Relatório: Violência contra os povos indígenas


Capa do relatório Violência contra os povos indígenasAs cruzes permanecem erguidas. Também em 2010, o governo não se importou com a causa indígena. Pelo contrário. Ignorou constantemente os povos indígenas, seus apelos, seus protestos, seus projetos de vida. Atropelou os seus direitos e tem falhado na proteção de suas comunidades. Belo Monte, alicerçada na ilegalidade, na força e na negação de diálogo com as populações atingidas, é talvez o mais emblemático, mas apenas um entre tantos casos.
 
As violências contra os povos indígenas, denunciadas por este relatório, não são “acidentes”, ocorrências imprevistas a lamentar. São fruto de uma ideologia diametralmente oposta ao projeto de vida dos indígenas. A ideologia do desenvolvimento a qualquer preço, da expansão contínua, da maximização do lucro, já é, por natureza, predatória e violenta.
 
Não são apenas grileiros e fazendeiros que invadem as terras indígenas, não são só os garimpeiros e madeireiros que roubam ou destroem as riquezas naturais. A destruição e o saque são programados também em nível federal. O projeto desenvolvimentista, sintetizado no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), invade, ocupa e destrói implacavelmente as terras, as comunidades e as vidas indígenas.
 
As cruzes permanecem erguidas pelo país afora. Estão presentes em cada esquina, ao longo das estradas, à beira de cada rio, lago ou igarapé de nosso Brasil. E nelas estão pregados os indígenas, violentados e assassinados, expulsos ou fraudados de suas terras ancestrais, reduzidos a párias da sociedade, enxotados como animais, tratados como vagabundos de beira de estrada, ou então confinados em verdadeiros currais humanos, sem mínimas condições de sobrevivência física e muito menos cultural. Apesar de terem seus direitos ancorados na Constituição Federal continuam a ser considerados “supérfluos”, “descartáveis” (cfr. DAp 65), porque não se enquadram num sistema que faz do lucro a sua única mola mestra. Gritam por socorro porque são ameaçados por projetos desenvolvimentistas que ludibriam o povo com as falsas promessas de um plano que, na verdade, acelera a destruição da Amazônia e de outros biomas e faz crescer os bolsões da miséria!
 
Políticos dizem que essas cruzes, em que os índios estão pendurados, são o preço a pagar pelo desenvolvimento. Falam de sacrifícios necessários para conseguir o progresso. Contanto que não atinjam as suas famílias, mas “apenas algumas centenas de índios ou ribeirinhos”! Sinto náuseas e uma profunda indignação quando ouço indagações como: “Quem são os índios? Gente sem sobrenome!” ou “Você acha certo impedir o crescimento econômico por causa de meia duzia de índios?” Quanto desprezo, quanta discriminação! É a instituição de um novo “apartheid”, uma premeditada violação da Magna Carta do Brasil!
 
Infelizmente, a agressão e destruição vão muito além de bens tangíveis e atingem memó-rias, histórias de vida, tradições, maneiras de ser, cosmovisões, ritos e mitos, culturas, povos.
 
Qual a razão de toda essa investida contra os indígenas? Na realidade, os povos indígenas oferecem uma outra proposta de vida, radicalmente contrária à quimera do desenvolvimento capitalista, individualista e depredador. O verdadeiro Bem Viver que os indígenas propõem se alicerça na convivência em um mundo justo, fraterno, solidário, baseado no respeito à natureza, à Mãe Terra, ao outro, à diversidade. Não é essa a utopia do Reino de Deus, o sonho de Jesus?
 
Com este relatório o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) quer mais uma vez afirmar seu compromisso com os povos indígenas no Brasil, na defesa de sua dignidade e de seus direitos inalienáveis e sagrados.
 
Dom Erwin Kräutler
Bispo da Prelazia do Xingu e Presidente do Cimi
 
Este relatório é uma publicação do Conselho Indigenista missionário (Cimi), organismo vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).

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