Tim Berners-Lee: a Web está ameaçada


Hoje (12 de março de 2018) é o 29.º aniversário da World Wide Web. Aqui está uma mensagem do fundador da Web Foundation, Sir Tim Berners-Lee, sobre o que precisamos para garantir que todos têm acesso a uma web que vale a pena ter.

Hoje, a World Wide Web faz 29 anos. Este ano é um marco na história da web: pela primeira vez, iremos ultrapassar o ponto crucial em que mais de metade da população mundial estará online. Quando partilho esta notícia emocionante com as pessoas, tenho tendência a obter uma de duas reações de preocupação:

1. Como fazemos para ligar a outra metade do mundo?

2. Temos a certeza de que o resto do mundo quer ligar-se à web que temos hoje?

Atualmente as ameaças à web são muitas e reais, incluindo as que descrevi na minha última carta - desde a má informação e publicidade política questionável até uma perda do controlo sobre os nossos dados pessoais. Eu mantenho-me empenhado em garantir que a web é um espaço livre, aberto e criativo - para todos.

Essa visão só é possível se conseguirmos que todos estejam online e garantindo que a web trabalha para as pessoas. Eu fundei a Web Foundation para lutar pelo futuro da web. É aqui que devemos focar os nossos esforços:

Fechar a divisão digital

A divisão entre as pessoas que têm acesso à Internet e as que não têm está a aprofundar as desigualdades existentes - desigualdades que representam uma séria ameaça global. Como esperado, é mais provável estar offline se for do sexo feminino, pobre, viver numa área rural ou num país de baixos rendimentos ou qualquer combinação das condições anteriores. Hoje em dia, estar offline significa estar excluído das oportunidades de aprender e de ganhar rendimentos, de ter acesso a serviços valiosos e de participar do debate democrático. Se não investimos seriamente no encerramento desta lacuna, os últimos mil milhões não estarão ligados até 2042. Isso representa toda uma geração que fica para trás.

Em 2016, a ONU declarou o acesso à Internet como sendo um direito humano, a par com água limpa, eletricidade, abrigo e comida. Mas até tornarmos o acesso à Internet acessível para todos, continuará a ser negado este direito básico a mil milhões de pessoas. O objetivo foi definido - a ONU adotou recentemente o limite da Aliança para a Internet Acessível como limiar de acessibilidade: 1 GB de dados móveis por menos de 2% do rendimento mensal médio. A realidade, contudo, é que ainda estamos muito longe de atingir esse objetivo - em alguns países, o custo de 1 GB de banda larga móvel continua acima de 20% do rendimento mensal médio.

O que será necessário para alcançar este objetivo? Devemos apoiar as políticas e modelos de negócio que expandam o acesso aos mais pobres no mundo, através de soluções de acesso público como redes comunitárias e iniciativas de Wi-Fi pública. Devemos investir para garantir acesso de confiança para mulheres e meninas e capacitá-las através da formação de capacidades digitais.

Fazer a web trabalhar para as pessoas

A web a que muitos se ligavam há anos atrás não é a mesma que os novos utilizadores encontram atualmente. O que um dia foi uma seleção rica de blogs e websites, foi comprimido sob o poderoso peso de algumas plataformas dominantes. Esta concentração de poder cria um novo conjunto de guardiães, o que permite que meia dúzia de plataformas controlem que ideias e opiniões são vistas e partilhadas.

Estas plataformas dominantes são capazes de se bloquearem na sua posição através da criação de barreiras à competição. Adquirem os competidores das startups, compram as novas invenções e contratam os melhores talentos da indústria. Adicionando a isto a vantagem competitiva que os dados dos seus utilizadores lhes dão, podemos esperar que os próximos 20 anos sejam muito menos inovadores do que os últimos.

Além disso, o facto de o poder estar concentrado em tão poucas empresas tornou possível transformar a web numa arma à escala. Nos últimos anos, vimos tendências de teorias de conspiração em plataformas de redes sociais, contas falsas de Twitter e de Facebook provocarem tensões sociais, atores externos interferirem em eleições e criminosos roubarem coleções de dados pessoais.

Olhámos para as próprias plataformas para obter respostas. As empresas estão conscientes dos problemas e estão a fazer esforços para os corrigir - com cada mudança que fazem a afetar milhões de pessoas. A responsabilidade - e por vezes fardo - de tomar estas decisões recai em empresas que foram construídas para maximizar o lucro mais do que para maximizar o bem social. Um quadro legal ou regulamentar que seja responsável pelos objetivos sociais pode ajudar a aliviar essas tensões.

Trazer mais vozes para o debate sobre o futuro da web

O futuro da web não é apenas sobre aqueles de nós que hoje estão online, mas também sobre aqueles que ainda não se ligam. A poderosa economia digital de hoje exige padrões sólidos que equilibrem os interesses tanto das empresas como dos cidadãos online. Isto significa pensar sobre como podemos alinhar os incentivos do setor da tecnologia com os dos utilizadores e da sociedade em geral, e consultar uma secção transversal diversificada da sociedade durante o processo.

Atualmente existem dois mitos que limitam a nossa imaginação coletiva: o mito de que a publicidade é o único modelo de negócio possível para as empresas online e o mito de que é tarde demais para mudar a forma como as plataformas operam. Em ambos os pontos precisamos de ser um pouco mais criativos.

Enquanto os problemas que a web enfrenta são grandes e complexos, penso que devemos vê-los como erros: problemas com o código e sistemas de software existentes que foram criados por pessoas - e podem ser corrigidos por pessoas. Criemos um novo conjunto de incentivos e as mudanças no código seguir-se-ão. Podemos criar uma web que dê origem a um ambiente construtivo e de apoio.

Hoje quero desafiar todos nós a termos maiores ambições para a web. Quero que a web reflita as nossas esperanças e cumpra os nossos sonhos, em vez de ampliar os nossos medos e aprofundar as nossas divisões.

Como uma vez disse o falecido ativista da Internet, John Perry Barlow: "uma boa maneira de inventar o futuro é prevê-lo". Pode soar utópico, pode parecer impossível de alcançar depois dos recuos dos últimos dois anos, mas quero que imaginemos esse futuro e que o construamos.

Vamos reunir as mentes mais brilhantes dos negócios, da tecnologia, do governo, da sociedade civil, das artes e da academia para enfrentar as ameaças ao futuro da web. Na Fundação Web estamos prontos para desempenhar o nosso papel nesta missão e construir a web que todos queremos. Vamos trabalhar juntos para que seja possível.

Sir Tim Berners-Lee


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