Fonte: Projeto Saúde & Alegria -- 21-09-2026
Publicação da Editora Reflexão reúne relatos de diferentes empreendedores e traz a história de Caetano, que saiu de São Paulo para ficar seis meses na Amazônia e está há quase quarenta anos pelo Tapajós
A trajetória de Caetano Scannavino e os aprendizados construídos ao longo de quase quatro décadas de atuação na Amazônia integram o livro “Empreendedores de Impacto: Como homens visionários criaram negócios de sucesso”, da Editora Reflexão, lançado no último dia 15 na Livraria da Vila em São Paulo.
A organização dos relatos é de Carolina Diaz, que até então vinha promovendo obras voltadas para o empreendedorismo feminino, e desta vez resolveu publicar uma série com autores homens.
A participação de Caetano na obra é apresentada no capítulo “O problema talvez seja a nossa ideia de empreendedorismo”, escrito em parceria com Patrícia Kalil, ativista, graduanda em engenharia florestal e jornalista no Projeto Saúde e Alegria (PSA). O texto propõe uma reflexão sobre uma concepção de empreendedorismo baseada na capacidade de construir soluções coletivas a partir dos territórios, das relações comunitárias e da cooperação.
Caetano compartilha sua trajetória de vida, suas impressões desde a adolescência, a ida para estudar nos Estados Unidos, a dor da perda do pai quando ainda era jovem, a chegada na Amazônia para ajudar o seu irmão Eugênio no começo do Projeto Saúde e Alegria, e muitos momentos marcantes de altos e baixos de lá para cá.
Caetano chegou à Amazônia em meados de 1988, ainda no primeiro ano de estruturação do PSA, com a ideia de ficar alguns meses para ajudar na documentação audiovisual do projeto e na montagem do programa de educomunicação com a juventude das comunidades. E não voltou mais.
“O que mais me fez ficar na Amazônia não foram as belezas do Tapajós, e sim as pessoas. Quando a gente vem de São Paulo, acha que é o salvador da pátria, que sabe tudo, aí descobre que não sabe nada. Tomei uma aula de vida. Nesses quase 40 anos de convivência, interação e construção com o povo do Tapajós, aprendi muito mais com eles do que eles comigo. A Amazônia e seus povos são uma fonte inesgotável de saberes. Só tenho a agradecê-los por essa parceria. Sim, o futuro é ancestral”.
Sua aproximação com o Projeto Saúde e Alegria aconteceu a partir do trabalho desenvolvido pelo irmão, Eugênio Scannavino, que havia chegado ao Tapajós em 1983 como médico da Prefeitura de Santarém, atuando junto às comunidades rurais. Ao perceber que muitos dos problemas de saúde poderiam ser prevenidos, Eugênio e sua companheira, Márcia, passaram a incorporar ações de prevenção, formação de voluntários e atividades educativas ao atendimento médico.
Em 1985, com o encerramento do mandato municipal, Eugênio e Márcia fundaram o Projeto Saúde e Alegria como organização não governamental. Em 1987, através de um primeiro apoio do Finsocial/BNDES, o trabalho pode ser efetivado na forma de ação integrada de saúde, educação, comunicação, meio ambiente e produção agroflorestal.
Desde esse começo, quando Caetano chegou à região, uma das estratégias era formar moradores como agentes multiplicadores, envolvendo lideranças, produtores rurais, professores, agentes de saúde, grupos de mulheres, crianças e jovens.
Entre as experiências contadas no livro está o processo que deu origem à Rede Mocoronga de Comunicação (Mocorongo: termo para quem nasce em Santarém). Ainda no final dos anos 1980, jovens de comunidades e aldeias começaram a ser formados como repórteres rurais. Eles produziam jornais murais e, posteriormente, conteúdos para rádio e vídeo, com notícias, poesias, desenhos, campanhas educativas, entrevistas e registros de conhecimentos e histórias locais.
Cada comunidade organizava sua própria sucursal, criando uma rede de circulação de informação, memória, arte e experiências entre os moradores e também para além dos territórios. O processo avançou posteriormente para o Sistema Mocorongo de Comunicação, com jornal, rádio e TV Mocorongas, e, mais tarde, para iniciativas de inclusão digital e fortalecimento de coletivos audiovisuais indígenas, quilombolas e extrativistas.
Outro destaque do livro é a experiência do Abaré, embarcação criada para ampliar o acesso à atenção básica de saúde das populações ribeirinhas. Implantado em 2006, com apoio da organização suiça Terre des Hommes, o barco passou a realizar atendimentos regulares nas duas margens do Tapajós, envolvendo comunidades rurais de Santarém, Belterra e Aveiro.
A iniciativa articulava equipes de saúde, prefeituras, organizações locais e comunidades para adaptar a atenção básica às características do território amazônico. Com resolutividade alcançada de 93% (somente 7 em cada 100 pacientes eram encaminhados para os centros urbanos), a experiência ganhou reconhecimento e passou a ser estudada pelo Ministério da Saúde.
Em 2010, o modelo de atenção básica desenvolvido por meio do Abaré foi incorporado como política pública nacional. Atualmente, existem mais de cem embarcações de saúde na Amazônia inspiradas nessa experiência.
“Nosso papel nunca foi substituir o estado, mas melhorar sua presença junto aos que mais precisam, ainda mais nessas áreas de difícil alcance. No quesito atendimento médico, ao virar política pública, cumprimos o objetivo de nos tornarmos desnecessários.”
O capítulo também recupera outras frentes de atuação desenvolvidas pelo Projeto Saúde e Alegria, como saneamento e abastecimento de água, energias renováveis, conectividade, educação a distância, restauração florestal, sistemas agroflorestais e fortalecimento das cadeias da sociobiodiversidade.
Mas o livro não traz só notícias boas. Há também os relatos de momentos difíceis, como a crise financeira enfrentada no início dos anos 90 com o “Plano Collor”, que quase fez o PSA fechar as portas para sempre.
“Se não tivéssemos passado por isso, o PSA não seria o que é hoje. Quando falimos, surgiu uma relação de confiança e cumplicidade com as comunidades, que se solidarizaram e passaram a nos enxergar também como mais um em dificuldades, sem apoio de ninguem”.
Mais recentemente, outro momento triste relatado foi a perseguição em 2019 para cima de ONGs e ativistas na Amazônia, um episódio farsesco que culminou na invasão policial da sede do PSA e na prisão de brigadistas voluntários acusados injustamente. Felizmente, as “fake news” foram desmentidas, e a investigação federal inocentou completamente os envolvidos.
“Foi um momento muito difícil, com ameaças, incitação ao ódio, um clima de muita insegurança para nós, empreendedores socioambientais. Mas jamais respondemos ao ódio com mais ódio, até porque essa não é a nossa praia. Respondemos com trabalho, com saúde e alegria. E assim viramos essa chave, saindo até mais fortes deste triste episódio”.
Para Caetano, as experiências acumuladas ao longo da trajetória mostram que impacto social envolve capacidade de construir soluções duradouras, fortalecer comunidades e dialogar com políticas públicas. A experiência no PSA, contribuiu para ampliar sua compreensão sobre confiança, autonomia, cooperação e construção coletiva.
“A Amazônia continua desmontando certezas. E, ao fazer isso, continua também oferecendo pistas. Talvez o futuro não esteja naquilo que ainda querem arrancar dela, mas naquilo que ela ainda consegue ensinar: mais ancestralidade, mais vínculo, mais cooperação, mais amor, mais saúde e alegria”.
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