“Nosso sonho é que se possa articular um programa nacional de recondicionamento”


Por Flavia Fascendini com a colaboração de Maria Cruz Ciarniello

Sob o lema Igualdade de oportunidades na era digital, a Fundação Equidad da Argentina conta com antecedentes de recondicionamento nada desprezíveis: nos últimos 5 anos já doou 3000 computadores recondicionados a quase 400 escolas e organizações sociais através de seu programa Reciclar.

Logo AvinaCarolina Aniño, diretora executiva da fundação e Oscar Zúccolo da Oficina Escola Equidad, manifestaram em entrevista que já é hora de articular um programa nacional de recondicionamento com um Estado forte, empresas responsáveis e consumidores conscientes.

Como nasceu a Fundação Equidad?

Começamos em 2005 trabalhando com docentes nas escolas e o que estes docentes precisavam eram computadores. A partir de uma primeira doação de computadores em desuso que realizou Telecom, se começou a prepara um programa que se chama Reciclar, computadores para a educação e o trabalho, que consiste em receber doações de computadores descartados, sobretudo de empresas, e recondicionar-los para doar a escolas públicas e organizações sociais através de um concurso de projetos tecnológicos e sociais. A idéia não é doar máquinas indiscriminadamente, e sim pôr computadores em onde haja um projeto tecnológico e uma consciência de uso com sentido dessa tecnologia. Começamos numa oficina muito pequena e com uma idéia de programa que não ia ser recondicionamento somente, mas também uma escola de formação de técnicos de PC. Temos aproximadamente 3000 máquinas recondicionadas que doamos a quase 400 escolas e organizações sociais. Para as escolas se doam grupos de 10 máquinas e estamos doando Pentium II e Pentium III. Este ano também doamos Pentium IV porque cada ano vai subindo o padrão. Desde 2005 até agora, ao redor de 200 empresas nos doaram computadores voluntariamente quando descartaram de seus escritórios. Chamam a Equidad porque já sabem que somos um canal onde esse material entra em nossa fábrica e chega às escolas públicas. Temos aproximadamente 4000 computadores pedidos por escolas de todo o país.

Como é o processo de doação?

Oscar Zúccolo: Temos todo um processo de gestão para conseguir as doações. Há uma pessoa que mantém contato com mais de 200 empresas, que são as que habitualmente nos doam os materiais. Entre elas, as mais importantes são as empresas grandes e os bancos, por uma questão de volume e por uma questão de qualidade. Os bancos não trabalham com clones, mas sim com computadores de marca, de maneira que isso facilita muito a reciclagem e permite ter um material de maior valor de revenda, com o qual é bem mais fácil reciclá-lo, pô-lo em condições e evitar problemas de compatibilidade.

Uma vez que o material entrou na Equidad, há um processo de seleção para ver que coisas, de tudo o que ingressa, podem ser doadas a uma escola e que coisas não podem. O que não se pode doar é descartado na oficina, se desmonta em partes menores e o resto vai parar como doação às cooperativas de recicladores que se encarregam de valorizar os elementos, principalmente metais e plásticos. Aqueles elementos perigosos que são muito poucos estão destinados aos lugares de disposição final, como a empresa Silker. De maneira que aí se fecha um circuito rapidamente: por um lado, material de valor para a cooperativa e, por outro lado, material perigoso à empresa de disposição final. Do que fica, o que se faz é ingressá-lo a um processo que começa por um desmantelamento parcial desses elementos e o desmonte para provar as partes: disco rígido, memórias, flopys, isto é, se lhe tira tudo aquilo que tem que passar por um banco de provas.

Então o que chega finalmente na oficina é um gabinete com uma placa e uma fonte num estado limpo, que passa por um processo de lavagem. Depois se encaixam estes gabinetes limpos com as partes que se retiraram previamente já testadas. Novamente há um encaixe e voltamos a ter uma PC diferente ao que entrou, porque os elementos não são os mesmos, mas que está funcionando. E o que resta a partir de todo este processo é a colocação do sistema operacional, embrulha-las e doá-las. Tratamos de tomar como exemplo as oficinas mais profissionais e gerar um trabalho o mais transparente possível, com uma linha de produção e com segmentações claras.

Existem requisitos para receber o material?

Oscar: O que temos são três listas do que precisamos sim ou sim. Temos uma lista do que saímos a pedir que são computadores em bom estado, com disco rígido com memória, com os cabos limpos. Temos uma lista intermediária que são coisas que se vêm bom, senão vêm também, como impressoras e elementos de conexões de rede. E temos uma lista negra de coisas que não permitimos entrar na oficina como baterias, elementos com líquidos que pudessem ser contaminantes ou telefonia celular.

