“Ser negra dentro da universidade é fazer o dobro para ser reconhecida”


“Professores duvidavam da minha capacidade e cheguei a receber nota inferior, mesmo tendo feito tudo o que todo mundo fez”, conta Juliete a história de Juliete e todos os percalços que atravessou junto à sua família para alcançar o diploma de mestre.

Nesta semana, uma pesquisa sobre o ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) de 2016 mostrou que 72% dos estudantes que tiraram as mil maiores notas do exame são meninos, mesmo as garotas sendo maioria no total das inscrições. Os números mostram não apenas uma disparidade de gênero, mas também racial. Dentre as notas mais altas, que são aquelas acima de 781,68, só 6% são de jovens negras, enquanto os meninos brancos totalizaram quase 50% das melhores notas, no entanto, representam 15% dos inscritos. Esses números não são isolados, são recorrentes diante de nossa realidade enquanto mulheres periféricas.

Este não é um cenário isolado e se repete constantemente como fruto de uma sociedade que traz o a a desigualdade de classe e de raça fincada em suas raízes. A entrada, no entanto, é apenas um dos fatores, depois há o desafio da permanência, assim como de enfrentar o preconceito e descriminação dentro do espaço universitário. Para falar sobre isso, o Nós traz na coluna Nossas Vozes de hoje a mestra em Biologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que conta como a entrada na universidade reforçou estas questões, mas quão importante é ocupar estes espaços. Confira na íntegra abaixo!

Juliete Vitorino | Créditos: Fernanda Freitas

“Eu sempre soube que sou negra. Mas por muito tempo eu não  precisei refletir sobre isso. Sou uma mulher preta, pobre e periférica, filha de pais com histórias distintas, mas que não  foram estimulados a estudar, pelo contrário, o sonho da minha mãe desde muito nova era estudar e ela sempre foi obrigada a trabalhar.

O sonho da minha mãe desde muito nova era estudar e ela sempre foi obrigada a trabalhar

Quando tiraram da minha mãe seu maior sonho, isso se transformou em algo dentro dela, e ela sempre foi a maior incentivadora dos nossos sonhos. Eu me lembro, desde muito nova, de ver minha mãe apostando todas as fichas na gente. Meu pai não foi diferente, ele, quando mais novo, era mais calado, mas sempre esteve por ali.

Estou contando essa parte, porque eu só consegui adentrar na academia porque aqui em casa nós aprendemos a ser os maiores incentivadores um do outro.  

Eu sou oriunda de escola pública, e mesmo tendo recebido no ensino médio mérito acadêmico (pessoa considerada melhor aluna da turma), saí da escola com uma defasagem que me impedia de entrar no Ensino Superior, nem naqueles cursos com baixas notas de corte. Nessa época, nãp existia cota racial, mas fervilhava de cursinhos pré- vestibulares comunitários pelos bairros. Consegui uma bolsa de 100% em um cursinho, e lá  fui eu, dei o meu melhor, mas não consegui passar. Entrei na universidade só depois de quatro anos de cursinho, no curso de Biologia. 

Meu primeiro e grande choque foi perceber que pessoas como eu não ocupavam aqueles espaços nem pra estudar, nem pra lecionar, a maioria das pessoas como eu estavam ali apenas para servir

E foi meu primeiro e grande choque perceber que pessoas como eu não ocupavam aqueles espaços nem pra estudar, nem pra lecionar. A maioria das pessoas como eu estavam ali apenas para servir. Era um misto de constrangimento e não pertencimento, no início eu tentei interagir, mas depois me fechei em um casulo, onde eu me sentia mais segura.

Deixar de ir às festas universitárias foi uma das melhores coisas que eu fiz para a minha saúde mental. Era um espaço onde, para mim, o racismo estava muito explícito,  mas ele era tão sutil que eu não conseguia conversar com ninguém sobre isso. Não ir a esses espaços foi uma escolha muito sensata que eu me orgulho muito.

No fim da faculdade, recebi até um mérito acadêmico, o que foi uma surpresa. Eu saí e fui fazer outras coisas: dei aula, trabalhei em um laboratório de escola privada, fiz um curso técnico e, apesar dos traumas que  a academia me trouxe, eu sentia que precisava voltar para fazer mestrado,  isso fazia parte do meu plano de vida. Então, eu respirei fundo e fui.

