Jurema Werneck fala sobre 13º Fórum Internacional da AWID


O feminismo acaba de redesenhar seu rosto. Ele não é menos combativo, pelo contrário, está mais forte e plural. Foi o que se viu na Bahia, no evento que reuniu 1815 participantes, 156 nações, de todos os continentes do planeta. Pela primeira vez (de 8 a 11/9) um país da América do Sul sediou um Fórum da AWID, organização global de direitos e desenvolvimento da mulher. O ineditismo, porém, ocorreu para além da geografia: o novo movimento incorpora não só as mulheres mas as trans, os trans, e as pessoas não-binárias – que se afirmam longe da obrigação de ser homem ou mulher, amam e vivem fora do sistema político-comportamental que aceita apenas dois papéis.

A forma de expressão do feminismo também se ampliou para considerar os afetos, os sentimentos, o cuidado de cada uma, em particular, e das outras. E ainda multiplicou o leque de ações ao cruzar a defesa de direitos sexuais, reprodutivos e de autonomia financeira com o combate ao racismo, à homofobia, xenofobia, violência, opressão, desigualdade social e ao tráfico de seres humanos. Tudo isso junto e misturado se chama interseccionalidade e quer dizer, em palavras simples, mulheres juntas, atuando em diversas trincheiras para conquistar um futuro de paz.

A Costa do Sauípe, a 75 km de Salvador, virou o retrato do mundo todo. Lideranças de diversas culturas – com suas fitas, tranças, turbantes, colares, adornos, chapéus e véus – falaram em nome de combatentes presas, ativistas assassinadas, mártires que enfrentam governos golpistas, o terrorismo, os conservadores, os fascistas. Para dar o recado adotaram discursos duros, lágrimas, picardia, bom-humor e artes (performances, dança, canto, pintura, cinema).

Na lista de presenças havia famosas, entre elas Phumzile Mlambo-Ngcuka, subsecretária-geral da ONU e diretora executiva da ONU Mulheres, que ocupou um ministério no governo do sul-africano Nelson Mandela. E também jovens lideranças, caso da curda Dilar Dirik, 25 anos, que virou um gigante ao relatar à plateia a audácia das curdas que desafiam o Estado Islâmico. Na Síria, elas se armam (de fato!) e se defendem dos fanáticos que fazem milhares de vítimas, estupram, tornam as mulheres escravas sexuais e as vendem a soldados.

Na entrevista que segue, a carioca Jurema Werneck, médica, doutora em comunicação, criadora da ong Criola e membro do Comitê Internacional de Planejamento do fórum, faz um balanço do evento:

Jurema Werneck - foto por Patrícia Zaidan

Como se viu, o fórum contou com grande diversidade. Como conseguiram juntar tantas tendências e visões?

Na organização ocorreram momentos dolorosos, tensos e outros até engraçados. Custou muito trabalho e muita mobilização para termos negras, índias, lésbicas, mulheres com deficiência, líderes urbanas e rurais, gente de todas as classes sociais, de áreas e lutas diferentes. E depois, para incorporar os homens trans. Deu tudo certo, vimos reações bonitas, por exemplo, a das dalits, que vivem na Índia e no Nepal, e aqui buscaram visibilidade. Elas são de um grupo populacional que, no sistema das castas, era chamado, antigamente, de intocáveis. Os expulsos da sociedade, considerados impuros, sujos, menos que gente, não podiam tocar na água e nos alimentos. Elas vieram para fazer intercâmbios no fórum. Foram realizadas centenas de mesas de discussão sobre interseccionalidade e compromissos se firmaram. O resultado final é a renovação do movimento, que vem sendo realizada por todas essas pessoas.

Que avaliação você faz do feminismo que emerge hoje?