Carolina: Estamos recebendo em média uma doação por dia. Onde os recicladores vêem material por peso, nós vemos computadores em escolas. De alguma maneira Equidad é como um filtro no circuito, que organiza as correntes do descarte. O que pudemos fazer nestes anos é que para cada um dos insumos que vão chegando, fomos encontrando a corrente que segue. Ou seja, vemos quem é capaz de reciclar isso que para nós é também lixo.

Quais são os impactos do programa?

Carolina: Estamos falando de um total de 2578 computadores doados. Isto é, as escolas podem contar com computadores para incluir-se minimamente no perfil de informação que hoje necessitam os jovens. O processo de incorporação da tecnologia na escola é muito lento e o impacto concreto poderá ser visto ao longo do tempo. Se não se pode acessar esse computador não se pode criar redes, não podes estar em contato com outros, não se pode gerir recursos, ou seja, entrar em contato com as oportunidades da era digital.

Neste processo, quais são as dificuldades encontradas?

Oscar: Temos dificuldades para conseguir alguns elementos como discos rígidos e memórias, que nos fazem falta. Se nos chega uma doação de 300 computadores sem discos rígidos, temos que ir procurar por outro lado esse material que justamente não nos doa ninguém. Aí temos sérios problemas. Poderíamos doar muitas mais máquinas se as empresas tomassem consciência de que o disco rígido faz parte da máquina e de que a doação tem que ser uma doação com sentido de reuso e não de desmonte.

E o Estado realiza doações?

Carolina: Alguns setores do Estado doam, mas o processo administrativo é muito lento e quando chegam praticamente não se pode usar nada, além de que têm máquinas muito velhas. Nesta escala de recondicionamento fomos os pioneiros na Argentina, porque falamos de 2500 máquinas com todo um processo de envolvimento das empresas doadoras, mais a logística de distribuição para todas as escolas. A nossa vontade como organização é que isto se converta em política pública, como quer o Instituto Nacional de Tecnologia Industrial, do mesmo tipo de programa que se fez na Colômbia, que é uma experiência bem mais nacional e organizada. Nosso sonho é que se possa articular um programa nacional de recondicionamento de computadores onde todos esses pontos estivessem organizados, o que também seria uma solução para grande parte do lixo informático.

Temos sérias dificuldades porque não temos financiamento do Estado. O espaço é pago pelo o governo da cidade de Buenos Aires, porque é um intercâmbio: nós damos computadores a instituições em comunidades de baixa renda onde eles estão trabalhando. Além disso, formamos quase 340 técnicos em todos estes anos e eles entendem que este perfil é necessário para reduzir o abismo digital. A relação com o Estado é difícil, tortuosa realmente. Nós doamos máquinas para escolas públicas e depois as diretoras têm que fazer trâmites cansativos para incorporá-las ao patrimônio. Isto precisa ser rápido já que é uma corrente onde o material pode perder valor. Na Argentina se descartam 600 mil computadores por ano. Se esses 600 mil computadores que se descartam fossem captados por organizações vinculadas a um programa estatal, teria outro impacto. Num país com recursos escassos, fazemos o possível para impactar na produtividade e que a educação se sustente.

O que vocês pensam sobre a possibilidade de contar com uma lei específica sobre resíduos eletrônicos?

Carolina: Um dos artigos mais importantes que tem o projeto de lei é a desclassificação destes resíduos como resíduos perigosos. Isso permitiria que crescesse a operação e o movimento de todos estes resíduos. A lei tem outras coisas questionáveis com respeito à quais são os organismos que têm que gerir, e é mais uma lei dos recicladores que dos reutilizadores, já que somos uma pequena parte na lei. É uma lei que está mais dirigida para a disposição final que à recuperação, ainda que nos parece um avanço porque sabemos o quão contaminante são estes resíduos. Nós apoiamos a oportunidade de utilizar estes resíduos para começar a diminuir o abismo digital, uma brecha de acesso unida a uma brecha de exclusão social e econômica que existe e nós sabemos que a tecnologia é uma ponte para gerar oportunidades de acesso. Cremos que os computadores conectados nas escolas e nas organizações promovem desenvolvimento.

O que pedimos é que não se atirem estes materiais no lixo, recondicionemos tudo o que possamos para pôr nos lugares onde se precisa. É mais, compremos computadores novos porque o abismo é tão grande que não se cobrirá somente com material reciclado. Ter uma consciência de reuso ecológica num país de recursos escassos é uma equação economicamente bem mais viável que todas as demais. Assim estaremos reutilizando os 2% de tudo o que se atira na Argentina.