Estar em um espaço em que você é a única dói tanto. Não ter com quem compartilhar suas dores no exato momento que ela ocorre é um direito que somente nós, negros, o temos negado

Falar que eu era a única mulher negra nesse espaço se torna meio repetitivo. Mas estar em um espaço em que você é a única dói tanto. Não ter com quem compartilhar suas dores no exato momento que ela ocorre é um direito que somente nós, negros, o temos negado, pois racismo é tão sutil que, às vezes, é preciso você já ter passado por determinada situação para saber que estão sendo racista de com você de novo. 

A parte boa (ou ótima) do mestrado é que quando entrei já tinha cotas raciais. Os negros tinham se reunindo em um coletivo, era o meu respiro dentro daquele espaço. Um coletivo negro é a melhor coisa que pode existir para uma pessoa negra dentro da universidade. Traz compreensão do que você está falando,  e, muitas vezes, tudo que a gente precisa é só de alguém que entenda sobre o que estamos dizendo.

Ser uma pessoa negra dentro da universidade é fazer pelo menos duas vezes o que todo mundo faz uma vez dentro da sala de aula, para que percebam que você está ali e ainda fazer por fora, para garantir não só a sobrevivência de todos que estão ali, mas permitir que aqueles que vêm depois de nós tenham uma caminhada mais tranquila, e possam de fato estar ali só para estudarem.

Alguns professores duvidavam da minha capacidade e cheguei a receber nota inferior, mesmo tendo feito tudo o que todo mundo fez. Tive que escutar professor dizer que todo mundo faz um mestrado e um doutorado hoje em dia (desvalorizando onde havia chegado). Aliás, queria viver nesse mundo, mas eu vivo em um mundo onde as pessoas não têm possibilidade nem de terminar o ensino médio,  pois precisam trabalhar. 

Teve uma época que as coisas foram se tornando muito pesadas, e só agora, mais de seis meses depois de terminar, é que eu consigo escrever sobre.

Se tornou pesado porque é aquela velha história que a gente já conhece: nós só somos úteis enquanto estamos prontos a servir, sem questionar, fazer o que se manda sem ousar desobedecer ou trazer outras ideias. Isso foi tornando a convivência algo bem difícil, e estar ali deixou de ser prazeroso para se tornar uma mera obrigação.

As mulheres negras são invisibilizadas na área de Ciências

Tentei ser o mais combativa possível e qualquer brecha que encontrava para pautar o racismo nos seminários propostos eu combatia. Assim como dar visibilidade principalmente para as mulheres negras da Ciência que são tão invisibilizadas.

Eu lembro de ver em minha defesa de mestrado uma sala cheia de familiares e amigos me apoiando e torcendo por mim. Eles eram, em sua maioria, negros e de uma diversidade profissional imensa – publicitárias,  jornalistas, médicas,  engenheiras,  matemáticas,  bibliotecárias, economistas, entre tantas outras, – porém, alguém, ao olhar para eles e notar apenas a sua cor decidiu que eram todos de cursos de humanas, e falou algo muito próximo disso: “A Juliete não tem aptidão para as biológicas,  ela precisa ir para a área de humanas, é só você olhar os amigos dela”, e apontou para os presentes na sala. 

Isso porque as pessoas acham que preto só poder fazer cursos de humanas. As pessoas não acham que pessoas de outras áreas podem questionar o racismo, por exemplo. 

Hoje, com meu diploma de mestre em mãos,  e sem ter adentrado ainda no mercado de trabalho, eu percebo cada vez mais o quanto o racismo é cruel, mas eu também percebo o quanto nós, pessoas negras, somos incríveis. Porque mesmo com todas as adversidades, aos poucos, nós temos chegado lá e abrindo caminhos para que cada vez mais outros de nós chegue e cada vez mais nos sintamos pertencentes a esses espaços.

Juliete Vitorino uma mulher preta e periférica, moradora do Itaim Paulista (zona leste de SP). É bióloga, pós-graduada em Educação a distância, técnica em farmácia e mestre em Biossistemas.  Filha de Delcy e Juarez, irmã do Beto, do Júnior, do Juracy e da Juliana. Gosta de escrever sobre o cotidiano. É militante da causa racial e feminista negra interseccional e professora de cursinho comunitário.