Pontos de Vista

Racismo ambiental: derivação de um problema histórico


Por Nelson Inocêncio*

O desenvolvimento da pesquisa no campo das relações raciais evidencia o quão complexo é este assunto, tanto que hoje o racismo como fenômeno social passa a ser visto a partir de suas derivações e, portanto, a ser analisado por diferentes flancos. Assim se constroem as novas terminologias como “racismo institucional” e “racismo ambiental”. Quanto a esta última, que é o foco deste modesto artigo, vale destacar a sua relevância em uma conjuntura na qual o perene inchaço das grandes cidades causa estarrecimento.

Diante dessa situação, podemos observar que a questão ambiental é mais complexa do que muitos imaginam. Embora o argumento que reitera a superação da pobreza como algo imprescindível à melhoria do meio ambiente pareça consensual, há que se pensar mais detidamente acerca das pessoas que formam os contingentes de despossuídos nos arredores dos grandes centros urbanos, pois não se trata de uma massa sem rosto.

Pelo direito à manifestação


especial para o Canal Ibase, por Tiago Leão Monteiro*

Quando me comprometi a escrever esse artigo, decidi que contaria minhas principais histórias, minhas principais desventuras. Ia contar sobre as inúmeras vezes que corri de bombas, que corri de volta por ter visto uma prisão, que levei “sprayzada” de pimenta, que fui intoxicado por gás lacrimogêneo, que tive minhas prerrogativas de advogado violadas, que levei escudadas do Choque e muito mais.

Mas não. Histórias como a minha hoje em dia são fáceis de encontrar. Como eu poderia imaginar que o canal que tanto repudio seria responsável por tamanha mudança na minha vida? Como eu poderia imaginar que minha vida mudaria tanto em apenas quatro meses? Ver o povo tomando (ou retomando) o Congresso Nacional foi a cena mais linda que já vi na minha vida. Naquele momento, finalmente decidi sair do Facebook, e eu achei que fosse ser fácil. Trabalho voluntário exige vontade, garra, disposição, humildade e, principalmente, sacrifício.

Liberdade, dinheiro, neutralidade


Por Silvio Meira*

Leia isso: “Não estamos falando de liberdade, mas sim do velho e bom dinheiro, de modelo de negócios”. Sabe quem disse? O vice-presidente da TIM. sabe do que ele está falando?… de neutralidade de rede. e isso? “As operadoras não podem ser tratadas como um tubo”. Idem. Sobre? Bem… sobre as operadoras serem… apenas um tubo.

As principais instituições de Internet abandonam o governo dos EUA


Por Milton Müller, do Internet Governance Project*

Educação especial, uma miragem no Plano Nacional de Educação?


por Lucio Carvalho*

A semana que começa deve recolocar no cenário político, através da expectativa pela votação na CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) do Senado Federal do PNE (Plano Nacional de Educação), uma situação recorrente no que diz respeito ao financiamento da oferta de educação especial no Brasil. Trata-se da polêmica Meta 4, que organiza o plano sobre a distribuição de verbas do FUNDEB (Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação).

Cubanos chegam e já diagnosticam a doença do Brasil


Eles desembarcaram há apenas quatro dias.

Ainda nem começaram a trabalhar. Mas alguma coisa de essencial já foi diagnosticada entre nós, apenas com a sua presença.

Uma foto estampada na Folha de S. Paulo desta 3ª feira sintetiza a radiografia que essa visita adicionou ao diagnóstico da doença brasileira.

Um médico negro avança altivo pelo corredor polonês que espreme a sua passagem na chegada a Fortaleza, 2ª feira.

O funil do constrangimento é formado por jovens de jaleco da mesma cor alva da pele.

Uivam, vaiam, ofendem o recém-chegado.

Recitam um texto inoculado diuturnamente em sua mente pelas cantanhêdes, os gasparis e assemelhados.

Centuriões de um conservadorismo rasteiro, mas incessante.

Brasil: para que a reciclagem não seja mera retórica


Por Ricardo Abramovay*

A Política Nacional de Resíduos Sólidos ocupa o centro da 4ª Conferência Nacional do Meio Ambiente, que se realiza em Brasília de 24 a 27 de outubro. O que está em jogo vai muito além do indispensável fechamento dos lixões e de sua versão levemente melhorada (os aterros controlados), que ainda recebem 40% de todos os resíduos domiciliares do país. Mais importante que acabar com os lixões é mudar a própria relação da sociedade com os remanescentes daquilo que consome. O fundamental não é a destinação correta do lixo (embora isso seja importante, claro), mas sim a sua expressiva diminuição, ou seja, a transformação e a valorização daquilo que sobra do consumo para que sirva de base à formação de nova riqueza. A expressão “lixo zero” já se tornou lema da política de resíduos sólidos em algumas cidades, como San Francisco, e faz parte das metas de empresas globais, como a Walmart.

Qual reforma política e como


Por José Antônio Moroni*

A reforma política presente na agenda nacional há vários anos ganhou novo ingrediente após as manifestações e o pronunciamento da Presidenta Dilma. Este novo ingrediente diz respeito ao “processo”, isso é, qual o melhor caminho para se fazer a reforma política. Assembleia Nacional Constituinte? Plebiscito? Referendo? Iniciativa Popular? O Congresso faz do jeito dele? Este debate importante não pode ofuscar a discussão sobre o conteúdo da reforma política: para que queremos a reforma política, o que queremos enfrentar com a reforma política, que sistema político queremos construir? Os dois debates, sobre o processo e sobre o conteúdo da reforma política, são fundamentais para a construção de um novo modelo democrático no país e devem andar de forma conjunta.

Ignacio Ramonet: “Somos todos vigiados”


por Ignacio Ramonet* tradução Cauê Amenia

Nós já temíamos (1). Tanto a literatura de (1984, de George Orwell), como o cinema (Minority Report, de Steven Spielberg) haviam avisado: com o progresso da tecnologia da comunicação, todos acabaríamos sendo vigiados. Presumimos que essa violação de nossa privacidade seria exercida por um Estado neototalitário. Aí nos equivocamos. Porque as revelações inéditas do ex-agente Edward Snowden sobre a vigilância orwelliana acusam diretamente os Estados Unidos, país considerado como “pátria da liberdade”. Aparentemente, desde a promulgação, em 2001, da lei Patriot Act (2), isso ficou no passado. O próprio presidente Barack Obama acaba de admitir: “Não se pode ter 100% de segurança e 100% de privacidade”. Bem-vindos, portanto a era do “Grande Irmão”…

No país do futebol, a goleada dos protestos


Bandeira do BrasilPor Alberto Dines*

Inimaginável: William Bonner, o âncora mais conhecido e editor-chefe do mais importante telejornal brasileiro, obrigado a fazer o papel de coadjuvante no segundo dia da Copa das Confederações porque as ruas de dez capitais do país – inclusive Brasília – foram tomadas por gigantescas manifestações populares. Muitas contra o desperdício de dinheiro para construir estádios suntuosos para os megaeventos até 2016.

Tudo previsto, armado, roteirizado: Bonner conduziria o jornal a partir das capitais onde a seleção brasileira deveria jogar (na segunda-feira, 17/6, estava em Fortaleza), enquanto a companheira de bancada Patricia Poeta faria a interlocução. Na primeira edição em dia útil, ela acabou conduzindo noticiário e ele contentou-se com breves comentários. Inédito, assustador.