O movimento de mulheres e o feminismo tinham a vontade de construir uma plataforma comum e isso se operacionalizou aqui. Não é que as barreiras de raça, classe e de idioma tenham desaparecido. Mas estão em curso vários esforços para as mulheres sentarem juntas e criar uma linguagem única. Tentamos imaginar um viável futuro de esperança. Ele não caberia só àquelas que levantam a mão e vão às passeatas – todas aqui fazem isso -, mas pressupõe incluir as demais. Estamos entrando em uma nova fase do movimento de mulheres e do movimento feminista internacional. Com a tentativa de construir, de novo, um lugar para nós, que seja seguro, amoroso, não importa a cor, as diferenças. É hora de deixar a velha bagagem e pegar uma mais atual. A gente ganhará em lastro e confiança. Essa é a razão do esforço ser tão grande.

Por que você disse: “De novo”, se nunca tivemos esse lugar seguro?

Construir de novo o movimento. Ele está reclamando para si mesmo outra cara, uma nova metodologia, um jeito contemporâneo de se colocar na sociedade.

As feministas acolheram os não-binários e os trans, que os outros movimentos e a política ignoram. É um avanço importante.

Sim, mas demorou um tempo e não foi simples. No comitê internacional tem um representante trans, Mauro, que é a voz desses grupos. Sou binária, me identifico como mulher. Foi difícil para nós, que nascemos e crescemos num mundo binário, e o compreendemos binário, aceitar essas identidades nas organizações. Antes era: “Fora daqui. Fique lá no seu canto, faça a mobilização com os seus”. Foi duro trazer para o feminismo internacional a visão de que não existe a mulher. São as mulheres. Agora, os movimentos são para feministas, mulheres e pessoas. Uma mudança radical. E muito feliz.  É a primeira vez, em um fórum global desse tamanho, que eles estão presentes e com intensidade. Havia uma preocupação no comitê: como os funcionários do resort reagiriam a eles? Quando uma pessoa desses grupos quer ir ao banheiro, em qual deve entrar, se ela não é homem nem mulher? Em geral, ela é expulsa. Foi desenvolvido um programa de treinamento para que os profissionais do hotel pudessem compreender e lidar muito bem com todos, que precisavam se sentir em casa. E os profissionais do restaurante, da limpeza, da gerência, da infraestrutura também precisavam se sentir confortáveis para trabalhar com pessoas de culturas tão diferentes.

A ideia do autocuidado veio muito forte no encontro. Assim também como a sororidade.

A experiência comum demonstra que o fundamentalismo e o conservadorismo se alastram terrivelmente. As norte-americanas citam Donald Trump. As curdas denunciam o Estado Islâmico, as bombas na Síria, o perigo da guerra química no Iraque. As indígenas falam do genocídio provocado pelos que ocupam seus territórios, tomam suas águas, devastam e poluem tudo. Isso está aumentando no mundo interior; não há um país que não tenha relatado aqui uma experiência sofrida e que preveja que o pior está chegando. Então, procuramos formas de nos proteger. No fórum, lembramos a nós mesmas que vamos aos protestos, gritamos, enfrentamos os oponentes… Mas é preciso nos cuidar também. Vou citar uma frase de Angela Davis: “Cuidar da gente é um ato político”. A luta e a transformação exigem que estejamos inteiras e íntegras. Não se pode planejar um mundo melhor se a gente está pior. Cuidar é não deixar que o fascismo e a misoginia vençam. Essas são forças de destruir a gente a partir do corpo, da mente e da sensibilidade. Cuidar-se é também uma resposta a isso. Um ato revolucionário seu, como indivíduo, e ao mesmo tempo com a outra, de quem você se aproxima para interagir e deixar bem e confortável.

A Bahia carrega um simbolismo negro importante. Por isso foi escolhida para sediar o evento?

O 13º AWID veio para cá em reconhecimento às muitas lutas das mulheres negras baianas. O evento teria sido em maio, no Centro de Convenções de Salvador. Mas como o governador cancelou o contrato com o centro, e ele foi fechado, adiamos a data para que não saísse do Estado. A força negra na Bahia marca a presença e os esforços das negras em todo o país.

Fonte: Agência Patrícia Galvão