Que tiro foi esse?


Mario Tama/Getty Images

Por Cristiana Cordeiro*

O asfalto está começando a sentir o bagulho doido que rola na favela. A mãe não consegue sair pra trabalhar porque o tiro tá comendo solto. As crianças não sabem o que é passar um dia sem ouvir zunido de bala. E depois vai alguém dormir com um barulho desses!

O pai de família é preto e pobre. Já sabe que vai levar dura e tem que ser de cabeça baixa, senão rola esculacho. Não tem emprego não, tem trabalho: suado e cada vez mais precarizado.

Os jovens que não se misturam são vacilões: que trampo iria garantir o tênis da hora, camisa de marca e as gatas mais gostosas? Ah, elas, as novinhas: a escolha já foi feita. Sem escola, sem formação profissional, o jeito é garantir um lugar ao sol do jeito que acreditam ser o único: namorando um gerente, pegando barriga… Menina que sai desse perfil é raridade, porque a violência se abate com mais virulência sobre o corpo feminino. Não tem jeito.


A violência não nasceu na favela, contudo.


Foi sendo empurrada para lá, por um proibicionismo equivocado e retroalimentado pela indústria dos arregos. Por menos escolas, menos empregos, menos renda…sabem…esses programas dos governos oficiais.

Aí o Rio para. Aí a bala chega nos carros, na pista. E se prende mais gente, sem adiantar nada.

Agora, imagine se 700 mil homens presos resolverem fazer um levante? Imagine que cada um desses homens presos tem família, então multiplica esse mundo de gente… Orquestrado e comandado? E aqui, do lado de dentro dos muros dos condomínios, o cidadão, desgovernado, o mesmo que acha que temos que prender mais… Como está? Escondido e acuado.

Panela de pressão mal cuidada explode.

*Cristiana Cordeiro é juíza de direito do TJ-RJ desde janeiro de 1998, integrante da Associação Juízes para a Democracia – AJD.

Fonte: Justificando