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Histórias roubadas, olhares registrados

Autor original: Joana Moscatelli

Seção original: Novidades do Terceiro Setor






Histórias roubadas, olhares registrados
Capa do livro

"Pivetes", "trombadinhas", "marginais". É assim que muitas vezes o senso comum enxerga crianças e jovens que, sem apoio da família e da sociedade, acabam entrando no mundo do crime. A fim de superar o estigma da criminalidade, 13 jovens que já cumpriram ou estão cumprindo medidas sócio-educativas no estado do Rio de Janeiro contam suas histórias no livro que foi lançado na quinta-feira, 18 de janeiro, no Rio de Janeiro. Com o título Histórias de Infâncias Roubadas, a publicação pretende lançar um novo olhar sobre a questão dos menores infratores no Rio de Janeiro.

“Eu sei que o Degase/ Nunca vai mudar/ Fazer algo ali dentro / Pra melhorar / Falar não é fazer/ Mas fazer algo ali/ Dentro para sair/ E sobreviver”. Trechos como esse ajudam a entender um pouco mais a realidade desses jovens que vivem ou já passaram por instituições como o Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas (Degase).

"Histórias de Infâncias Roubadas fala de problemas típicos vividos por esses 13 meninos. Violência familiar, falta de esperança e perspectiva para o futuro, discriminação e preconceito, precariedade do sistema sócio-educativo são alguns dos temas abordados nas 19 histórias”, conta Magno Barros, responsável pela coordenação editorial do livro.

A publicação faz parte do projeto Mudança de Cena, promovido pela People´s Palace Projects em parceria com a ONG Praticável. Com três anos de atuação, o projeto busca dar apoio e resgatar a auto-estima de jovens em conflito com a lei no Rio de Janeiro. A idéia é dar voz a esses jovens, oferecendo oficinas e atividades artísticas como teatro, música e dança. De acordo com dados da People's Palace, já foram atendidos 1.200 jovens em regime de liberdade assistida, de semi-liberdade e de internação. Através de metodologias artísticas, os jovens discutem seus direitos e responsabilidades de cidadãos.

“Queremos que os próprios jovens sejam capazes de identificar quais são as suas demandas e lutar por elas. Com atividades lúdicas e artísticas conseguimos discutir temas pesados de uma forma mais fácil. Ao longo dos anos pudemos ver mudanças individuais de jovens que passam a se enxergar positivamente e ter sonhos novamente”, conta Barros.

Para ele, as possibilidades de reabilitação e ressocialização dos jovens que cumprem medidas sócio-educativas no Rio de Janeiro são mínimas. O sistema não oferece condições para que esses jovens possam mudar suas vidas, para que quando retornem à sociedade possam ter alguma perspectiva de futuro. Ele aponta a indiferença do Estado e da sociedade para com esses jovens como principal problema ao lidar com o tema.

“O desinteresse do Estado pela questão do menor infrator é um das nossas maiores dificuldades. As ações públicas têm que partir dele, não podemos interferir nesse sentido. Mas, cabe também à sociedade cobrar dos governos mudanças e isso não acontece porque ela mesma ainda enxerga esses jovens como uma ameaça que deve ser excluída e apartada em depósitos subumanos. A sociedade quer esses jovens presos e não se preocupa em nenhum momento com a sua reinserção social. A lógica é a da exclusão e não a da reabilitação”, denuncia.

Superando o esteriótipo do bandido, o livro busca tratar da delinquência de uma maneira mais profunda, tentando compreender a realidade desses jovens.

“O livro é uma oportunidade para que as pessoas entrem em contato com a realidade desses jovens, sob outra perspectiva que não seja a do estigma da criminalidade. Através do contato com as histórias desses jovens a sociedade pode passar a entender a questão da criminalidade e da violência de uma maneira mais profunda e pode reconhecer que é uma questão social, de responsabilidade social”, defende Barros.

A publicação é acompanhada de um encarte que visa a estimular a reflexão e será distribuída gratuitamente em escolas no Rio de Janeiro. Quem tiver interesse em receber gratuitamente os livros deve entrar em contato com Magno Barros através do email magnoppp@yahoo.com.

“Queremos levar o tema para as escolas do Rio e estimular a discussão para que a sociedade passe a ver esses jovens sob outra perspectiva, que não a do criminoso. Na realidade, esses jovens são mais uma das muitas vítimas do sistema perverso em que vivemos, que nega ao ser humano direitos básicos como saúde, trabalho, educação e família”, lamenta o responsável pela publicação.

O projeto Mudança de Cena tem planos de produzir um segundo livro, contando outras histórias individuais de jovens em conflito com a lei. Além disso, o projeto terá sua metodologia raplicada nas cidades de Vancouver e Winnepeg, no Canadá. Dois autores do livro Histórias de Infâncias Roubadas irão para lá, juntamente com assistentes, para montar oficinas artísticas semelhantes àquelas realizadas aqui no Brasil.

Joana Moscatelli