Oscar: Justamente para diminuir o abismo digital, necessitamos permanentemente de técnicos de computadores, e é uma mão de obra bastante complicada de se conseguir. Assim foi que incorporamos o ensino. Formalizamos a escola, onde capacitamos em cursos com no máximo 25 pessoas. Todos os empregados que trabalham na oficina são ex-alunos de nossa própria escola. Também “exportamos” muitos de nossos alunos técnicos às empresas que estão vinculadas a nós.

Carolina: Doamos as máquinas com a condição de que cada escola realize um curso de capacitação básica para 20 pessoas, sejam pais, docentes, não docentes, 20 pessoas que nunca puderam ter acesso a um computador. Desta maneira já conseguimos quase 9000 pessoas que tiveram um primeiro acesso. Na Escola Equidad temos a escola de idosos e já formamos 800 adultos maiores de 50 anos em como acessar o computador. A isso há que lhe somar os postos de trabalho que se geram na corrente de recondicionamento, uma corrente de valor que a fundação foi armando com as cooperativas e com os provedores.

Nesta cadeia de valor, quais são os atores mais débeis?

Carolina: As cooperativas são os atores mais débeis porque são os que têm mais potencial de fazer mal a prática com os elementos eletrônicos, os que precisam de mais formação e onde temos mais dificuldade para realizar-la, os que precisam gerenciamento e apoio logístico interno porque estão imersos numa cultura da imediatez e da pobreza onde não vão priorizar uma boa prática ambiental, mas sim irão priorizar o dinheiro que precisam nesse dia para comer. As duas cooperativas de Buenos Aires, Va de Vuelta e La Toma del Sur, estão se esforçando, mas a verdade é que lhes falta muito. É muito difícil que uma cooperativa consiga padrões, a nós mesmos nos custou. As cooperativas em general aceitam tudo o que lhe dão, então ficam com os resíduos. Nós pudemos pôr algumas barreiras e vamos para uma certificação ISO, isto é, para uma institucionalização da gestão que nutriu nosso crescimento.

E como avaliam as responsabilidades de cada ator?

Carolina: O Estado está ausente e somos nós, as organizações e as empresas, que estamos fazendo as coisas. As empresas foram mudando de consciência. Ao princípio o lixo era um grande problema que tinham que tirar de cima deles e nós éramos uma boa lata de lixo. Mas à medida que foi crescendo nossa aprendizagem, conseguimos o posicionamento de poder escolher com que empresa trabalhar. Hoje nós trabalhamos com empresas que assumem a questão da logística.

Algumas empresas não, mas o material que têm vale a pena e nós os procuramos. As empresas que não querem assumir nenhum tipo de responsabilidade são as que lhe ficam às cooperativas e geram toda uma corrente de má prática. Também estamos trabalhando nas empresas com campanhas específicas para gerar consciência a respeito de para que estão doando. O problema é que é muito difícil que eles jogar o lixo de maneira ordenada. A maioria das empresas pensa que inclusive ainda te dando lixo, está te dando alguma coisa, e como têm a informação dispersa de que se pode ganhar algo, em cima há que lhes dizer “muito obrigado” pelo lixo que entregam. Nós estamos dando um passinho mais, escolhendo trabalhar com aquelas que vão entendendo que elas têm que se responsabilizar também.

Existem experiências similares a de vocês?

Carolina: Com o programa Educ.ar tentamos ter uma articulação durante 9 meses, mas não pudemos sustentá-la. No modelo que nós propúnhamos era absolutamente possível articular: Equidad recebia das empresas e somávamos com Educ.ar a capacidade de recondicionamento em conjunto. O problema que têm é que o material que recebem faz parte do ativo do Estado. No processo de valorização do reciclado se geram resíduos e esses resíduos seguem sendo patrimônio do Estado e não os podem descartar. Têm um enorme problema para mobilizar ou transladar o material.

A nível latino-americano?

Carolina: Colômbia é um dos países mais pioneiros no tema. Conseguiu um programa de 6 anos com metas impressionantes, trata-se de uma experiência que institucionalmente está muito bem organizada e conceitualizada. Está financiada pelo Fundo Universal de Comunicações, então 80% das escolas na Colômbia têm computadores, suporte técnico, capacitação e acompanhamento pedagógico durante 2 anos para a incorporação da tecnologia, conectada à internet. Já cresceu tanto que está formando clones, porque em realidade lhes passa o que nos passa a nós neste momento: começam a ter mais demanda de produção do que o material dá. O que fizeram durante todo este tempo é armazenar todo o lixo que iam gerando no recondicionamento e hoje estão com um empreendimento estatal de reciclagem para a obtenção de matérias primas. O modelo da Colômbia se desenvolveu dentro do Estado porque é um Estado forte.

