monteiro, que antes considerara que o processo inteiro era “tudo loucura”, já esperava o resultado. “A conclusão de que é fronteiriço não nos decepciona. É um semi-imputável”, afirma, pedindo a confirmação da sentença de oito meses de reclusão, plenamente acatada pela turma do STM, conforme despacho do ministro Lima Torres, em 12 de janeiro de 1972. “É, no mínimo, um lunático”, acrescentou o ministro. Inconformado com o estigma de débil mental, Aladino Félix recorreu ao STF.

Sem que nenhum fato novo tenha ocorrido, o recurso de apelação dormitou 21 meses no STF até que o relator, ministro Rodrigo Alckmin (tio do presidenciável tucano Geraldo Alckmin) encerrasse o caso no dia 9 de outubro de 1973, com um despacho de cinco linhas, em que negava provimento à apelação. Aladino Félix e os demais envolvidos já estavam em liberdade e o país, mergulhado na ditadura, vivia sob o AI-5 os horrores dos anos de chumbo.

Aladino Félix amargou uma longa temporada atrás das grades. Foi preso pela primeira vez em 22 de agosto de 1968, mas teve a prisão relaxada em 17 de outubro pelo juiz da 9ª Vara Criminal de São Paulo, responsável pelo processo relacionado ao roubo ao BMI de Perus. A soltura, na verdade, foi um cochilo dos militares responsáveis pelo IMP do II Exército, que empreenderiam uma verdadeira caçada para prendê-lo novamente nove meses depois. No dia 15 de setembro, ele conseguiu escapar pela porta da frente da Casa de Detenção, no Carandiru, mas acabou preso novamente uma semana depois.

Ironicamente, foi levado para o Presídio Tiradentes, onde teve de conviver com presos políticos de esquerda. Estava entre os detentos contados num mutirão do Judiciário destinado a avaliar o cumprimento de penas no final de 1971. Só seria solto definitivamente em janeiro de 1972, depois de cumprir, em regime fechado, mais de três anos de cadeia, dois anos e quatro meses a mais do que o tempo previsto na sentença definitiva.

Aladino Félix morreu aos 68 anos, em circunstância prosaica (complicações geradas por medicamentos que havia ingerido para uma simples cirurgia de hérnia), no dia 11 de novembro de 1985, ano em que o país, já livre da ditadura, ingressava na redemocratização e ele mergulhava no ostracismo.

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Haddad exagera período em que governos do PT geraram superávit fiscal

qui, 27/09/2018 - 12:33
Divulgação/Portal AbrasFernando Haddad (PT) participa de evento da Unecs, em agosto: anos finais do governo Dilma registraram déficit

“Nunca tivemos essa regra [teto de gastos] e passamos 12 anos gerando superávit.” – Fernando Haddad (PT), em entrevista à revista Carta Capital.

Ao criticar a lei do teto de gastos, aprovada durante o governo de Michel Temer (MDB), o candidato à Presidência Fernando Haddad (PT) disse que as gestões do seu partido passaram 12 anos gerando superávit. O Truco – projeto de checagem de fatos da Agência Pública – analisou a veracidade da afirmação e concluiu que é exagerada.

O PT governou o país de 1º de janeiro de 2003 até 12 de maio de 2016, quando Dilma Rousseff foi afastada da Presidência por conta do processo de impeachment, finalizado apenas em 31 de agosto de 2016. Desconsiderado o ano de 2016, o partido ocupou a Presidência ao longo de 13 anos. O resultado fiscal do país, no entanto, não foi positivo em todo esse período. Em 2014 e 2015, últimos anos do governo Dilma, o Brasil não teve superávit, mas déficit.

O resultado primário do Governo Central, medido pelo Tesouro Nacional, reúne os resultados do Tesouro Nacional, da Previdência Social e do Banco Central. A série histórica tem início em 1997. Quando o resultado é positivo, ou seja, quando as despesas do governo são inferiores à arrecadação, há superávit. Quando o resultado é negativo, há déficit.

De 1998 a 2013 o Brasil registrou superávits primários que corresponderam a pelo menos 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Essa tendência se inverteu a partir de 2014. Desde aquele ano, o país registra déficits de, em média, 1,65% do PIB.

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A fixação de um teto para os gastos públicos, que foi defendida pelo governo Temer com a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 241 na Câmara e, mais tarde, sob o número 55 no Senado, tem sido adotada ao redor do mundo desde meados dos anos 1990. De acordo com a regra brasileira, aprovada em dezembro de 2016, despesas e investimentos públicos ficam limitados aos mesmos valores gastos no ano anterior, corrigidos pela inflação.

Antes da aprovação desse teto de gastos o Brasil já teve outras leis que limitavam os gastos governamentais em áreas como a Previdência Social pelo menos desde o primeiro mandato do governo Lula. No entanto, nenhum dos projetos anteriores abarcava todos os setores da economia como determina a lei aprovada no governo Temer. Propostas mais abrangentes de controle de gastos públicos, como a feita por Antônio Palocci em 2005, quando era Ministro da Fazenda, ou por Nelson Barbosa, no início de 2016, não tiveram apoio durante os governos do PT e acabaram engavetadas.

A assessoria de imprensa de Haddad foi comunicada sobre o selo, mas não respondeu no prazo estabelecido.

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