Então toda esta aprendizagem que hoje na Argentina está distribuída numa cadeia de valor, a produz o Estado que não deixa liberada a iniciativa ao mercado como é aqui. Se você tem que tomar uma decisão estratégica de onde investir, invista em recuperação, promova que tenha novos atores, novos recicladores que cresçam e se aperfeiçoem. Isto de alguma maneira é o que a lei está procurando mas não encontrou ainda. A idéia é que também as empresas participem com responsabilidade em dinheiro e em decisões de que vai passar com seus materiais.

Em toda América Latina não juntaríamos nem para manter uma fábrica recicladora da Europa. Aí temos um grande problema quanto ao traslado. O que se precisa é que cresça a indústria de reciclagem, que se tire o rótulo destes resíduos como resíduos perigosos para que possam circular. Aí os fluxos começam a ser diferentes com a participação de todos os espaços dos Estados, com as empresas produtoras financiando e nós responsáveis por uma parte. É como um esquema de responsabilidades compartilhadas. Usemos a experiência das organizações e articulemos um programa nacional: essa é a principal demanda que fazemos ao Estado.

E depois, com respeito ao campo geral dos resíduos eletrônicos, coincidimos em termos gerais com o tema da responsabilidade estendida do produtor, mas também com a responsabilidade do Estado e a responsabilidade do pós-consumo. O cidadão que compra um aparelho eletrônico tem que começar a perguntar-se que solução lhe dá essa companhia para descartar isso que no final é contaminante. Aí há uma responsabilidade individual e para isto faz falta educação.
Nós como recuperadores, aprendemos a fazer zero de lixo, nada se joga fora. Isso é o que demonstra que há uma cadeia de valor, incipiente, mas articulada e que pode fortalecer-se. O que se conseguiu aqui se pode multiplicar.

Você falava de concursos para ter acesso a um computador? De que se trata?
 
Carolina: Quando se pretende pedir uma máquina para a Equidad, faz-se necessário preencher um formulário com um projeto de utilização dos computadores. Em geral, são projetos definidos pelos próprios destinatários, aos que chamamos de associados. Na realidade, dizemos que nos associamos com as escolas que estão desenvolvendo projetos de uso tecnológico e os computadores fortalecem esse projeto.

Vocês avaliam esses projetos?

Carolina: Nós avaliamos e depois de ter doado a tantas escolas, temos como uma grande aprendizagem o que é que aconteceu quando chegou o computador, porque não se trata somente de que chegue a máquina, senão que se deve trabalhar sobre o sentido do uso. Em 2005 imaginávamos que quando havia uma doação de uma máquina, a escola a instalava, mas depois vimos que passavam os meses e tinham muitos problemas. A máquina é um recurso escasso e hoje somente a recebem aqueles que têm um projeto de uso, porque são quem melhor vão utilizar nossa ajuda.

Quais são as metas ou desafios que possuem em longo prazo?

Carolina: Sonhamos com uma escola de formação profissional técnica, não formal, maior. Sonhamos com uma oficina maior, com a possibilidade de recondicionar e receber bem mais material. A terceira linha seria aprofundar a aprendizagem de como acompanhar a incorporação da tecnologia na escola com mais profundidade, creio que aí é onde Equidad pode contribuir. Outra meta é poder transmitir estas aprendizagens que estão funcionando de forma exitosa às empresas, para que não doem de qualquer maneira, senão que respeitem os marcos. No início da Equidad, criamos centros de acesso a computadores com internet em lugares muito afastados. Também promovemos líderes sociais e essa fórmula também funcionou, porque o líder social mais a tecnologia era inclusão social concreta.

Depois fizemos num segundo ano um programa de 400 escolas em 5 províncias para a instalação dos centros, com salas de aula digitais, capacitação dos docentes e depois geração de conteúdos digitais. Isso funcionou muito bem e a partir de aí ficamos apaixonados pelo trabalho da tecnologia nas escolas. Essa é a linha que apontamos agora e estamos vendo como podemos dar um passo mais: que chegue a máquina e que chegue uma proposta formativa, conceitual e de uso, a respeito de como usar esse computador de forma verdadeiramente libertadora.

Fotos disponíveis em http://www.flickr.com/photos/reciclajecomputadoras/

“O projeto que deu origem a este trabalho foi o ganhador da Bolsa AVINA de Investigação Jornalística. Os conceitos, opiniões e outros aspectos do conteúdo da investigação são responsabilidade exclusiva do autor e/ou meio”.

“El proyecto que dio origen a este trabajo fue el ganador de las Becas AVINA de Investigación Periodística. Los conceptos, opiniones y otros aspectos del contenido de la investigación son responsabilidad exclusiva del autor y/o medio”.